Deputado Zé Neto e a “Taxa das Blusinhas”: articulação política iniciada em Feira de Santana impulsiona proteção ao emprego no comércio e indústria nacional | Por Carlos Augusto

Neste mês de abril de 2026, o debate sobre a chamada “Taxa das Blusinhas” segue como um dos temas centrais da política econômica brasileira, especialmente no que se refere à proteção do emprego do trabalhador do comércio e da indústria nacional frente à concorrência internacional. O processo que culminou na adoção da medida teve participação relevante do deputado federal José Cerqueira Neto (Zé Neto, PT-BA), cuja atuação foi impulsionada por demandas surgidas em Feira de Santana (BA), importante entreposto comercial do interior nordestino, culminado com a demanda de outros centros urbanos e empresariais de outros estados da federação. A iniciativa buscou enfrentar o avanço de produtos importados, sobretudo da China, preservando a competitividade interna sem provocar distorções abruptas de preços ao consumidor.

A “Taxa das Blusinhas” permanece como um dos principais marcos recentes da política comercial brasileira. A medida foi formalizada pela Lei nº 14.902, de 28 de junho de 2024, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 27 de junho de 2024, após aprovação do Congresso Nacional no âmbito do Projeto de Lei nº 914/2024. A iniciativa, que instituiu a taxação de compras internacionais de até US$ 50, teve como pano de fundo pressões do setor comercial e produtivo nacional e resultou na proteção do emprego no Brasil.

A legislação tributa compras internacionais de baixo valor (até US$ 50) realizadas por consumidores brasileiros em plataformas estrangeiras como Shopee, Shein e AliExpress.

  • 20% de Imposto de Importação para compras até US$ 50
  • 60% (com desconto de US$ 20) para valores acima
  • ICMS estadual (17% a 20%) adicional

O contexto da medida remonta ao período anterior a 2023, quando a legislação brasileira previa isenção tributária para remessas internacionais de até US$ 50, desde que realizadas entre pessoas físicas. Na prática, esse dispositivo passou a ser amplamente distorcido com a expansão do comércio eletrônico global. Grandes plataformas estrangeiras passaram a simular envios entre indivíduos, enquadrando operações comerciais como remessas pessoais.

O mecanismo permitiu a evasão sistemática de tributos, provocando uma explosão das importações de baixo valor, especialmente no setor de vestuário. O resultado foi a criação de um ambiente de concorrência profundamente assimétrico.

Ao longo do tempo, os efeitos foram estruturais: erosão das margens do varejo nacional, fechamento de estabelecimentos físicos e pressão sobre cadeias produtivas locais. A medida, portanto, surge como resposta a uma distorção acumulada.

Mais do que uma intervenção pontual, a denominada “Taxa das Blusinhas” representa um movimento de correção institucional. Seu objetivo central é reorganizar as condições de competição e preservar a integridade do emprego e do mercado interno brasileiro.

Origem da pauta: pressão empresarial em Feira de Santana

A gênese do movimento que pretendeu proteger a indústria e o comércio nacional remonta a um conjunto de reivindicações apresentadas por empresários locais, especialmente do setor varejista e de distribuição. Feira de Santana, historicamente consolidada como um dos maiores centros logísticos do Nordeste, passou a registrar impactos diretos da crescente entrada de produtos estrangeiros comercializados por plataformas digitais.

Impacto das importações no comércio local

Os empresários apontavam três fatores centrais:

  • Concorrência desleal decorrente de regimes tributários diferenciados
  • Erosão das margens de lucro no comércio formal
  • Redução da arrecadação tributária interna

Esse cenário levou representantes do setor produtivo a buscar interlocução política, encontrando em Zé Neto um agente capaz de articular a pauta em nível federal.

Intermediação política e construção da proposta

A atuação do parlamentar se deu em duas frentes principais:

  1. Diálogo com o setor produtivo local, sistematizando demandas e evidências econômicas
  2. Articulação no Congresso Nacional, contribuindo para a formulação de uma resposta legislativa equilibrada

O resultado foi a consolidação de uma proposta que ficou conhecida como “Taxa das Blusinhas”, voltada à regulação tributária de compras internacionais de baixo valor, especialmente aquelas realizadas por meio de plataformas digitais estrangeiras.

A lógica econômica da “Taxa das Blusinhas”

A medida buscou corrigir uma assimetria histórica: produtos importados de baixo valor frequentemente ingressavam no país com carga tributária reduzida ou inexistente, enquanto o comércio nacional operava sob regime fiscal completo.

Objetivos centrais da política

A legislação estruturou-se em torno de três eixos:

  • Equilíbrio competitivo entre produtos nacionais e importados
  • Preservação do poder de compra, evitando aumentos abruptos de preços
  • Proteção da cadeia produtiva interna, incluindo indústria, comércio e logística

Mecanismos adotados

Entre os instrumentos incorporados, destacam-se:

  • Tributação moderada sobre remessas internacionais
  • Padronização de regras fiscais para e-commerce
  • Integração com plataformas digitais para fiscalização e arrecadação

A calibragem da política buscou evitar dois extremos: a liberalização irrestrita, que poderia comprometer setores produtivos nacionais, e o protecionismo excessivo, com potencial inflacionário.

Repercussões econômicas e comerciais

A implementação da medida produziu efeitos distintos nos diversos segmentos da economia.

Comércio varejista e distribuição

O setor registrou:

  • Redução da concorrência predatória
  • Recuperação gradual das margens comerciais
  • Reorganização das estratégias de precificação

Indústria nacional

Para a indústria, os efeitos foram mais estruturais:

  • Reequilíbrio das condições de mercado
  • Estímulo à produção interna
  • Fortalecimento de cadeias produtivas locais

Consumidor final

No curto prazo, houve preocupação com possíveis impactos sobre preços. No entanto, a modelagem da política buscou preservar a acessibilidade, evitando aumentos generalizados.

Feira de Santana como epicentro da articulação

O protagonismo de Feira de Santana nesse processo revela a importância de polos regionais na formulação de políticas públicas nacionais. A cidade, pela sua capilaridade comercial e posição estratégica, funcionou como um laboratório de percepção econômica.

A mobilização empresarial local demonstrou capacidade de:

  • Identificar distorções de mercado
  • Organizar demandas coletivas
  • Influenciar a agenda legislativa federal

Esse movimento reforça o papel de centros regionais na construção de soluções para desafios estruturais da economia brasileira.

Equilíbrio delicado entre proteção e competitividade

A chamada “Taxa das Blusinhas” representa uma resposta pragmática a um problema concreto: a assimetria regulatória entre comércio nacional e plataformas internacionais. A atuação de Zé Neto, nesse contexto, evidencia a importância da mediação política entre interesses locais e formulação de políticas públicas de alcance nacional.

Do ponto de vista institucional, a medida demonstra que pressões econômicas regionais podem ganhar escala federal quando articuladas de forma consistente. Ao mesmo tempo, revela a persistente dificuldade do Brasil em lidar com os efeitos da globalização digital, especialmente no comércio eletrônico.

Há, contudo, tensões latentes. A política exige monitoramento contínuo para evitar:

  • Desestímulo à inovação e à concorrência internacional
  • Aumento indireto de preços ao consumidor
  • Dependência excessiva de mecanismos protecionistas

A médio e longo prazo, o desafio será avançar para além da proteção pontual, promovendo ganhos estruturais de competitividade, sobretudo na indústria, logística e comércio.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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