Empresas ligadas ao empresário Joel Feldman, ex-secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda de Mata de São João, receberam R$ 28,6 milhões em empréstimos do Banco Master depois de a instituição financeira ser credenciada pela prefeitura para operar um cartão de crédito consignado destinado aos servidores municipais. A sequência das operações foi revelada em reportagem publicada pelo portal Metrópoles e repercutida nesta quarta-feira (22/07/2026) pela imprensa baiana e nacional. Um financiamento de R$ 19 milhões foi formalizado 27 dias após o credenciamento, enquanto uma segunda empresa vinculada ao então secretário obteve outros R$ 9,6 milhões em novembro de 2022. Feldman nega qualquer relação entre sua atuação pública, o credenciamento municipal e os empréstimos concedidos às empresas privadas.
Banco Master concedeu dois financiamentos a empresas ligadas a Joel Feldman
De acordo com a apuração, o Banco Master foi formalmente credenciado pela Prefeitura de Mata de São João em 13/08/2021 para operar o chamado Cartão do Servidor, produto de crédito com pagamento descontado diretamente na folha dos funcionários públicos municipais. Em 10/09/2021, 27 dias depois, a instituição financeira registrou um empréstimo de R$ 19 milhões para a Quality Supermercados, empresa que tinha Feldman como sócio-administrador.
A operação financeira teria sido identificada em documento elaborado pelo liquidante do Banco Master e anexado a um processo judicial. Segundo a reportagem, os recursos foram concedidos quando Feldman exercia o cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda e participava da implantação do cartão consignado municipal operado pelo banco.
Um segundo financiamento foi registrado em 25/11/2022, quando a Kasim Empreendimentos, outra empresa ligada ao empresário, recebeu R$ 9,6 milhões do Banco Master. A companhia havia sido constituída em julho daquele ano. Somadas, as duas operações alcançaram R$ 28,6 milhões.
Joel Feldman nega relação entre os empréstimos e o cargo público
Procurado pelo Metrópoles, Joel Feldman afirmou que os financiamentos seguiram os padrões praticados pelo mercado bancário. Segundo ele, o empréstimo concedido à Quality Supermercados foi destinado à aquisição de nove unidades comerciais na Bahia e à posterior reorganização das dívidas da rede varejista.
“Não há qualquer relação entre as operações feitas com a varejista e minha atuação como secretário em Mata de São João”, declarou Feldman à reportagem.
O empresário também negou ter participado de eventuais alterações nas regras municipais que beneficiariam as operações consignadas. Ao ser questionado sobre um decreto que ampliou de seis para dez anos o prazo máximo dos contratos, afirmou desconhecer a medida e sustentou que ela não teve ligação com o financiamento concedido à Kasim Empreendimentos.
As informações publicadas não indicam, até o momento, a existência de decisão judicial ou conclusão administrativa que tenha declarado ilegais os dois empréstimos. A proximidade temporal entre o credenciamento municipal e a primeira operação financeira, entretanto, introduziu questionamentos sobre os critérios de concessão do crédito, as garantias apresentadas, as condições negociadas e a eventual existência de conflito entre a função pública exercida pelo empresário e seus interesses privados.
Prefeitura criou cartão consignado para servidores municipais
A Prefeitura de Mata de São João estruturou o Cartão do Servidor durante o mandato iniciado em 2021 pelo então prefeito João Gualberto Vasconcelos. Segundo a apuração, Feldman retornou naquele ano ao comando da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda e participou das tratativas com o então Banco Máxima, denominação utilizada pela instituição antes da consolidação da marca Banco Master.
A legislação municipal que autorizou o produto foi promulgada em 31/03/2021. Cinco dias depois, o Executivo publicou regulamentação para permitir o credenciamento das instituições financeiras interessadas. O Banco Master foi credenciado em agosto daquele ano, conforme a cronologia apresentada pela reportagem.
Em comunicado divulgado em 12/01/2022, a prefeitura apresentou oficialmente o cartão como instrumento destinado a estimular o comércio local. O produto, operado pelo Banco Máxima e emitido com bandeira Visa, poderia ser utilizado apenas nos estabelecimentos comerciais do município. Os limites de crédito e de empréstimos consignados correspondiam a até 30% da remuneração dos servidores.
A administração municipal estimava que o cartão colocaria aproximadamente R$ 1,8 milhão em crédito na economia de Mata de São João. Na apresentação do programa, João Gualberto afirmou que a restrição territorial estimularia os funcionários públicos a realizarem compras no próprio município. Feldman, então secretário, destacou que a implantação havia resultado de um trabalho desenvolvido junto ao Banco Máxima.
Decreto ampliou prazo das operações para até dez anos
Em setembro de 2022, a Prefeitura de Mata de São João editou um decreto que ampliou de 72 para 120 meses o prazo máximo aplicável às operações consignadas. Na prática, os contratos poderiam permanecer vinculados à folha salarial dos servidores por até dez anos, em vez do limite anterior de seis anos.
