Pesquisadoras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), campus de Jequié, divulgaram estudo, neste início de maio de 2026, que alerta para o avanço das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) e para o crescimento da resistência bacteriana em hospitais. A pesquisa, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde, aponta que microrganismos resistentes a antibióticos, conhecidos como superbactérias, ampliam o risco de morte, prolongam internações e elevam os custos dos sistemas de saúde no Brasil e no mundo. O trabalho foi conduzido pela pesquisadora Karla Rodrigues, sob orientação da professora Gisele Lemos, e analisou publicações científicas entre 2019 e 2024, além de dados hospitalares de 1.601 pacientes e mais de 2.300 amostras de culturas em um hospital público do Nordeste brasileiro.
Estudo da Uesb aponta avanço das infecções hospitalares e resistência bacteriana
As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde representam um dos principais desafios contemporâneos da saúde pública. Elas podem ocorrer durante internações, procedimentos clínicos, uso de dispositivos invasivos ou permanência prolongada em unidades hospitalares, especialmente em ambientes de maior complexidade, como as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).
Segundo o estudo desenvolvido na Uesb, o problema tornou-se mais grave com o aumento da resistência bacteriana, fenômeno em que os antibióticos disponíveis deixam de ser eficazes contra determinados microrganismos. Esse processo compromete tratamentos antes considerados seguros e amplia o risco de complicações clínicas.
A pesquisa chama atenção para o impacto humano e econômico das superbactérias. A estimativa apresentada no estudo indica que, até 2050, aproximadamente 3,5 milhões de mortes por ano poderão ser atribuídas a essas infecções. O número é 4,4 vezes superior às mortes globais por HIV/AIDS e doenças sexualmente transmissíveis registradas em 2021.
Mortalidade é maior entre pacientes infectados por microrganismos resistentes
O levantamento aponta que a mortalidade entre pacientes infectados por microrganismos resistentes é duas a três vezes maior do que entre aqueles acometidos por microrganismos sensíveis aos antibióticos. Essa diferença evidencia a gravidade do avanço das superbactérias no ambiente hospitalar.
Além do risco direto à vida, as infecções resistentes ampliam o tempo de internação, exigem tratamentos mais complexos e pressionam financeiramente os serviços de saúde. Em sistemas públicos, esse cenário tem efeitos ainda mais sensíveis, pois aumenta a demanda por leitos, medicamentos, equipes especializadas e protocolos de vigilância.
O estudo também indica que o uso excessivo de antibióticos durante a pandemia de Covid-19 contribuiu para acelerar o surgimento de bactérias resistentes. A utilização ampliada desses medicamentos, muitas vezes em contextos de emergência sanitária, reforçou um problema já conhecido pela comunidade científica: o uso inadequado de antimicrobianos favorece a seleção de microrganismos mais difíceis de combater.
Levantamento analisou 1.601 pacientes e mais de 2.300 amostras
Para dimensionar a gravidade do problema, a pesquisadora Karla Rodrigues realizou uma revisão da produção científica publicada entre 2019 e 2024 sobre infecções relacionadas à assistência à saúde, resistência antimicrobiana e uso de antibióticos.
Além da análise bibliográfica, o estudo incluiu uma investigação prática em um hospital público do Nordeste brasileiro. Foram avaliados 1.601 pacientes e mais de 2.300 amostras de culturas, o que permitiu identificar os principais tipos de infecção, os agentes bacterianos envolvidos e os fatores associados a piores desfechos clínicos.
A principal infecção identificada foi a pneumonia associada à ventilação mecânica, responsável por mais de um terço dos casos analisados. Esse tipo de infecção ocorre em pacientes submetidos a suporte respiratório invasivo e costuma estar relacionado à maior vulnerabilidade clínica, tempo prolongado de internação e necessidade de cuidados intensivos.
Pseudomonas aeruginosa aparece como principal agente identificado
Entre os microrganismos observados, a bactéria Pseudomonas aeruginosa foi apontada como o principal agente envolvido nas infecções analisadas. A espécie é conhecida pela elevada capacidade de resistência a múltiplos antibióticos, o que dificulta o tratamento e aumenta os riscos para pacientes hospitalizados.
