O patrimônio declarado pelo ex-ministro da Cidadania João Roma (PL) à Justiça Eleitoral passou de R$ 4.494.372,77, em 2018, para R$ 17.016.110,38, em 2026, aumento nominal de R$ 12.521.737,61, equivalente a 278,6% em oito anos. O levantamento, concluído nesta quinta-feira (30/07/2026), compara os registros apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral — TSE — nas candidaturas a deputado federal, ao Governo da Bahia e ao Senado, período em que o político exerceu mandato na Câmara dos Deputados, comandou o Ministério da Cidadania no Governo Jair Bolsonaro e assumiu a direção estadual do PL.
Patrimônio declarado avançou de R$ 4,49 milhões para R$ 17,01 milhões
As declarações eleitorais disponíveis formam três retratos patrimoniais de João Inácio Ribeiro Roma Neto. O primeiro foi apresentado em 2018, quando ele disputou e conquistou uma vaga de deputado federal. O segundo corresponde à eleição estadual de 2022, quando concorreu ao Governo da Bahia. O terceiro integra o pedido de registro de sua candidatura ao Senado nas eleições de 2026.
| Ano | Situação política e cargo disputado | Patrimônio declarado | Variação |
|---|---|---|---|
| 2018 | Eleito deputado federal pelo PRB | R$ 4.494.372,77 | — |
| 2022 | Deputado federal, ex-ministro e candidato ao Governo da Bahia pelo PL | R$ 5.561.182,61 | +23,7% |
| 2026 | Ex-deputado, presidente estadual do PL e candidato ao Senado | R$ 17.016.110,38 | +206% desde 2022 |
Entre 2018 e 2022, o crescimento nominal foi de R$ 1.066.809,84. Já no intervalo seguinte, entre 2022 e 2026, o acréscimo alcançou R$ 11.454.927,77, concentrando mais de 91% de todo o aumento patrimonial registrado ao longo dos oito anos.
Os valores são nominais e não descontam a inflação. Eles também representam fotografias do patrimônio nas datas dos registros eleitorais, e não demonstrações anuais. Por essa razão, a base não permite determinar, isoladamente, em qual mês ou ano cada bem foi adquirido, vendido, transferido, reclassificado ou atualizado.
O TSE informa que as declarações incluem imóveis, veículos, participações empresariais, dinheiro, saldos bancários, aplicações e outros direitos informados pelos próprios candidatos. A plataforma permite comparar os registros apresentados em diferentes eleições, especialmente quando o concorrente já ocupou cargos públicos.
Linha do tempo relaciona patrimônio e trajetória nos cargos públicos
2018 — eleição para a Câmara dos Deputados
Em 2018, João Roma declarou R$ 4.494.372,77 ao disputar seu primeiro mandato eletivo como deputado federal pela Bahia. Naquele momento, o maior bem individual era um apartamento avaliado em R$ 2,2 milhões. A relação incluía outros imóveis, participações societárias, aplicações financeiras, obras de arte e dinheiro em espécie.
A estrutura patrimonial estava concentrada principalmente em imóveis residenciais e participações empresariais. Três apartamentos representavam parcela majoritária dos bens, enquanto as quotas e participações societárias somavam aproximadamente R$ 1 milhão.
Roma foi eleito e tomou posse na Câmara dos Deputados em 1º de fevereiro de 2019, iniciando mandato previsto para o período de 2019 a 2023. A biografia oficial da Câmara registra sua profissão como empresário e confirma o exercício do mandato pela Bahia.
2019 a 2021 — mandato de deputado federal
Nos dois primeiros anos da legislatura, João Roma exerceu o mandato parlamentar e ocupou posições partidárias e funções em comissões. Entre suas atividades, presidiu a comissão especial relacionada ao Marco Legal das Startups e exerceu funções de vice-liderança partidária.
Nesse período não existe nova declaração pública de bens no sistema eleitoral, porque o político não participou de outra eleição entre 2018 e 2022. Portanto, os registros da Justiça Eleitoral não permitem acompanhar anualmente a evolução patrimonial durante o mandato parlamentar.
A ausência de declarações intermediárias significa que qualquer mudança ocorrida entre a posse na Câmara, em 2019, e o registro da candidatura ao Governo da Bahia, em 2022, aparece acumulada no resultado final do período.
2021 — nomeação para o Ministério da Cidadania
Em 24 de fevereiro de 2021, João Roma licenciou-se da Câmara e tomou posse como ministro da Cidadania no Governo Jair Bolsonaro. A pasta administrava programas federais de assistência social, transferência de renda e esporte, incluindo Auxílio Emergencial, Bolsa Família, Cadastro Único e Bolsa Atleta.
O parlamentar permaneceu no ministério durante aproximadamente 13 meses. Deixou o cargo em 31 de março de 2022, quando Ronaldo Vieira Bento assumiu a pasta, e retornou ao exercício do mandato na Câmara dos Deputados.
