O prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), provocou um ruído na apresentação pública da chapa de oposição ao Governo da Bahia ao declarar que Zé Cocá (PP) seria “o próximo governador” do estado, embora o ex-prefeito de Jequié tenha sido formalmente homologado como candidato a vice na composição encabeçada por ACM Neto (União Brasil). A afirmação, pronunciada durante a convenção partidária realizada na quarta-feira (22/07/2026), no Centro de Convenções de Salvador, ganhou repercussão nesta quinta-feira (23/07/2026) por inverter, ainda que verbalmente, a hierarquia política da chapa e levantar dúvidas sobre se o episódio representou apenas um lapso, um elogio excessivo ou um sinal das dificuldades internas enfrentadas pela aliança.
Declaração de Bruno Reis inverte papéis da chapa
A convenção oficializou ACM Neto como candidato ao Governo da Bahia, Zé Cocá como vice-governador e Angelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL) como candidatos às duas vagas destinadas ao estado no Senado Federal. A coligação reúne União Brasil, Progressistas, PL, Republicanos, PSDB/Cidadania, Podemos e outras legendas do campo oposicionista.
Ao apresentar os integrantes do grupo, Bruno Reis procurou destacar a trajetória administrativa e a representação regional do candidato a vice. No entanto, a formulação utilizada atribuiu diretamente a Cocá o cargo disputado pelo cabeça da chapa.
“Este homem, que sem sombra de dúvidas é a voz do interior, que já foi prefeito de cidade pequena, de cidade média, presidente da UPB, que foi o prefeito mais votado proporcionalmente do Brasil nas últimas eleições, o próximo governador, José Cocá”, declarou Bruno Reis, conforme o registro fornecido à reportagem.
A frase deslocou momentaneamente ACM Neto do centro da composição eleitoral. Pela definição formal aprovada na convenção, o ex-prefeito de Salvador concorre ao Governo do Estado, enquanto Zé Cocá ocupa a posição de vice-governador. A legislação eleitoral estabelece que candidatos a governador e vice são registrados em chapa única e indivisível, mas preserva funções políticas e institucionais distintas dentro da composição.
Elogio a Zé Cocá ultrapassa função de vice
A fala não ocorreu em um momento secundário do evento. Bruno Reis apresentava justamente os nomes escolhidos pela oposição para disputar o Governo da Bahia e o Senado, em um discurso destinado a demonstrar unidade, complementaridade e força eleitoral.
Ao chamar Zé Cocá de “próximo governador”, o prefeito da capital produziu uma ambiguidade objetiva. A declaração pode ser compreendida como um erro verbal decorrente da intensidade do discurso, como uma tentativa de projetar politicamente o candidato a vice ou como uma manifestação involuntária da centralidade conquistada pelo ex-prefeito de Jequié dentro da coligação.
Não há, até o momento, confirmação pública de que a frase tenha representado uma contestação à liderança de ACM Neto. Também não foi localizada manifestação dos integrantes da chapa tratando o episódio como ruptura ou anunciando qualquer alteração na composição homologada. O fato comprovado permanece sendo a candidatura de Neto ao governo e a indicação de Cocá para a vice.
Discurso de unidade revela fragmentação partidária
Antes de apresentar Zé Cocá, Bruno Reis também destacou a permanência do PSDB e do Republicanos na aliança e afirmou que o grupo havia conseguido preservar “a melhor parte do Partido Progressista”.
A expressão expõe outra dimensão da formação da chapa. Ao distinguir uma suposta “melhor parte” do PP, o prefeito reconheceu implicitamente que a legenda não chegou integralmente reunida à composição oposicionista. O partido atravessou meses de disputas internas, mudanças de filiação e divergências entre lideranças ligadas ao governador Jerônimo Rodrigues (PT) e nomes que aderiram ao projeto eleitoral liderado por ACM Neto.
A aproximação de Zé Cocá com o União Brasil provocou uma reconfiguração entre parlamentares oriundos do Progressistas. Enquanto Cocá e aliados permaneceram no campo oposicionista, outros deputados buscaram partidos integrantes da base governista ou mantiveram aproximação com o Palácio de Ondina. O deputado estadual Niltinho, por exemplo, filiou-se ao PSD e passou a atuar publicamente em defesa da reeleição de Jerônimo Rodrigues.
A afirmação de Bruno Reis, portanto, não cria por si só uma divisão, mas faz referência a uma fragmentação partidária previamente existente. A construção da chapa exigiu negociações para reunir grupos que estiveram separados em 2022, acomodar diferentes projetos nacionais e preservar lideranças municipais com interesses eleitorais próprios.
Zé Cocá assume papel estratégico no interior
A valorização política de Zé Cocá não é circunstancial. O ex-prefeito foi escolhido para ampliar a presença da oposição no interior da Bahia e equilibrar uma chapa liderada por um político cuja principal base eleitoral e administrativa está concentrada em Salvador e na Região Metropolitana.
Nascido em Itiruçu, Zenildo Brandão Santana, conhecido como Zé Cocá, administrou inicialmente Lafaiete Coutinho, município de pequeno porte do centro-sul baiano. Posteriormente, exerceu mandato de deputado estadual, presidiu a União dos Municípios da Bahia (UPB) e foi eleito prefeito de Jequié, uma das maiores cidades do interior.
Na eleição municipal de 2024, Cocá foi reeleito em Jequié com 85.219 votos, equivalentes a 91,97% dos votos válidos. O resultado estabeleceu a maior votação nominal e proporcional registrada por um candidato a prefeito na história do município.
