Na terça-feira (02/06/2026), em Feira de Santana, o empresário Luiz Henrique Mercês Santos Junior, presidente da CDL Jovem, presidente da Associação de Lojistas do Boulevard Feira e diretor comercial do Grupo Mersan, concedeu entrevista a Carlos Augusto, editor do Jornal Grande Bahia, e avaliou temas estruturais para o comércio local, entre eles a requalificação do Centro, a implantação da Zona Azul, a necessidade de urbanização mais qualificada, a pressão do custo Brasil, a concorrência internacional e os efeitos da carga tributária sobre empresas e consumidores.
Centro de Feira de Santana concentra desafios urbanos e comerciais
A entrevista abordou a relação entre comércio, ambiente urbano e planejamento público. Carlos Augusto questionou a atuação das entidades empresariais diante de problemas históricos no Centro de Feira de Santana, como ocupação irregular de calçadas, praças e vias públicas, além da ausência de intervenções mais robustas em infraestrutura urbana.
Luiz Mercês Júnior discordou da avaliação de que as entidades empresariais tenham se omitido. Segundo ele, desde a infância acompanha o pai em reuniões do setor e sempre viu temas como ordenamento urbano, mobilidade e requalificação do Centro presentes na pauta empresarial.
O empresário afirmou que as entidades podem cobrar, pressionar e sugerir, mas dependem da execução do poder público. Para ele, houve diálogo institucional em diferentes momentos, ainda que nem todas as propostas tenham sido executadas na velocidade ou na profundidade necessárias.
Entrevistado defende continuidade do Projeto Centro
Carlos Augusto — O Jornal Grande Bahia acompanha há anos a discussão sobre requalificação urbana em Feira de Santana. Como o senhor avalia o papel das entidades empresariais nesse debate?
Luiz Mercês Júnior — Eu não concordo que as entidades tenham se omitido. Nos anos mais recentes, sempre houve cobrança, pressão e sugestões. A gente, como entidade, pode cobrar, pode pressionar, pode sugerir. Houve audiências, reuniões e embates com governantes de várias épocas. Esse trabalho de bastidores nunca deixou de ser feito.
Mercês Júnior citou o Projeto Centro como exemplo de pauta construída com diálogo entre poder público e entidades empresariais. Ele lembrou que, à época da implementação, houve atuação do então secretário Antônio Carlos Borges Júnior, a quem atribuiu papel relevante na condução das ações.
Apesar de reconhecer avanços, o empresário avaliou que o projeto ficou incompleto. Ele citou a permanência de estruturas irregulares em determinadas áreas, como trechos próximos à Marechal Deodoro e ao Arquivo Municipal, e afirmou que a cidade precisa enfrentar o tema com mais clareza.
Ocupação irregular e função do espaço público
Carlos Augusto — Há espaços ocupados de forma irregular no Centro, inclusive em áreas públicas. Como o senhor vê essa situação?
Luiz Mercês Júnior — Eu sou meio radical quanto a essas coisas. Acho que o certo é certo, e o errado é errado. Se o espaço é público, é para as pessoas passarem. Tem que tirar. Se há um problema social, ele precisa ser resolvido de outra forma.
O empresário afirmou que a remoção de ocupações irregulares deve estar associada a soluções urbanas e sociais adequadas. Ele mencionou a experiência do shopping popular como uma tentativa de organizar parte do comércio informal, mas avaliou que o equipamento deveria ter sido concebido e administrado como um centro comercial de fato.
Na visão de Mercês Júnior, não basta retirar barracas ou desobstruir vias. A requalificação do Centro precisa incluir urbanização, áreas verdes, conforto para pedestres, melhoria estética, segurança, iluminação e atratividade comercial.
Zona Azul é vista como medida positiva para o comércio
Carlos Augusto — Como o senhor avalia a implantação da Zona Azul em Feira de Santana?
