A análise publicada na sexta-feira (03/07/2026), pela revista norte-americana Foreign Affairs, assinada por Jonathan Kirshner, recolocou Tucídides no centro do debate sobre a política externa dos Estados Unidos ao contestar a leitura simplificada segundo a qual a força, por si só, seria suficiente para sustentar a primazia de uma grande potência. O artigo, intitulado The Strong Do What They Can — and Suffer What They Must: What Thucydides Really Thought About Power (Os fortes fazem o que podem — e sofrem o que devem: O que Tucídides realmente pensava sobre o poder), examina a relação entre poder, coerção, soberania e riscos estratégicos no contexto da atuação internacional norte-americana sob o presidente Donald Trump.
A análise parte de uma das passagens mais citadas da tradição realista das Relações Internacionais: a afirmação atribuída aos emissários atenienses no Diálogo Meliano, segundo a qual “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”. A frase, registrada na História da Guerra do Peloponeso, costuma ser usada como síntese da política de poder, mas Kirshner sustenta que essa leitura é incompleta quando separada do desfecho histórico de Atenas.
No episódio clássico, Atenas impôs a Melos, cidade neutra, a alternativa entre submissão e destruição. A decisão ateniense tornou-se símbolo da lógica imperial, mas também precedeu uma sequência de erros estratégicos que contribuíram para o desgaste da própria potência. O ponto central da interpretação retomada pela Foreign Affairs é que Tucídides não descreveu apenas a brutalidade dos fortes; mostrou, também, como a arrogância do poder pode produzir cegueira política, isolamento e derrota.
Essa leitura desloca o debate contemporâneo. Em vez de tratar Tucídides como justificativa automática para a coerção, o artigo o apresenta como advertência sobre os limites da força. A mensagem é particularmente relevante quando grandes potências testam fronteiras jurídicas, diplomáticas e militares em nome de interesses nacionais definidos de forma cada vez mais unilateral.
Política externa dos EUA é analisada sob a ótica do poder coercitivo
Jonathan Kirshner contextualiza a discussão no ambiente internacional posterior ao retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, destacando ações e ameaças que passaram a ser interpretadas por aliados, adversários e analistas como sinais de uma postura mais abertamente transacional e coercitiva dos Estados Unidos. O artigo menciona, entre outros pontos, operações contra supostos traficantes no Caribe, a captura de Nicolás Maduro, ataques contra o Irã e ameaças envolvendo soberania territorial.
O caso venezuelano tornou-se um dos episódios mais sensíveis desse novo quadro. A Biblioteca da Câmara dos Comuns do Reino Unido registrou que, em 03/01/2026, os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em operação militar em Caracas, enquanto análises jurídicas internacionais apontaram questionamentos sobre soberania, uso da força e base legal da ação.
A pressão norte-americana sobre a Groenlândia também passou a integrar o debate sobre os limites da política de poder. A Reuters registrou, em 2026, que a Dinamarca enfrentava uma eleição nacional sob o impacto das reiteradas ameaças de Trump de tomar o território autônomo, enquanto lideranças groenlandesas advertiam que Washington ainda buscava formas de ampliar seu controle sobre a ilha.
Soberania, direito internacional e erosão da ordem pós-1945
O debate proposto por Jonathan Kirshner dialoga diretamente com o arcabouço jurídico criado após a Segunda Guerra Mundial. A Carta das Nações Unidas estabelece que os Estados devem resolver controvérsias por meios pacíficos e se abster da ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer país.
A tensão central está na distância crescente entre a norma internacional e a prática das grandes potências. Quando ações militares, ameaças territoriais ou imposições econômicas passam a ser justificadas quase exclusivamente por conveniência estratégica, o sistema internacional perde previsibilidade. Esse enfraquecimento não atinge apenas países menores; afeta também a credibilidade das potências que, historicamente, dependeram de alianças, instituições e confiança para sustentar influência global.
Nesse ponto, a análise de Kirshner se aproxima de uma crítica clássica ao voluntarismo imperial. O uso da força pode produzir resultados imediatos, mas tende a gerar custos acumulados: resistência diplomática, rearranjos regionais, busca por alianças alternativas, perda de legitimidade e maior disposição de países médios e pequenos para diversificar suas parcerias estratégicas.
Jonathan Kirshner e a tradição do realismo clássico
Jonathan Kirshner é professor de Ciência Política e Estudos Internacionais no Boston College, com pesquisas voltadas para Relações Internacionais, economia política, realismo clássico e implicações políticas da crise financeira. Antes de ingressar na instituição, atuou na Cornell University e dirigiu o Reppy Institute for Peace and Conflict Studies entre 2007 e 2015.
Sua obra mais recente, An Unwritten Future: Realism and Uncertainty in World Politics, propõe uma reavaliação do realismo clássico, enfatizando incerteza, prudência e limites da ação estatal. Essa perspectiva ajuda a compreender por que o artigo não rejeita a importância do poder, mas critica sua aplicação sem cálculo político, sem legitimidade institucional e sem atenção às consequências de longo prazo.
A distinção é relevante. O realismo clássico não equivale a uma autorização irrestrita para a violência ou para a imposição imperial. Em sua formulação mais prudente, reconhece que Estados buscam segurança e influência, mas também alerta que ambição desmedida, desprezo por limites e autoconfiança excessiva podem corroer a própria base do poder nacional.
Impactos para aliados, adversários e países médios
A política externa baseada em demonstrações sucessivas de força tende a produzir efeitos distintos em diferentes grupos de países. Aliados tradicionais podem ampliar investimentos em defesa própria, reduzir dependência estratégica de Washington e buscar maior autonomia diplomática. Adversários podem explorar a percepção de instabilidade norte-americana para fortalecer narrativas antiocidentais. Países médios, por sua vez, podem acelerar estratégias de equilíbrio entre blocos.
