A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal, divulgou em maio de 2026 o Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 112, com análise sobre o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 (PLN 2/2026) e as perspectivas das contas públicas para os próximos anos. O documento indica que a proposta do governo federal prevê melhora gradual do resultado primário e redução da dívida bruta a partir de 2030, mas adverte que as estimativas oficiais se apoiam em parâmetros macroeconômicos considerados relativamente otimistas, especialmente em relação ao crescimento do PIB, inflação, juros, massa salarial, receitas previdenciárias e despesas obrigatórias.
Relatório da IFI avalia cenário fiscal de “equilíbrio precário”
O relatório, publicado em 21 de maio de 2026, descreve o quadro fiscal brasileiro como uma situação de “equilíbrio precário”. Segundo a IFI, o atual arcabouço fiscal tem permitido o cumprimento formal das metas, mas isso ocorre com uso de abatimentos legais, limites de tolerância e receitas extraordinárias, enquanto os déficits primários efetivos seguem recorrentes e a dívida pública permanece em trajetória de crescimento.
A avaliação é relevante porque o PLDO 2027 estabelece as bases para a elaboração do Orçamento da União no próximo exercício. O texto define metas fiscais, regras para despesas, transferências, investimentos, precatórios e fiscalização legislativa sobre a aplicação dos recursos federais.
Entre os pontos centrais analisados pela IFI estão a grade de parâmetros macroeconômicos, as projeções de receitas e despesas, os gastos tributários, os riscos fiscais e a dinâmica da principal despesa obrigatória do governo federal: os benefícios do Regime Geral de Previdência Social (RGPS).
Metas fiscais indicam superávit, mas IFI vê projeções ambiciosas
O PLDO 2027 manteve as metas de resultado primário já previstas no projeto anterior. Para 2027, a proposta estabelece superávit primário de 0,5% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões. A meta sobe para 1,0% do PIB em 2028, 1,25% em 2029 e 1,5% em 2030, com margem de tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB em torno do centro da meta.
A IFI considera essas metas relativamente ambiciosas, sobretudo diante da necessidade de novas fontes de arrecadação para financiar despesas e sustentar a melhora projetada no resultado primário. A avaliação indica que o cumprimento das metas dependerá de uma combinação de aumento de receitas, contenção de despesas e condições macroeconômicas favoráveis.
O relatório também observa que o cumprimento formal da meta de 2025 ocorreu após abatimentos de despesas autorizados por lei e ingresso de receitas não recorrentes. Para a IFI, esse histórico reforça a necessidade de cautela na interpretação das projeções fiscais de médio prazo.
Governo projeta crescimento maior que o estimado pela IFI
As divergências entre o governo e a IFI aparecem de forma clara nas projeções econômicas. O Poder Executivo estima crescimento real do PIB de 2,3% em 2026, 2,6% em 2027 e taxas próximas a esse patamar até 2030. A IFI, por sua vez, trabalha com cenário mais moderado: 1,7% em 2026, 2,0% em 2027 e variações ao redor de 2,2% nos anos seguintes.
A diferença também aparece nas projeções de inflação, juros e massa salarial. O PLDO considera uma convergência mais rápida da inflação à meta e um desempenho mais favorável do mercado de trabalho, com crescimento nominal da massa salarial superior ao estimado pela IFI.
Para a instituição, essas premissas influenciam diretamente as contas públicas. Projeções mais favoráveis para PIB, emprego e salários tendem a elevar as estimativas de arrecadação, especialmente de contribuições previdenciárias. Ao mesmo tempo, hipóteses otimistas para inflação e juros podem reduzir artificialmente a previsão de despesas e encargos da dívida.
Massa salarial é um dos pontos de maior divergência
Um dos aspectos destacados no relatório é a diferença entre as projeções para a massa salarial nominal. Para 2027, o governo estima alta de 11,2%, enquanto a IFI projeta avanço de 6,3%. Em 2028, a diferença permanece expressiva: 11,1% no PLDO contra 5,6% na estimativa da IFI.
Esse ponto tem impacto direto sobre a arrecadação previdenciária. Quanto maior a massa salarial formal, maior tende a ser a receita de contribuições ao RGPS. Por isso, a IFI identifica nas projeções do governo uma expectativa bastante favorável para o mercado de trabalho nos próximos anos.