O percentual confirma a elevada votação obtida em Jequié, mas a afirmação de que ele teria sido “o prefeito mais votado proporcionalmente do Brasil” depende de critérios comparativos adicionais, como a inclusão ou exclusão de candidaturas únicas e o porte dos municípios analisados. Os dados disponíveis confirmam o desempenho de 91,97%, mas não são suficientes, isoladamente, para estabelecer um ranking nacional absoluto.
Bruno Reis já havia defendido complementaridade entre Neto e Cocá
Dias antes da convenção, Bruno Reis havia apresentado uma formulação diferente e mais alinhada à distribuição oficial dos cargos. Em entrevista concedida em 17 de julho, afirmou que os integrantes da chapa “se complementam”.
Na ocasião, o prefeito sustentou que Zé Cocá agregava a experiência administrativa adquirida em municípios de diferentes portes e o conhecimento dos problemas enfrentados pelas cidades do interior. ACM Neto, por sua vez, foi apresentado como representante da experiência acumulada na Prefeitura de Salvador e na política nacional.
Essa declaração anterior reforça a hipótese de que a expressão “próximo governador” possa ter sido um lapso ou uma construção retórica improvisada. Ao mesmo tempo, evidencia o peso eleitoral atribuído a Cocá, apresentado reiteradamente como representante legítimo dos municípios interioranos.
A estratégia procura enfrentar uma das dificuldades encontradas por ACM Neto na eleição de 2022: transformar sua votação nas grandes cidades e na Região Metropolitana em presença eleitoral suficiente nos municípios menores e nas áreas rurais, onde o PT mantém influência política consolidada.
ACM Neto permanece no centro formal da candidatura
Durante a convenção, ACM Neto apresentou sua segunda candidatura ao Governo da Bahia e afirmou estar mais preparado do que na disputa anterior. O ex-prefeito defendeu uma agenda denominada “mudança com segurança”, concentrada em segurança pública, saúde, educação, desenvolvimento econômico, juventude e inovação.
O candidato também procurou demonstrar que a oposição chega a 2026 mais ampla do que em 2022. Na eleição anterior, João Roma disputou o Governo da Bahia pelo PL, enquanto Angelo Coronel integrava a base governista. Neste ciclo, ambos passaram a compor a chapa liderada por Neto como candidatos ao Senado.
Apesar da unidade formal, a aliança reúne partidos e lideranças com diferentes posições na disputa presidencial. Integrantes do PL apoiam o projeto nacional do senador Flávio Bolsonaro, enquanto ACM Neto declarou preferência pela candidatura de Ronaldo Caiado. Outros segmentos da coligação mantêm vínculos próprios com candidaturas de centro e de direita.
A oposição apresenta essa diversidade como capacidade de ampliar o alcance da candidatura estadual. O grupo governista, por outro lado, tende a explorar a ausência de uma orientação presidencial única como sinal de dificuldade para construir uma identidade política comum.
Eleição de 2022 permanece como principal antecedente
A disputa de 2026 representa a segunda tentativa de ACM Neto de governar a Bahia. Em 2022, ele liderou o primeiro turno com 40,88% dos votos válidos, enquanto Jerônimo Rodrigues avançou à etapa final com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No segundo turno, realizado em 30 de outubro daquele ano, Jerônimo foi eleito com 4.480.464 votos, correspondentes a 52,79% dos votos válidos. ACM Neto obteve 4.007.023 votos, ou 47,21%, uma diferença de 473.441 votos.
A escolha de Zé Cocá para vice integra a tentativa de corrigir desequilíbrios territoriais identificados após aquela derrota. A chapa pretende combinar a presença de Neto na capital com a capilaridade municipal do ex-prefeito de Jequié, a atuação municipalista de Angelo Coronel e a ligação de João Roma com o eleitorado conservador.
Linha do tempo da formação da chapa
- 30/10/2022: Jerônimo Rodrigues derrota ACM Neto no segundo turno da eleição para o Governo da Bahia, com 52,79% dos votos válidos.
- 26/03/2026: ACM Neto anuncia o convite para Zé Cocá integrar sua chapa como candidato a vice-governador.
- 30/03/2026: A oposição apresenta politicamente a chapa em Feira de Santana, durante evento que reúne ACM Neto, Zé Cocá, João Roma, Angelo Coronel, José Ronaldo e outras lideranças.
- 02/04/2026: Zé Cocá deixa a Prefeitura de Jequié para cumprir o prazo de desincompatibilização exigido para disputar a eleição estadual. O vice-prefeito Flavinho Santana assume o município.
- 17/07/2026: Bruno Reis afirma que os integrantes da chapa se complementam e apresenta Zé Cocá como representante da experiência administrativa do interior.
- 20/07/2026: começa o período autorizado pela Justiça Eleitoral para a realização das convenções partidárias.
- 22/07/2026: a convenção realizada em Salvador homologa ACM Neto para governador, Zé Cocá para vice e Angelo Coronel e João Roma para o Senado. Durante a apresentação, Bruno Reis chama Cocá de “próximo governador”.
- 05/08/2026: termina o prazo para a realização das convenções partidárias.
- 15/08/2026: encerra-se o prazo para partidos, federações e coligações apresentarem os pedidos de registro das candidaturas.
- 16/08/2026: começa oficialmente a propaganda eleitoral nas ruas e na internet.
- 04/10/2026: será realizado o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026. Um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.
A declaração de Bruno Reis possui relevância porque ocorreu durante um ato destinado a fixar, perante o eleitorado, a hierarquia e a identidade da chapa. Em campanhas majoritárias, a comunicação pública não é um elemento secundário: a repetição correta dos nomes, cargos e funções contribui para consolidar o candidato principal. Ao atribuir a Zé Cocá o posto de “próximo governador”, o prefeito produziu uma mensagem incompatível com a composição formal e abriu espaço para interpretações políticas.







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