‘A Odisseia’: como o épico de Homero moldou o Ocidente e se renova há quase 3 mil anos | Por Carlos Augusto

Na quinta-feira (16/07/2026), quando uma nova adaptação cinematográfica de “A Odisseia”, dirigida por Christopher Nolan, chega aos cinemas brasileiros, o interesse mundial volta-se para uma obra composta entre o final do século VIII e o início do século VII a.C.. Escrita em grego homérico e formada a partir de uma tradição oral ainda mais antiga, a epopeia atribuída a Homero atravessou a educação grega, a literatura romana, a cultura cristã medieval, o Renascimento, o romance moderno, a poesia pós-colonial, o teatro, a televisão e o cinema. Sua permanência não resulta apenas das aventuras de Odisseu, mas da capacidade de cada geração de reinterpretar temas como ausência, desejo, fidelidade, violência, pertencimento e reconstrução da vida depois da guerra.

Uma obra formada antes da cultura do livro

O título original do poema é Ὀδύσσεια — Odýsseia. A palavra está associada ao nome grego do protagonista, Ὀδυσσεύς — Odysseús, posteriormente latinizado como Ulisses. Em sentido amplo, o título pode ser compreendido como “a história de Odisseu” ou “a viagem de Odisseu”.

A obra não nasceu como um livro produzido por um autor sentado diante de um manuscrito, conforme a concepção moderna de criação literária. A “Odisseia” surgiu de uma cultura essencialmente oral, na qual cantores conhecidos como aedos compunham e apresentavam narrativas épicas diante de comunidades, cortes aristocráticas e celebrações religiosas.

Esses poemas eram preservados por meio de estruturas métricas, repetições, cenas recorrentes, genealogias, fórmulas narrativas e epítetos. Expressões como “Atena de olhos brilhantes”, “o mar cor de vinho” e “a aurora de róseos dedos” não constituíam simples ornamentação: auxiliavam o poeta a organizar a narrativa durante a apresentação e permitiam ao público reconhecer personagens, situações e transições.

A questão da autoria de Homero

A tradição antiga atribuiu a “Ilíada” e a “Odisseia” a Homero, poeta sobre o qual praticamente não existem dados biográficos seguros. Diferentes cidades gregas reivindicaram seu nascimento, enquanto a própria representação de Homero como poeta cego foi construída posteriormente.

A pesquisa moderna modificou a compreensão sobre essa autoria. Os estudos da tradição oral demonstraram que os poemas homéricos preservam materiais produzidos e transmitidos por sucessivas gerações de cantores. Isso não impede a possibilidade de um poeta de excepcional capacidade ter organizado versões decisivas das obras, mas enfraquece a ideia de que todos os versos tenham surgido exclusivamente da criação individual de um autor nos moldes contemporâneos.

Por essa razão, a expressão “Homero” pode designar tanto uma figura histórica possível quanto o ponto de convergência de uma extensa tradição coletiva. A questão permanece aberta quanto ao grau exato de participação de um poeta individual na composição final, embora o caráter oral e tradicional da linguagem homérica seja amplamente reconhecido pelos estudos clássicos.

Do canto oral à fixação escrita

A composição da “Odisseia” costuma ser situada entre o final do século VIII e o começo do século VII a.C., período em que o uso do alfabeto grego se expandia. A obra encontra-se, portanto, numa zona de transição entre a oralidade e a escrita.

Uma hipótese recorrente sustenta que versões mais estáveis dos poemas passaram a circular por escrito durante o século VI a.C., possivelmente em conexão com recitações realizadas nas Panateneias, festividades religiosas e cívicas de Atenas. Ainda assim, não existe um manuscrito original de Homero nem uma cópia contemporânea à composição da obra.

O texto hoje conhecido resultou de um longo processo de transmissão. Papirus antigos conservam fragmentos da epopeia, enquanto manuscritos bizantinos medievais preservaram versões extensas do poema. Os testemunhos mais antigos não são idênticos em todos os detalhes, o que obrigou filólogos a comparar variantes, correções e comentários produzidos ao longo dos séculos.

As edições contemporâneas em grego são, portanto, trabalhos críticos. Especialistas examinam papirus, manuscritos, citações antigas e anotações de estudiosos para reconstruir, com o maior rigor possível, o texto transmitido desde a Antiguidade. A “Odisseia” disponível atualmente resulta dessa cadeia de memória oral, registro escrito, cópia manual, preservação bizantina, impressão e crítica filológica.

