Na quinta-feira, 23/07/2026, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que colocou o Amapá na liderança nacional da taxa de Mortes Violentas Intencionais em 2025, com 42,5 ocorrências por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média brasileira de 19,1. O estado é governado por Clécio Luís, que ingressou no União Brasil em janeiro de 2026, partido ao qual pertence ACM Neto, candidato ao Governo da Bahia. O levantamento surge no momento em que a legenda também enfrenta questionamentos relacionados a Márcio Canella, presidente do diretório fluminense e alvo da Operação Unha e Carne, investigação da Polícia Federal sobre uma organização suspeita de movimentar R$ 7,6 bilhões por meio de uma rede de postos de combustíveis.
Amapá registra maior taxa de mortes violentas do Brasil
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 343 Mortes Violentas Intencionais no Amapá em 2025. O número correspondeu a uma taxa de 42,5 vítimas por 100 mil habitantes, a maior entre as 27 unidades da Federação.
A categoria Mortes Violentas Intencionais, identificada pela sigla MVI, reúne homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais. Portanto, o indicador é mais amplo do que o número isolado de assassinatos classificados como homicídio doloso.
Embora tenha permanecido na primeira posição nacional, o Amapá apresentou redução em relação a 2024, quando registrou 363 mortes e uma taxa de 45,2 por 100 mil habitantes. A queda anual foi de 5,9%, resultado insuficiente para retirar o estado do topo do levantamento proporcional.
No conjunto do país, foram contabilizadas 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, ante 44.220 no ano anterior. A taxa brasileira recuou de 20,8 para 19,1 por 100 mil habitantes, redução de 8,2% e menor nível registrado desde o início da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2012.
Governador aderiu ao União Brasil após o período analisado
O Amapá é administrado por Clécio Luís, eleito governador em 2022 pelo Solidariedade e empossado em janeiro de 2023. Ele permaneceu naquela legenda durante todo o ano de 2025, período ao qual se referem os dados divulgados pelo Anuário.
Clécio Luís ingressou no União Brasil somente em 30/01/2026, durante ato político realizado em Macapá com a participação do senador Davi Alcolumbre. A mudança partidária foi apresentada pela legenda como parte da estratégia de fortalecimento do governador para disputar a reeleição.
Atualmente, o União Brasil governa o estado que apresenta a maior taxa de mortes violentas do país, mas o indicador de 2025 foi produzido quando Clécio Luís ainda estava formalmente filiado ao Solidariedade. A gestão estadual, entretanto, já era comandada pelo mesmo governador desde janeiro de 2023.
A filiação colocou o chefe do Executivo amapaense na mesma estrutura partidária de ACM Neto, vice-presidente nacional do União Brasil, presidente da Fundação Índigo e candidato escolhido em convenção para disputar o Governo da Bahia nas eleições de 2026. A candidatura de Neto foi oficializada pela legenda na quarta-feira, 22/07/2026, em Salvador.
Márcio Canella participou do lançamento de MBA sobre segurança
Em 21/05/2026, a Fundação Índigo, presidida por ACM Neto e vinculada ao União Brasil, lançou no Rio de Janeiro um MBA em Segurança Pública desenvolvido em parceria com a Fundação Getulio Vargas.
O curso foi anunciado como o primeiro MBA na área criado por uma fundação partidária. A formação gratuita, com carga superior a 430 horas-aula, foi estruturada em 18 disciplinas, incluindo controle territorial, insurgência criminal, crimes cibernéticos, crimes no agronegócio e dinâmicas criminosas na Amazônia Legal.
Entre os participantes anunciados para o lançamento estavam ACM Neto, o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel e Márcio Canella, então prefeito de Belford Roxo e presidente do diretório estadual do partido no Rio de Janeiro.
Canella era apresentado politicamente pela legenda como gestor com atuação destacada na segurança pública municipal. O União Brasil havia divulgado programas de sua administração, entre eles ações de retirada de barricadas, instalação de bases operacionais e ampliação da cooperação com as forças estaduais de segurança.
Posteriormente, adversários de ACM Neto recuperaram declarações e registros do evento nos quais a experiência administrativa de Canella foi descrita como uma atuação transformadora na área da segurança. As críticas passaram a questionar os critérios políticos e reputacionais utilizados pela Fundação Índigo para apresentar dirigentes partidários como referências no setor.
Operação Unha e Carne investiga movimentação de R$ 7,6 bilhões
Em 07/07/2026, menos de dois meses depois do lançamento do MBA, a Polícia Federal deflagrou a sexta fase da Operação Unha e Carne, destinada a investigar uma organização criminosa suspeita de utilizar postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio de Janeiro como plataforma de lavagem de dinheiro.
