Agência Pública cita senador Ângelo Coronel e deputados da Bahia em investigação sobre “bancada das bets” no Congresso

A repercussão da investigação da Agência Pública sobre a chamada bancada das bets colocou o senador Ângelo Coronel, do Republicanos da Bahia, e deputados federais baianos no centro do debate nacional sobre a atuação parlamentar em defesa de interesses das casas de apostas online no Congresso Nacional. A reportagem, publicada em 30/06/2026, afirma que a articulação pró-bets não funciona como frente parlamentar formal, mas por meio de relatorias, emendas, negociações partidárias e pressão sobre propostas de tributação e regulação do setor, com impactos políticos, econômicos, sociais e eleitorais para a Bahia e para o país.

Agência Pública mapeia articulação informal em favor das bets

A investigação da Agência Pública, assinada por Caio de Freitas, Dyepeson Martins, Duda Sousa, Ed Wanderley, Maira Escardovelli e Thiago Domenici, identificou parlamentares que, segundo a apuração, atuaram direta ou indiretamente em pautas favoráveis às empresas de apostas online. O texto afirma que essa rede não possui unidade orgânica nem representação oficial, diferentemente de bancadas formalizadas no Congresso, mas opera nos bastidores por meio de conversas com lideranças partidárias, formulação de emendas e defesa de argumentos econômicos e liberais.

No recorte baiano, aparecem o senador Ângelo Coronel e os deputados federais Adolfo Viana, Elmar Nascimento, Paulo Azi, João Bacelar e Cláudio Cajado. A presença desses nomes desloca o tema para a política baiana, sobretudo porque Coronel é pré-candidato à reeleição ao Senado e passou a compor o campo de articulação da oposição liderada por ACM Neto no estado.

A Pública sustenta que a influência das bets se manifesta, sobretudo, em temas tributários e regulatórios. Um dos episódios destacados pela apuração foi a retirada da Cide-bets, contribuição de 15% que havia sido prevista no debate do PL Antifacção e poderia arrecadar cerca de R$ 30 bilhões por ano para a segurança pública. Segundo a reportagem, o dispositivo foi retirado em votação simbólica após acordo entre partidos, preservando empresas de apostas e jogos online de nova cobrança.

Ângelo Coronel aparece no centro do recorte baiano

Relatoria da regulamentação das bets

O senador Ângelo Coronel é apontado pela Agência Pública como um dos principais defensores do setor de apostas no Senado. A reportagem registra que ele relatou o PL 3.626/2023, projeto que regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil, posteriormente transformado na Lei nº 14.790/2023. A norma passou a disciplinar a exploração das apostas de quota fixa, incluindo regras de autorização, tributação, fiscalização e funcionamento do mercado regulado.

De acordo com a Agência Pública, a atuação de Coronel na relatoria reduziu de 18% para 12% a cobrança anual sobre o GGR das operadoras — receita bruta dos jogos descontados os prêmios pagos aos apostadores — e diminuiu de 30% para 15% o Imposto de Renda sobre premiações. A apuração afirma que a alteração agradou representantes do setor, enquanto críticos sustentam que o modelo tributário aprovado reduziu a capacidade arrecadatória do Estado sobre uma atividade de alta expansão econômica.

Questionado pela Agência Pública, Coronel afirmou continuar favorável às apostas, mesmo reconhecendo o problema do vício. O argumento apresentado pelo senador é que a legalização permite fiscalização, arrecadação e destinação de recursos públicos para tratamento de pessoas afetadas pelo jogo. A posição expõe a linha de defesa política adotada por parte dos defensores da regulamentação: não proibir a atividade, mas submetê-la a regras e tributação.

Voto contra relatório da CPI das Bets

A atuação de Coronel também aparece vinculada à CPI das Bets, instalada no Senado para investigar impactos das apostas online sobre famílias, eventual relação com organizações criminosas e a divulgação por influenciadores digitais. Em 12/06/2025, a comissão rejeitou o relatório final da senadora Soraya Thronicke por 4 votos a 3, encerrando os trabalhos sem medidas aprovadas pelo colegiado. Segundo a Agência Senado, foi a primeira rejeição de relatório final de CPI no Senado em dez anos.

