Neste sábado (25/07/2026), o deputado estadual Bobô (PCdoB) afirmou que o discurso de ACM Neto (União Brasil) sobre segurança pública apresenta contradições entre as críticas dirigidas ao Governo da Bahia e os exemplos políticos promovidos pela Fundação Índigo, entidade presidida pelo ex-prefeito de Salvador. O parlamentar citou a participação de Guilherme Derrite em evento da instituição, a presença de Márcio Canella no lançamento de um MBA sobre o tema e os índices de violência do Amapá, administrado por um governador filiado ao União Brasil, ao mesmo tempo que destacou a redução das mortes violentas registrada na Bahia em 2025 e no primeiro semestre de 2026.
Na avaliação de Bobô, ACM Neto tenta construir uma imagem de autoridade na área da segurança pública com base em experiências e personagens que passaram a ser associados a episódios investigados por órgãos de controle e de persecução penal. O deputado sustenta que essa circunstância enfraquece a narrativa apresentada pelo principal dirigente da Fundação Índigo.
“Só com uso de IA o ex-prefeito consultor e empresário melhora a vida das pessoas”, ironizou Bobô.
A declaração insere-se na disputa política em torno da segurança pública baiana, área que ocupa posição central no confronto entre o Governo Jerônimo Rodrigues, partidos governistas e a oposição liderada pelo União Brasil. Enquanto ACM Neto responsabiliza as administrações estaduais do PT pelos elevados índices de violência, os governistas procuram destacar a queda recente das mortes violentas e questionar as experiências utilizadas pela oposição como modelos de gestão.
Bobô afirmou que o debate não deve ser reduzido a campanhas publicitárias ou à apresentação de exemplos externos sem avaliação completa dos resultados e das controvérsias relacionadas a cada administração. Para o parlamentar, propostas de segurança devem ser examinadas com base em indicadores, capacidade institucional, políticas preventivas, investigação criminal e controle das organizações criminosas.
Guilherme Derrite participou de evento da Fundação Índigo
Um dos nomes citados pelo deputado foi Guilherme Derrite, então secretário da Segurança Pública de São Paulo e deputado federal licenciado. Derrite participou, em 27/11/2025, da segunda edição do evento S.O.S. Segurança Pública, promovido em Curitiba pela Fundação Índigo e pelo União Brasil.
Na ocasião, o ex-secretário integrou um painel sobre o enfrentamento ao crime organizado ao lado de ACM Neto, Antonio Rueda e Sergio Moro. A Fundação Índigo apresentou Derrite como gestor e especialista capaz de contribuir para a formulação de medidas destinadas a conter o avanço das facções criminosas.
A crítica de Bobô ganhou novo contexto após a Operação Janus, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em 21/07/2026 contra uma rede suspeita de financiar e lavar recursos ligados ao Primeiro Comando da Capital — PCC. Documentos da investigação mencionaram oficiais de alta patente da Polícia Militar paulista em diálogos ou registros relacionados aos investigados.
Márcio Canella participou do lançamento de MBA sobre segurança
O parlamentar também mencionou Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e presidente do União Brasil no Rio de Janeiro. Canella participou, em 21/05/2026, do lançamento do MBA em Segurança Pública organizado pela Fundação Índigo em parceria com a Fundação Getulio Vargas — FGV.
O evento ocorreu no Centro Cultural da FGV, no Rio de Janeiro, e reuniu ACM Neto, o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, especialistas e dirigentes partidários. O curso foi apresentado como uma iniciativa voltada à qualificação de servidores públicos, policiais, gestores, integrantes do Judiciário e profissionais ligados à área.
Em 07/07/2026, Canella foi alvo da sexta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal para investigar uma organização suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio de Janeiro para lavar dinheiro, com possível participação de agentes públicos.
Segundo a Polícia Federal, o grupo investigado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões durante seis anos, conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras — Coaf. A operação cumpriu 19 mandados de busca e apreensão e resultou em duas prisões em flagrante por suspeita de porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.
Canella foi uma das pessoas presas em flagrante após a localização de um fuzil no veículo em que se encontrava. Sua defesa declarou que a arma pertencia ao policial militar responsável pela escolta e que estava regularmente registrada.
STF revogou medidas cautelares impostas a Canella
Em 10/07/2026, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, concedeu liberdade provisória a Canella, mediante medidas cautelares que incluíram uso de tornozeleira eletrônica, entrega de passaporte, recolhimento domiciliar e suspensão do porte de arma.