O grego homérico e a musicalidade da epopeia

A “Odisseia” foi composta em grego homérico, uma linguagem poética que não corresponde integralmente ao idioma cotidiano de uma única cidade ou período. Trata-se de uma língua literária formada principalmente por elementos jônicos, combinados com formas eólicas, arcaísmos e características preservadas por exigências métricas e tradicionais.

A existência dessa linguagem própria permitia ao poeta escolher entre diferentes formas de uma palavra para acomodá-la ao ritmo do verso. O resultado era uma espécie de idioma épico reconhecível pelos ouvintes, mas distinto da conversação comum.

A obra foi composta em hexâmetro datílico, verso formado por seis unidades métricas e característico da poesia épica grega. Esse sistema oferecia regularidade suficiente para sustentar a memória e, ao mesmo tempo, permitia variações de velocidade, pausa e intensidade.

A divisão atualmente conhecida contém 24 cantos ou livros e mais de 12 mil versos. Essa organização favorece uma narrativa ampla, mas estruturada por episódios que também podem circular de maneira relativamente independente, como as histórias do Ciclope, de Circe, das sereias e da descida ao mundo dos mortos.

O primeiro verso e o homem de muitos caminhos

A abertura da epopeia estabelece imediatamente o caráter do protagonista:

“Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον”

Uma tradução possível seria: “Fala-me, Musa, do homem de muitos caminhos.” A passagem pode também ser traduzida como “o homem astuto”, “o homem versátil”, “o homem de muitos recursos” ou “o homem muito viajado”. A variedade de opções concentra-se na palavra grega πολύτροπον — polýtropon.

Esse termo define Odisseu como personagem capaz de mudar de estratégia, linguagem, aparência e identidade diante das circunstâncias. Ele não é o guerreiro mais forte do mundo homérico. Sua principal qualidade é a capacidade de observar, argumentar, ocultar intenções, criar histórias e adaptar-se.

A ambiguidade da palavra também acompanha toda a obra. A inteligência de Odisseu pode ser considerada prudência ou fraude; sua versatilidade pode ser entendida como capacidade política ou falta de sinceridade; suas histórias podem ser relatos verdadeiros ou instrumentos de manipulação. Essa indeterminação constitui uma das razões para a sobrevivência do personagem.

Uma narrativa que começa quando a guerra terminou

A “Odisseia” não narra integralmente a Guerra de Troia. O conflito já terminou quando a ação principal se inicia. Odisseu, rei de Ítaca, combateu durante dez anos e passou outros dez tentando regressar ao reino onde permanecem sua esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco.

O poema começa quando o herói está retido na ilha da ninfa Calipso. Em Ítaca, sua ausência produziu uma crise doméstica e política. Dezenas de pretendentes ocupam o palácio, consomem os bens da casa e pressionam Penélope a escolher um novo marido, decisão que também definiria o controle do reino.

Os quatro primeiros cantos acompanham principalmente Telêmaco. Essa parte, tradicionalmente chamada de Telemaquia, mostra o jovem procurando informações sobre o pai e tentando adquirir autoridade diante dos pretendentes. O herói central permanece ausente, mas sua ausência determina o comportamento de todos os demais personagens.

Depois de abandonar a ilha de Calipso, Odisseu chega ao território dos feácios. Somente então, durante um banquete, passa a narrar em primeira pessoa parte de suas aventuras anteriores. A estrutura transforma o protagonista simultaneamente em personagem e contador da própria história.

Nos cantos finais, ele retorna disfarçado a Ítaca, avalia quem permaneceu leal, reencontra Telêmaco, planeja a morte dos pretendentes e procura restabelecer sua posição familiar e política. A viagem marítima, portanto, ocupa apenas uma parte da obra. O verdadeiro desfecho depende do reconhecimento, da vingança, da reorganização da casa e da recuperação da identidade.

Os conceitos que sustentam a obra

Nóstos: o retorno que não devolve o passado

A palavra grega νόστος — nóstos significa retorno ao lar e também designava as narrativas sobre os guerreiros que regressavam da Guerra de Troia. O objetivo declarado de Odisseu é voltar a Ítaca, mas o retorno não consiste apenas em alcançar um ponto geográfico.

