O cientista político Cláudio André avaliou, em publicação nas redes sociais neste início de maio de 2026, as estratégias adotadas pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT) e pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) no início da pré-campanha ao Governo da Bahia. Segundo o analista, os dois principais nomes do cenário estadual seguem caminhos distintos: enquanto Jerônimo aposta no Programa de Governo Participativo (PGP), com escuta da população, diálogo com prefeitos e presença nos territórios, ACM Neto tem buscado referências em outros estados, como São Paulo e Goiás, para discutir temas como educação e segurança pública. Para Cláudio André, essa diferença expõe uma disputa entre construção coletiva territorializada e uma agenda de formulação programática mais distante da realidade cotidiana dos municípios baianos.
Jerônimo aposta em escuta territorial e articulação municipalista
Na avaliação de Cláudio André, a estratégia de Jerônimo Rodrigues está centrada na tentativa de consolidar uma imagem de governo presente, associada à escuta popular e à interlocução com lideranças municipais. O Programa de Governo Participativo 2026 foi apresentado como instrumento de aproximação com a população e de coleta de demandas regionais para a elaboração do programa eleitoral do grupo governista.
O cientista político interpreta esse movimento como uma forma de reforçar a capilaridade do governo no interior. Para ele, o PT e o PSD buscam construir uma imagem de forças políticas com enraizamento municipal.
“Simbolicamente, enquanto o PT e PSD se constroem como forças simbólicas municipalistas de fôlego, Neto deu como largada uma agenda de gabinete do seu programa de governo sozinho com o marketing conversando com paulistas e goianos sobre educação e segurança pública, respectivamente”, escreveu Cláudio André.
A leitura do analista sugere que Jerônimo procura transformar a presença nos municípios em ativo político. Segundo Cláudio André, “o governador já deve ter visitado em agenda oficial algo próximo de 400 municípios baianos em quase três anos e meio de mandato”. A declaração reforça a avaliação de que a pré-campanha governista pretende associar a imagem do governador à interiorização da gestão, à entrega de obras e à escuta direta das comunidades.
ACM Neto busca referências externas para áreas estratégicas
No campo oposicionista, Cláudio André avalia que ACM Neto iniciou a formulação de seu programa de governo com uma agenda mais concentrada em especialistas e experiências de outros estados. O ex-prefeito de Salvador teria buscado referências em São Paulo e Goiás para tratar, respectivamente, de temas ligados à educação e à segurança pública.
A crítica central do cientista político é que a estratégia pode ser interpretada como distanciamento da realidade baiana. Ao comentar a atuação do marqueteiro João Santana, contratado para reposicionar a imagem de ACM Neto, Cláudio André questionou: “Mais um erro de João Santana e seu staff?”. A pergunta foi feita no contexto da comparação entre a agenda territorializada de Jerônimo e o movimento do ex-prefeito em direção a modelos externos de gestão.
Cláudio André também atribuiu ao núcleo político de ACM Neto uma postura de autossuficiência em relação ao debate local. Segundo ele, haveria na campanha do União Brasil na Bahia, especialmente em razão do perfil do ex-prefeito, a “soberba de achar que o Sudeste e os de ‘fora’ são melhores que os baianos”. Em seguida, concluiu: “Pegou mal”.
Evento sobre educação amplia crítica à estratégia oposicionista
A crítica do cientista político também alcança a previsão de realização de um evento em 2 de junho para discutir educação pública na Bahia, com participação de Renato Feder e Mendonça Filho. O encontro daria sequência a fóruns temáticos já realizados sobre segurança, saúde e seca.
Para Cláudio André, a presença de nomes de fora da Bahia em debates sobre políticas públicas estaduais pode reforçar a percepção de afastamento entre a oposição e a população local. “Os ‘forasteiros’ virão dar aula de gestão pública aos baianos?”, questionou o cientista político.
A observação evidencia o ponto central da crítica: a oposição pode tentar demonstrar capacidade técnica ao buscar experiências externas, mas corre o risco de alimentar a narrativa de que ignora soluções, especialistas, gestores e demandas originadas no próprio território baiano. Essa tensão tende a marcar o debate eleitoral, especialmente em áreas sensíveis como educação, segurança pública, saúde, infraestrutura e desenvolvimento regional.
Disputa reedita contraste entre capital, interior e territórios
A avaliação de Cláudio André se insere em uma disputa política que tem forte componente territorial. A Bahia é um estado de grande extensão, com realidades sociais, econômicas e administrativas distintas entre capital, região metropolitana, semiárido, oeste, litoral, Recôncavo, Chapada Diamantina e extremo sul.
Nesse contexto, a presença no interior costuma ser decisiva para a consolidação de candidaturas majoritárias. A estratégia de Jerônimo Rodrigues busca reforçar essa lógica, vinculando a pré-campanha à ideia de escuta popular, continuidade administrativa e diálogo com prefeitos.
Já ACM Neto tenta reconstruir sua competitividade estadual por meio de uma pauta de gestão, possivelmente buscando demonstrar capacidade de formular soluções para problemas estruturais. O risco político, apontado por Cláudio André, é que essa abordagem seja percebida como excessivamente centralizada, tecnocrática ou desconectada da experiência concreta dos municípios baianos.
João Santana e o desafio de reposicionar ACM Neto
A menção a João Santana revela outro eixo da análise: o papel do marketing político na tentativa de reposicionar ACM Neto após a derrota eleitoral de 2022. O ex-prefeito de Salvador busca apresentar uma imagem renovada, capaz de dialogar com temas sensíveis da administração pública e ampliar sua inserção fora da capital.
Para Cláudio André, porém, a forma escolhida para iniciar essa agenda pode produzir efeito contrário ao pretendido.
“Na minha visão, quando ACM Neto dá o pontapé na agenda de pensar um programa de governo longe dos baianos mostra a força do individual à frente da construção coletiva”, afirmou.
O cientista político completou a avaliação com novo questionamento ao núcleo estratégico da oposição:
“Um erro que o marketing não calculou corretamente? Muito simbólico estes dois atos opostos na mesma semana”.
A frase sintetiza a contraposição central feita pelo analista: de um lado, Jerônimo em movimento de escuta participativa; de outro, ACM Neto buscando referências externas para formular propostas de governo.











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