Recuperação judicial no agronegócio bate recorde e expõe pressão de juros, crédito e margens no campo neste início de maio de 2026

A crise financeira no agronegócio brasileiro ganhou novos contornos nos primeiros quatro meses de 2026, com a divulgação de dados que confirmam o avanço da recuperação judicial no campo, a persistência dos juros elevados e a compressão das margens agrícolas. Levantamento da Serasa Experian divulgado em março de 2026 mostra que o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4% em relação aos 1.272 pedidos de 2024, maior volume da série histórica iniciada em 2021. O cenário ocorre em meio à Selic de 14,5% ao ano, à restrição de crédito, à instabilidade nos preços das commodities e à necessidade de maior transparência nos processos envolvendo produtores rurais.

Pedidos de recuperação judicial atingem maior nível da série histórica

Os dados da Serasa Experian indicam uma escalada expressiva da judicialização das dívidas no agronegócio. Em 2023, o setor havia registrado 534 pedidos de recuperação judicial; em 2024, o número subiu para 1.272; e, em 2025, alcançou 1.990 solicitações. A sequência revela que o problema deixou de ser pontual e passou a expressar uma deterioração mais ampla da capacidade de pagamento de produtores e empresas ligadas à cadeia agropecuária.

A maior parte dos pedidos partiu de produtores rurais pessoa física, que somaram 853 solicitações em 2025, contra 566 em 2024, avanço de 50,7%. Já os produtores rurais pessoa jurídica apresentaram o crescimento mais intenso: foram 753 pedidos em 2025, ante 409 no ano anterior, alta de 84,1%. As empresas ligadas ao agronegócio registraram 384 pedidos, crescimento de 29,3% sobre os 297 casos de 2024.

A distribuição territorial também revela concentração em grandes polos agrícolas. Mato Grosso liderou o ranking, com 332 pedidos em 2025, seguido por Goiás, com 296; Paraná, com 248; Mato Grosso do Sul, com 216; e Minas Gerais, com 196. A presença desses estados no topo da lista reforça que a crise atinge regiões centrais da produção nacional de grãos, proteínas e cadeias integradas de exportação.

Juros elevados mantêm pressão sobre o crédito rural

O custo financeiro permanece como um dos principais fatores de pressão sobre o produtor rural. Em 29 de abril de 2026, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14,5% ao ano, após corte de 0,25 ponto percentual. Apesar da redução, a taxa segue em patamar elevado, especialmente para um setor que depende de financiamento recorrente para custeio, investimento, armazenagem e comercialização.

Entre junho de 2025 e março de 2026, a Selic permaneceu em 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas, segundo a Agência Brasil. Mesmo com o início do ciclo de cortes, o Banco Central manteve tom cauteloso diante da inflação, das tensões internacionais e dos efeitos sobre combustíveis e alimentos. Esse ambiente limita a velocidade de redução dos juros e mantém o crédito caro para empresas e produtores.

Para o agronegócio, o efeito é direto. Juros elevados encarecem o financiamento de safra, aumentam o custo de rolagem das dívidas e reduzem a capacidade de investimento em tecnologia, irrigação, armazenagem e renovação de maquinário. Em propriedades já alavancadas, a combinação entre receita instável e despesa financeira crescente acelera a busca por renegociação ou proteção judicial.

Safra recorde não elimina fragilidade financeira dos produtores

Os indicadores de produção mostram um contraste relevante: o país pode colher safra elevada, mas parte dos produtores continua pressionada financeiramente. Em abril de 2026, a Conab estimou a produção brasileira de grãos da safra 2025/2026 em 356,3 milhões de toneladas, volume 4,1 milhões de toneladas superior ao ciclo 2024/2025 e 2,9 milhões de toneladas acima da estimativa divulgada no levantamento anterior.