O relatório também aponta uma possível inconsistência metodológica nas projeções de longo prazo. Após estimativas de crescimento da massa salarial acima de 11% entre 2027 e 2030, o PLDO passa a apresentar taxas inferiores a 5% a partir de 2031, sem deixar claro se houve alteração de metodologia.
Previdência permanece como principal pressão estrutural
A IFI dedica parte relevante do relatório à evolução da despesa com o Regime Geral de Previdência Social, principal rubrica obrigatória da despesa primária federal. Em 2025, os gastos do RGPS somaram R$ 1,027 trilhão, o equivalente a 8,1% do PIB e a 42,9% da despesa primária da União.
Entre 2010 e 2019, a despesa com benefícios do RGPS cresceu, em média, 4,7% ao ano em termos reais. Após desaceleração no período da pandemia, houve retomada do crescimento a partir de 2022, com expansão média anual de 3,4% na despesa com benefícios entre 2022 e 2025.
Segundo o relatório, o crescimento recente da despesa previdenciária decorre principalmente do aumento do estoque de benefícios, e não de elevação expressiva do valor médio real. Entre 2021 e 2025, a despesa com benefícios cresceu 14,2% em termos reais, enquanto o estoque avançou 11,6% e o valor médio real subiu apenas 1,8%.
Aposentadorias puxam expansão do estoque de benefícios
Em dezembro de 2025, o RGPS contava com 35,2 milhões de benefícios emitidos. Desse total, 24,1 milhões eram aposentadorias, correspondendo a 68,6% do estoque. As pensões por morte somavam 8,5 milhões, ou 24,2% do total.
As aposentadorias responderam pela maior parte do aumento do estoque entre 2021 e 2025. A IFI atribui essa tendência a fatores demográficos, especialmente o envelhecimento populacional e o aumento da expectativa de sobrevida.
Embora a reforma da Previdência de 2019 tenha introduzido idade mínima e alterado regras de cálculo, o relatório indica que a tendência estrutural de crescimento da despesa previdenciária não foi interrompida. A IFI projeta que os gastos do RGPS poderão passar de 8,1% do PIB em 2025 para 9,1% do PIB em 2030.
Auxílio por incapacidade temporária cresce em ritmo acelerado
Outro ponto de atenção é o avanço dos benefícios por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença. Segundo a IFI, o estoque dessa modalidade cresceu 45,9% entre 2021 e 2025, com ritmo médio anual de 9,9% entre 2022 e 2025.
O relatório associa esse movimento à ampliação das concessões por meio do Atestmed, sistema que permite análise documental remota em substituição parcial à perícia presencial. As concessões anuais desse benefício passaram de 1,9 milhão em 2022 para 3,9 milhões em 2025.
Embora esse benefício represente parcela menor do estoque total do RGPS, a aceleração recente passou a ter impacto mais relevante na dinâmica da despesa previdenciária. A IFI também observa que a fila de requerimentos do INSS cresceu de 371 mil em dezembro de 2019 para 3 milhões em dezembro de 2025, o que pode indicar pressão futura sobre concessões.
Riscos fiscais somam percentual expressivo do PIB
O relatório também analisa o Anexo de Riscos Fiscais do PLDO 2027. Segundo a IFI, o estoque de riscos primários alcançou R$ 3,149 trilhões, equivalente a 24,7% do PIB em 2025. Essa categoria inclui eventos capazes de elevar despesas primárias ou frustrar receitas.
O maior componente de risco está nas demandas judiciais. Processos classificados como de risco possível ou provável somaram R$ 2,273 trilhões, o equivalente a 17,8% do PIB em 2025. Esses passivos podem se materializar em precatórios ou em perdas de receita tributária.
A IFI também chama atenção para riscos relacionados a empresas estatais federais, inadimplência de entes subnacionais e frustração de projeções macroeconômicas. Caso premissas sobre crescimento, inflação, juros e massa salarial não se confirmem, o desempenho fiscal poderá ficar abaixo do previsto no PLDO.
PLDO prevê redução da dívida, mas cenário depende de premissas favoráveis
A proposta orçamentária analisada pela IFI indica estabilização e posterior redução da dívida bruta em proporção do PIB a partir de 2030. No entanto, essa trajetória depende de uma combinação de fatores: crescimento econômico mais forte, aumento de receitas, contenção das despesas obrigatórias e melhora consistente do resultado primário.