O protagonista precisa recuperar seu nome, seu casamento, sua autoridade, seu patrimônio e sua condição de pai. Depois de 20 anos, ele não pode simplesmente retomar a existência interrompida. O lar permaneceu em seu imaginário como promessa de estabilidade, mas mudou durante sua ausência.

A epopeia formula, assim, uma questão que atravessaria a história: é possível voltar verdadeiramente para casa depois de uma guerra, de um exílio ou de uma transformação pessoal profunda?

Mêtis: inteligência, astúcia e dissimulação

Outra ideia central é a μῆτις — mêtis, forma de inteligência prática associada à prudência, ao cálculo, à improvisação e à astúcia. Odisseu sobrevive não apenas por força física, mas porque compreende as fraquezas dos adversários e altera seu comportamento conforme a situação.

Diante do Ciclope Polifemo, apresenta-se com o nome de “Ninguém”, permitindo que o monstro, depois de ferido, diga aos demais que “ninguém” o atacava. Em Ítaca, assume a aparência de mendigo para observar inimigos e aliados antes de revelar sua identidade.

A obra não oferece, entretanto, uma celebração simples da esperteza. Muitas decisões de Odisseu produzem sofrimento. Ao revelar seu verdadeiro nome ao Ciclope, movido pelo orgulho, ele provoca a ira de Poseidon e prolonga a própria viagem. A inteligência sem contenção pode transformar-se em vaidade.

Xenía: hospitalidade, civilização e abuso

A ξενία — xenía corresponde ao conjunto de obrigações entre anfitriões e estrangeiros. Em um mundo no qual viajar envolvia riscos extremos, receber adequadamente um desconhecido era uma regra religiosa, política e social.

A “Odisseia” avalia diferentes sociedades pela forma como tratam o visitante. Os feácios acolhem, alimentam e transportam Odisseu. Polifemo viola a hospitalidade ao aprisionar e devorar os estrangeiros. Os pretendentes também desrespeitam a xenía ao converter a condição de hóspedes em ocupação prolongada e destruição do patrimônio.

O tratamento dispensado ao estrangeiro funciona como medida de civilização. Essa dimensão conserva atualidade em sociedades confrontadas por guerras, deslocamentos populacionais, refugiados e disputas sobre fronteiras.

Penélope, Telêmaco e as vozes além do herói

Embora o título concentre a narrativa em Odisseu, a epopeia apresenta um conjunto de personagens que sustentam ou questionam seu retorno. Penélope não é apenas a esposa que espera. Ela administra o palácio em condições adversas, enfrenta pressões políticas e utiliza a inteligência para adiar o casamento.

Sua estratégia mais conhecida consiste em prometer que escolherá um pretendente depois de concluir uma mortalha para Laertes, pai de Odisseu. Durante o dia, ela tece; à noite, desfaz secretamente o trabalho realizado. Como o marido, Penélope utiliza linguagem, dissimulação e controle do tempo.

Telêmaco representa a geração criada sob os efeitos da guerra. Ele praticamente não conheceu o pai e precisa construir sua identidade a partir de relatos, memórias e expectativas sociais. Seu amadurecimento político e familiar constitui uma das linhas centrais do poema.

Atena, Calipso, Circe, Nausícaa, Euricleia e as servas do palácio também ocupam posições decisivas. A presença dessas mulheres permitiu que escritoras e pesquisadores contemporâneos reexaminassem a narrativa a partir de perspectivas que não recebem a palavra principal no poema.

Como a ‘Odisseia’ ajudou a formar a cultura ocidental

A influência da obra começou na própria Grécia. Depois de transformados em textos, a “Ilíada” e a “Odisseia” tornaram-se referências da educação. Estudantes aprendiam linguagem, retórica, genealogia, religião, conduta, guerra e política por meio dos poemas homéricos.

Homero não era uma escritura sagrada no sentido estabelecido pelas religiões monoteístas, mas seus poemas exerceram forte influência sobre a maneira como os gregos representavam os deuses, os heróis e a relação entre ação humana e vontade divina.

