Reportagem do jornal Folha de S. Paulo, assinada por José Marques João Pedro Pitombo, informou na segunda-feira (02/03/2026) que uma investigação conduzida pelo Ministério Público da Bahia (MPBA) revelou que um policial militar aposentado acusado de liderar uma milícia privada envolvida em grilagem de terras no oeste do estado recebeu cerca de R$ 15 milhões em transferências financeiras ao longo de dois anos e meio. O caso envolve Carlos Erlani Gonçalves dos Santos, ex-sargento da Polícia Militar da Bahia, atualmente preso e réu em ações judiciais que investigam organização criminosa, lavagem de dinheiro e constituição de milícia privada.
Segundo documentos obtidos a partir de relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), as transferências ocorreram entre agosto de 2021 e abril de 2024 e teriam sido realizadas por empresas e empresários ligados ao agronegócio atuantes na região de Correntina e municípios vizinhos, no oeste baiano.
As investigações indicam que os recursos eram depositados diretamente nas contas pessoais do ex-policial ou de sua empresa de segurança privada, sendo posteriormente direcionados a contas consideradas suspeitas pelo Ministério Público, possivelmente utilizadas por intermediários ou “laranjas”.
Investigação aponta movimentação financeira considerada atípica
Relatório do Coaf analisado pelo Ministério Público identificou movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada do investigado, o que levou os promotores a aprofundar a apuração sobre a origem dos recursos.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público da Bahia, os principais remetentes dos valores são empresas do setor agropecuário que atuam no oeste do estado.
Entre os maiores repasses identificados estão:
- Uma empresa agropecuária pertencente à família proprietária do Grupo SEB, conglomerado nacional do setor educacional;
- Uma empresa vinculada a um investigado por liderar esquema de grilagem de terras na região;
- Um grupo empresarial conhecido pela produção de batata inglesa.
Na denúncia, o Ministério Público afirma que chama atenção o fato de os principais remetentes dos recursos serem empresas com atuação direta na região de conflitos fundiários, sugerindo possível contratação de serviços irregulares prestados pela suposta milícia armada.
“Chama atenção que os principais remetentes de valores para as contas do denunciado sejam empresas de agropecuária atuantes na região de Correntina e arredores, possíveis contratantes dos serviços espúrios da milícia armada”, afirma trecho da denúncia do Gaeco.
Empresas citadas negam irregularidades
Procurados pela reportagem, os empresários e representantes das empresas que realizaram transferências financeiras afirmaram que as contratações foram legítimas e relacionadas a serviços de segurança privada, negando qualquer envolvimento com atividades ilícitas.
Até o momento, nenhuma dessas empresas foi formalmente denunciada nas ações judiciais, embora seus nomes apareçam nos relatórios de investigação que analisam a origem dos recursos.
As apurações permanecem em andamento, e autoridades investigam se os pagamentos podem ter sido utilizados para financiar ações de intimidação, proteção armada de propriedades ou apoio a disputas fundiárias.
Denúncias incluem violência e atuação de milícia privada
Carlos Erlani Gonçalves dos Santos responde atualmente a dois processos judiciais distintos.
O primeiro trata da atuação violenta do grupo armado, que, segundo o Ministério Público, teria praticado ameaças, agressões físicas e até sequestros contra pessoas envolvidas em disputas por terras na região.
O segundo processo investiga o fluxo financeiro da empresa de segurança vinculada ao ex-policial, cuja movimentação, segundo a Promotoria, seria “absolutamente incompatível com a renda declarada” do investigado.
Além de Erlani, um suposto colaborador do grupo também está preso, acusado de participar das atividades criminosas.
A defesa do ex-sargento afirma que ele não cometeu irregularidades e sustenta que todas as atividades desenvolvidas estavam dentro da legalidade.
Oeste da Bahia concentra expansão agrícola e conflitos fundiários
A região oeste da Bahia é atualmente um dos principais polos de produção agrícola do país, destacando-se na produção de soja, milho, algodão e outras commodities agrícolas.
A expansão do agronegócio nas últimas décadas, especialmente na área conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), trouxe forte crescimento econômico, mas também intensificou disputas fundiárias, conflitos agrários e investigações sobre grilagem de terras.
O oeste baiano também esteve no centro de uma das maiores investigações judiciais do país envolvendo disputas territoriais: a Operação Faroeste, conduzida pela Polícia Federal, que apurou venda de decisões judiciais relacionadas a conflitos de terra no Tribunal de Justiça da Bahia.
Esse histórico reforça a complexidade institucional da região, onde interesses econômicos, disputas jurídicas e conflitos agrários frequentemente se sobrepõem.