Luiz Mercês Júnior — Eu sou totalmente a favor da Zona Azul. É uma coisa que as entidades pediam muito à Prefeitura há muito tempo. Acho que a Prefeitura está de parabéns por implementar a Zona Azul. Não posso dizer se é o projeto ideal, porque não conheço a totalidade do projeto, mas sou favorável à medida.
Para o empresário, a Zona Azul pode contribuir para aumentar a rotatividade de vagas no Centro, facilitar o acesso de consumidores às lojas e reduzir a permanência prolongada de veículos em áreas estratégicas. A medida, segundo ele, pode favorecer o comércio desde que seja bem executada.
Mercês Júnior ponderou que a Zona Azul, isoladamente, não resolve todos os problemas do Centro. A política de estacionamento precisa estar integrada a uma agenda mais ampla de mobilidade, transporte público, ordenamento urbano e requalificação dos espaços comerciais.
Centro administrativo pode ampliar fluxo no comércio tradicional
Durante a entrevista, Carlos Augusto mencionou propostas de requalificação urbana, incluindo a criação de um centro administrativo em área central, reordenação de praças e calçadas, ciclovias e modernização da infraestrutura urbana.
Mercês Júnior avaliou positivamente a ideia de concentrar serviços públicos municipais no Centro. Para ele, um centro administrativo nessa região facilitaria o acesso do cidadão aos serviços da Prefeitura e ampliaria o fluxo de pessoas no comércio tradicional.
O empresário afirmou que a presença de equipamentos públicos bem planejados pode fortalecer a vitalidade econômica do Centro, reduzindo a dispersão de serviços e gerando movimento cotidiano para lojistas, prestadores de serviço e consumidores.
Infraestrutura subterrânea e estacionamento por PPP entram no debate
A entrevista também tratou de soluções urbanas adotadas em outras cidades do mundo, como redes subterrâneas de energia, dados, coleta de resíduos e estacionamentos subterrâneos em áreas centrais.
Carlos Augusto citou experiências internacionais em cidades como Paris, Roma, Frankfurt e Genebra, além da possibilidade de implantação de estacionamento subterrâneo na Praça Bernardino Bahia por meio de parceria público-privada.
Luiz Mercês Júnior considerou a proposta interessante e afirmou que a Prefeitura não precisaria necessariamente financiar diretamente esse tipo de equipamento. Segundo ele, uma parceria com a iniciativa privada poderia viabilizar a obra, permitir exploração econômica regulada e oferecer solução para parte do déficit de estacionamento.
Custo Brasil reduz competitividade das empresas
Carlos Augusto — Como o senhor avalia o impacto da burocracia, da carga tributária e do custo operacional sobre o comércio?
Luiz Mercês Júnior — O Brasil precisa pensar em simplificação tributária. Vivemos em um modelo muito complexo e confuso, com alta carga tributária, e isso diminui a nossa capacidade de competir com o mundo.
O empresário afirmou que o custo Brasil inclui carga tributária, infraestrutura inadequada, logística cara, transporte oneroso, passagens aéreas elevadas, burocracia e legislação trabalhista que, em sua visão, não favorece suficientemente o crescimento econômico.
Segundo Mercês Júnior, o Brasil possui empresas competitivas, mas opera em ambiente adverso. Para ele, a comparação com países de infraestrutura mais eficiente evidencia desvantagens estruturais que pesam sobre o empresário e, indiretamente, sobre o consumidor.
China é apontada como concorrente estratégica
Carlos Augusto — Como competir com a China, que se tornou centro industrial global e produz com custos muito baixos?
Luiz Mercês Júnior — A China vai dominar o mercado do mundo que decidir dominar. Uma empresa brasileira não compete apenas com uma empresa chinesa; ela compete com a decisão governamental da China de dominar determinado segmento. Vemos isso no setor automobilístico.
Na avaliação do empresário, a concorrência chinesa não pode ser compreendida apenas como disputa entre empresas privadas. Ele argumentou que há planejamento estatal, escala produtiva e estratégia industrial capazes de colocar empresas brasileiras em posição desigual.