A IFI avalia que os números do PLDO são relativamente otimistas, especialmente quando comparados às projeções do RAF nº 107. O relatório aponta que o Poder Executivo estima crescimento econômico mais elevado, inflação mais controlada, juros menores e resultado primário mais favorável do que os cenários calculados pela instituição.
Pela projeção comparativa, enquanto o PLDO prevê resultado primário efetivo positivo nos próximos anos, a IFI projeta déficits sucessivos para o governo central entre 2027 e 2035. Essa diferença ilustra o grau de incerteza em torno da consolidação fiscal.
O desafio entre meta formal e ajuste efetivo
O relatório da IFI expõe uma tensão central da política fiscal brasileira: a diferença entre cumprir formalmente metas fiscais e produzir ajuste estrutural capaz de estabilizar a dívida pública de forma consistente. O uso recorrente de abatimentos legais, receitas extraordinárias e margens de tolerância pode preservar a aparência de conformidade com o arcabouço fiscal, mas não elimina a pressão permanente de despesas obrigatórias, sobretudo Previdência, precatórios e riscos judiciais.
O ponto mais sensível está na dependência de premissas favoráveis. Um orçamento construído sobre estimativas elevadas de crescimento, massa salarial e arrecadação tende a ampliar o risco de frustração durante a execução. Nesse cenário, a qualidade das projeções fiscais passa a ser tão importante quanto a própria meta, pois números excessivamente otimistas podem transferir o problema para exercícios seguintes.
Também há uma dimensão institucional relevante. A IFI cumpre papel técnico ao submeter o planejamento orçamentário a escrutínio independente, função indispensável em um país marcado por rigidez de despesas, judicialização fiscal e histórico de soluções transitórias. A advertência central do relatório é clara: sem revisão estrutural de gastos e sem bases realistas de arrecadação, a redução da dívida prevista no PLDO 2027 pode permanecer mais como objetivo condicionado do que como tendência fiscal consolidada.
Principais dados apresentados pela IFI
1. Relatório e contexto institucional
Relatório analisado: Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 112
Órgão responsável: Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado Federal
Data do relatório: 21/05/2026
Tema central: análise do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 (PLN 2/2026) e das perspectivas fiscais da União para os próximos anos.
2. PLDO 2027 e metas fiscais
Projeto analisado: PLN 2/2026, referente ao PLDO 2027
Meta de superávit primário em 2027: 0,5% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões
Meta para 2028: 1,0% do PIB
Meta para 2029: 1,25% do PIB
Meta para 2030: 1,5% do PIB
Margem de tolerância: 0,25 ponto percentual do PIB em torno do centro da meta
3. Avaliação da IFI sobre o cenário fiscal
Diagnóstico central: a IFI caracteriza o quadro fiscal como de “equilíbrio precário”.
Ponto crítico: o cumprimento das metas fiscais tem ocorrido com uso de abatimentos legais, receitas não recorrentes e limites da banda de tolerância.
Risco apontado: déficits primários efetivos continuam recorrentes, enquanto a dívida pública mantém trajetória de crescimento.
4. Projeções econômicas: governo x IFI
Crescimento real do PIB em 2026
Governo: 2,3%
IFI: 1,7%
Crescimento real do PIB em 2027
Governo: 2,6%
IFI: 2,0%
Crescimento real do PIB em 2028
Governo: 2,6%
IFI: 2,2%
Inflação medida pelo IPCA em 2027
Governo: 3,04%
IFI: 3,52%
Conclusão da IFI: os parâmetros do governo são considerados mais otimistas que os utilizados pela própria instituição.
5. Massa salarial e arrecadação
Massa salarial nominal em 2026
Governo: 10,32%
IFI: 7,65%
Massa salarial nominal em 2027
Governo: 11,19%
IFI: 6,35%
Massa salarial nominal em 2028
Governo: 11,08%
IFI: 5,56%
Ponto de atenção: a diferença entre as projeções afeta diretamente as estimativas de arrecadação previdenciária e de receitas federais.