Segundo a PF, o grupo investigado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos seis anos anteriores, conforme informações de um Relatório de Inteligência Financeira elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras e encaminhado à corporação.
Foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão na capital fluminense e nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende. A Justiça também autorizou medidas de sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades de empresas relacionadas ao grupo investigado.
Durante a operação, os agentes apreenderam aproximadamente R$ 919 mil, US$ 13 mil, um fuzil de calibre restrito, nove armas curtas, sete computadores, 23 aparelhos celulares, 11 veículos, joias, relógios e documentos.
A nota oficial da Polícia Federal não divulgou os nomes de todos os alvos. Reportagens da imprensa nacional identificaram Márcio Canella e o delegado Marcus Amim, ex-secretário da Polícia Civil fluminense, entre os principais investigados alcançados pelas medidas de busca e apreensão.
Prisão em flagrante ocorreu por causa de arma encontrada no veículo
Márcio Canella foi preso em flagrante depois que agentes encontraram um fuzil calibre 5,56 no veículo em que ele estava durante o cumprimento das medidas policiais. A prisão relacionada à arma deve ser distinguida das suspeitas de lavagem de dinheiro investigadas na operação, que ainda dependem da conclusão dos inquéritos e de eventual manifestação do Ministério Público.
A defesa sustentou que o armamento pertencia ao policial responsável pela segurança do político e afirmou que a documentação correspondente havia sido apresentada às autoridades. Essa versão permanece sujeita à apuração judicial.
Na noite de 10/07/2026, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, substituiu a prisão por medidas cautelares. Canella passou a responder em liberdade, com uso de tornozeleira eletrônica, suspensão do porte de arma, entrega do passaporte e outras restrições determinadas pelo STF.
A investigação prossegue sem condenação definitiva. A condição de investigado ou de alvo de busca e apreensão não elimina a presunção de inocência, nem autoriza atribuição antecipada de responsabilidade criminal.
A expressão “braço político” da organização investigada apareceu em declarações de adversários e em conteúdos políticos publicados após a operação. A comunicação oficial da Polícia Federal informou a suspeita de participação de agentes públicos, mas não apresentou, no comunicado divulgado em 7 de julho, uma classificação individual de Canella com essa denominação.
Linha do tempo
- 02/10/2022: Clécio Luís é eleito governador do Amapá em primeiro turno pelo Solidariedade.
- 01/01/2023: Clécio Luís assume o Governo do Amapá.
- 2025: o estado registra 343 Mortes Violentas Intencionais e taxa de 42,5 por 100 mil habitantes.
- 30/01/2026: o governador deixa o Solidariedade e ingressa no União Brasil.
- 21/05/2026: Fundação Índigo e FGV lançam MBA em Segurança Pública no Rio de Janeiro, com participação de Márcio Canella.
- 07/07/2026: Polícia Federal deflagra a sexta fase da Operação Unha e Carne; Canella é alvo de buscas e preso em flagrante após a localização de um fuzil.
- 10/07/2026: Alexandre de Moraes determina a substituição da prisão por medidas cautelares.
- 22/07/2026: convenção partidária oficializa ACM Neto como candidato do União Brasil ao Governo da Bahia.
- 23/07/2026: Anuário Brasileiro de Segurança Pública revela que o Amapá teve a maior taxa de Mortes Violentas Intencionais do país em 2025.
Análise crítica jornalística e conclusão editorial
Os dados do Anuário demonstram que a redução nacional da violência letal não ocorreu de maneira homogênea. O Amapá diminuiu o número de mortes em 2025, mas permaneceu com uma taxa superior ao dobro da média brasileira. A Bahia também apresentou recuo, porém continuou na segunda posição proporcional e liderou o número absoluto de vítimas. Esses resultados exigem avaliação de séries históricas, políticas de prevenção, inteligência policial, capacidade investigativa, controle territorial e desempenho do sistema de Justiça, sem reduzir fenômenos complexos exclusivamente à identidade partidária dos governadores.
No campo político, a atual filiação de Clécio Luís ao União Brasil e o caso envolvendo Márcio Canella criam uma cobrança adicional para uma legenda que colocou a segurança pública no centro de sua plataforma eleitoral. A responsabilidade penal de Canella depende das investigações e de decisão judicial, mas a responsabilidade política sobre a escolha de dirigentes apresentados em espaços de formulação partidária pode ser submetida ao escrutínio público. Também permanece necessária uma manifestação clara da Fundação Índigo e do União Brasil sobre os critérios adotados na composição do evento e sobre os efeitos institucionais da investigação.







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