Neste sábado (18/07/2026), o afastamento judicial de Luciano Ricardo Gomes Sandes, ex-secretário municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro de Salvador, seguido de seu pedido de exoneração, mantém sob escrutínio a gestão de contratos públicos e o funcionamento político das dez unidades administrativas descentralizadas da capital baiana. A investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco), do Ministério Público da Bahia, apura suspeitas de fraudes em licitações, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com bloqueio judicial de até R$ 38,3 milhões. Paralelamente, representantes da oposição acusam as administrações de ACM Neto e Bruno Reis de permitir o loteamento informal das Prefeituras-Bairro entre vereadores governistas, alegação que ainda depende de comprovação documental e investigação institucional.
Afastamento judicial alcança secretário e vereador
A operação foi deflagrada na segunda-feira (13/07/2026), por determinação da juíza Martha Carneiro Terrin e Souza, da 3ª Vara das Garantias de Salvador. A magistrada determinou o afastamento de Luciano Sandes do cargo de secretário municipal e a suspensão do exercício do mandato do vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela, filiado ao Partido Progressistas.
Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em 20 endereços, além de medidas de bloqueio patrimonial e proibição de contato entre os investigados. A Justiça também autorizou o acesso a aparelhos eletrônicos, sistemas de armazenamento em nuvem e outros materiais apreendidos durante a ação. O Ministério Público solicitou a prisão preventiva de seis investigados, mas o pedido foi negado sob o entendimento de que, naquele momento, as medidas cautelares seriam suficientes para preservar a apuração.
A Prefeitura de Salvador informou que cumpriria as determinações judiciais, colaboraria com as autoridades e instauraria procedimento administrativo próprio para identificar eventuais irregularidades ou prejuízos aos cofres municipais. Segundo a administração, a operação atingiu 13 pessoas físicas e cinco empresas, com indisponibilidade de bens limitada ao montante de R$ 38.321.127,95.
Luciano Sandes solicita exoneração para cuidar da defesa
Na terça-feira (14/07/2026), um dia após ser afastado, Luciano Sandes solicitou sua exoneração da Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro. Por se tratar de um cargo comissionado, o ato é formalmente classificado como exoneração a pedido, embora represente, politicamente, sua renúncia à continuidade no comando da pasta.
Em manifestação pública, o ex-secretário afirmou ter deixado a função para se dedicar integralmente à defesa e contestar as acusações apresentadas pelo Ministério Público. Seus advogados sustentaram que a trajetória de Sandes na administração municipal teria sido pautada pela legalidade, pela honestidade e pelo cumprimento das normas administrativas. Até o momento, não houve julgamento definitivo sobre as imputações, e os investigados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
A gestão municipal designou Cláudia Nascimento Cavalcanti para assumir a secretaria. A nomeação foi anunciada em 14 de julho e, no dia seguinte, decreto municipal ampliou suas competências administrativas, com efeitos retroativos à data da mudança. Entre as atribuições delegadas estão a assinatura de convênios, contratos, termos aditivos, rescisões e outros instrumentos relacionados ao funcionamento da pasta.
Ministério Público aponta organização dividida em três núcleos
Segundo o Ministério Público da Bahia, o grupo investigado teria atuado de forma estruturada durante aproximadamente dez anos e estaria dividido em três setores: núcleo empresarial, núcleo operacional e núcleo de agentes públicos.
O núcleo empresarial seria liderado por Lázaro de Carvalho Nunes, apontado como controlador de fato de um conglomerado formado pelas empresas G3 Polaris Serviços, MP2 Construções, LN Distribuidora, Podium Distribuidora e WLSP Logística. De acordo com a investigação, essas companhias teriam sido utilizadas alternadamente para simular concorrência em licitações e assegurar que os contratos permanecessem dentro do mesmo grupo econômico.
No núcleo operacional, o Ministério Público menciona investigados que teriam atuado na intermediação de recursos financeiros e de supostos pagamentos ilícitos. Já no núcleo de agentes públicos, Sandes é apontado como personagem central, sob a suspeita de ter facilitado o ingresso e a permanência das empresas nos contratos municipais, influenciado a liberação de pagamentos e participado da aprovação de aditivos. Gordinho da Favela teria atuado, conforme a acusação, na articulação de interesses empresariais dentro da estrutura pública. Essas hipóteses integram a investigação e ainda não constituem condenação judicial.
Contratos sofreram ampliações expressivas por meio de aditivos
Entre os contratos examinados está um ajuste firmado em 2018 pela então Secretaria Municipal de Manutenção, no valor inicial de aproximadamente R$ 8,9 milhões. Após sucessivos termos aditivos, o montante teria alcançado cerca de R$ 15,2 milhões.