Possível relação entre segurança privada e disputas por terra
Promotores que atuam no caso investigam se serviços de segurança privada teriam sido utilizados como instrumento de pressão em disputas territoriais, prática historicamente associada a conflitos agrários em diversas regiões do país.
Embora o Ministério Público ainda não tenha apresentado acusações formais contra empresas do agronegócio, os relatórios financeiros levantam a hipótese de contratação de grupos armados para proteção ou controle de áreas em disputa.
As investigações continuam em curso e novas diligências buscam esclarecer a origem dos recursos, o destino final das transferências e o possível vínculo entre os pagamentos e ações violentas registradas na região.
Entenda a investigação conduzida pelo MPBA
Operação Terra Justa: acusado de liderar milícia armada no oeste da Bahia é preso novamente após decisão do TJBA
Em 23 de dezembro de 2025, (terça-feira), o Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) cumpriu nova ordem de prisão preventiva contra Carlos Erlani Gonçalves dos Santos, investigado por liderar uma milícia armada atuante há mais de uma década no oeste baiano. A medida foi determinada após o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) acolher recurso apresentado pelo MPBA e suspender a decisão que havia concedido liberdade ao investigado. A prisão ocorreu no âmbito da Operação Terra Justa, que investiga crimes ligados a conflitos agrários, organização criminosa e lavagem de capitais na região de Correntina, no oeste do estado.
A ação contou com atuação conjunta do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), da Força Correcional Especial Integrada da Corregedoria Geral (Force) e da Corregedoria da Polícia Militar da Bahia, reforçando o caráter institucional da operação voltada ao combate a milícias e estruturas criminosas no interior do estado.
Investigação aponta atuação de milícia armada em conflitos agrários
Segundo o Ministério Público, a Operação Terra Justa foi deflagrada para desarticular uma estrutura criminosa que, segundo as investigações, opera na região oeste da Bahia há mais de dez anos. O grupo é acusado de atuar em conflitos fundiários, utilizando violência e intimidação para expulsar comunidades tradicionais e consolidar interesses ligados à disputa por terras.
De acordo com o MPBA, os integrantes da organização teriam praticado ameaças, agressões físicas, destruição de propriedades e expulsão forçada de moradores, utilizando empresas de segurança privada como fachada para encobrir a atuação paramilitar do grupo.
As investigações também apontam a utilização de práticas conhecidas como “pistolagem”, com uso de armamento pesado e contratação de indivíduos para intimidar ou agir diretamente contra adversários em disputas territoriais.
Denúncias por milícia, organização criminosa e lavagem de dinheiro
Segundo o MPBA, Carlos Erlani Gonçalves dos Santos foi denunciado inicialmente na primeira fase da operação pelo crime de constituição de milícia armada. Posteriormente, na segunda fase da Operação Terra Justa, o Ministério Público ampliou as acusações, incluindo organização criminosa e lavagem de capitais.
De acordo com o MPBA, o esquema investigado teria sido estruturado para ocultar e dissimular recursos obtidos a partir das atividades ilícitas da milícia.
As investigações financeiras identificaram movimentações bancárias consideradas incompatíveis com a renda declarada do investigado, que teriam ultrapassado R$ 29 milhões entre os anos de 2021 e 2024.
Além das movimentações financeiras atípicas, os investigadores apontam indícios de negociação de armamento pesado, elemento considerado relevante para caracterizar o grau de organização e capacidade operacional do grupo investigado.
Recurso do Ministério Público levou à nova prisão
Até a concessão da liberdade provisória, Carlos Erlani permanecia custodiado em razão de duas prisões preventivas decretadas em processos distintos, ambos vinculados à Operação Terra Justa.
O Ministério Público recorreu da decisão que havia autorizado sua soltura, sustentando que a medida não considerou adequadamente a gravidade das acusações e o potencial risco representado pela liberdade do investigado.
No recurso apresentado ao Tribunal de Justiça da Bahia, o MPBA argumentou que a manutenção da liberdade poderia representar risco à ordem pública, além de comprometer a instrução criminal, a segurança de vítimas e testemunhas e possibilitar a rearticulação da estrutura criminosa investigada.
Ao analisar o recurso, o tribunal acolheu os argumentos apresentados pelo Ministério Público e determinou a suspensão da decisão anterior e o restabelecimento da prisão preventiva, medida executada na manhã da terça-feira.