A área semeada foi projetada em 83,3 milhões de hectares, crescimento de 2%, enquanto a produtividade média nacional foi estimada em 4.276 quilos por hectare. Embora represente recuo de 0,8% em relação ao ciclo anterior, esse desempenho é o segundo melhor da série histórica da Conab.

A soja segue como eixo central da safra. A Conab projetou produção recorde de 179,2 milhões de toneladas, com produtividade média nacional estimada em 3.696 quilos por hectare, a melhor já registrada para a oleaginosa. Até a divulgação do levantamento, a colheita havia alcançado 85,7% da área, favorecida pela redução das chuvas em março.

Soja concentra tensão entre produção alta e margem comprimida

A soja ilustra o paradoxo do momento: produção elevada não significa, necessariamente, rentabilidade preservada. Estudo da CNA em parceria com o Cepea, no âmbito do Projeto Campo Futuro, estimou queda de 47,6% na margem bruta da soja na safra 2025/2026 para produtores em terra própria. A margem projetada passou de R$ 2.325,50 por hectare em 2024/2025 para R$ 1.219,60 por hectare em 2025/2026, perda equivalente a aproximadamente 10,3 sacas por hectare.

O quadro é mais severo para produtores que trabalham com áreas arrendadas. Nesses casos, a margem bruta projetada pela CNA/Cepea se torna negativa, em -R$ 229,50 por hectare, com retração de R$ 752,40 por hectare em relação à safra anterior. A diferença demonstra que o arrendamento amplia a vulnerabilidade de produtores em regiões onde o custo fixo da terra se soma a fertilizantes, sementes, defensivos, máquinas, frete e juros.

O mesmo estudo aponta que o principal fator de compressão foi a queda projetada de 13,3% no preço médio da soja para março de 2026, enquanto os gastos com fertilizantes subiram 17,7%. Mesmo com redução em defensivos, sementes e operações mecânicas, o orçamento total de custos teve leve alta de 0,4%, suficiente para pressionar a rentabilidade em um ambiente de preços menos favoráveis.

Cotações recentes indicam recuperação limitada no curto prazo

Os dados do Cepea/Esalq mostram que o Indicador da Soja Cepea/Esalq Paranaguá encerrou abril de 2026 em R$ 128,88 por saca de 60 kg e atingiu R$ 129,14 em 4 de maio de 2026, com variação mensal positiva de 0,20% no início de maio. No Indicador Paraná, a cotação chegou a R$ 122,92 por saca em 4 de maio, também com alta mensal de 0,36%.

A recuperação recente, embora relevante, ainda não resolve o problema estrutural das margens. Para produtores que contraíram dívidas em períodos de custos elevados e preços mais voláteis, pequenos ganhos de cotação não compensam integralmente o peso financeiro acumulado nos últimos ciclos.

Esse quadro ajuda a explicar por que a crise de caixa pode coexistir com safra robusta. O produtor pode colher mais, mas receber menos por unidade produzida, enfrentar custos rígidos e ainda carregar passivos contratados em ambiente de juros altos. Essa combinação é especialmente sensível para propriedades com alto endividamento, baixa liquidez e dependência de capital de terceiros.

Milho, arroz, feijão e algodão também compõem cenário de cautela

A Conab estimou a produção total de milho em 139,6 milhões de toneladas na safra 2025/2026, recuo de 1,1% em relação ao ciclo anterior. A primeira safra do cereal deve alcançar 28 milhões de toneladas, enquanto a segunda safra foi projetada em 109,1 milhões de toneladas, queda de 3,6% sobre a temporada 2024/2025.

No arroz, a produção foi estimada em 11,1 milhões de toneladas, queda de 12,9%, atribuída sobretudo à redução de 13,1% na área plantada e a condições climáticas menos favoráveis em algumas lavouras. Para o feijão, a produção total foi projetada em 2,9 milhões de toneladas, retração de 5,2%, mas ainda suficiente para assegurar o abastecimento interno, segundo a Conab.