A presença desse agente em ambientes hospitalares exige atenção redobrada das equipes de saúde. A bactéria pode estar associada a infecções respiratórias, infecções da corrente sanguínea e outros quadros graves, especialmente em pacientes imunossuprimidos, idosos ou submetidos a procedimentos invasivos.
O estudo reforça que o controle dessas infecções depende de protocolos rigorosos de prevenção, monitoramento microbiológico, vigilância epidemiológica e uso racional de antimicrobianos. A ausência de medidas efetivas tende a ampliar a circulação de bactérias resistentes dentro das unidades de saúde.
Idade avançada, UTI e infecções sanguíneas ampliam risco de morte
A análise realizada pelas pesquisadoras também identificou fatores diretamente ligados a piores desfechos clínicos. Entre eles estão idade avançada, internação em UTI, presença de pneumonia associada à ventilação mecânica e infecções da corrente sanguínea.
De acordo com o estudo, esses fatores se configuram como determinantes independentes para o aumento do risco de morte hospitalar. Isso significa que, mesmo considerados isoladamente, eles contribuem de forma relevante para agravar o quadro dos pacientes acometidos por infecções relacionadas à assistência à saúde.
A constatação reforça a necessidade de protocolos específicos para grupos mais vulneráveis. Pacientes idosos, internados em terapia intensiva ou submetidos a procedimentos invasivos exigem acompanhamento permanente, aplicação rigorosa de medidas de segurança e respostas clínicas rápidas diante de sinais de infecção.
Pesquisa defende prevenção, higiene das mãos e uso racional de antibióticos
Mais do que apresentar dados epidemiológicos, o estudo da Uesb propõe caminhos para qualificar a assistência hospitalar. As pesquisadoras defendem que o enfrentamento das superbactérias passa por prevenção, higiene das mãos, vigilância ativa, uso racional de antibióticos e fortalecimento das equipes responsáveis pelo controle de infecções.
A professora Gisele Lemos afirma que o modelo atual de controle de infecções no Brasil ainda é insuficiente diante da dimensão do problema. Para ela, a alta resistência microbiana, o aumento dos custos assistenciais, o prolongamento das internações e a baixa adesão a práticas de segurança demonstram limites estruturais, culturais e regulatórios.
“Altas taxas de resistência microbiana, aumento expressivo de custos assistenciais, prolongamento do tempo de internação e baixa conformidade às práticas de segurança do paciente evidenciam limites estruturais, culturais e regulatórios”, afirmou a professora.
Equipes especializadas são apontadas como necessárias para conter o problema
A pesquisa sustenta que hospitais precisam investir em equipes especializadas para gerenciar o uso de antibióticos. Esse tipo de estratégia, conhecido internacionalmente como gestão de antimicrobianos, busca reduzir prescrições desnecessárias, adequar tratamentos ao perfil microbiológico dos pacientes e preservar a eficácia dos medicamentos disponíveis.
Na avaliação das pesquisadoras, a sustentabilidade do sistema de saúde depende da adoção de medidas permanentes, e não apenas de respostas pontuais em momentos de crise. A resistência bacteriana avança de forma silenciosa, mas seus efeitos são diretos sobre pacientes, profissionais de saúde, hospitais e gestores públicos.
Para Karla Rodrigues, a produção científica deve gerar impacto concreto na rotina hospitalar. “Compreender as infecções, a resistência e o uso de antimicrobianos não é apenas produzir dados, mas assumir a responsabilidade de transformar a assistência em cuidado mais seguro, racional e humano”, declarou.
Segurança do paciente exige mudança de cultura hospitalar
O estudo também aponta para um desafio de natureza institucional. O enfrentamento das infecções hospitalares não depende apenas de tecnologia, medicamentos ou protocolos escritos, mas de uma cultura permanente de segurança do paciente.
Isso envolve treinamento das equipes, fiscalização interna, abastecimento adequado de insumos, monitoramento contínuo de indicadores e compromisso das gestões hospitalares com a prevenção. Sem esse conjunto de medidas, a tendência é que as infecções resistentes continuem impondo custos humanos e financeiros crescentes.
A pesquisa da Uesb insere a universidade pública em um debate estratégico para a saúde brasileira. Ao analisar dados científicos e hospitalares, o estudo contribui para orientar políticas de prevenção, qualificar práticas assistenciais e fortalecer a tomada de decisão baseada em evidências.








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