Comunidades rurais do Oeste da Bahia denunciam violência no campo
Caravana em Correntina denuncia violência, grilagem e criminalização de comunidades tradicionais no oeste da Bahia
Nos dias 29 e 30 de julho de 2025, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) realizou em Correntina, no oeste da Bahia, a Caravana em Defesa das Populações de Fundo e Fecho de Pasto e Atingidas por Barragens, reunindo lideranças comunitárias, parlamentares, representantes do poder público e organizações sociais para ouvir denúncias de grilagem de terras, violência e violações de direitos humanos. Segundo o movimento, a iniciativa buscou dar visibilidade aos conflitos agrários e pressionar o Estado por políticas de regularização fundiária e proteção às comunidades tradicionais.
Durante a atividade, representantes das comunidades relataram episódios de ameaças, destruição de estruturas comunitárias e criminalização de lideranças locais. Para Temoteo Gomes, da coordenação nacional do MAB na Bahia, a mobilização tem caráter estratégico:
“Essa luta em defesa do território tradicional, do Cerrado, dos rios, é uma luta que a gente tem que assumir como uma luta pela soberania das comunidades tradicionais (…) o que nós estamos fazendo, enfrentando pistoleiros e o agronegócio, é uma luta por essa soberania”.
Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam que Correntina concentra 132 conflitos fundiários registrados entre 1985 e 2023, o maior número do estado.
Moradores também relataram preocupação com a permanência nos territórios. Juscelino Brito, da comunidade de Fecho de Pasto de Brejo Verde, afirmou que a sobrevivência das famílias depende diretamente do Cerrado:
“Eu nasci e me criei nesse território, eu não tenho para onde ir; se eu for ameaçado de sair daqui, eu tenho certeza que vou para debaixo da ponte”.
Ao final da caravana, as organizações anunciaram a elaboração de um relatório e manifesto com denúncias de violações, que serão encaminhados a autoridades públicas como instrumento de pressão por medidas de proteção e regularização das áreas tradicionais.
Conflitos fundiários, expansão agrícola e desafios institucionais no oeste da Bahia
A investigação conduzida no âmbito da Operação Terra Justa revela um quadro complexo que ultrapassa a dimensão criminal individual e remete a um fenômeno estrutural presente em diversas regiões de fronteira agrícola no Brasil: a persistência de conflitos fundiários em áreas de rápida expansão do agronegócio. O oeste da Bahia tornou-se, nas últimas décadas, um dos principais polos de crescimento agrícola do país, impulsionado por investimentos privados, modernização produtiva e expansão da fronteira agrícola. Esse processo, entretanto, tem ocorrido paralelamente ao aumento das disputas territoriais envolvendo grandes propriedades rurais, comunidades tradicionais e interesses econômicos ligados ao controle da terra e dos recursos naturais.
Nesse contexto, a apuração de possíveis vínculos entre estruturas privadas de segurança, movimentações financeiras expressivas e a atuação de grupos armados evidencia a complexidade institucional dos conflitos agrários contemporâneos. Investigações baseadas em inteligência financeira, como aquelas apoiadas por relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), tornaram-se instrumentos fundamentais para mapear fluxos de recursos, identificar conexões entre empresas, intermediários e indivíduos investigados e compreender a eventual sustentação econômica de estruturas criminosas. O rastreamento dessas operações financeiras amplia a capacidade do Estado de investigar crimes organizados que se estruturam para além da violência direta, operando também por meio de redes empresariais e contratuais.
Ao mesmo tempo, o caso evidencia a necessidade de prudência e rigor jurídico na interpretação de informações financeiras e empresariais, especialmente quando não há, até o momento, denúncias formais contra empresas citadas em relatórios preliminares. Transferências de recursos podem decorrer de relações comerciais legítimas, sobretudo em setores como o de segurança privada, frequentemente presentes em áreas rurais extensas. Nesse cenário, o desafio das autoridades consiste em distinguir atividades empresariais regulares de eventuais mecanismos de financiamento ou apoio logístico a práticas ilícitas.
A decisão do Tribunal de Justiça da Bahia de restabelecer a prisão preventiva do investigado também ilustra o delicado equilíbrio entre garantias processuais e a necessidade de preservar a ordem pública e a integridade das investigações. O desfecho do caso dependerá da robustez das provas reunidas pelo Ministério Público e da capacidade institucional de enfrentar estruturas criminosas eventualmente ligadas a disputas territoriais. Mais amplamente, o episódio reforça que os conflitos agrários no oeste baiano não são apenas questões fundiárias locais, mas parte de um debate nacional sobre governança territorial, segurança jurídica e a convivência entre desenvolvimento econômico e proteção de direitos em áreas de fronteira agrícola.








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