História do Bando Anunciador: tradição de Senhora Sant’Ana atravessa mais de 160 anos em Feira de Santana

Na segunda-feira (13/07/2026), um dia após milhares de pessoas voltarem a ocupar as ruas centrais de Feira de Santana na edição mais recente do Bando Anunciador, a trajetória da manifestação revela uma tradição com registros desde a década de 1860, marcada pela ligação com a Festa de Senhora Sant’Ana, pelas transformações sociais da cidade, pela interrupção determinada em 1987 e pela retomada coordenada pelo Centro Universitário de Cultura e Arte da Universidade Estadual de Feira de Santana (Cuca/Uefs) em 2007. Reconhecido no calendário oficial do município desde 2022, o cortejo tornou-se uma das principais expressões da cultura popular feirense.

Festa de Senhora Sant’Ana antecede a origem do Bando

A história do Bando Anunciador está diretamente ligada às celebrações dedicadas a Senhora Sant’Ana, padroeira de Feira de Santana. A devoção já integrava a organização social e religiosa da localidade antes mesmo da emancipação municipal. Pesquisa publicada em 2020 na revista acadêmica Licere registra que, em 1781, o então arcebispo da Bahia autorizou a realização da festa, organizada por irmandades ou comissões formadas para conduzir os atos religiosos e populares.

O culto desenvolveu-se em torno da antiga Fazenda Santana dos Olhos d’Água, onde uma capela dedicada à santa contribuiu para a formação do núcleo urbano que posteriormente daria origem a Feira de Santana. Ao longo do tempo, as homenagens incorporaram novenas, missas, procissão, quermesses, apresentações de filarmônicas e manifestações realizadas no entorno da igreja e nas ruas próximas.

Nesse circuito coexistiam práticas estritamente religiosas e celebrações populares, entre elas o pregão, a lavagem do templo, a levagem da lenha e o Bando Anunciador. A festa, portanto, não se limitava ao espaço interno da igreja: ocupava o largo, as vias públicas e os pontos de encontro da população, transformando o Centro da cidade em ambiente de devoção, sociabilidade e entretenimento.

Cortejo surgiu para anunciar a celebração religiosa

Em uma época sem rádio, televisão, redes sociais ou sistemas públicos de divulgação, anunciar a proximidade da principal festa religiosa da cidade exigia a circulação de mensageiros pelas ruas. Segundo o historiador Aldo José Morais Silva, do Cuca/Uefs, grupos passaram a percorrer Feira de Santana comunicando à população a chegada dos festejos de Senhora Sant’Ana. Dessa necessidade prática nasceu o Bando Anunciador.

Embora a tradição possa guardar relações com formas de proclamação pública trazidas durante a colonização portuguesa, essa possível influência permanece como hipótese histórica. O que a documentação permite afirmar com maior segurança é que o cortejo já ocorria pelo menos na década de 1860.

Naquele período, o Bando saía às ruas cerca de dois meses antes da festa principal. Em meados do século XX, a distância entre o anúncio e as celebrações religiosas havia sido reduzida para aproximadamente uma semana. As alterações de data acompanhavam o próprio calendário da Festa de Sant’Ana, que, em diferentes momentos históricos, também foi celebrada em janeiro, fevereiro, julho e setembro.

De cavaleiros a um cortejo popular e diversificado

Participação feminina transformou a composição do Bando

No século XIX, o Bando era formado predominantemente por homens montados a cavalo, que percorriam as ruas em marcha. As mulheres não integravam formalmente o desfile. Esse perfil refletia as relações sociais e os limites impostos à participação feminina nos espaços públicos naquele período.

A configuração começou a mudar no início do século XX. As mulheres passaram a integrar os grupos, enquanto o deslocamento a pé ganhou espaço em relação aos cortejos exclusivamente montados. O Bando deixou progressivamente de ser uma comitiva masculina para se tornar uma manifestação de participação comunitária mais ampla.

O ingresso de novos segmentos também alterou a estética, os ritmos e os significados da celebração. Fantasias, bandas de sopro, fanfarras, carros decorados, bonecos, máscaras e personagens populares passaram a formar uma paisagem visual própria, caracterizada pela criatividade e pela apropriação coletiva das ruas.

Presença afro-brasileira ampliou o caráter sincrético

A partir da década de 1940, tornaram-se mais visíveis os participantes vinculados às religiões afro-brasileiras. Essa presença reforçou o caráter sincrético da festa, na qual elementos do catolicismo popular passaram a conviver com símbolos, musicalidades e práticas de outras tradições religiosas e culturais.

A incorporação dessas manifestações não eliminou a origem católica do Bando. Ao contrário, demonstrou como a cultura popular transforma e reelabora celebrações ao longo do tempo. O cortejo tornou-se um ponto de encontro entre a devoção à padroeira, as experiências dos bairros, a ancestralidade africana e diferentes formas de expressão comunitária.