Outro contrato citado foi celebrado em 2020 pela Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador para serviços relacionados a gramados sintéticos. O valor inicial, próximo de R$ 434 mil, teria ultrapassado R$ 1,4 milhão depois das ampliações contratuais.
A investigação também apura uma transferência de aproximadamente R$ 118,5 mil para um agente responsável pela fiscalização de contratos. O Ministério Público busca determinar a origem, a finalidade e a eventual relação do pagamento com atos administrativos praticados em benefício das empresas investigadas.
Empresas investigadas receberam R$ 321,1 milhões desde 2015
Levantamento realizado pelo Jornal Grande Bahia em dados públicos identificou que as cinco empresas relacionadas pelo Gaeco receberam, juntas, R$ 321.163.273,89 da Prefeitura de Salvador entre 2015 e julho de 2026.
Os pagamentos aparecem distribuídos da seguinte forma:
- G3 Polaris Serviços: R$ 124.839.733,73;
- Podium Distribuidora: R$ 85.496.159,40;
- LN Distribuidora: R$ 45.402.729,70;
- WLSP Logística: R$ 37.673.075,97;
- MP2 Construções: R$ 27.751.575,09.
Somadas, G3 Polaris e Podium receberam aproximadamente R$ 210,3 milhões, equivalentes a 65,5% do total destinado ao conjunto das empresas. Os números abrangem pagamentos realizados durante as administrações de ACM Neto e Bruno Reis.
O volume global de pagamentos, entretanto, não pode ser tratado automaticamente como prejuízo ao patrimônio público. Os R$ 321,1 milhões correspondem ao valor bruto desembolsado em contratos ao longo de mais de uma década, enquanto os R$ 38,3 milhões representam o limite estabelecido pela Justiça para a indisponibilidade patrimonial diante da estimativa preliminar de possível dano. Determinar quais serviços foram executados, quais despesas seriam regulares e quais valores poderiam ter sido desviados dependerá de perícias, auditorias e decisões judiciais.
Sandes acumulou funções estratégicas nas gestões de ACM Neto e Bruno Reis
Luciano Sandes integrava a administração municipal desde 2013, primeiro ano da gestão de ACM Neto. Ao longo de sua trajetória, ocupou cargos ligados à infraestrutura, manutenção urbana e administração de equipamentos públicos, incluindo funções na Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia, na Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas e na Secretaria Municipal de Manutenção.
Em 16 de janeiro de 2023, já no governo de Bruno Reis, Sandes assumiu a Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro. Na ocasião, afirmou que pretendia tornar as unidades regionais mais executivas e capazes de solucionar diretamente problemas cotidianos, como poda de árvores, manutenção viária e pequenas intervenções urbanas.
A mudança ampliou a importância administrativa das dez Prefeituras-Bairro. Além do atendimento ao cidadão e do encaminhamento de demandas, essas estruturas passaram a exercer papel mais direto na execução ou articulação de serviços locais. O fortalecimento institucional foi acompanhado da criação de cargos comissionados de direção e da ampliação da capacidade operacional das unidades.
Oposição denuncia loteamento político das Prefeituras-Bairro
Vereadores oposicionistas citados no relato que originou as denúncias afirmam que as Prefeituras-Bairro teriam sido distribuídas informalmente entre integrantes da base governista. Segundo essa versão, o controle político permitiria influência sobre cargos comissionados, contratos de manutenção, equipamentos, veículos e a definição de pequenas intervenções nos bairros.
As acusações relacionam a unidade de Cajazeiras ao vereador Paulo Magalhães Júnior; a de Itapuã, a Duda Sanches; a da Barra/Pituba, a Cláudio Tinoco; a do Subúrbio/Ilhas, a Orlando Palhinha; e a do Centro/Brotas, a Ricardo Almeida. A publicação que divulgou os relatos não apresentou documentos formalizando essas vinculações nem manifestações individuais dos parlamentares citados.
Um servidor da Câmara Municipal, ouvido sob condição de anonimato por alegado receio de represálias, afirmou que determinados serviços dependeriam de um “autorizo” obtido em gabinetes parlamentares. Na versão da fonte, Sandes funcionaria como articulador entre a secretaria, os vereadores e as unidades descentralizadas, assegurando retorno político e eleitoral ao grupo governista.