A Agência Pública registra que Coronel votou contra o relatório final. O senador alegou falta de tempo para analisar o documento, que teria 541 páginas e havia sido disponibilizado na véspera da votação, além de afirmar que não havia elementos concretos suficientes para sustentar indiciamentos. O voto, no entanto, passou a integrar o conjunto de fatos usados pela reportagem para caracterizar sua proximidade política com a pauta das bets.

O episódio reforça a dimensão institucional do caso. A rejeição do relatório não equivale, por si só, à comprovação de irregularidade individual de parlamentares, mas impediu que as conclusões da CPI fossem formalmente aprovadas pelo colegiado. Para a cobertura jornalística, o dado central é que uma comissão criada para investigar um setor de forte impacto social terminou sem deliberação final, em meio a disputas sobre tributação, publicidade, vício, influenciadores e responsabilização empresarial.

Deputados baianos citados ampliam o peso político do caso

Além de Ângelo Coronel, o recorte baiano da investigação inclui Adolfo Viana, Elmar Nascimento, Paulo Azi, João Bacelar e Cláudio Cajado. A presença de deputados federais da Bahia em uma apuração nacional sobre apostas online amplia a relevância regional do tema, pois envolve parlamentares com atuação em votações, relatorias, emendas e negociações que moldaram o ambiente legal das bets no Brasil.

A reportagem da Pública sustenta que a atuação pró-bets não depende de uma frente parlamentar formal. Segundo a apuração, o setor se movimenta por meio de articulações com líderes partidários, emendas legislativas, relatórios e defesa pública de teses relacionadas ao livre mercado, à arrecadação e à legalização como forma de controle. Essa dinâmica dificulta a identificação de uma cadeia única de comando, mas torna mais relevante a análise de atos legislativos concretos.

No caso baiano, a repercussão ganha contorno eleitoral porque Coronel passou a ser tratado como nome relevante na composição oposicionista para 2026. A vinculação de um pré-candidato ao Senado a uma investigação sobre lobby das bets não encerra a discussão política nem autoriza condenações antecipadas, mas impõe ao eleitorado, aos partidos e à imprensa o dever de examinar a coerência entre discurso público, atuação parlamentar e consequências sociais da expansão das apostas online.

Tributação, segurança pública e disputa por recursos

A retirada da Cide-bets do PL Antifacção é um dos pontos mais sensíveis da apuração. A contribuição de 15% sobre apostas tinha sido apresentada como alternativa para financiar a segurança pública, com estimativa de arrecadação de aproximadamente R$ 30 bilhões anuais. A Câmara dos Deputados aprovou o PL Antifacção sem esse mecanismo de tributação, preservando o setor de uma cobrança adicional em um momento de forte pressão por recursos para o combate ao crime organizado.

A controvérsia se insere em uma disputa mais ampla sobre quem deve financiar os custos sociais e institucionais das apostas online. De um lado, defensores do setor afirmam que a legalização permite arrecadação, empregos, formalização e controle estatal. De outro, críticos apontam endividamento familiar, dependência comportamental, publicidade agressiva, uso de influenciadores e dificuldades de fiscalização efetiva das plataformas.

O Congresso continuou discutindo formas de destinar recursos das bets a áreas públicas. Em 01/07/2026, comissão mista aprovou texto da MP 1.348/2026, que prevê repasse gradual de até 3% da arrecadação das apostas de quota fixa ao Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-Fim da Polícia Federal. A medida ainda depende de análise pelos plenários da Câmara e do Senado, o que mostra que a disputa sobre tributação e destinação de receitas permanece aberta.

Impactos sociais e saúde pública entram no centro do debate

O avanço das apostas online deixou de ser apenas uma pauta econômica ou tributária. Nesta quinta-feira (02/07/2026), comissões do Senado debateram impactos sociais, econômicos e de saúde pública causados pelas bets, incluindo dependência, endividamento e proteção de grupos vulneráveis. A audiência pública reforça que a regulação do setor envolve não apenas arrecadação, mas também prevenção de danos e proteção do consumidor.

A agenda legislativa inclui ainda propostas para restringir publicidade de apostas online. O debate sobre propaganda é relevante porque as bets se expandiram fortemente por meio de patrocínios esportivos, influenciadores digitais, publicidade em massa e presença constante em transmissões de futebol. A combinação entre facilidade de acesso, promessa de ganhos rápidos e ambiente digital intensifica o risco de dependência e compromete especialmente famílias de menor renda.

