Ex-ministro Rui Costa denuncia suposto uso político de exames e consultas e critica saúde pública de Salvador

O ex-governador da Bahia, ex-ministro da Casa Civil e pré-candidato ao Senado Rui Costa (PT) criticou, nesta quinta-feira (30/07/2026), a situação da saúde pública de Salvador e denunciou a existência de um suposto sistema de intermediação política para o acesso a exames, consultas e outros serviços municipais. Durante entrevista à Rádio Popular FM, o petista afirmou que moradores estariam recorrendo a vereadores, cabos eleitorais e lideranças políticas para obter atendimentos que deveriam ser garantidos por critérios técnicos, universais e transparentes. A declaração ocorre em meio ao debate eleitoral de 2026 e às divergências entre o grupo governista estadual e a administração do prefeito Bruno Reis (União Brasil) sobre a organização da rede pública da capital.

Rui Costa acusa intermediação política no acesso à saúde

Durante a entrevista, Rui Costa afirmou que recebe reiteradas reclamações de moradores sobre dificuldades para marcar consultas, realizar exames e obter medicamentos na rede municipal de saúde. Segundo o ex-governador, parte desses serviços estaria sendo distribuída por meio de cotas vinculadas a agentes políticos.

“Em Salvador, para ter acesso a exame, o povo tem que procurar um cabo eleitoral”, declarou. Na avaliação do petista, a eventual utilização de relações políticas para facilitar o acesso a serviços públicos configura uma distorção administrativa e eleitoral.

“Isso é politicagem, é chantagem eleitoral. Isso não é política pública”, afirmou Rui Costa.

A acusação apresentada pelo pré-candidato ao Senado envolve uma questão central para a organização do Sistema Único de Saúde: o acesso aos serviços deve obedecer a critérios clínicos, epidemiológicos, territoriais e regulatórios, sem privilégios decorrentes de indicação pessoal ou partidária. A Lei Federal nº 8.080 estabelece a universalidade do acesso e a igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie.

Ex-governador aponta desigualdade na atenção básica

Rui Costa também criticou a abrangência territorial da atenção primária em Salvador. Segundo ele, aproximadamente 40% dos moradores não teriam postos de saúde disponíveis em suas regiões e enfrentariam dificuldades para obter medicamentos, atendimento médico, exames e consultas.

“O que mais o povo reclama é que falta posto de saúde, falta remédio e não consegue fazer exames nem consultas”, declarou.

O percentual mencionado pelo ex-governador se aproxima, embora não coincida exatamente, com a lacuna indicada no Plano Municipal de Saúde de Salvador para o período de 2026 a 2029. O documento da própria Prefeitura informa que a cobertura estimada da Atenção Primária à Saúde passou de 37%, em 2015, para 66,6%, em 2024. Pelo indicador oficial, aproximadamente 33,4% da população permanecia fora da cobertura estimada naquele ano.

Os indicadores medem a cobertura populacional estimada das equipes e não significam, necessariamente, que todos os moradores não alcançados estejam fisicamente sem uma unidade de saúde em seus bairros. Também não asseguram que a população formalmente coberta obtenha consultas, medicamentos e exames no tempo necessário. Cobertura territorial, disponibilidade de profissionais, capacidade de atendimento e resolutividade são dimensões diferentes da política pública.

O plano municipal registra que, entre 2015 e 2024, o número de unidades básicas aumentou de 124 para 162. Desse total, 116 passaram a contar com Estratégia Saúde da Família, reunindo 389 equipes implantadas. O documento também informa a realização de aproximadamente 1,4 milhão de atendimentos anuais a partir de 2020.

Os números demonstram expansão da estrutura e da cobertura durante o período, mas também confirmam que a atenção primária ainda não alcançava toda a população. A principal porta de entrada do SUS deve assegurar acessibilidade, continuidade do cuidado, integralidade, responsabilização e equidade, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde.

Prefeitura mantém sistemas oficiais de marcação e regulação

A Secretaria Municipal da Saúde informa que as Unidades Básicas de Saúde de Salvador oferecem, entre outros serviços, consultas de enfermagem e odontologia, vacinação, acompanhamento de pacientes e marcação de exames e atendimentos especializados. O público atendido é formado por moradores da capital.

Nas Unidades de Saúde da Família, o atendimento está relacionado ao território de residência do usuário, enquanto encaminhamentos para outras especialidades e exames podem ser inseridos no sistema municipal. A Prefeitura também afirma que não existe restrição absoluta ao atendimento em unidades básicas para moradores de outras áreas da cidade.

Consultas especializadas e exames oferecidos pelos multicentros municipais são agendados pelo Sistema Vida+, após solicitação realizada na unidade de saúde de origem. O usuário recebe uma chave de marcação contendo data e horário do procedimento.

No Hospital Municipal de Salvador, os serviços ambulatoriais também são acessados mediante agendamento pelo Sistema Vida+. O atendimento hospitalar depende dos critérios clínicos de urgência, emergência, necessidade de internação ou encaminhamento para procedimento ambulatorial.