6. Receitas e despesas públicas
Receita primária total projetada para 2027 pelo PLDO: R$ 3,408 trilhões
Receita primária total projetada pela IFI: R$ 3,280 trilhões
Diferença: R$ 127,7 bilhões
Receita primária líquida projetada pelo PLDO: R$ 2,768 trilhões
Receita primária líquida projetada pela IFI: R$ 2,618 trilhões
Diferença: R$ 149,5 bilhões
Interpretação: o governo projeta arrecadação superior à estimada pela IFI, reforçando a avaliação de otimismo nas contas oficiais.
7. Previdência Social — RGPS
Despesa do RGPS em 2025: R$ 1,027 trilhão
Participação no PIB: 8,1%
Participação na despesa primária da União: 42,9%
Crescimento real médio da despesa do RGPS entre 2010 e 2019: 4,7% ao ano
Crescimento real médio entre 2020 e 2021: 0,8% ao ano
Crescimento real médio entre 2022 e 2025: 3,6% ao ano
8. Estoque de benefícios previdenciários
Total de benefícios do RGPS em dezembro de 2025: 35,2 milhões
Aposentadorias: 24,1 milhões, ou 68,6% do total
Pensões por morte: 8,5 milhões, ou 24,2%
Auxílios por incapacidade temporária: 1,3 milhão, ou 3,6%
Demais benefícios: 1,2 milhão, ou 3,6%
Crescimento do estoque entre 2021 e 2025: 11,6%
Aumento absoluto: 3,7 milhões de benefícios
9. Aposentadorias
Participação das aposentadorias no aumento do estoque entre 2021 e 2025: 69,3%
Crescimento absoluto: 2,5 milhões de benefícios
Alta acumulada no período: 11,7%
Fator estrutural associado: envelhecimento populacional e aumento da expectativa de sobrevida.
10. Auxílio por incapacidade temporária
Crescimento acumulado do estoque entre 2021 e 2025: 45,9%
Crescimento médio anual entre 2022 e 2025: 9,9%
Concessões em 2022: 1,9 milhão
Concessões em 2025: 3,9 milhões
Fator apontado: ampliação do uso do Atestmed, sistema de análise documental remota para concessão de benefícios por incapacidade temporária.
11. Valor médio dos benefícios
Valor médio agregado do RGPS em 2025: R$ 2.067
Valor médio em 2021: R$ 2.031
Crescimento acumulado entre 2021 e 2025: 1,8%
Valor médio das aposentadorias em 2025: R$ 2.155
Valor médio das pensões por morte em 2025: R$ 1.893
Valor médio dos auxílios por incapacidade temporária em 2025: R$ 1.935
12. Fila do INSS
Requerimentos em análise em dezembro de 2019: 371 mil
Requerimentos em análise em 2021: 1,8 milhão
Requerimentos em análise em dezembro de 2025: 3 milhões
Interpretação: a expansão da fila pode indicar pressão futura sobre o fluxo de concessões previdenciárias.
13. Projeção futura da Previdência
Despesa do RGPS em 2025: 8,1% do PIB
Projeção da IFI para 2030: 9,1% do PIB
Conclusão: mesmo após a reforma previdenciária de 2019, a despesa do RGPS segue como uma das principais pressões estruturais sobre o orçamento federal.
14. Riscos fiscais
Riscos fiscais listados no PLDO 2027: impactos potenciais equivalentes a 37,9% do PIB em 2025
Riscos primários: R$ 3,149 trilhões, equivalentes a 24,7% do PIB
Demandas judiciais: R$ 2,273 trilhões, equivalentes a 17,8% do PIB
Principais fontes de risco:
- Demandas judiciais
- Precatórios
- Frustração de receitas
- Empresas estatais federais
- Inadimplência de estados, municípios, empresas e pessoas físicas com dívidas perante a União
- Divergências nas projeções de PIB, inflação e massa salarial
15. Empresas estatais
Risco destacado: empresas estatais federais podem demandar aportes emergenciais ou compensação de metas nos próximos exercícios.
Caso mencionado: os Correios aparecem como ponto de atenção em razão de risco fiscal classificado como provável no relatório.
16. Dívida pública
Cenário do PLDO 2027: estabilização e redução da dívida bruta em proporção do PIB a partir de 2030.
Avaliação da IFI: essa trajetória depende de premissas favoráveis de crescimento econômico, arrecadação, juros, inflação e controle da despesa primária.
Ponto central: a IFI recomenda cautela porque a redução projetada da dívida está condicionada a um cenário macroeconômico mais otimista que o estimado pela própria instituição.








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