Deputado Robinson Almeida acusa Bruno Reis de contradição no caso de R$ 38,3 milhões investigado pelo Gaeco em Salvador

O deputado estadual Robinson Almeida (PT) acusou, nesta quinta-feira (16/07/2026), o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), de apresentar versões contraditórias sobre as providências adotadas pela administração municipal diante das irregularidades envolvendo empresas investigadas pelo Ministério Público do Estado da Bahia. A controvérsia ocorre após uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco) apurar possíveis fraudes em contratos públicos, com prejuízo preliminar estimado em R$ 38,3 milhões, e depois de o gestor negar ter cometido prevaricação e recomendar ao parlamentar que estudasse “legislação e direito”.

Robinson Almeida reage à resposta de Bruno Reis

A manifestação de Robinson Almeida ocorreu depois de Bruno Reis rebater as acusações de possível omissão administrativa relacionadas ao caso. Durante entrevista concedida nesta quinta-feira, após o lançamento do programa Empreendedor Salvador, no bairro do Comércio, o prefeito afirmou que o deputado deveria aprofundar seus conhecimentos jurídicos antes de formular acusações.

“Vá estudar, entender de legislação e direito para poder fazer qualquer tipo de colocação. Eu acho que isso ele entende quase nada, muito pouco”, declarou Bruno Reis.

Em resposta, Robinson afirmou que o debate público não deveria ser deslocado para ataques pessoais, mas concentrado na cronologia das providências adotadas pela Prefeitura diante das suspeitas relacionadas aos contratos municipais.

“Quem precisa estudar direito e gestão é o prefeito que deixou um escândalo de R$ 38 milhões passar por baixo do seu nariz”, declarou o deputado.

O parlamentar sustentou que as manifestações do prefeito ao longo da semana não esclareceram quando a administração municipal tomou conhecimento dos problemas, quais contratos foram suspensos, quais empresas foram efetivamente sancionadas e por que agentes públicos alcançados pela investigação permaneceram em suas funções até a deflagração da operação.

Declarações do prefeito ampliam cobrança por documentos

Na terça-feira (14/07/2026), Bruno Reis declarou que a Prefeitura já enfrentava problemas administrativos com as empresas investigadas, havia aplicado multas, rescindido contratos e preparava processos destinados à declaração de inidoneidade das companhias.

“Há muito a Prefeitura já havia, em diversas batalhas, seja administrativas, penalizando essas empresas, rescindido contratos, aplicando multas. Estávamos na iminência de decretar a inidoneidade para que elas ficassem impossibilitadas de contratar com o município”, afirmou o prefeito.

Bruno Reis também agradeceu a atuação do Ministério Público e anunciou que o Município buscaria ampliar judicialmente os efeitos das medidas cautelares, com o objetivo de encerrar contratos ainda existentes e impedir novos pagamentos às empresas alcançadas pela apuração.

Robinson Almeida afirmou que a mudança na argumentação adotada pelo prefeito reforça a necessidade de esclarecimentos objetivos.

“Bruno Reis se contradiz. Na terça-feira, admitiu que a Prefeitura já sabia das suspeitas de corrupção e disse que adotava medidas administrativas, até então desconhecidas porque não efetivadas. Agora tenta mudar a versão e afirma que aguardava os órgãos de controle. Afinal, qual é a verdade?”

O deputado questionou por que, caso a administração já tivesse conhecimento de indícios graves, não teria determinado imediatamente o afastamento preventivo dos agentes públicos relacionados aos procedimentos, a instauração de uma auditoria ampla e a interrupção cautelar dos contratos.

“Se sabia, por que não afastou os envolvidos e determinou uma investigação rigorosa? Em vez de responder e explicar à sociedade por que sua versão dos fatos muda a cada entrevista, prefere atacar quem cobra explicações. Enquanto isso, Salvador está entregue ao lixo e aos escândalos”, declarou Robinson.

Gaeco investiga contratos da Seman e da Desal

A operação foi realizada na segunda-feira (13/07/2026) pelo Gaeco, unidade especializada do Ministério Público da Bahia, com apoio da Polícia Civil. As diligências alcançaram empresários, empresas, servidores municipais, o então secretário de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro, Luciano Ricardo Gomes Sandes, e o vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela (PP).

A investigação examina a possível atuação de um grupo estruturado em três segmentos: um núcleo empresarial, responsável pela participação em licitações; um núcleo operacional, encarregado da movimentação dos recursos; e um núcleo de agentes públicos que teria favorecido a entrada e a permanência das empresas em contratos municipais.

As suspeitas envolvem possíveis fraudes licitatórias, direcionamento de contratos, superfaturamento, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e pagamento por serviços incompatíveis com as condições estabelecidas nos procedimentos administrativos.

Os contratos investigados estão relacionados principalmente à Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade (Seman) e à Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal). A representação apresentada à Justiça sustenta que as possíveis irregularidades teriam ocorrido ao longo de aproximadamente dez anos.

Justiça determina afastamentos e bloqueio de R$ 38,3 milhões

A Justiça autorizou o cumprimento de 18 mandados de busca e apreensão, determinou o afastamento cautelar de agentes públicos, proibiu o contato entre investigados e decretou a indisponibilidade de bens e ativos no valor de R$ 38.321.127,95.

O Ministério Público solicitou ainda a prisão preventiva de seis investigados. A juíza Martha Carneiro Terrin e Souza, da 3ª Vara das Garantias de Salvador, entendeu, entretanto, que as prisões não eram necessárias naquele momento e considerou suficientes os afastamentos funcionais, o bloqueio patrimonial e as demais restrições impostas.

