ACM Neto, o anti-Lula na Bahia, evita apoio a Flávio Bolsonaro, tenta equilibrar o discurso e expõe fissuras na direita estadual para 2026 | Por Carlos Augusto

Na quarta-feira (08/04/2026), o pré-candidato ao governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) reafirmou uma estratégia de cautela diante da disputa presidencial, ao evitar declarar apoio à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL). A postura, marcada por ambiguidade discursiva e tentativa de conciliar correntes divergentes da direita, ocorre em meio a pressões internas, histórico de enfrentamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao desafio de preservar competitividade eleitoral em um estado onde o lulismo mantém forte presença.

ACM Neto tem reiterado que não há definição sobre apoio presidencial e que qualquer decisão dependerá da consolidação do cenário nacional. Em declarações recentes, afirmou que mantém diálogo com Flávio Bolsonaro, mas evitou compromisso político imediato.

Quanto a conversar, dialogar com o senador Flávio Bolsonaro, eu não tenho nenhuma dificuldade”, declarou, acrescentando que a decisão sobre apoio “dependerá de como ficará o cenário”.

Paralelamente, o ex-prefeito sinalizou preferência por outros nomes do campo conservador, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), reforçando que ainda é cedo para definições. A estratégia de palanque aberto permite que aliados adotem posições distintas na disputa presidencial. “Cada um vai ter a liberdade de fazer a escolha que achar correta”, afirmou.

Essa postura busca preservar alianças regionais e evitar rupturas prematuras, mas fragiliza a construção de um discurso unificado na oposição baiana.

Pressão do bolsonarismo e desconforto na base

A ausência de apoio explícito a Flávio Bolsonaro tem provocado reações entre representantes do bolsonarismo. O deputado federal Capitão Alden (PL-BA) cobrou posicionamento mais claro de ACM Neto.

Não é possível que Flávio Bolsonaro não tenha um palanque na Bahia”, afirmou, ao questionar a consistência da aliança entre União Brasil e PL no estado.

A crítica reflete uma pressão crescente para que o pré-candidato abandone a neutralidade e assuma posição definida. Ao mesmo tempo, evidencia uma contradição central: ACM Neto busca manter proximidade com a base conservadora sem aderir formalmente ao bolsonarismo, reconhecendo o peso eleitoral desse segmento.

Nos bastidores, no entanto, ACM Neto mantém diálogo ativo com o grupo. Em 18 de março de 2026, o ex-prefeito esteve em Brasília em reunião com Flávio Bolsonaro e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, em agenda voltada à articulação para as eleições de 2026 .

O encontro reforça que, embora evite apoio público, ACM Neto participa diretamente da construção política do campo conservador, evidenciando uma estratégia de aproximação pragmática sem formalização imediata.

Relação com Jair Bolsonaro e histórico recente

A aproximação com o bolsonarismo não é recente. Durante seu período como prefeito de Salvador, ACM Neto manteve interlocução institucional e política com o então presidente Jair Bolsonaro.

Em 2019, já no início do governo federal, participou de encontros em Brasília com o presidente, em agendas que envolveram articulações políticas e institucionais. Ao longo do mandato presidencial, houve outras interações públicas e institucionais, indicando relação pragmática com o governo federal à época.

Além disso, no segundo turno das eleições de 2018, ACM Neto declarou voto em Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad, ainda que tenha registrado divergências pontuais.

Esse histórico indica que o atual distanciamento discursivo não configura ruptura efetiva, mas sim um reposicionamento estratégico diante do novo cenário eleitoral, passível de interpretação como um movimento predominantemente retórico. Na prática, a mudança de tom pode ser compreendida como tentativa de readequação de imagem sem alteração substancial de alinhamentos políticos anteriores, especialmente no que diz respeito à oposição ao presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores.