A influência também alcançou as artes visuais. Cerâmicas gregas representaram episódios como Odisseu diante das sereias, sua fuga da caverna de Polifemo e os encontros com 0,. As imagens demonstram que essas histórias eram reconhecidas pelo público e circulavam para além da recitação poética.

Roma transforma Odisseu em Ulisses

No século III a.C., Lívio Andrônico produziu a “Odusia”, adaptação latina da epopeia. Conservada apenas em fragmentos, a obra é considerada um dos primeiros textos fundamentais da literatura latina e ajudou a introduzir o modelo épico na cultura romana.

O nome Odisseu foi difundido no mundo latino como Ulisses. Mais tarde, Virgílio retomou elementos da viagem homérica na “Eneida”, mas os reorganizou em torno da missão de Eneias, sobrevivente de Troia destinado a integrar o mito de origem de Roma.

Enquanto Odisseu procura restaurar um lar anterior à guerra, Eneias transporta os sobreviventes para a fundação de uma nova ordem. A viagem deixa de ser somente retorno e converte-se em projeto histórico e imperial.

Da Idade Média ao herói moderno

Durante a Idade Média, o acesso direto ao texto grego diminuiu em grande parte da Europa Ocidental, mas personagens do ciclo troiano continuaram circulando em versões latinas, crônicas, adaptações e narrativas cavaleirescas. A tradição bizantina teve papel essencial na preservação dos manuscritos gregos.

Com a recuperação e a expansão do estudo do grego no Renascimento, Homero voltou a ocupar posição central entre humanistas, tradutores e artistas. Os poemas passaram a funcionar como modelos para reflexões sobre governo, guerra, virtude, autoridade e formação intelectual.

No século XIX, Alfred Tennyson apresentou em “Ulysses” um rei envelhecido que, depois de recuperar Ítaca, não consegue adaptar-se à imobilidade doméstica. O retorno, que deveria encerrar a aventura, torna-se insuficiente para um homem transformado pelo conhecimento do mundo. (The Poetry Foundation)

As adaptações e releituras mais famosas

‘Ulysses’, de James Joyce, transforma Dublin em Ítaca

Publicado em 1922, o romance “Ulysses”, de James Joyce, transferiu a estrutura homérica para Dublin em 16 de junho de 1904. Em vez de reis, deuses e monstros, Joyce acompanha personagens comuns ao longo de um único dia.

Leopold Bloom corresponde a Odisseu; Molly Bloom, a Penélope; e Stephen Dedalus, a Telêmaco. O funeral torna-se uma descida simbólica ao mundo dos mortos; o jornal corresponde à caverna dos ventos; estabelecimentos, ruas e debates urbanos assumem funções equivalentes às ilhas e provações do poema.

Joyce demonstrou que uma jornada cotidiana poderia comportar a mesma densidade de uma epopeia. Ao transferir o mito para a experiência de um agente publicitário judeu que atravessa uma cidade moderna, o escritor universalizou o heroísmo e redefiniu a forma do romance no século XX.

‘Omeros’, de Derek Walcott, leva Homero ao Caribe

Publicado em 1990, o poema épico “Omeros”, de Derek Walcott, deslocou nomes e estruturas homéricas para o Caribe. O título corresponde à forma grega do nome Homero, mas a obra não se limita a reproduzir a narrativa antiga.

Pescadores como Achille e Hector ocupam o centro de uma história marcada pela colonização, pela escravidão, pelo deslocamento e pela busca de pertencimento. O mar deixa de ser somente o Mediterrâneo e passa a carregar a memória atlântica da diáspora africana e do domínio europeu.

Walcott demonstrou que Homero poderia ser apropriado por sociedades historicamente submetidas ao colonialismo. A epopeia deixa de ser propriedade exclusiva da Europa e torna-se instrumento para investigar identidades caribenhas formadas por encontros, rupturas e sobrevivências culturais.

‘A Odisseia de Penélope’ altera o ponto de vista

Em “The Penelopiad”, publicada originalmente em 2005, Margaret Atwood entrega a narração a Penélope e às 12 servas executadas depois do retorno de Odisseu. A releitura questiona a reputação dos personagens, o julgamento moral imposto às mulheres e a autoridade de quem controla a versão oficial dos acontecimentos.

O livro utiliza o mito não para negar a obra original, mas para investigar seus silêncios. A mesma história muda quando narrada por personagens cuja experiência foi subordinada à glória do herói.