As medidas possuem natureza cautelar e não representam condenação antecipada. A eventual responsabilização criminal, civil ou administrativa dependerá da análise do material apreendido, da comprovação das condutas individuais e do respeito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.

Empresas receberam R$ 321,1 milhões desde 2015

Levantamento realizado com base no Portal da Transparência de Salvador apontou que as cinco empresas mencionadas na investigação receberam conjuntamente R$ 321.163.273,89 da Prefeitura entre 2015 e julho de 2026, período que abrange as administrações de ACM Neto e Bruno Reis.

Os pagamentos identificados foram distribuídos da seguinte forma:

  • G3 Polaris Serviços: R$ 124.839.733,73;
  • Podium Distribuidora: R$ 85.496.159,40;
  • LN Distribuidora e Comércio: R$ 45.402.729,70;
  • WLSP Logística e Transportes: R$ 37.673.075,97;
  • MP2 Construções: R$ 27.751.575,09.

A G3 Polaris e a Podium Distribuidora concentraram aproximadamente 65,5% dos pagamentos levantados, totalizando cerca de R$ 210,3 milhões.

O montante de R$ 321,1 milhões não corresponde automaticamente ao valor supostamente desviado nem permite concluir que todos os contratos firmados com as empresas sejam irregulares. O número representa o volume total de pagamentos identificados durante o período pesquisado.

O possível dano de R$ 38,3 milhões corresponde à estimativa preliminar associada aos procedimentos inicialmente analisados pelo Gaeco. A quantificação definitiva dependerá de perícias, auditorias, rastreamento financeiro e análise individualizada dos contratos, medições, serviços executados e aditivos.

Aditivos e procedimentos licitatórios estão sob análise

Entre os procedimentos mencionados na investigação está o Pregão Eletrônico nº 25/2018, realizado pela Seman. O contrato, inicialmente estimado em aproximadamente R$ 8,9 milhões, teria alcançado cerca de R$ 15,2 milhões depois de alterações e aditivos.

Outro contrato examinado foi celebrado pela Desal em 2020 para o fornecimento de grama sintética. O valor inicialmente previsto, de aproximadamente R$ 434 mil, teria ultrapassado R$ 1,4 milhão durante sua execução.

A existência de aditivos contratuais não comprova, isoladamente, qualquer ilegalidade. A apuração deverá verificar se os acréscimos foram fundamentados, respeitaram os limites legais, corresponderam a serviços efetivamente prestados e mantiveram valores compatíveis com os praticados no mercado.

A investigação também menciona transferências que totalizariam R$ 118,5 mil, supostamente destinadas a um fiscal de contratos. Caberá ao Ministério Público demonstrar a origem, a finalidade e a eventual relação dos pagamentos com decisões administrativas, medições ou liberações de recursos.

Robinson acusa prefeito de abandonar administração por agenda eleitoral

Além dos questionamentos sobre os contratos, Robinson Almeida acusou Bruno Reis de reduzir sua presença na administração municipal para participar de atividades políticas relacionadas à pré-campanha de ACM Neto ao Governo da Bahia.

“O prefeito vive viajando para fazer campanha para seu chefe político e abandonou a administração da cidade. Basta percorrer os bairros populares para ver o descaso com a limpeza urbana e com os serviços públicos. Salvador merece um prefeito presente, que cuide da cidade e não apenas da política eleitoral”, afirmou.

Linha do tempo

2015

Início do período abrangido pelo levantamento dos pagamentos realizados pela Prefeitura de Salvador às cinco empresas mencionadas na investigação.

2018

A Seman realiza o Pregão Eletrônico nº 25/2018. O contrato, inicialmente estimado em cerca de R$ 8,9 milhões, teria alcançado aproximadamente R$ 15,2 milhões depois de alterações e aditivos.

2020

A Desal celebra contrato para fornecimento de grama sintética. O valor inicial de aproximadamente R$ 434 mil teria ultrapassado R$ 1,4 milhão durante a execução.

2021 a 2023

Luciano Sandes ocupa o comando da Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade durante parte do período examinado pelos investigadores.

Janeiro de 2023

Sandes deixa a Seman e assume a Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro.

13 de julho de 2026

O Gaeco e a Polícia Civil cumprem mandados de busca e apreensão contra agentes públicos, empresários, servidores e empresas. A Justiça determina afastamentos cautelares, proibição de contato e bloqueio de bens superior a R$ 38,3 milhões.

14 de julho de 2026

Levantamento baseado no Portal da Transparência identifica pagamentos de R$ 321,1 milhões às cinco empresas desde 2015. Bruno Reis declara que a Prefeitura já aplicava multas, rescindia contratos e preparava a declaração de inidoneidade das companhias.

15 de julho de 2026

Parlamentares cobram a divulgação de documentos, datas, sanções, pagamentos e providências administrativas adotadas depois que a Prefeitura identificou os problemas.

16 de julho de 2026

Bruno Reis rejeita as acusações de prevaricação e recomenda a Robinson Almeida que estude legislação e direito. O deputado reage, acusa o prefeito de apresentar versões contraditórias e cobra explicações sobre a continuidade dos contratos e a permanência dos investigados em suas funções.

Leia +

Gaeco cumpre buscas contra vereador Gordinho da Favela e secretário Luciano Sandes; Justiça determina afastamentos em Salvador

Empresas investigadas pelo Gaeco receberam R$ 321,1 milhões da Prefeitura de Salvador nas gestões de ACM Neto e Bruno Reis


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading