Lençóis disputa selo de Melhores Vilas Turísticas do Mundo e projeta Chapada Diamantina no turismo internacional

Na quinta-feira (02/07/2026), o município de Lençóis, na Bahia, passou a integrar oficialmente a lista dos sete destinos brasileiros selecionados pelo Ministério do Turismo para disputar o selo “Melhores Vilas Turísticas do Mundo”, iniciativa da ONU Turismo voltada ao reconhecimento de localidades que conciliam patrimônio cultural, natureza preservada, sustentabilidade e desenvolvimento local. Porta de entrada da Chapada Diamantina, o destino baiano concorre com vilas de diferentes continentes e busca ampliar sua projeção internacional em uma disputa que terá resultado divulgado em dezembro, em Buenos Aires, na Argentina.

Lençóis entra na disputa internacional do turismo sustentável

Lençóis foi escolhida em uma seleção nacional que reuniu dez inscrições. O processo considerou critérios como população de até 15 mil habitantes, presença em paisagens associadas a atividades tradicionais, como agricultura, silvicultura, pecuária ou pesca, além da manutenção de valores comunitários e modos de vida locais.

Além de Lençóis, representam o Brasil nesta edição Araçá, em Porto Belo (SC); Conceição de Ibitipoca, em Lima Duarte (MG); Delfinópolis (MG); Holambra (SP); São José do Barreiro (SP); e Vila Flores (RS). As localidades brasileiras concorrem com outras 261 vilas espalhadas pelo mundo.

O selo foi criado em 2021 e reconhece destinos rurais que utilizam o turismo como instrumento de valorização do patrimônio natural e cultural, geração de renda, preservação ambiental e fortalecimento das comunidades locais. Desde sua criação, a iniciativa recebeu mais de mil inscrições, de mais de 100 países, e a rede internacional reúne atualmente 319 destinos rurais.

Patrimônio histórico reforça candidatura baiana

Distante cerca de 418 quilômetros de Salvador, Lençóis reúne atributos que dialogam diretamente com os critérios da ONU Turismo. A cidade é reconhecida por seu centro histórico, pela arquitetura colonial vinculada ao ciclo da mineração de diamantes e pelo papel estratégico na formação econômica, social e cultural da Chapada Diamantina.

O Centro Histórico de Lençóis, protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), conserva a configuração urbana típica dos núcleos mineradores dos séculos XVIII e XIX, com ruas irregulares, ladeiras, largos, praças e casario associado ao período de prosperidade da lavra diamantífera. Segundo o Iphan, o povoamento local teve início em 1845, após a descoberta de minas de diamantes, e a cidade se consolidou como importante entreposto regional.

Essa herança também permanece viva nas manifestações culturais. A Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos de Lençóis, ligada à memória garimpeira e à religiosidade popular, foi registrada pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 2026. A celebração ocorre há mais de 150 anos e articula devoção, cortejos, manifestações culturais e tradições comunitárias.

Natureza, arqueologia e comunidades tradicionais ampliam relevância do destino

A candidatura de Lençóis também se apoia na força ambiental da Chapada Diamantina. O município está inserido em uma das paisagens naturais mais emblemáticas do Brasil, marcada por cachoeiras, cavernas, vales, serras, rios e trilhas que estruturam a oferta de ecoturismo e turismo de aventura.

O Parque Nacional da Chapada Diamantina, criado em 1985, protege ecossistemas da Serra do Sincorá e abrange municípios como Lençóis, Mucugê, Palmeiras, Andaraí, Ibicoara e Itaetê. A unidade de conservação é elemento central para a preservação ambiental e para a organização da atividade turística regional.

A rede de patrimônios locais inclui ainda o Complexo Arqueológico Serra das Paridas, com registros de arte rupestre e pinturas pré-históricas; o Território Quilombola do Remanso, que preserva saberes e tradições afro-brasileiras; a Área de Proteção Ambiental Marimbus-Iraquara, conhecida como “Pantanal da Chapada Diamantina”; e o Parque Natural Municipal da Muritiba, responsável por proteger a bacia do Rio Lençóis e atrativos como o Serrano, o Salão de Areias Coloridas e a Cachoeira da Primavera.

Turismo comunitário e economia local entram no centro da avaliação

O desempenho turístico de Lençóis reforça a dimensão econômica da candidatura. Segundo os dados apresentados pela gestão municipal, o município recebeu 320 mil turistas em 2025, número expressivo para uma cidade de pequeno porte e com forte dependência da preservação ambiental e cultural para sustentar sua atratividade.

O turismo local mobiliza guias, pousadas, restaurantes, artesãos, condutores de visitantes, empreendedores comunitários e prestadores de serviços. Essa cadeia produtiva dá à disputa internacional uma dimensão que vai além da promoção institucional: o reconhecimento pode ampliar a visibilidade do destino, atrair novos fluxos de visitantes e fortalecer políticas de ordenamento turístico.