Entre o antipetismo e o eleitorado moderado

A estratégia adotada revela uma tentativa de equilíbrio delicado e de difícil sustentação: afastar-se do bolsonarismo sem abrir mão do discurso crítico ao PT, ao mesmo tempo em que evita confrontar diretamente o eleitorado lulista.

Na Bahia, o presidente Lula mantém forte capital político, e o discurso anti-PT frequentemente se confunde com críticas diretas ao próprio presidente. Esse fator influencia a dinâmica eleitoral, impondo limites a posicionamentos mais radicalizados.

Nesse contexto, ACM Neto tenta se apresentar como alternativa ao PT sem assumir integralmente o legado bolsonarista, buscando captar eleitores que o enxergam como principal adversário de Lula no estado. Trata-se de uma tentativa de não perder potenciais eleitores que o identificam como figura anti-Lula, ao mesmo tempo em que procura ampliar seu alcance junto a setores moderados.

Histórico de confronto com Lula e mudança de tom

A tentativa de moderação atual contrasta com episódios marcantes da trajetória política de ACM Neto. Em 1º de novembro de 2005, durante discurso no plenário da Câmara dos Deputados, o então parlamentar adotou tom agressivo ao se referir ao governo federal.

Na ocasião, declarou:

Senador Arthur Virgílio, V. Exa. não dará uma surra sozinho não. Terá um aliado, porque não tenho medo”.

Em outro momento, afirmou:

Quem tiver coragem de se meter na minha frente tomará uma surra”.

As declarações ocorreram no contexto da crise do mensalão e evidenciam um posicionamento de confronto direto com o presidente Lula. Posteriormente, o próprio ACM Neto reconheceu o excesso, atribuindo o episódio à falta de experiência política no início da carreira.

Esse contraste entre passado e presente reforça a percepção de mudança de estratégia, mas também levanta questionamentos sobre a coerência do posicionamento atual.

Fragmentação da direita na Bahia

O cenário político baiano revela uma direita fragmentada, sem liderança unificadora capaz de coordenar interesses distintos. Enquanto diferentes grupos apoiam nomes diversos para a Presidência, ACM Neto busca manter posição de convergência.

Essa estratégia, embora permita flexibilidade, expõe divergências internas e dificulta a construção de uma narrativa coesa. A experiência recente demonstra que, em ambientes polarizados, a ausência de definição tende a ser explorada por adversários e questionada por aliados.

Além disso, a repetição de uma postura considerada ambígua — já observada em eleições anteriores — reforça a percepção de cautela excessiva, com potencial impacto sobre a confiança do eleitorado.

Estratégia, limites e riscos eleitorais

A conduta de ACM Neto reflete uma estratégia clássica de preservação de alianças e maximização de opções políticas. Trata-se de um movimento tradicional, que busca aguardar a definição do cenário nacional antes de assumir compromissos.

No entanto, o contexto atual impõe limites claros a essa abordagem. A tentativa de conciliar distanciamento do bolsonarismo, manutenção do discurso anti-PT e aproximação com eleitores moderados revela uma engenharia política complexa, cuja viabilidade é incerta.

O principal risco reside na percepção de indefinição. Em um ambiente marcado por forte polarização, a ausência de posicionamento claro tende a ser interpretada como hesitação, comprometendo a capacidade de mobilização eleitoral e fragilizando a construção de liderança.

Há ainda um efeito colateral relevante: a tendência de parte do eleitorado bolsonarista na Bahia passar a enxergar ACM Neto como um aliado pouco confiável, diante da ausência de apoio explícito e da tentativa de distanciamento discursivo. Esse movimento pode resultar em perda de apoio e migração de votos para candidaturas mais alinhadas ideologicamente, sobretudo em um campo político que valoriza posicionamentos claros.

Por outro lado, a cautela também evidencia leitura pragmática do eleitorado baiano, onde o peso político de Lula continua relevante e influencia decisivamente o debate público. O desafio será transformar essa ambiguidade em vantagem estratégica — tarefa que, à luz da experiência política recente, se mostra difícil e improvável de obter sucesso.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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