Em decisão divulgada em 24/07/2026, o ministro revogou as cautelares impostas ao ex-prefeito e ao policial militar que integrava sua escolta. Moraes considerou que as informações apresentadas pela defesa e pela Polícia Militar indicavam a regularidade do registro e do acautelamento dos armamentos apreendidos.
O STF informou que, naquele momento, não havia elementos que permitissem concluir pela prática do crime de porte ilegal de arma, pois os artefatos aparentavam estar regularmente vinculados a policiais militares identificados pela corporação. Eventuais irregularidades administrativas relacionadas ao emprego da escolta ou ao uso do armamento ainda poderiam ser avaliadas pelos órgãos competentes.
A decisão não equivale ao encerramento de toda a investigação relacionada à Operação Unha e Carne. O inquérito continua destinado a apurar possíveis conexões entre agentes públicos, grupos criminosos e operações financeiras realizadas por empresas do setor de combustíveis.
Bobô concentrou sua crítica política no fato de Canella ter sido apresentado em um evento sobre segurança pública e posteriormente alcançado por uma operação federal. Para o deputado, a escolha de dirigentes e convidados utilizados como referências exige critérios compatíveis com o discurso de rigor adotado pela Fundação Índigo.
“Quem vive apontando o dedo para os outros deveria explicar por que escolheu esses personagens como vitrine”, declarou.
Amapá lidera taxa nacional de mortes violentas
O terceiro ponto mencionado pelo parlamentar foi o cenário do Amapá. O governador Clécio Luís filiou-se ao União Brasil em 30/01/2026, transferindo para o partido o comando formal do Executivo estadual. A legenda também administra parte significativa dos municípios amapaenses.
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, referentes a 2025, mostram que o Amapá permaneceu com a maior taxa de Mortes Violentas Intencionais do país: 42,5 vítimas por 100 mil habitantes. Foram contabilizadas 343 mortes nessa categoria no estado.
A Bahia ficou na segunda posição, com taxa de 36,8 por 100 mil habitantes, seguida pelo Ceará, com 34,7. O Brasil registrou taxa média de 19,1 mortes violentas por 100 mil habitantes.
Bobô afirmou que esses números contrariam a tese de que governos ou partidos identificados com a direita possuam uma fórmula pronta e automaticamente eficaz para reduzir a criminalidade. Para o deputado, o resultado do Amapá demonstra que a avaliação deve considerar políticas concretas e resultados mensuráveis, e não apenas a identidade partidária dos governantes.
Bahia reduz mortes, mas permanece em situação crítica
Ao defender a política estadual, Bobô destacou a queda das Mortes Violentas Intencionais na Bahia. O Anuário de 2026 registrou 5.473 vítimas em 2025, contra 6.047 em 2024, o que representa redução de 9,6%.
O resultado baiano foi proporcionalmente superior à queda nacional de 8,2%. Em todo o Brasil, o número de mortes violentas passou de 44.220 para 40.775, alcançando o menor patamar da série iniciada em 2012.
Apesar da diminuição, a Bahia continuou com o maior número absoluto de mortes violentas entre as unidades da Federação e a segunda maior taxa proporcional do país. O estado também concentrou cinco dos dez municípios brasileiros com população superior a 100 mil habitantes que apresentaram as maiores taxas de violência letal: Eunápolis, Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro.
Os dados demonstram que a redução estatística não eliminou a gravidade estrutural do problema. A taxa baiana de 36,8 permaneceu quase duas vezes superior à média brasileira, de 19,1 mortes violentas por 100 mil habitantes.
Primeiro semestre de 2026 apresenta nova redução
Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública da Bahia indicam uma retração ainda maior no primeiro semestre de 2026. Entre janeiro e junho, o estado registrou 1.645 homicídios, latrocínios e lesões corporais dolosas seguidas de morte, contra 2.069 ocorrências no mesmo período de 2025.
A redução foi de 20,5%, equivalente a 424 registros a menos. Salvador apresentou queda de 29,7%, a Região Metropolitana teve retração de 29,6% e o interior registrou diminuição de 16,5%.
A comparação entre o balanço estadual de 2026 e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública deve ser feita com cautela. As duas bases possuem períodos e composições metodológicas diferentes. O Anuário utiliza a categoria nacional de Mortes Violentas Intencionais, que inclui mortes decorrentes de intervenções policiais, enquanto o balanço semestral apresentado pela segurança baiana reúne homicídios, latrocínios e lesões corporais dolosas seguidas de morte.
Mesmo com a diferença metodológica, os levantamentos apontam uma tendência de redução da violência letal na Bahia. Essa tendência, porém, parte de um patamar historicamente elevado e ainda insuficiente para alterar de maneira substancial a posição do estado no quadro nacional.







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