Ao mesmo tempo, o crescimento do setor exige planejamento público, controle de impactos ambientais, qualificação profissional e mecanismos de distribuição de renda. A ONU Turismo valoriza justamente destinos capazes de demonstrar que o turismo não se limita ao consumo da paisagem, mas contribui para manter comunidades, proteger bens culturais e conservar ecossistemas.

Geoparque Serra do Sincorá amplia horizonte internacional

Outro elemento de peso é o Projeto Geoparque Serra do Sincorá, iniciativa que busca reconhecimento como Geoparque Mundial da Unesco. A Associação Geoparque Serra do Sincorá informa que o projeto envolve os municípios de Andaraí, Lençóis, Mucugê e Palmeiras, com o objetivo de preparar comunidades e instituições para a candidatura internacional.

A proposta evidencia a relevância geológica da região, marcada por formações associadas à longa história natural da Chapada Diamantina. A eventual chancela da Unesco, somada ao selo da ONU Turismo, poderia criar um duplo vetor de projeção internacional para Lençóis e para o território da Serra do Sincorá.

Esse processo, porém, depende de articulação institucional, comprovação técnica, governança territorial e capacidade de integrar ciência, conservação, educação patrimonial e turismo sustentável. O potencial é elevado, mas a conversão desse potencial em reconhecimento permanente exige continuidade administrativa e compromisso público de longo prazo.

Brasil busca ampliar presença na rede mundial de vilas turísticas

O Brasil já teve 27 vilas turísticas indicadas à iniciativa da ONU Turismo, contabilizada a edição atual. Duas alcançaram o reconhecimento internacional: Testo Alto, em Pomerode (SC), conhecida pela Rota do Enxaimel, e Antônio Prado (RS), referência na preservação da herança da imigração italiana.

A Rota do Enxaimel reúne construções associadas à técnica arquitetônica trazida por imigrantes alemães, enquanto Antônio Prado preserva casario, tradições e elementos culturais ligados à imigração italiana. Esses casos servem como referência para compreender o tipo de patrimônio valorizado pela iniciativa: identidade local, continuidade histórica, práticas comunitárias e gestão sustentável.

No caso de Lençóis, o diferencial está na combinação entre mineração histórica, cultura garimpeira, patrimônio religioso, ecoturismo, comunidades tradicionais, arqueologia, biodiversidade e geodiversidade. Poucos destinos brasileiros reúnem, em território tão concentrado, ativos culturais e naturais com tamanho potencial de reconhecimento externo.

Outros representantes brasileiros na edição

Araçá, em Porto Belo (SC)

Com pouco mais de 1.100 habitantes, a Vila do Araçá combina natureza preservada e tradições comunitárias no litoral catarinense. A localidade mantém ligação com a pesca artesanal, a gastronomia baseada em frutos do mar e experiências turísticas ligadas ao ambiente costeiro.

Conceição de Ibitipoca, em Lima Duarte (MG)

Situada na Serra da Mantiqueira, Conceição de Ibitipoca preserva patrimônio histórico vinculado aos antigos caminhos do ciclo do ouro. A proximidade com o Parque Estadual do Ibitipoca fortalece sua vocação para ecoturismo, trilhas, cachoeiras, grutas e contemplação da natureza.

Delfinópolis (MG)

Localizada na região da Serra da Canastra, Delfinópolis combina natureza, cultura rural e produção tradicional. O município se destaca por cachoeiras, trilhas, Queijo Minas Artesanal da Canastra e Café da Canastra, elementos que reforçam a identidade territorial.

Holambra (SP)

Conhecida como Capital Nacional das Flores, Holambra preserva traços da imigração holandesa em sua arquitetura, gastronomia e manifestações culturais. O município é referência na produção de flores e tem o Moinho Povos Unidos como um dos principais símbolos turísticos.

Vila Flores (RS)

Na Serra Gaúcha, Vila Flores reúne turismo rural, gastronomia típica, paisagens preservadas da Mata Atlântica e tradições comunitárias. O município tem como símbolo o Filó Italiano, tradição que lhe garantiu o título de Capital Estadual do Filó.

São José do Barreiro (SP)

No Vale do Paraíba, cercada pela Serra da Bocaina, São José do Barreiro articula natureza e patrimônio histórico. O destino conserva fazendas e construções vinculadas ao ciclo do café, além de atrativos como a Trilha do Ouro, cachoeiras e gastronomia baseada em produtos artesanais.

Reconhecimento internacional exige preservação, governança e continuidade

A indicação de Lençóis ao selo Melhores Vilas Turísticas do Mundo representa uma oportunidade concreta de reposicionar a Chapada Diamantina no circuito internacional do turismo sustentável. O município dispõe de lastro histórico, densidade cultural, patrimônio natural e participação comunitária suficientes para justificar sua presença na disputa; o desafio está em transformar visibilidade em política pública consistente.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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