Quarta-feira, 11/03/2026 — As investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) sobre o colapso do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, apontam para um complexo esquema de engenharia financeira que teria sido utilizado para desviar bilhões de reais da instituição em benefício do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, familiares e sócios. Documentos judiciais e relatórios da investigação indicam que a estrutura envolvia a venda massiva de CDBs com remuneração elevada, a utilização de fundos de investimento controlados pelo próprio banco e a concessão de empréstimos simulados a empresas vinculadas ao círculo do controlador.
Segundo os investigadores, o mecanismo permitia a circulação de recursos captados junto a investidores para uma rede de empresas e fundos que, em última instância, beneficiaria pessoas ligadas ao grupo controlador. O esquema teria movimentado dezenas de bilhões de reais, sendo que R$ 1,8 bilhão dos recursos investidos em fundos controlados pelo banco teria sido direcionado para empresas associadas aos próprios sócios do conglomerado.
O caso é considerado por autoridades econômicas um dos episódios mais graves já registrados no sistema financeiro nacional. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o episódio como “a maior fraude bancária da história do Brasil”, embora tenha afirmado que o impacto não representa risco sistêmico para a economia.
Estrutura do esquema financeiro investigado
As investigações apontam que o esquema operava a partir de uma cadeia estruturada de transações financeiras, desenhada para retirar recursos da instituição e redirecioná-los a pessoas ligadas ao grupo controlador.
A primeira etapa envolvia a captação de recursos por meio da venda de CDBs (Certificados de Depósito Bancário). Os papéis eram ofertados em plataformas digitais de investimento voltadas ao público de varejo e prometiam rentabilidade significativamente superior à média do mercado, o que permitiu ao conglomerado captar mais de R$ 50 bilhões.
Após a captação, os recursos eram direcionados para fundos de crédito estruturados, nos quais o próprio Banco Master aparecia como único cotista. Formalmente, os fundos realizavam operações de crédito para empresas, mas os investigadores afirmam que parte dessas operações seria fictícia ou direcionada a empresas vinculadas ao próprio controlador.
Essa estrutura permitia que o dinheiro saísse dos cofres do banco, passasse por fundos de investimento e fosse transferido para empresas controladas por pessoas próximas a Vorcaro, criando uma trilha complexa de transações financeiras.
Empresas e familiares entre os beneficiários investigados
Entre os destinatários dos recursos investigados estão familiares diretos do ex-banqueiro. Documentos anexados a decisões judiciais indicam que uma conta bancária em nome de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, apresentava saldo superior a R$ 2,2 bilhões.
A defesa de Henrique Vorcaro afirmou que são incorretas as informações de que a conta mencionada na decisão judicial seria de sua titularidade.
Além do pai, as investigações mencionam transferências de recursos para:
- Natalia Vorcaro, irmã do ex-banqueiro
- Felipe Vorcaro, primo
- Três familiares de João Carlos Mansur, controlador da administradora de recursos Reag
Segundo os investigadores, essas transferências ocorreriam por meio de empresas interpostas e fundos estruturados.
A defesa de Daniel Vorcaro informou que não comentaria o caso. Até a publicação da reportagem, outros investigados também não haviam se manifestado.
Fundos de investimento e empréstimos suspeitos
Uma das operações investigadas envolve o repasse de recursos para empresas por meio de fundos controlados pelo banco. Em vários casos, os relatórios da PF apontam indícios de empréstimos fictícios ou operações simuladas.
Um exemplo citado na investigação envolve a Clínica Mais Médico, um empreendimento que recebeu R$ 361,1 milhões de um fundo vinculado ao Banco Master.
Segundo os investigadores, a empresa estaria formalmente registrada em nome de um laranja, que concedeu procuração a uma pessoa ligada à família do controlador do banco.
As apurações indicam que o dinheiro não teria sido utilizado para investimento empresarial, mas sim redirecionado dentro de uma cadeia de transações financeiras complexas.
Operações para inflar artificialmente os ativos do banco
Outro eixo da investigação aponta para um mecanismo utilizado para inflar artificialmente os ativos do Banco Master.
Relatórios policiais indicam que fundos ligados ao banco compravam certificados de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) — papéis considerados praticamente sem valor no mercado.
Os fundos inflavam o preço desses ativos, criando uma valorização fictícia dos ativos do banco. Como consequência, a instituição apresentava balanços com patrimônio inflado, o que permitia emitir mais CDBs e captar novos recursos no mercado.
A investigação afirma que o processo explorava vulnerabilidades no mercado de capitais e nas regras de supervisão, utilizando operações entre partes relacionadas e ativos sem liquidez para aumentar artificialmente o valor contábil da instituição.
Consequências jurídicas e enquadramentos penais
Especialistas em direito financeiro apontam que, caso confirmadas, as condutas investigadas podem configurar gestão fraudulenta de instituição financeira e lavagem de dinheiro.
Segundo o advogado Adilson Bolico, quando um banco capta recursos de investidores e direciona esses valores para empresas de fachada, empréstimos simulados e fundos controlados por laranjas, caracteriza-se gestão fraudulenta.
A legislação brasileira prevê as seguintes penas:
- Gestão fraudulenta de instituição financeira: reclusão de 3 a 12 anos, além de multa
- Lavagem de dinheiro: reclusão de 3 a 10 anos e multa, com possibilidade de aumento em caso de organização criminosa
As investigações seguem em andamento e podem resultar em novas denúncias e processos criminais.
Impacto econômico e reação do governo
Apesar da dimensão do caso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a crise do Banco Master não representa risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro.
Segundo o ministro, os impactos estão concentrados no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), entidade mantida pelos próprios bancos para cobrir perdas em casos de quebra de instituições financeiras.
Haddad afirmou que o episódio representa uma “pancada histórica” no sistema financeiro, podendo consumir entre 30% e 50% dos recursos do fundo.
O ministro também declarou que o Banco Central iniciou revisão das normas de supervisão financeira, com o objetivo de eliminar brechas regulatórias que teriam sido exploradas no caso.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.











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