Estudo de Adriana Priscilla Costa Cavalcanti, Luís Vitor Castro Júnior e Coriolano Pereira da Rocha Júnior interpreta o Bando como um espaço de ambivalência, no qual os participantes podem simultaneamente agradecer à santa, divertir-se, dançar, brincar e reinscrever memórias individuais e coletivas no espaço urbano.

Irreverência incorporou crítica política e social

Na segunda metade do século XX, a diversidade do Bando tornou-se ainda mais evidente. As fantasias passaram a representar acontecimentos cotidianos, problemas urbanos, personagens conhecidos e temas políticos. Humor, sátira e contestação social ganharam espaço ao lado das referências religiosas.

Essa característica transformou o cortejo em ambiente de livre manifestação. Sindicatos, artistas, grupos comunitários, escolas de samba, estudantes e moradores dos bairros passaram a utilizar fantasias, cartazes, músicas e performances para apresentar reivindicações e críticas ao poder público ou aos costumes sociais.

Na edição de 12 de julho de 2026, essa dimensão permaneceu presente. Grupos sindicais e culturais levaram às ruas reivindicações trabalhistas, referências políticas e temas relacionados à educação, mantendo uma linguagem que combina festa, ironia e liberdade de expressão.

Crescimento da parte profana provocou conflitos

À medida que cresciam a participação popular e a dimensão festiva, aumentavam também as tensões entre o caráter religioso da Festa de Senhora Sant’Ana e as atividades realizadas nas ruas. Trios elétricos, barracas, consumo de bebidas alcoólicas, episódios de violência e a ampliação das festas de largo passaram a ser criticados por setores da Igreja Católica e da sociedade.

A avaliação de que a parte profana havia superado a finalidade original do anúncio religioso ganhou força durante a década de 1980. O conflito não envolvia apenas uma divergência doutrinária. Estavam em discussão o controle do espaço público, a segurança, o consumo de álcool, o comportamento dos participantes e os limites entre a celebração religiosa e o entretenimento de massa.

Esse processo culminou em 1987, quando o então bispo diocesano Dom Silvério Albuquerque, com apoio de setores ligados ao movimento de restauração católica, determinou o encerramento das manifestações profanas associadas à festa, incluindo a lavagem da igreja, a levagem da lenha e o próprio Bando Anunciador.

Fim do Bando em 1987 não resultou de decisão isolada

A suspensão é frequentemente apresentada como consequência exclusiva de uma decisão da Igreja Católica. A pesquisa histórica, entretanto, aponta um processo mais complexo. O próprio registro institucional do Cuca observa que as críticas aos excessos também partiam de setores da sociedade e que a continuidade do cortejo já enfrentava perda de apoio.

A decisão episcopal foi determinante, mas ocorreu em um ambiente de desgaste provocado por episódios de violência, consumo excessivo de bebidas e questionamentos sobre a descaracterização religiosa da festa. A interrupção, portanto, resultou da combinação entre autoridade eclesiástica, conflitos sociais e dificuldades de organização.

Considerando os registros existentes desde a década de 1860, o encerramento ocorreu após pelo menos 127 anos de história, embora não seja possível afirmar que todas as edições tenham sido realizadas de maneira ininterrupta ou com o mesmo formato. Alguns estudos delimitam a investigação histórica até 1988, mas as fontes institucionais convergem ao situar em 1987 a decisão que suspendeu o cortejo.

Cuca/Uefs liderou retomada em 2007

O Bando permaneceu fora do calendário festivo durante aproximadamente duas décadas. A retomada ocorreu em 2007, por iniciativa do Cuca/Uefs, mediante articulação com a Igreja Católica, a Prefeitura de Feira de Santana, órgãos de segurança, instituições culturais, agentes comunitários, artistas e vendedores ambulantes.

A aproximação com a Arquidiocese permitiu novamente o acesso do cortejo à área da Praça da Matriz. A nova configuração procurou preservar a ligação histórica com Senhora Sant’Ana, mas definiu o Bando como uma celebração aberta da cultura popular e como espaço de discussão sobre a identidade, o passado e os rumos de Feira de Santana. Em 2007 ocorre a retomada.

Universidade passou a articular diferentes grupos sociais

A participação da universidade modificou a estrutura organizacional do cortejo. O Cuca passou a convocar reuniões preparatórias, dialogar com representantes dos bandos, discutir percursos, articular o apoio das forças de segurança e mobilizar órgãos responsáveis pela limpeza, trânsito, saúde e ordenamento do comércio informal.

Essa coordenação institucional não eliminou a autonomia dos grupos. Bandos organizados nos bairros continuam preservando fantasias, repertórios musicais, estandartes, rituais e formas próprias de encerramento. O Bando dos Olhos d’Água, por exemplo, mantém vínculos com uma das áreas mais antigas da formação urbana feirense.