Esses canais constituem o fluxo formal divulgado pela administração municipal. A existência de regras e plataformas oficiais, entretanto, não elimina a necessidade de investigar se filas, vagas ou procedimentos estariam sendo informalmente controlados, antecipados ou distribuídos por intermediação política, como afirmou Rui Costa.

Rui Costa amplia crítica para habitação e melhorias urbanas

O ex-governador também relacionou a denúncia na saúde ao modo como programas habitacionais e intervenções urbanas devem ser executados. Segundo ele, reformas de moradias, obras em bairros e benefícios sociais não podem depender da indicação de parlamentares ou lideranças partidárias.

Para sustentar o argumento, Rui Costa mencionou o programa Minha Casa, Minha Vida e afirmou que seria inaceitável condicionar o acesso a uma unidade habitacional à recomendação de um vereador ou deputado.

“Imagine se o Minha Casa, Minha Vida funcionasse por indicação de vereador ou deputado. Isso seria uma chantagem eleitoral”, declarou.

Na avaliação do petista, políticas de infraestrutura urbana e melhoria habitacional devem contemplar comunidades inteiras, de acordo com critérios públicos de vulnerabilidade social, risco estrutural, déficit habitacional e necessidade territorial. A seleção dos beneficiários, segundo ele, não pode depender de alinhamento político ou proximidade com integrantes do governo.

A manifestação amplia o alcance da crítica para além da saúde. Rui Costa sustenta que a intermediação partidária transforma direitos sociais em favores pessoais, criando uma relação de dependência entre o cidadão e o agente político responsável pela suposta liberação do benefício.

Debate sobre saúde integra disputa política em Salvador

As declarações ocorrem em um contexto de crescente confronto entre Rui Costa e o grupo político que administra Salvador. Desde que deixou a Casa Civil, em abril de 2026, para participar da disputa pelo Senado, o ex-governador intensificou sua presença em agendas públicas e atos políticos na Bahia. A saída do ministério foi oficialmente anunciada pelo Governo Federal como parte da preparação para a candidatura eleitoral.

A saúde municipal tornou-se um dos principais temas adotados pelo petista na ofensiva contra as administrações de ACM Neto, que governou Salvador entre 2013 e 2020, e Bruno Reis, prefeito desde 2021. Em manifestações anteriores, Rui Costa questionou a quantidade de multicentros, a capacidade do Hospital Municipal, a ausência de unidades de urgência em áreas populosas e o ritmo de execução de uma policlínica financiada pelo Novo PAC.

Em julho, o ex-governador comparou os aproximadamente 210 leitos do Hospital Municipal de Salvador com a estrutura de hospitais existentes em cidades do interior. Também questionou o modelo de acesso à unidade, cuja entrada ocorre principalmente por encaminhamento ou regulação, e cobrou uma Unidade de Pronto Atendimento municipal para Cajazeiras.

A Prefeitura sustenta que o Hospital Municipal funciona ininterruptamente, oferece serviços hospitalares, cirúrgicos e de urgência e recebe pacientes que atendam aos critérios clínicos ou regulatórios. A divergência, nesse caso, está relacionada principalmente ao modelo de acesso: Rui Costa defende uma estrutura municipal de porta aberta, enquanto a administração mantém fluxos condicionados ao perfil assistencial e à regulação.

Linha do tempo das críticas à saúde de Salvador

2015 a 2024

O Plano Municipal de Saúde registra que a cobertura estimada da Atenção Primária à Saúde em Salvador avançou de 37% para 66,6%. No mesmo período, o número de unidades básicas passou de 124 para 162, com implantação de 389 equipes de Saúde da Família.

07/05/2026

Rui Costa publica manifestação cobrando o cumprimento da promessa de implantação de 12 multicentros de saúde em Salvador. O ex-governador também repercute reclamações sobre demora na marcação de consultas e exames.

30/06/2026

O petista critica o tempo utilizado pela Prefeitura para iniciar a construção de uma policlínica financiada pelo Novo PAC. A administração municipal informa que havia emitido a ordem de serviço e estimava concluir o equipamento em 16 meses.

12/07/2026

Durante plenária realizada em Bom Jesus da Lapa, Rui Costa questiona a capacidade do Hospital Municipal de Salvador, compara a unidade com hospitais de cidades do interior e cobra maior participação dos grandes municípios no atendimento de urgência.

15/07/2026

Em encontro do Programa de Governo Participativo realizado em Cajazeiras, o ex-governador volta a criticar o modelo de acesso ao Hospital Municipal e afirma que uma região com aproximadamente 300 mil habitantes deveria contar com uma UPA municipal de porta aberta.

28/07/2026

Bruno Reis reage às críticas do ex-ministro, questiona obras estaduais e federais ainda não concluídas e afirma que os adversários tentam modificar o cenário político da Bahia. A resposta não trata especificamente da acusação sobre cotas políticas de consultas e exames.

30/07/2026

Em entrevista à Rádio Popular FM, Rui Costa denuncia que moradores estariam procurando cabos eleitorais, vereadores e lideranças políticas para conseguir exames e consultas. O petista classifica a suposta prática como “politicagem” e “chantagem eleitoral” e estende a crítica a programas de habitação e melhorias urbanas.


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