Nesse contexto, a atuação de parlamentares favoráveis à redução de tributos ou à flexibilização de regras precisa ser examinada à luz do interesse público. Defender a legalização de uma atividade econômica é posição legítima no Parlamento; o problema institucional surge quando a formulação de regras ocorre sem transparência suficiente sobre interlocutores privados, custos sociais, renúncias arrecadatórias e mecanismos de responsabilização.

Repercussão na Bahia e cenário eleitoral

A citação de Ângelo Coronel em uma investigação nacional sobre bets ocorre em momento de rearranjo da política baiana. O senador deixou o antigo campo governista e passou a se aproximar da oposição liderada por ACM Neto, movimento que alterou o tabuleiro para a disputa ao Senado em 2026. Com isso, a apuração da Pública tende a ser usada por adversários como elemento de desgaste, enquanto aliados devem sustentar que a atuação parlamentar de Coronel se deu dentro do processo legislativo regular.

Para a Bahia, o tema possui dupla relevância. Primeiro, porque envolve nomes com mandato federal e influência sobre votações nacionais. Segundo, porque as apostas online atingem diretamente famílias, consumidores, clubes de futebol, publicidade, arrecadação pública e políticas de saúde mental. O eleitor baiano, portanto, não está diante apenas de uma disputa de narrativa em Brasília, mas de uma agenda que pode afetar orçamento doméstico, financiamento estatal e confiança nas instituições.

Transparência legislativa será o teste central no caso das bets

A investigação da Agência Pública não transforma automaticamente parlamentares citados em responsáveis por irregularidades, mas revela um problema público concreto: a expansão de um setor bilionário ocorreu em ambiente de intensa influência política, baixa transparência sobre interlocuções privadas e forte disputa por regras tributárias. Em uma democracia institucionalmente madura, a defesa de interesses econômicos no Congresso precisa ser identificável, documentada e submetida ao escrutínio público.

O caso também expõe uma contradição estrutural. O Estado busca arrecadar com as bets, mas enfrenta os custos sociais decorrentes do vício, do endividamento e da publicidade agressiva. Se a arrecadação for tratada como solução suficiente, o poder público corre o risco de normalizar danos sociais em troca de receita. Se optar pela proibição sem estrutura de fiscalização, pode empurrar o mercado para a ilegalidade. O ponto de equilíbrio depende de regras firmes, transparência, controle de propaganda, proteção de vulneráveis e punição efetiva a operadores clandestinos.

No plano baiano, a presença de Ângelo Coronel e de deputados federais do estado na apuração exige acompanhamento jornalístico continuado. Os próximos atos relevantes incluem manifestações dos parlamentares citados, tramitação de projetos sobre tributação e publicidade, votação de medidas sobre destinação de receitas das bets e eventual uso eleitoral do tema na disputa de 2026. O impacto final dependerá menos da retórica partidária e mais da capacidade das instituições de demonstrar se o Congresso está regulando o setor em nome do interesse público ou sob influência desproporcional de empresas privadas.

Parlamentares da Bahia citados na investigação da Agência Pública

  • Ângelo Coronel — senador pela Bahia.
  • Adolfo Viana — deputado federal.
  • Elmar Nascimento — deputado federal.
  • Paulo Azi — deputado federal.
  • João Bacelar — deputado federal.
  • Cláudio Cajado — deputado federal.

Ângelo Coronel e a regulamentação das bets

  • Papel central: relator do projeto que regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil.
  • Projeto relatado: PL 3.626/2023.
  • Norma resultante: Lei nº 14.790/2023.
  • Ponto destacado pela Agência Pública: redução da carga tributária sobre as operadoras de apostas.

Parlamentares aprovaram redução de tributos no setor de apostas

  • Tributação anual sobre a receita líquida das operadoras caiu de 18% para 12%.
  • A cobrança incide sobre o GGR — receita bruta dos jogos descontados os prêmios pagos aos apostadores.
  • Imposto de Renda sobre premiações caiu de 30% para 15%.
  • A mudança foi apontada como favorável às empresas do setor.

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