O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta quinta-feira (19/03/2026) a transferência do banqueiro Daniel Vorcaro do Presídio Federal de Brasília para a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal. A medida atende a pedido da defesa e marca o início das tratativas para um acordo de delação premiada no contexto das investigações sobre fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, já liquidado pelo Banco Central.
A decisão ocorre em meio ao avanço da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, que apura suspeitas de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, ameaça, invasão de sistemas e manipulação de ativos financeiros sem lastro real. Vorcaro está preso desde 4 de março, após nova fase da operação que também atingiu servidores do Banco Central e resultou em bloqueio de bens de até R$ 22 bilhões.
Transferência abre caminho para delação premiada
A transferência para a sede da Polícia Federal tem como objetivo viabilizar discussões diretas entre o investigado, sua defesa e os órgãos responsáveis pela negociação de eventual colaboração, incluindo a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Nos bastidores, há expectativa de que Vorcaro firme um acordo robusto. Seu novo advogado, José Luis Oliveira Lima, conhecido como “Juca”, já sinalizou a investigadores que o cliente pretende apresentar uma “delação séria”, sem restrições quanto aos envolvidos. O criminalista tem histórico em negociações complexas, tendo atuado em casos como a delação de Léo Pinheiro, da OAS, na Operação Lava Jato.
Pressões políticas e resistência a “delação seletiva”
A movimentação ocorre em um ambiente de forte tensão política. Segundo fontes ligadas às investigações, houve tentativas de setores políticos de influenciar os termos da delação para evitar a implicação de determinados agentes públicos.
No entanto, interlocutores da investigação indicam que não há espaço para acordos seletivos, o que levou a defesa do banqueiro a antecipar negociações e reforçar a disposição de colaboração integral. A condução do eventual acordo ficará sob supervisão do STF, com participação da PF e da PGR.
Investigação aponta fraude sistêmica e rombo bilionário
As apurações indicam que o Banco Master teria estruturado um esquema baseado na venda de ativos financeiros sem lastro, incluindo carteiras de crédito inexistentes. Um dos episódios investigados envolve a negociação de cerca de R$ 12,2 bilhões em ativos supostamente fictícios com o Banco de Brasília (BRB).
Além disso, a Polícia Federal sustenta que o grupo utilizava estruturas paralelas para monitoramento de adversários, obtenção de informações sigilosas e pagamento de agentes. Um dos investigados, apontado como operador dessas atividades, recebia valores mensais elevados, segundo documentos do inquérito.
O colapso do Banco Master levou à sua liquidação e gerou impacto expressivo no sistema financeiro. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) precisou mobilizar cerca de R$ 32,5 bilhões, com estimativa de rombo total próximo de R$ 56 bilhões.
Evolução patrimonial e suspeitas de enriquecimento
Dados da Receita Federal analisados no âmbito da investigação apontam uma evolução patrimonial acelerada de Vorcaro, que teria acumulado mais de R$ 1,4 bilhão em bens. Entre 2017 e 2025, o banqueiro adquiriu imóveis, veículos de luxo, obras de arte e joias em volumes expressivos.
As autoridades investigam se esse crescimento patrimonial está relacionado a operações financeiras irregulares realizadas por meio do banco e de estruturas empresariais associadas, incluindo holdings sob suspeita de ligação com recursos de origem ilícita.
Prisões, decisões judiciais e contexto processual
Vorcaro foi inicialmente preso em novembro de 2025, ao tentar embarcar para o exterior no Aeroporto de Guarulhos. À época, alegou que viajaria para negociar a venda do banco, mas a PF levantou suspeitas de tentativa de fuga.
Após ser solto, voltou a ser preso em março de 2026 por decisão do STF, com base em elementos considerados suficientes para indicar risco à investigação e à ordem pública. A maioria da Segunda Turma do Supremo votou pela manutenção da prisão, com apoio dos ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques.
O caso também envolve desdobramentos institucionais, como a declaração de suspeição do ministro Dias Toffoli, após revelações sobre possíveis conexões com o investigado.
CPI do Banco Master amplia tensão no Congresso
O avanço das investigações repercute no Congresso Nacional, onde cresce a pressão pela instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso. Até o momento, ao menos cinco pedidos foram apresentados por parlamentares de diferentes espectros políticos.
O tema se tornou foco de disputa entre lideranças. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, negou ter participado de articulações para barrar a CPI em troca de apoio à derrubada de vetos presidenciais, rebatendo declarações do dirigente partidário Valdemar Costa Neto, que alegou a existência de negociações nesse sentido.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.











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