O deputado estadual Niltinho (PSD) cobrou explicações de ACM Neto (União Brasil) após Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, presidente do União Brasil no Rio de Janeiro e pré-candidato ao Senado, tornar-se alvo na terça-feira, 07/07/2026, da 6ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal no Rio de Janeiro para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis. A cobrança ganhou dimensão política porque Canella participou, em maio, do lançamento do MBA em Segurança Pública da Fundação Índigo, entidade presidida por ACM Neto, em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), evento apresentado como iniciativa de qualificação para o enfrentamento ao crime organizado.
Niltinho cobra coerência de ACM Neto após operação da PF
O deputado estadual Niltinho afirmou que o episódio exige esclarecimentos de ACM Neto sobre os critérios adotados pela Fundação Índigo na composição do evento voltado à segurança pública. Para o parlamentar, a presença de Márcio Canella entre os convidados fragiliza o discurso de quem pretende se apresentar como referência nacional no combate ao crime organizado.
“Se o objetivo era reunir referências em segurança pública, ACM Neto precisa explicar os critérios adotados. O discurso perde credibilidade quando um dos convidados de destaque acaba no centro de uma operação da Polícia Federal”, declarou Niltinho.
O parlamentar ressaltou que Canella é investigado, não foi condenado e tem direito à ampla defesa e ao contraditório. A crítica, segundo ele, concentra-se no plano político e institucional: a escolha de participantes para um evento que tinha como finalidade discutir estratégias contra facções criminosas, lavagem de dinheiro e controle territorial.
Operação Unha e Carne investiga lavagem de dinheiro no Rio de Janeiro
De acordo com a Polícia Federal, a 6ª fase da Operação Unha e Carne foi deflagrada no Rio de Janeiro para desarticular organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana como plataforma de lavagem de dinheiro, com possível participação de agentes públicos. A investigação aponta movimentação superior a R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, conforme Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhado à PF.
A ação envolveu 19 mandados de busca e apreensão em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense, além de medidas de sequestro de bens e valores e suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo investigado. A PF informou ainda a apreensão de cerca de R$ 919 mil, US$ 13 mil, um fuzil de calibre restrito, nove armas curtas, sete computadores, 23 celulares, 11 veículos, joias, relógios e documentos.
Os investigados poderão responder, conforme o avanço da apuração, por crimes como organização criminosa, contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro, além de outros delitos eventualmente identificados. A operação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para enfrentar organizações criminosas no Estado do Rio de Janeiro, em conformidade com diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 635.
Presença de Canella em evento da Fundação Índigo amplia repercussão política
A controvérsia ganhou projeção porque Márcio Canella esteve entre os nomes anunciados para o lançamento do MBA em Segurança Pública da Fundação Índigo, realizado em 21/05/2026, no Centro Cultural da FGV, no Rio de Janeiro. A própria Fundação Índigo informou que o evento contaria com a presença de ACM Neto, Antonio Rueda, Márcio Canella, Alessandro Visacro, Marcio Colmerauer e Rodrigo Pimentel, entre outros participantes.
O curso foi divulgado como o primeiro MBA em Segurança Pública do país idealizado por uma fundação partidária. A iniciativa, segundo a Fundação Índigo, seria gratuita, com duração superior a 430 horas-aula, exigência de Trabalho de Conclusão de Curso e grade estruturada pela FGV em 18 disciplinas, incluindo temas como crimes no agronegócio, crimes cibernéticos, insurgência criminal, controle territorial e dinâmicas criminais na Amazônia Legal.
Na ocasião, ACM Neto defendeu que conhecimento, inteligência e qualificação técnica seriam essenciais para enfrentar a criminalidade. A Fundação Índigo apresentou o curso como uma ação concreta voltada à formação de agentes públicos, profissionais da segurança, integrantes dos poderes públicos e membros do partido, justamente em um contexto de forte disputa política sobre a crise da segurança pública no país e, em especial, na Bahia.
Debate sobre segurança entra no centro da disputa política
A cobrança de Niltinho insere o caso no ambiente de polarização política em torno da segurança pública, tema que se tornou uma das principais frentes de confronto entre governo e oposição na Bahia. ACM Neto tem utilizado o assunto para criticar adversários e defender a necessidade de respostas mais duras e qualificadas contra facções criminosas.
Para o deputado do PSD, porém, o episódio envolvendo Canella abre uma fissura entre o discurso público e a articulação política da oposição. A crítica busca atingir a credibilidade de ACM Neto ao associar o lançamento de um curso sobre combate ao crime organizado à presença de um dirigente partidário posteriormente alcançado por uma operação da Polícia Federal.
A questão central, nesse caso, não é a antecipação de culpa contra o investigado, mas a responsabilidade política de quem organiza um espaço de debate público sobre segurança. Em eventos dessa natureza, especialmente quando vinculados a fundações partidárias e lideranças nacionais, a seleção de convidados também comunica valores, prioridades e parâmetros de credibilidade institucional.
Caso exige cautela jurídica, mas impõe cobrança pública sobre coerência política
A Operação Unha e Carne, em sua 6ª fase, trata de uma investigação ainda em curso. Portanto, qualquer conclusão penal sobre Márcio Canella ou demais alvos depende de apuração formal, manifestação das defesas, atuação do Ministério Público e decisão judicial. A presunção de inocência é um princípio constitucional e deve ser preservada, sobretudo em casos de grande repercussão política.
Isso não impede, porém, a cobrança pública sobre a coerência de lideranças partidárias que transformam a segurança em eixo de discurso eleitoral e institucional. Quando um convidado de evento apresentado como referência técnica no enfrentamento ao crime organizado passa a figurar entre os alvos de investigação da PF, surge uma questão legítima: quais filtros políticos, técnicos e reputacionais foram adotados na escolha dos participantes?
O caso tende a produzir efeitos no debate político baiano e nacional, especialmente porque envolve ACM Neto, a Fundação Índigo, o União Brasil, a Polícia Federal e investigações sobre lavagem de dinheiro no Rio de Janeiro.







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