A passagem pelo primeiro escalão do Governo Federal ocorreu dentro do intervalo entre as declarações de 2018 e 2022. Ao final desse período, os bens informados à Justiça Eleitoral haviam aumentado 23,7%, de R$ 4,49 milhões para R$ 5,56 milhões.
2022 — candidatura ao Governo da Bahia
Poucos meses depois de deixar o Ministério da Cidadania, Roma concorreu ao Governo da Bahia pelo PL. Na declaração apresentada para a eleição, informou patrimônio total de R$ 5.561.182,61, distribuído em 21 registros de bens e direitos.
O principal ativo continuava sendo um apartamento em Salvador, localizado na Avenida Sete de Setembro e declarado como imóvel financiado, com valor de R$ 2.527.996,53. O registro também apresentava maior presença de áreas e propriedades rurais, demonstrando uma mudança na composição do patrimônio em relação a 2018.
Entre os bens rurais apareciam:
- Fazenda Prata da Chapada, em Iraquara: R$ 694.990,45;
- Fazenda Paraíso, em Conceição da Feira: R$ 600 mil;
- Fazenda São Benedito, em Cachoeira: R$ 250 mil;
- duas áreas rurais em Conceição da Feira: R$ 200 mil cada;
- outras áreas menores no mesmo município.
Também constavam um crédito decorrente de decisão judicial de R$ 398.909,76, participação de R$ 105 mil na LN Agropecuária, metade da empresa Prata da Chapada avaliada em R$ 100 mil, uma Toyota Hilux 2019 financiada no valor de R$ 153.196,75 e obras de arte avaliadas em R$ 148 mil.
O crescimento de R$ 1,06 milhão entre 2018 e 2022 coincidiu, portanto, com o período em que Roma passou da condição de candidato a deputado para deputado federal e ministro de Estado. A comparação temporal, contudo, não estabelece relação causal entre os cargos exercidos e a variação dos bens.
2023 a 2026 — saída da Câmara e direção estadual do PL
O mandato de João Roma na Câmara foi encerrado no início de 2023. A página oficial da Casa o apresenta atualmente como parlamentar fora de exercício e registra atividades realizadas até janeiro daquele ano.
Sem mandato eletivo após a eleição de 2022, o ex-ministro passou a comandar o PL na Bahia e a atuar na organização partidária e eleitoral da legenda. Inicialmente apresentado como possível candidato ao Governo do Estado, ele foi posteriormente confirmado para disputar uma das duas vagas baianas no Senado.
A convenção da oposição realizada em Salvador, em 22 de julho de 2026, homologou João Roma como candidato ao Senado na chapa liderada por ACM Neto, candidato ao Governo da Bahia.
2026 — candidatura ao Senado e salto para R$ 17 milhões
Na nova declaração apresentada à Justiça Eleitoral, o patrimônio informado alcançou R$ 17.016.110,38, valor 205,98% superior ao registrado em 2022. O aumento absoluto em quatro anos foi de R$ 11.454.927,77.
O salto ocorreu principalmente pela incorporação ou elevação dos valores de propriedades rurais, pelo aumento do valor atribuído ao apartamento em Salvador e pelo registro de um empréstimo superior a R$ 2,2 milhões concedido a uma empresa agropecuária.
Entre os principais bens e direitos relacionados em 2026 aparecem:
- Fazenda Mirage: R$ 5,1 milhões;
- apartamento no Edifício Phileto Sobrinho, no Corredor da Vitória, em Salvador: R$ 3.574.254,96;
- empréstimo concedido à LN Agropecuária: R$ 2.281.769,73;
- Fazenda Selma Nunes, em Iraquara: R$ 1.624.990,45;
- 50% da Fazenda São Benedito, em Cachoeira: R$ 1,25 milhão;
- Fazenda Isabel, em Brejões: R$ 1,2 milhão;
- Toyota Hilux SW4 Diamond 2022: R$ 417.990;
- crédito decorrente de decisão judicial: R$ 398.909,76;
- obras de arte: R$ 148 mil;
- aproximadamente R$ 73,5 mil em dinheiro em espécie;
- título do Yacht Clube da Bahia no valor de R$ 18 mil.
A relação inclui ainda propriedades rurais em Conceição da Feira, participações na LN Agropecuária, JRN Consultoria, JR Consultoria e Prata da Chapada, além de aplicações financeiras.
Imóveis rurais passam a dominar a composição patrimonial
A série demonstra uma mudança estrutural no patrimônio declarado. Em 2018, os imóveis residenciais e as participações societárias respondiam pela maior parte do total. Em 2022, propriedades rurais em Iraquara, Cachoeira e Conceição da Feira já ocupavam espaço relevante na declaração.
Em 2026, essa transformação tornou-se mais acentuada. Somente a Fazenda Mirage, a Fazenda Selma Nunes, a Fazenda São Benedito e a Fazenda Isabel somam aproximadamente R$ 9,17 milhões, mais da metade do patrimônio de R$ 17,01 milhões.