Dois meses depois da alteração, a Kasim Empreendimentos recebeu o financiamento de R$ 9,6 milhões do Banco Master. Feldman declarou que desconhecia o decreto e negou qualquer relação entre a mudança administrativa, o funcionamento do cartão e o empréstimo contratado pela empresa.
Nos cartões consignados, parte do pagamento pode ser descontada diretamente da folha, mas o saldo remanescente continua sujeito à cobrança de juros. Por esse motivo, a ampliação do prazo potencialmente prolongava o período durante o qual as parcelas ou pagamentos mínimos poderiam ser descontados dos vencimentos dos servidores.
Relação empresarial começou na privatização da Cesta do Povo
A relação de Joel Feldman com as estruturas empresariais posteriormente associadas ao Banco Master remonta ao processo de transferência do controle da antiga Empresa Baiana de Alimentos, responsável pela rede Cesta do Povo e pelo programa Credcesta.
Em 2018, a NGV Empreendimentos e Participações venceu o leilão promovido pelo Governo da Bahia e adquiriu, por R$ 15 milhões, a participação acionária da EBAL, os fundos de comércio relativos às 49 lojas da Cesta do Povo, o direito de exploração da marca e o Programa Credcesta. Os imóveis pertencentes à estatal não integraram a operação e permaneceram no patrimônio do Estado.
A NGV tinha como sócios formais o empresário espanhol Ignacio Morales e Joel Feldman, que ocupava a presidência da Associação Bahiana de Supermercados e já mantinha estabelecimentos comerciais no Litoral Norte e no Recôncavo baiano. Naquele período, Feldman também exercia função pública em Mata de São João.
Segundo o Metrópoles, dois leilões anteriores haviam terminado sem interessados. Para a terceira tentativa, o preço mínimo teria sido reduzido de R$ 80 milhões para R$ 15 milhões, enquanto o passivo da antiga empresa, estimado entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões, permaneceu sob responsabilidade estatal. A venda efetivamente realizada por R$ 15 milhões e a inclusão da marca Cesta do Povo e do Credcesta são confirmadas pelo registro publicado pelo Jornal Grande Bahia em maio de 2018.
Credicesta foi transferido para estrutura ligada ao Banco Máxima
Após vencer o leilão, a NGV firmou contrato para transferir os direitos relacionados ao Credicesta para a PKL, empresa posteriormente adquirida pelo Banco Máxima. A instituição passou a ser denominada Banco Master durante o processo de expansão conduzido pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
A operação separou, na prática, a atividade varejista da Cesta do Povo do produto financeiro associado à folha dos servidores. Feldman permaneceu vinculado à rede de supermercados, enquanto o empresário Augusto Lima se tornou um dos principais responsáveis pela expansão do Credicesta no mercado de crédito consignado.
Em declaração reproduzida pela reportagem, Feldman afirmou que conheceu Augusto Lima durante as negociações ligadas à rede. Segundo sua versão, Lima tinha interesse no produto financeiro, enquanto ele possuía experiência no setor varejista.
O Credicesta se transformou posteriormente em um dos produtos de maior alcance do conglomerado. Em 2024, estava presente em 176 municípios de 24 estados, com atuação também no crédito destinado a beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social.
Prefeitura descredenciou instituição em 2025
As reportagens consultadas informam que, em 2025, a Prefeitura de Mata de São João descredenciou o Banco Master da operação destinada aos servidores municipais. Entre as justificativas apresentadas estavam dificuldades relatadas por funcionários públicos para quitar dívidas e a necessidade de atendimento presencial aos consumidores.
Segundo a apuração, a instituição chegou a instalar um representante bancário no município para atender às reclamações. O local, entretanto, também teria sido utilizado para a oferta de novas operações de crédito consignado.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18/11/2025, citando grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas que regem as instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional.
A liquidação ocorreu no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou a primeira fase ostensiva da Operação Compliance Zero, investigação iniciada em 2024 para apurar a possível fabricação e negociação de carteiras de crédito sem lastro. Desde então, a apuração avançou sobre diferentes núcleos financeiros, empresariais, políticos e administrativos.
Caso deve ser separado das demais investigações sobre o Banco Master
A divulgação dos empréstimos ocorre durante o avanço das investigações sobre as operações financeiras do Banco Master. A Operação Compliance Zero apura, em diferentes frentes, suspeitas de fabricação de carteiras de crédito, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, corrupção, interferência em investigações e circulação de recursos entre instituições financeiras e operadores privados.
Até a publicação desta reportagem, as fontes consultadas não informavam que Joel Feldman, a Quality Supermercados ou a Kasim Empreendimentos fossem formalmente investigados por fraude relacionada especificamente aos dois empréstimos. Também não foi apresentada conclusão oficial de que o credenciamento municipal tenha sido condicionado à concessão dos financiamentos.