Mercês Júnior afirmou que o Brasil precisa reduzir seus próprios entraves para não competir em desvantagem extrema. Para ele, o país tem mercado interno relevante e empresas de qualidade, mas carece de ambiente econômico mais eficiente.
Endividamento das famílias afeta empresas e salários
O entrevistado relacionou o desempenho do comércio à renda das famílias. Segundo ele, empresas e trabalhadores enfrentam dificuldade semelhante: ambos não conseguiram recompor plenamente seus ganhos diante da elevação dos custos.
Mercês Júnior afirmou que, quando a população está endividada e com baixo poder de compra, as empresas perdem capacidade de reajustar preços. Ao mesmo tempo, enfrentam aumento de custos e redução de margens. Com menor resultado financeiro, têm menos condições de elevar salários.
Para o empresário, esse processo forma um ciclo negativo: o trabalhador consome menos, as empresas faturam menos, a margem empresarial diminui, os salários não avançam e o consumo permanece retraído.
Tributação de importados deve observar isonomia
Carlos Augusto — Qual é sua posição sobre a tributação de produtos importados, inclusive no debate conhecido como taxa das blusinhas?
Luiz Mercês Júnior — Ninguém é a favor de cobrar imposto. Porém, se o governo entende que compras de até 50 dólares devem ser isentas para produtos vindos da China, então deveria isentar também as empresas que produzem e vendem dentro do Brasil. Se uma empresa brasileira, que gera emprego, paga imposto, e o produto de fora não paga, há uma disparidade.
O empresário defendeu que a política tributária precisa observar equilíbrio competitivo entre produtos importados e empresas instaladas no Brasil. Para ele, a discussão não deve ser reduzida à defesa ou rejeição de imposto, mas ao princípio de isonomia entre quem vende no mercado nacional.
Na avaliação de Mercês Júnior, se o comércio brasileiro é submetido a tributação, obrigações trabalhistas, custos logísticos e burocracia, a entrada de produtos estrangeiros em condições tributárias mais vantajosas provoca desequilíbrio econômico e prejudica empresas locais.
Comércio formal, novas formas de trabalho e economia de aplicativos
A entrevista também abordou as transformações no mundo do trabalho, incluindo a expansão de profissionais vinculados a aplicativos de transporte, entregas e serviços. Carlos Augusto questionou se esse novo contingente de microempreendedores poderia ser incorporado ao debate associativo.
Embora a CDL tenha origem vinculada ao setor lojista, o tema sugere uma ampliação do debate sobre representação empresarial. A economia contemporânea combina comércio formal, franquias, varejo físico, e-commerce, serviços, plataformas digitais e microempreendedorismo.
Nesse cenário, o desafio das entidades empresariais é compreender que o ambiente econômico local já não se limita ao modelo tradicional de loja. A defesa do comércio passa também por logística urbana, circulação de trabalhadores, infraestrutura digital, tributação justa e integração entre diferentes formatos de atividade econômica.
A segunda parte da entrevista expõe a dimensão mais estrutural dos desafios do comércio de Feira de Santana. A renovação empresarial, tratada na primeira publicação, só ganha efetividade se estiver associada a uma cidade funcional, com Centro ordenado, mobilidade eficiente, infraestrutura adequada e ambiente de negócios previsível.
A defesa da Zona Azul, do centro administrativo e de soluções como estacionamentos subterrâneos por parceria público-privada indica que o debate comercial não pode ficar restrito às campanhas promocionais. O varejo depende de fluxo, acessibilidade, segurança, limpeza, conforto urbano e capacidade de planejamento. Sem esses elementos, a tradição comercial da cidade perde competitividade diante de shoppings, bairros comerciais descentralizados e plataformas digitais.
No plano econômico, a crítica ao custo Brasil e à concorrência internacional revela preocupação legítima do setor produtivo. A defesa de isonomia tributária entre importados e empresas nacionais toca em ponto sensível: não há comércio local forte quando a política pública amplia desequilíbrios competitivos. O desafio é compatibilizar defesa do consumidor, abertura de mercado, arrecadação pública e preservação das empresas que geram emprego no território brasileiro.
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