No algodão, a expectativa é de 3,8 milhões de toneladas de pluma, redução de 5,8%, reflexo da diminuição de 2,1% na área plantada, estimada em 2 milhões de hectares. Esses dados indicam que, embora o agregado da safra seja positivo, há diferenças relevantes entre culturas, regiões e modelos produtivos.

CNJ busca padronizar recuperação judicial de produtores rurais

A expansão dos pedidos levou o Judiciário a buscar maior uniformidade nos processos. Em março de 2026, o Conselho Nacional de Justiça publicou o Provimento nº 216/2026, que trata de procedimentos envolvendo recuperação judicial de produtores rurais. O objetivo é ampliar a transparência, qualificar a análise da viabilidade econômica e reduzir assimetrias de informação entre devedores e credores.

A norma reforça a necessidade de demonstração da atividade rural, da capacidade produtiva, da situação financeira real e da viabilidade do plano de recuperação. Na prática, o produtor passa a enfrentar maior exigência documental e técnica para justificar o pedido de proteção judicial.

O provimento também responde a uma preocupação do mercado de crédito. Sem informações confiáveis sobre ativos, produção, fluxo de caixa, contratos, garantias e safras futuras, credores tendem a restringir financiamentos, elevar exigências ou ampliar provisões de risco. A recuperação judicial, quando mal instruída, pode agravar a percepção de insegurança.

Especialista defende planejamento antes da judicialização

O advogado Claudio Montoro, especialista em recuperação judicial, avalia que o produtor rural enfrenta uma combinação perigosa: custo elevado do crédito, queda no valor das commodities e maior restrição ao financiamento. Segundo ele, esse conjunto compromete diretamente a capacidade de planejamento e execução das safras.

Para Montoro, o Provimento 216 representa avanço ao trazer previsibilidade, mas também exige maior rigor dos produtores. A recuperação judicial deve ser sustentada por informações claras, demonstração de incapacidade de pagamento e viabilidade econômica da atividade. Sem isso, o pedido pode produzir efeito contrário ao pretendido.

O especialista alerta que nem todos os casos são elegíveis. Quando há ativos suficientes ou fluxo de caixa capaz de suportar a dívida, a prioridade deve ser a quitação das obrigações ou a negociação direta com credores. A judicialização deve ser tratada como último recurso, não como estratégia ordinária de gestão financeira.

Principais dados atualizados dos últimos três meses

Recuperação judicial no agronegócio

  • 1.990 pedidos em 2025, maior volume da série histórica da Serasa Experian;
  • Alta de 56,4% sobre 2024;
  • 853 pedidos de produtores rurais pessoa física;
  • 753 pedidos de produtores rurais pessoa jurídica;
  • 384 pedidos de empresas ligadas ao agronegócio;
  • Mato Grosso liderou o ranking estadual, com 332 pedidos.

Crédito e juros

  • Selic reduzida para 14,5% ao ano em 29 de abril de 2026;
  • Taxa permaneceu em 15% ao ano de junho de 2025 a março de 2026;
  • Juros ainda elevados mantêm pressão sobre rolagem de dívidas e financiamento de safra.

Safra 2025/2026

  • Produção total de grãos estimada em 356,3 milhões de toneladas;
  • Área semeada de 83,3 milhões de hectares;
  • Soja projetada em 179,2 milhões de toneladas;
  • Milho estimado em 139,6 milhões de toneladas;
  • Arroz projetado em 11,1 milhões de toneladas;
  • Feijão estimado em 2,9 milhões de toneladas.

Margens da soja

  • Margem bruta em terra própria pode cair 47,6%;
  • Margem estimada passa de R$ 2.325,50/ha para R$ 1.219,60/ha;
  • Em áreas arrendadas, margem projetada fica negativa em -R$ 229,50/ha;
  • Fertilizantes subiram 17,7% no cálculo da CNA/Cepea.

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