A distinção é necessária porque a coincidência ou proximidade temporal entre atos administrativos e operações privadas pode justificar apuração e pedidos de transparência, mas não constitui, isoladamente, prova de favorecimento, corrupção ou ilegalidade. Qualquer responsabilização dependerá da análise documental, das condições comerciais dos contratos, das garantias oferecidas, da participação de cada agente e de eventual decisão das autoridades competentes.
Linha do tempo das relações entre Cesta do Povo, Credicesta, Mata de São João e Banco Master
2018 — NGV compra controle da EBAL
A NGV Empreendimentos e Participações arremata por R$ 15 milhões o controle acionário da EBAL, os fundos de comércio das 49 lojas, a marca Cesta do Povo e o Programa Credicesta. Joel Feldman integra formalmente a sociedade adquirente.
2018 — Credicesta é transferido
A NGV transfere os direitos relacionados ao produto financeiro para a PKL. A empresa é posteriormente adquirida pelo Banco Máxima, que passaria a se chamar Banco Master.
Janeiro de 2021 — Feldman retorna à prefeitura
Joel Feldman volta ao cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda na gestão do prefeito João Gualberto. A administração municipal inicia a estruturação de um cartão consignado para os servidores.
31/03/2021 — Legislação municipal é promulgada
A Câmara Municipal autoriza a criação do produto. Cinco dias depois, a prefeitura edita regulamentação destinada ao credenciamento de instituições financeiras.
13/08/2021 — Banco Master é credenciado
A instituição financeira recebe autorização formal para operar o cartão consignado dos servidores de Mata de São João.
10/09/2021 — Quality Supermercados recebe R$ 19 milhões
Vinte e sete dias após o credenciamento, o Banco Master formaliza financiamento de R$ 19 milhões para a Quality Supermercados, empresa administrada por Feldman.
12/01/2022 — Prefeitura anuncia lançamento do cartão
A administração municipal apresenta o Cartão do Servidor, operado pelo Banco Máxima, com limite equivalente a 30% dos salários e utilização restrita ao comércio de Mata de São João.
Setembro de 2022 — Prazo é ampliado
Decreto municipal aumenta de 72 para 120 meses o prazo máximo aplicável às operações consignadas.
25/11/2022 — Kasim recebe R$ 9,6 milhões
A Kasim Empreendimentos, constituída em julho daquele ano e vinculada a Feldman, recebe financiamento de R$ 9,6 milhões do Banco Master.
19/12/2023 — Bira da Barraca assume a prefeitura
João Gualberto renuncia ao mandato e o vice-prefeito Agostinho Batista dos Santos Neto, conhecido como Bira da Barraca, é empossado.
2025 — Município descredencia o Banco Master
A Prefeitura de Mata de São João encerra o credenciamento da instituição para a operação do cartão consignado, em meio a reclamações apresentadas por servidores.
18/11/2025 — Banco Central decreta liquidação
O Banco Central determina a liquidação extrajudicial do Banco Master. Na mesma data, a Polícia Federal deflagra a primeira fase ostensiva da Operação Compliance Zero.
21/07/2026 — Empréstimos tornam-se públicos
Reportagem do Metrópoles revela os financiamentos de R$ 19 milhões e R$ 9,6 milhões concedidos às empresas ligadas a Feldman. Revista Oeste e veículos baianos repercutem o caso.
Análise crítica jornalística e conclusão editorial
A acumulação de uma função pública estratégica com interesses empresariais potencialmente relacionados à instituição beneficiada por um credenciamento municipal exige padrões elevados de transparência. Para esclarecer integralmente o episódio, são relevantes a divulgação do processo administrativo de criação do Cartão do Servidor, dos pareceres jurídicos, do termo de credenciamento, das regras de prevenção a conflitos de interesses e das condições comerciais dos empréstimos concedidos às empresas de Feldman.
Também precisam ser examinados os critérios de risco adotados pelo Banco Master, as garantias oferecidas pela Quality Supermercados e pela Kasim Empreendimentos, as taxas praticadas e a eventual participação de dirigentes bancários ou agentes municipais nas negociações. A proximidade de 27 dias entre o credenciamento e o financiamento de R$ 19 milhões é um dado objetivo, mas sua interpretação jurídica depende da comprovação, ou não, de vínculo causal entre os dois atos.
O episódio importa porque reúne crédito privado, decisões administrativas e o uso da folha salarial de servidores públicos. Os próximos esclarecimentos dependem da Prefeitura e da Câmara Municipal de Mata de São João, do liquidante do Banco Master e, caso sejam identificados indícios de irregularidade, dos órgãos de controle, do Ministério Público e das autoridades responsáveis pelas investigações financeiras. O ponto central a ser acompanhado é se as operações obedeceram aos critérios comuns do mercado ou se houve vantagem decorrente da posição pública exercida pelo empresário.







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