O apartamento declarado por R$ 2.527.996,53 em 2022 passou a aparecer por R$ 3.574.254,96 em 2026. Caso seja a mesma unidade imobiliária, a diferença nominal é de R$ 1.046.258,43, equivalente a aproximadamente 41,4%.
A Fazenda São Benedito também apresenta alteração expressiva. Em 2022, o imóvel rural localizado em Cachoeira foi declarado por R$ 250 mil. Em 2026, a participação de 50% aparece avaliada em R$ 1,25 milhão, diferença nominal de R$ 1 milhão.
Empréstimo à LN Agropecuária representa R$ 2,28 milhões
Outro componente central da declaração de 2026 é o crédito de R$ 2.281.769,73 referente a empréstimo concedido à LN Agropecuária. O valor corresponde a aproximadamente 13,4% do patrimônio total considerado na soma de R$ 17,01 milhões.
Um empréstimo declarado como bem ou direito representa um valor que o credor tem a receber. Não significa necessariamente que o montante esteja disponível em conta bancária, mas ele integra o patrimônio informado pelo candidato à Justiça Eleitoral.
Em 2022, Roma já havia relacionado a LN Agropecuária em sua declaração, atribuindo R$ 105 mil ao bem ou participação empresarial. Em 2026, além da participação societária, aparece o crédito superior a R$ 2,2 milhões decorrente do empréstimo.
Divergência de R$ 5,1 milhões aparece na declaração de 2026
A apuração identificou uma divergência entre os valores divulgados a partir da declaração de 2026. Uma primeira publicação, baseada nos dados apresentados ao TSE, informou patrimônio total de R$ 22.116.110,38. Outra consulta, divulgada posteriormente, apresentou a soma de R$ 17.016.110,38.
A diferença entre os dois valores é de R$ 5,1 milhões, exatamente o valor atribuído à Fazenda Mirage. A versão de R$ 17,01 milhões considera que as duas entradas relacionadas à propriedade representam participações que, somadas, totalizam R$ 5,1 milhões, e não dois patrimônios independentes de igual valor.
A conta demonstra a diferença:
R$ 22.116.110,38 − R$ 5.100.000,00 = R$ 17.016.110,38.
Diante da divergência, o valor de R$ 17.016.110,38 é adotado nesta reportagem por corresponder à soma depurada apresentada após a revisão da participação na Fazenda Mirage. Até o fechamento, não foi localizado nas fontes públicas consultadas um número específico de protocolo de retificação que permitisse confirmar quando a correção foi formalmente processada no sistema eleitoral.
Caso o total inicial de R$ 22,11 milhões fosse mantido, o crescimento desde 2022 seria de 297,7%, e a expansão acumulada desde 2018 alcançaria 392,1%. Pelo valor depurado de R$ 17,01 milhões, os percentuais são de 206% e 278,6%, respectivamente.
Crescimento maior ocorreu entre 2022 e 2026
A relação entre a trajetória pública e a evolução patrimonial deve considerar que as declarações eleitorais são descontínuas. Entre 2018 e 2022, período que incluiu o mandato de deputado federal e a passagem pelo Ministério da Cidadania, o patrimônio aumentou R$ 1,06 milhão.
O crescimento mais elevado, de R$ 11,45 milhões, aparece entre as eleições de 2022 e 2026. Durante a maior parte desse segundo intervalo, João Roma já não exercia mandato eletivo ou cargo ministerial, embora permanecesse em atividade política como dirigente partidário e pré-candidato.
Desse modo, os registros confirmam que o enriquecimento declarado acompanhou uma trajetória marcada pela passagem de assessor e gestor municipal para deputado federal, ministro de Estado, candidato ao Governo da Bahia e candidato ao Senado. Os dados eleitorais, porém, não permitem atribuir o aumento a salários, atividades privadas, negócios agropecuários, heranças, doações, operações societárias ou outras fontes específicas.
O que a declaração eleitoral informa
A declaração de bens é obrigatória para o pedido de registro de candidatura. Os dados são fornecidos pelos próprios candidatos por meio do sistema externo de candidaturas e posteriormente disponibilizados para consulta pública pela Justiça Eleitoral.
O TSE considera a publicidade patrimonial um instrumento de transparência que permite ao eleitor acompanhar alterações nos bens daqueles que exercem ou pretendem exercer funções públicas. O sistema reúne informações eleitorais desde 2004.
A jurisprudência eleitoral estabelece, entretanto, que a apresentação da declaração não equivale a uma auditoria prévia da origem ou do valor de cada bem. A veracidade pode ser analisada posteriormente, sobretudo quando surgem elementos concretos de omissão ou falsidade. Também não existe exigência geral de que imóveis e outros ativos sejam atualizados pelo valor de mercado a cada eleição.








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