Ex-prefeito ACM Neto recebeu R$ 3,7 milhões de empresas ligadas ao Banco Master enquanto prefeitura de Salvador garantia exclusividade em consignado, revela UOL

Reportagem do UOL, assinada por Marina Barbosa e publicada nesta sexta-feira (13/03/2026), revela conjunto de decisões administrativas e relações comerciais envolvendo o Banco Master, a gestora Reag e a empresa A&M Consultoria, do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), que passou a atrair atenção após a revelação de pagamentos milionários registrados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Entre junho de 2023 e maio de 2024, a consultoria ligada ao ex-prefeito recebeu R$ 3,77 milhões das duas instituições financeiras, enquanto decretos e contratos firmados anteriormente pela administração municipal garantiam exclusividade a operações de crédito consignado relacionadas ao banco para servidores públicos da capital baiana.

Os pagamentos, revelados em registros analisados pela imprensa, foram feitos por meio de 52 transferências bancárias e representaram cerca de 60% da receita da A&M Consultoria no período. A empresa foi criada por ACM Neto no final de 2022, após o término de seu mandato na prefeitura de Salvador.

O ex-prefeito afirma que os valores correspondem a serviços de consultoria prestados após deixar o cargo público, relacionados à análise da agenda político-econômica nacional e realizados por meio de reuniões técnicas com representantes das empresas contratantes.

Decreto municipal garantiu exclusividade em consignado

O debate sobre os pagamentos ocorre em meio a questionamentos sobre a estrutura do programa de crédito consignado vinculado ao Banco Master na Bahia.

Em 4 de fevereiro de 2021, a Prefeitura de Salvador editou o Decreto nº 33.502, que assegurou exclusividade de 10% da margem consignável dos servidores municipais para um produto financeiro classificado como “linha de crédito rotativo”. A operação ficou vinculada ao Credcesta, produto de crédito relacionado ao Banco Master.

A categoria criada pelo decreto municipal não corresponde diretamente às modalidades tradicionais de consignado previstas em normas federais, que geralmente incluem:

  • Empréstimo consignado tradicional
  • Cartão consignado
  • Cartão benefício

A chamada “linha de crédito rotativo” pressupõe que o cliente utilize o limite do cartão e permaneça no rotativo, situação em que incidem juros mais elevados, multas e encargos financeiros.

Procurada, a Prefeitura de Salvador afirmou, por meio de nota oficial, que não houve irregularidade na adoção do modelo e que a estrutura utilizada é semelhante à aplicada por outras instituições públicas. Segundo a administração municipal, os atos administrativos seguiram normas legais e foram submetidos ao controle dos órgãos competentes.

Estrutura do consignado tornou-se altamente lucrativa

A gestão da margem consignável — ou seja, o controle dos descontos de empréstimos diretamente na folha de pagamento — tornou-se um negócio relevante com a entrada de empresas especializadas nesse sistema.

Entre elas está a Consiglog, empresa que tem como sócio João Carlos Mansur, fundador da gestora Reag, e que também é associada ao empresário Augusto Lima, figura ligada à origem das operações do Banco Master no segmento de crédito consignado.

O modelo adotado pela Consiglog introduziu uma mudança relevante no mercado: em vez de cobrar uma tarifa fixa por operação, a empresa passou a cobrar uma porcentagem sobre os valores descontados em folha.

Na prática, esse formato elevou a rentabilidade do negócio, pois:

  • a gestora recebe uma participação proporcional sobre os empréstimos concedidos
  • instituições financeiras pagam taxas para utilizar o sistema
  • em algumas localidades há taxas adicionais para cadastro de bancos e financeiras

Especialistas apontam que esse mecanismo pode encarecer o crédito final para os servidores, ampliando riscos de superendividamento, especialmente quando associado a produtos de cartão consignado.

Expansão nacional do Credcesta

O Credcesta, principal produto de crédito associado ao Banco Master, teve origem na Bahia e posteriormente expandiu suas operações para outros estados.

A expansão ganhou impulso durante o período em que João Roma, então aliado político de ACM Neto e ex-chefe de gabinete na prefeitura de Salvador, assumiu o Ministério da Cidadania no governo Jair Bolsonaro, em 2021.

Com a abertura de operações no sistema previdenciário, o Credcesta ampliou significativamente sua presença no mercado nacional. Dados indicam que:

  • o número de contratos no INSS passou de 104,8 mil em 2022
  • para cerca de 2,75 milhões em 2024

A expansão levou o produto a atuar em 24 estados e 176 municípios brasileiros.

Contudo, em 2025, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) decidiu não renovar o acordo com o Credcesta, após suspeitas de irregularidades em cerca de 75% dos contratos analisados.

Origem do negócio e vínculos políticos

O desenvolvimento do programa de crédito consignado ligado ao Banco Master também envolve episódios anteriores à estrutura atual do banco.

O empresário Augusto Lima, ligado a associações de aposentados, teria levado o modelo de crédito consignado público ao Banco Master após uma operação envolvendo a privatização de uma rede de supermercados na Bahia.

No leilão realizado em 2018, Lima adquiriu a rede por R$ 15 milhões. Posteriormente, o programa de benefícios vinculado às lojas foi vendido ao Banco Master por R$ 30 milhões, operação que resultou em sua entrada como sócio no banco ao lado do banqueiro Daniel Vorcaro.

Após a privatização, um decreto estadual transformou o antigo programa de benefícios das lojas da rede em uma linha de crédito baseada em cartão, vinculada ao programa Credcesta.

A norma também garantiu 15 anos de exclusividade na exploração de 30% da margem consignável de servidores e aposentados do estado da Bahia.

Posicionamento de ACM Neto

Em nota oficial, ACM Neto afirmou que os pagamentos recebidos por sua empresa não têm relação com investigações envolvendo o Banco Master.

Segundo o ex-prefeito, os contratos foram firmados após o término de seu mandato e envolveram apenas serviços de consultoria relacionados à análise da conjuntura político-econômica nacional.

Ele afirma que:

  • todos os contratos foram formalizados
  • houve recolhimento regular de impostos
  • os pagamentos foram compatíveis com a prestação de serviços também a outros clientes

ACM Neto também criticou o que classificou como “vazamento seletivo e fragmentado” de informações protegidas por sigilo bancário e fiscal, afirmando que não teve acesso aos documentos divulgados pela imprensa.

Leia +

Relatório do Coaf aponta repasses de R$ 3,6 milhões do Banco Master e da Reag a empresa ligada ao ex-prefeito ACM Neto


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