A obra de Atwood representa uma tendência contemporânea de revisitar a Antiguidade por meio das perspectivas femininas, populares ou marginalizadas. O procedimento confirma que a renovação da “Odisseia” depende também da contestação de sua hierarquia narrativa.

Do épico literário ao cinema e à televisão

‘Ulisses’, de 1954

Dirigido por Mario Camerini, “Ulisses” apresentou Kirk Douglas no papel principal e Silvana Mangano como Penélope e Circe. A produção condensou episódios do poema dentro dos padrões dos grandes espetáculos cinematográficos do pós-guerra.

A versão valorizou o herói de ação e a dimensão física da aventura. Efeitos práticos e recursos de perspectiva foram utilizados para representar Polifemo e outros elementos fantásticos, estabelecendo uma das imagens cinematográficas mais difundidas da epopeia durante o século XX. (

A minissérie de 1997

A minissérie “The Odyssey”, dirigida por Andrei Konchalovsky e protagonizada por Armand Assante, procurou utilizar a duração televisiva para incluir maior número de episódios. A produção reuniu intérpretes como Greta Scacchi, Isabella Rossellini, Vanessa Williams e Christopher Lee.

Exibida em duas partes, tornou-se uma das adaptações audiovisuais mais conhecidas da obra antes das grandes produções digitais do século XXI. A direção de Konchalovsky recebeu reconhecimento no Emmy destinado à televisão norte-americana.

‘E aí, meu irmão, cadê você?’

Em 2000, Joel e Ethan Coen lançaram “O Brother, Where Art Thou?”, adaptação livre ambientada no Mississippi durante a Grande Depressão. Três fugitivos atravessam o sul dos Estados Unidos e encontram figuras correspondentes às sereias, ao Ciclope e a outros obstáculos homéricos.

A busca do protagonista para regressar à família preserva o nóstos, mas a viagem é reconstruída por meio da música popular, da política regional, do racismo e da religiosidade norte-americana. O filme demonstrou que uma adaptação poderia conservar a arquitetura do mito sem repetir sua ambientação antiga. (

‘O Retorno’ concentra-se na chegada a Ítaca

Dirigido por Uberto Pasolini, “The Return” concentrou-se nos cantos finais do poema. Ralph Fiennes interpreta um Odisseu marcado pela guerra, enquanto Juliette Binoche vive Penélope.

Ao reduzir a presença dos monstros e privilegiar as consequências psicológicas, familiares e políticas da ausência, o filme apresenta o retorno não como triunfo automático, mas como confronto entre pessoas transformadas pelo tempo.

Christopher Nolan amplia a escala do mito

A versão de Christopher Nolan, lançada em 2026, retoma a dimensão de espetáculo. Filmada integralmente com câmeras de película IMAX, a produção coloca Matt Damon no papel de Odisseu e reúne Anne Hathaway, Tom Holland, Zendaya, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o e Charlize Theron.

A adaptação representa a entrada da epopeia no modelo industrial dos grandes blockbusters contemporâneos. A tecnologia destinada às maiores telas convive com uma história originada em apresentações orais realizadas muito antes da existência do livro, do palco moderno ou da câmera cinematográfica.

Por que a obra se renova no imaginário humano

A primeira razão está na simplicidade de sua estrutura fundamental: alguém deseja voltar para casa, mas o caminho é impedido por forças externas e conflitos interiores. Essa estrutura pode representar a viagem de um soldado, um exilado, um migrante, um refugiado, um náufrago, um trabalhador distante da família ou uma pessoa que tenta recuperar a vida depois de uma crise.

Ao mesmo tempo, a obra é suficientemente complexa para impedir uma interpretação única. Odisseu é corajoso e manipulador; Penélope é fiel e estrategista; os deuses protegem e perseguem; o retorno restabelece a ordem, mas exige violência. O leitor pode admirar o herói e, simultaneamente, questionar suas decisões.

A segunda razão é a forma modular da narrativa. Cada episódio contém uma história reconhecível: o monstro de um olho, a feiticeira que transforma homens em animais, o canto irresistível das sereias, a passagem entre dois perigos, a descida ao mundo dos mortos, o disfarce do rei e o reconhecimento final. Esses núcleos podem ser separados, adaptados e deslocados para outros períodos.