Estrutura formal não apresenta vereadores como diretores
Os registros oficiais consultados identificam servidores nomeados como responsáveis formais pelas unidades. A Prefeitura apresenta Danilo José de Carvalho Farias na direção de Cajazeiras, Fábio Lopes da Mata em Itapuã, Afonso Celso Santana Rocha no Subúrbio/Ilhas e Alan Santos Muniz no Centro/Brotas, nomes distintos dos vereadores associados às áreas nas denúncias.
Essa diferença não afasta, por si só, a possibilidade de influência política informal, uma vez que acordos partidários e indicações podem ocorrer sem registro explícito nos organogramas. Contudo, impede que os parlamentares sejam apresentados como dirigentes oficiais das Prefeituras-Bairro sem provas adicionais.
Estrutura descentralizada reúne atendimento e capacidade de intervenção
A Prefeitura de Salvador mantém dez unidades regionais destinadas a aproximar os serviços públicos das comunidades. Elas recebem solicitações relacionadas a infraestrutura, iluminação, limpeza, ordenamento urbano, assistência social, documentação, manutenção e outros serviços municipais.
A descentralização administrativa pode reduzir distâncias e facilitar o acesso da população ao poder público. Entretanto, quando unidades territorializadas concentram cargos de livre nomeação, influência sobre prioridades locais e capacidade de encaminhar contratos ou intervenções, cresce a necessidade de regras transparentes e controles impessoais.
A questão de interesse público não se limita, portanto, à existência das Prefeituras-Bairro, mas à forma como suas decisões são tomadas. A divulgação periódica de nomeações, ordens de serviço, critérios de atendimento, custos, empresas contratadas e origem das solicitações permitiria distinguir uma política legítima de descentralização de uma eventual rede de intermediação político-eleitoral.
Câmara de Salvador discute investigação própria
A vereadora Aladilce Souza, do PCdoB, defendeu uma apuração rigorosa e maior transparência sobre os contratos. Para a parlamentar, o período abrangido pela investigação, que atravessa mais de uma década, exige que o município esclareça o funcionamento das contratações, a atuação dos agentes públicos e os mecanismos internos de fiscalização.
Integrantes da oposição anunciaram a intenção de propor uma comissão parlamentar para investigar os contratos e as possíveis responsabilidades administrativas. Na Câmara Municipal de Salvador, o instrumento regimental correspondente é denominado Comissão Especial de Inquérito (CEI).
O líder do governo, vereador Kiki Bispo, afirmou que a bancada governista não aceitará a utilização da comissão como instrumento de disputa política. Ele defendeu a continuidade das investigações do Ministério Público e do Poder Judiciário, com respeito ao contraditório e à ampla defesa. Como a base do prefeito detém maioria no Legislativo, a instalação de uma CEI dependerá da mobilização política e do cumprimento dos requisitos regimentais.
Linha do tempo do caso Luciano Sandes
- 2013: Luciano Sandes passa a integrar a administração municipal de Salvador, no início do primeiro mandato de ACM Neto.
- 2018: contrato de manutenção posteriormente citado na investigação é firmado por cerca de R$ 8,9 milhões e ampliado por aditivos.
- 2020: contrato relacionado a gramados sintéticos é celebrado por aproximadamente R$ 434 mil e posteriormente supera R$ 1,4 milhão.
- 16/01/2023: Sandes assume a Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro durante a gestão de Bruno Reis.
- 13/07/2026: Justiça determina o afastamento do secretário e a suspensão do mandato de Gordinho da Favela; Gaeco cumpre buscas em 20 endereços.
- 14/07/2026: Sandes solicita exoneração para se dedicar à defesa; Cláudia Nascimento Cavalcanti é anunciada como nova titular da pasta.
- 15/07/2026: decreto municipal delega à nova secretária poderes para assinar contratos, convênios, aditivos e rescisões, com efeitos retroativos ao dia anterior.
- 16/07/2026: oposição anuncia intenção de buscar uma comissão de inquérito, enquanto a liderança governista rejeita a transformação do caso em disputa partidária.
- 18/07/2026: contratos, nomeações e possível influência política sobre as Prefeituras-Bairro permanecem sob investigação e debate público.
O caso expõe os riscos existentes quando uma estrutura de descentralização administrativa combina presença territorial, cargos comissionados, capacidade de encaminhar serviços e proximidade direta com lideranças partidárias. As Prefeituras-Bairro podem cumprir função legítima e necessária na prestação de serviços, mas sua credibilidade depende de critérios impessoais, transparência na distribuição dos recursos e fiscalização capaz de impedir que necessidades urbanas sejam convertidas em instrumentos de fidelização eleitoral.







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