A relação entre coordenação institucional e autonomia popular tornou-se uma das características do evento contemporâneo. O Cuca organiza o circuito geral, enquanto artistas, moradores, associações, escolas de samba, sindicatos e grupos culturais definem boa parte do conteúdo simbólico apresentado nas ruas.

Pandemia provocou nova interrupção

Após anos de crescimento, o Bando deixou de ser realizado em 2020, 2021 e 2022, período marcado pelas restrições sanitárias e pelas dificuldades de planejamento decorrentes da pandemia de Covid-19.

Em 2022, mesmo após a liberação gradual de eventos de maior porte, a comissão organizadora considerou que não havia tempo suficiente para organizar segurança, mobilidade e infraestrutura. Segundo o Cuca, as tratativas normalmente começavam no primeiro trimestre do ano e dependiam de sucessivas reuniões entre as instituições envolvidas.

A manifestação retornou às ruas em 2023. Desde então, as edições voltaram a reunir dezenas de milhares de participantes e confirmaram a capacidade de mobilização da tradição após a crise sanitária.

Lei municipal oficializou realização anual em julho

Em 27 de junho de 2022, o prefeito Colbert Martins da Silva Filho sancionou a Lei Municipal nº 4.089, originada do Projeto de Lei nº 018/2022, de autoria do então vereador Sílvio Dias. A norma alterou a Lei nº 3.336/2012 e incluiu o Bando Anunciador no Calendário Oficial de Festas Populares e Eventos de Feira de Santana.

A legislação determina que o evento seja realizado anualmente em julho, antes das homenagens a Senhora Sant’Ana. O texto estabelece a Praça da Igreja Matriz, nas proximidades do Cuca, como ponto de partida e prevê percurso pelo Centro da cidade.

A inclusão no calendário representa reconhecimento institucional, mas não equivale, por si só, a um registro formal do Bando como patrimônio cultural imaterial. Para essa classificação seriam necessários procedimentos específicos de inventário, registro e salvaguarda. A distinção jurídica é importante para evitar que o reconhecimento como evento oficial seja apresentado indevidamente como tombamento ou registro patrimonial.

Público amplia impacto cultural e econômico

Em 6 de julho de 2025, o Bando reuniu aproximadamente 50 mil pessoas, conforme estimativa atribuída à Polícia Militar. O cortejo saiu do Cuca e seguiu até o Mercado de Arte Popular, com participação de grupos fantasiados, bandas, charangas, instituições culturais, agentes públicos e vendedores ambulantes.

A dimensão econômica começa antes do desfile. Costureiras, artesãos, músicos, vendedores de tecidos, produtores culturais, profissionais de alimentação e comerciantes de fantasias participam de uma cadeia temporária de serviços e produtos associada à preparação do evento.

Durante o cortejo, a circulação de milhares de pessoas amplia as vendas de bebidas, alimentos, adereços e artigos festivos. Esse impacto exige, ao mesmo tempo, políticas de ordenamento que conciliem a geração de renda com segurança alimentar, mobilidade, limpeza urbana e proteção dos participantes.

Edição de 2026 atualizou desafios de segurança e mobilidade

O Bando Anunciador voltou às ruas no domingo 12 de julho de 2026. A concentração ocorreu nas proximidades do Museu Regional de Arte do Cuca, na Rua Conselheiro Franco, e o trajeto seguiu pela Praça Fróes da Motta até a Praça do Nordestino.

O percurso foi reduzido após orientações da Polícia Militar e da Superintendência Municipal de Trânsito. A organização considerou que a rota anterior poderia comprometer o transporte coletivo e a circulação de moradores. A operação de segurança mobilizou mais de 100 policiais, além de drones, cavalaria, motociclistas e unidades especializadas.

Principais marcos históricos do Bando Anunciador

  • 1781: literatura acadêmica registra autorização eclesiástica para a realização da Festa de Sant’Ana.
  • Década de 1860: primeiros registros seguros da realização do Bando Anunciador.
  • Início do século XX: mulheres passam a integrar o cortejo.
  • Década de 1940: amplia-se a presença de integrantes das religiões afro-brasileiras.
  • 1987: manifestações profanas da festa são suspensas e o Bando deixa de ser realizado.
  • 2007: Cuca/Uefs coordena a retomada da tradição.
  • 2020 a 2022: evento é novamente interrompido durante a pandemia.
  • 27/06/2022: Lei Municipal nº 4.089 inclui o Bando no calendário oficial.
  • 2023: cortejo retorna após a crise sanitária.
  • 06/07/2025: edição reúne aproximadamente 50 mil pessoas.
  • 12/07/2026: manifestação volta ao Centro com percurso reduzido e operação especial de segurança.

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