A terceira é a transformação do próprio protagonista. Polýtropos, o homem de muitos caminhos, é também o homem de muitas identidades. Odisseu apresenta nomes falsos, inventa biografias, veste-se como mendigo, atua como guerreiro, náufrago, contador de histórias, marido, pai e governante.

Essa instabilidade aproxima o personagem do indivíduo moderno, pressionado a desempenhar funções diferentes em ambientes sociais distintos. A pergunta “quem é Odisseu?” nunca recebe uma resposta inteiramente simples, porque ele é também aquilo que conta sobre si.

A quarta razão é que a “Odisseia” constitui uma narrativa sobre o poder das narrativas. Cantores aparecem dentro do poema; personagens choram ao ouvir histórias sobre a guerra; Odisseu escuta o próprio passado convertido em canto; depois assume a palavra e apresenta sua versão dos acontecimentos. A obra indaga quem conta, quem acredita e como um relato produz identidade e reputação. A crítica contemporânea continua reconhecendo essa dimensão autorreflexiva da epopeia.

A quinta razão reside nos silêncios. Penélope, Circe, Calipso, as servas, os marinheiros mortos, os estrangeiros e os povos encontrados durante a viagem podem gerar outras narrativas. As reinterpretações não esgotam o poema porque cada perspectiva reorganiza sua moralidade.

Finalmente, o próprio título ultrapassou a obra. Em diferentes idiomas, “odisseia” passou a designar uma viagem longa, difícil, física, emocional ou espiritual. A transformação de um nome literário em palavra de uso comum demonstra a profundidade com que a história foi incorporada ao repertório cultural.

Linha do tempo da permanência de ‘A Odisseia’

  • Final do século VIII e início do VII a.C. — Formação da “Odisseia” em grego homérico a partir de tradições orais anteriores.
  • Século VI a.C. — Consolidação de versões escritas e integração dos poemas homéricos ao ensino e às recitações cívicas.
  • Século III a.C. — Lívio Andrônico produz a “Odusia”, adaptação latina da epopeia.
  • Século I a.C. — Virgílio reorganiza elementos homéricos na “Eneida”.
  • Período bizantino — Copistas, estudiosos e comentaristas preservam o texto grego em manuscritos.
  • Renascimento — O estudo do grego e a circulação de traduções ampliam a presença de Homero na Europa.
  • Século XIX — Tennyson transforma Ulisses em símbolo do desejo permanente de conhecer e viajar.
  • 1922 — James Joyce publica “Ulysses” e converte um dia em Dublin em epopeia moderna.
  • 1954 — Kirk Douglas protagoniza “Ulisses”, de Mario Camerini.
  • 1990 — Derek Walcott publica “Omeros” e transfere a tradição épica para o Caribe.
  • 1997 — A minissérie dirigida por Andrei Konchalovsky leva a narrativa a uma audiência televisiva internacional.
  • 2000 — Os irmãos Coen lançam “O Brother, Where Art Thou?”.
  • 2005 — Margaret Atwood publica “The Penelopiad”, centrada em Penélope e nas servas.
  • 2024 — “The Return”, de Uberto Pasolini, aborda as consequências do regresso do guerreiro.
  • 2026Christopher Nolan apresenta ‘A Odisseia’ em uma superprodução filmada integralmente em película IMAX.

Fontes bibliográficas utilizadas

Para elaborar o artigo sobre “A Odisseia”, foi utilizada como fonte primária o poema épico atribuído a Homero e estabeleceu diálogo com obras fundamentais da tradição literária ocidental, entre elas a “Odusia”, de Lívio Andrônico; a “Eneida”, de Virgílio; “Ulysses”, de Alfred Tennyson; “Ulysses”, de James Joyce; “Omeros”, de Derek Walcott; e “The Penelopiad” — “A Odisseia de Penélope”, de Margaret Atwood. A fundamentação histórica, linguística e filológica foi complementada por estudos e conteúdos da Bibliothèque nationale de France, da University of Chicago Library e da Oxford Research Encyclopedia, enquanto a análise da permanência da obra na poesia e no cinema recorreu à Poetry Foundation, ao British Film Institute e ao site oficial da adaptação cinematográfica dirigida por Christopher Nolan.

*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.


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