O escritor, psicólogo e psicanalista Carlos Henrique Kruschewsky, de 38 anos, tomará posse no dia 10 de julho, às 19h, no auditório do Centro de Cultura Maestro Miro, como novo ocupante da cadeira 23 da Academia Feirense de Letras (AFL), cujo patrono é Vinicius de Moraes. Autor dos romances A Matilha (2023) e O Vazio (2026), publicados pela editora Palavra & Verso, o feirense construiu uma obra marcada pela investigação da memória, do luto, da culpa, do sofrimento psíquico e das contradições do sujeito contemporâneo. A chegada à AFL representa não apenas o reconhecimento de sua produção literária, mas também a continuidade de uma trajetória familiar ligada à instituição.
Nascido em Feira de Santana, em 20 de julho de 1987, Carlos Henrique Kruschewsky desenvolveu uma relação com a literatura marcada por referências clássicas, experiências pessoais e escuta clínica. Ao longo de sua formação como leitor, aproximou-se de autores como Edgar Allan Poe, J.R.R. Tolkien, Gabriel García Márquez e Machado de Assis, além de nomes ligados à fantasia, à distopia e às narrativas de densidade psicológica.
Embora o contato com os livros tenha começado cedo, foi na vida adulta que a escrita assumiu papel central em sua rotina. Segundo o autor, o impulso definitivo surgiu a partir das histórias inventadas para a filha antes de dormir, experiência que transformou o exercício narrativo em prática contínua. Para ele, escrever tornou-se uma forma de organizar pensamentos e lidar com aquilo que não encontra expressão fora da linguagem.
A literatura, nesse percurso, aparece menos como exercício ornamental e mais como mecanismo de elaboração. O próprio escritor costuma definir a escrita como uma forma de sobrevivência, em que memória, dor, humor e reflexão se articulam em narrativas voltadas para os conflitos humanos.
“Drama sombrio” substitui o terror clássico na obra do autor
Carlos Henrique Kruschewsky define sua produção literária como próxima do “drama sombrio”, afastando-se do terror tradicional baseado em casas assombradas, criaturas fantásticas ou atmosferas sobrenaturais convencionais. Em seus livros, os elementos de tensão estão ligados à culpa, ao desejo reprimido, à lembrança traumática e às formas silenciosas de sofrimento.
Essa escolha estética situa sua obra em um campo literário voltado para a introspecção. Os “monstros”, em suas narrativas, não são figuras externas, mas expressões internas dos personagens. Eles aparecem nos conflitos de identidade, nos vínculos rompidos, no luto mal elaborado e nas experiências subjetivas que moldam a vida cotidiana.
A abordagem também dialoga com sua atuação profissional. Com quase quinze anos de experiência como psicólogo e psicanalista, Kruschewsky convive diariamente com narrativas pessoais, histórias de ruptura, busca por aceitação e tentativas de reconstrução subjetiva. Essa escuta clínica influencia diretamente a forma como constrói personagens, conflitos e ambientes emocionais.
A Matilha aborda luto, identidade e pertencimento
Publicado em 2023, o romance A Matilha nasceu em um dos períodos mais difíceis da vida do escritor. A obra acompanha um grupo de amigos motociclistas que se reencontra depois de anos de afastamento, em uma narrativa atravessada por estradas, motos, deslocamentos e memórias interrompidas.
Apesar da presença visual do universo dos motociclistas, o núcleo do livro está nos temas do luto, da identidade e do pertencimento. O enredo investiga personagens marcados por perdas, desencontros e conflitos internos, em uma tentativa de compreender como vínculos antigos podem revelar feridas ainda abertas.
Para o autor, os personagens funcionam como fragmentos de sua própria experiência. A obra, segundo ele, nasceu da imagem de um homem emocionalmente quebrado, tentando recompor os próprios cacos. Essa dimensão autobiográfica não transforma o romance em confissão direta, mas confere densidade emocional à narrativa.
O Vazio aprofunda a travessia psíquica dos personagens
Em O Vazio, lançado em 2026, Carlos Henrique Kruschewsky aprofunda a dimensão psicológica de sua literatura. O livro é inspirado em textos de Sigmund Freud, entre eles Luto e Melancolia e Recordar, Repetir e Elaborar, aproximando a narrativa da experiência analítica.
A obra conduz o leitor para uma espécie de cárcere psíquico, estruturado por fragmentos, repetições, memórias e impasses subjetivos. O romance radicaliza a investigação do sofrimento interno e reforça uma das marcas centrais da escrita do autor: a tentativa de transformar conflitos íntimos em linguagem literária.
Ao trabalhar com uma narrativa fragmentada, Kruschewsky amplia o diálogo entre literatura e psicanálise. A forma do texto passa a refletir o próprio conteúdo emocional da obra, aproximando estrutura narrativa e experiência mental dos personagens.
Produção cultural inclui música, cerveja, crônicas e projetos autorais
Além dos romances, Carlos Henrique Kruschewsky construiu uma trajetória ligada a diferentes frentes da produção cultural. Foi colunista das revistas Cervejas de Todos os Jeitos e Nação Cervejeira, nas quais escreveu sobre cultura cervejeira e identidade regional.
Também assinou a série Das Coisas que Aprendi nos Discos, publicada no Portal Acorda Cidade, conectando música, memória e subjetividade. A proposta reunia referências afetivas, experiências pessoais e reflexões sobre a formação emocional mediada pela arte.
Outro eixo de sua produção é o projeto autoral Crônicas do Último Farol, iniciativa que amplia sua presença como cronista e reforça a diversidade de linguagens exploradas pelo escritor. A reunião dessas experiências revela uma trajetória marcada por literatura, música, cultura urbana, memória afetiva e observação do cotidiano.
Posse na Academia Feirense de Letras tem dimensão institucional e afetiva
A posse de Carlos Henrique Kruschewsky na cadeira 23 da Academia Feirense de Letras terá significado especial para sua trajetória pessoal e familiar. A cadeira já foi ocupada por seu tio Eduardo Kruschewsky, atualmente membro honorário da instituição.
Outro tio do escritor, Carlos A. Kruschewsky, também integrou a AFL, ocupando a cadeira 26. A chegada de Carlos Henrique à Academia, portanto, estabelece uma continuidade simbólica com a história familiar e com a tradição intelectual feirense.
Apesar dessa herança, o escritor afirma que sua entrada na instituição ocorre também por meio de identidade própria, voz autoral e percurso individual. A posse representa, ao mesmo tempo, homenagem aos familiares que o antecederam e afirmação de uma produção literária vinculada às questões contemporâneas da subjetividade.
Novos projetos ampliam universo narrativo do escritor
Carlos Henrique Kruschewsky trabalha atualmente em novos projetos literários, entre eles Querida Lêda, Do Lugar em que Eu Te Amei, Nós e A Titanomaquia. Este último será a sequência direta de A Matilha, retomando o universo narrativo já apresentado no romance de estreia.
As obras em desenvolvimento indicam a continuidade de temas recorrentes em sua literatura: personagens em conflito, memórias fragmentadas, vínculos afetivos, sofrimento psíquico e tentativas de encontrar alguma ordem em meio ao caos. Trata-se de uma linha narrativa coerente com sua produção anterior e com sua formação profissional.
Mais informações sobre os trabalhos do escritor podem ser acompanhadas em seu perfil no Instagram, @sr.ck, onde o autor divulga projetos, reflexões e atualizações sobre sua produção literária.











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