Esse processo já aparece em debates sobre a reputação internacional dos Estados Unidos. Análises publicadas em 2026 registram deterioração da percepção global sobre Washington, inclusive entre parceiros tradicionais, em razão de uma política externa considerada mais volátil, transacional e menos previsível.
Para a América Latina, o tema tem dimensão adicional. A captura de Maduro, a reorganização da política hemisférica e a disputa por recursos estratégicos recolocam a região no centro da geopolítica norte-americana. O interesse público está em compreender se essa dinâmica representa uma política pontual de governo ou uma inflexão estrutural na forma como os Estados Unidos tratam soberania, segurança e influência regional.
A força sem prudência também cobra preço das potências
A principal contribuição da análise publicada de Jonathan Kirshner está em recusar uma leitura vulgar de Tucídides. A frase sobre fortes e fracos não deve ser interpretada como celebração da coerção, mas como parte de uma narrativa trágica sobre soberba, cálculo equivocado e deterioração política. O poder, quando separado de prudência e legitimidade, pode vencer disputas imediatas e, ao mesmo tempo, semear derrotas estratégicas.
No caso dos Estados Unidos, a questão jornalisticamente relevante não é apenas se Washington dispõe de meios militares, econômicos e diplomáticos para impor sua vontade em determinados episódios. O ponto decisivo é saber se essa postura fortalece ou enfraquece a posição norte-americana no sistema internacional. A resposta ainda depende de desdobramentos institucionais, reações de aliados, decisões judiciais, posicionamentos de organismos internacionais e respostas dos países afetados.
O episódio exige acompanhamento porque envolve temas centrais da ordem contemporânea: uso da força, soberania nacional, credibilidade das alianças, direito internacional e reconfiguração do poder global. A leitura de Tucídides proposta por Kirshner indica que grandes potências também sofrem as consequências de seus excessos; por isso, os próximos movimentos dos EUA, da ONU, da União Europeia, da América Latina e dos aliados atlânticos serão decisivos para medir se a atual conjuntura representa apenas uma fase de tensão ou uma ruptura mais profunda da ordem internacional construída após 1945.
Tucídides: o historiador grego que transformou a guerra em análise política
Tucídides foi um historiador, militar e pensador ateniense do século V a.C., reconhecido como um dos fundadores da historiografia crítica. Nascido em Atenas, viveu no período clássico da Grécia Antiga e participou diretamente da Guerra do Peloponeso, conflito travado entre Atenas e Esparta entre 431 a.C. e 404 a.C.. Sua principal obra, História da Guerra do Peloponeso, tornou-se referência por abandonar explicações míticas e religiosas, privilegiando causas políticas, interesses estratégicos, disputas de poder e decisões humanas.
Ao contrário de autores anteriores, Tucídides buscou narrar os acontecimentos com método, investigação e preocupação com a veracidade dos fatos. Ele entrevistou testemunhas, confrontou versões e analisou discursos, alianças, erros militares e ambições políticas. Sua experiência como general ateniense, inclusive marcada pelo exílio após uma derrota militar, deu-lhe uma visão severa sobre a fragilidade das instituições, a instabilidade das cidades e os efeitos destrutivos da guerra sobre a moral pública.
A importância de Tucídides ultrapassa a história antiga. Sua obra é estudada até hoje nas áreas de ciência política, relações internacionais, estratégia militar e jornalismo histórico, especialmente por sua análise do conflito entre potências estabelecidas e emergentes. A chamada “armadilha de Tucídides”, expressão moderna inspirada em sua leitura sobre Atenas e Esparta, passou a designar tensões provocadas pela ascensão de uma nova força diante de uma potência dominante. Por isso, Tucídides permanece como referência clássica para compreender poder, guerra, medo, interesse e prudência política.
Perfil biográfico de Jonathan Kirshner
O cientista político Jonathan Kirshner é professor de Ciência Política e Estudos Internacionais no Boston College, onde ocupa a cátedra Vincent Q. and Mary Ann Giffuni Professor. Reconhecido por sua contribuição aos estudos de Relações Internacionais e economia política internacional, Kirshner desenvolveu uma trajetória acadêmica voltada à análise das relações entre moeda, poder financeiro, segurança, estratégia nacional e ordem mundial. Graduado pela Johns Hopkins University, concluiu mestrado e doutorado na Princeton University.
Antes de ingressar no Boston College, Kirshner atuou por cerca de 25 anos no Departamento de Governo da Cornell University, onde foi Stephen and Barbara Friedman Professor of International Political Economy e, posteriormente, professor emérito. Na instituição, dirigiu o Reppy Institute for Peace and Conflict Studies entre 2007 e 2015 e recebeu reconhecimentos como o Provost’s Award for Distinguished Scholarship e o Stephen and Margery Russell Distinguished Teaching Award, consolidando-se como uma das vozes relevantes no debate sobre economia, segurança e política internacional.
As principais linhas de pesquisa de Kirshner concentram-se em três campos. O primeiro é a economia política da segurança internacional, com ênfase no papel da moeda, do crédito, dos bancos e dos mercados financeiros nas decisões de guerra, paz e estratégia estatal. O segundo é o realismo clássico nas Relações Internacionais, abordagem por meio da qual examina incerteza, prudência, julgamento político e limites do conhecimento na conduta das grandes potências. O terceiro é a relação entre política, sociedade e cinema, especialmente a produção norte-americana das décadas de 1960 e 1970.
Sua obra parte de uma premissa central: o poder internacional não se limita à força militar. Para Kirshner, Estados também exercem influência por meio de instrumentos monetários, capacidade financeira, credibilidade institucional e controle sobre redes econômicas globais. Essa perspectiva aparece em livros como Currency and Coercion: The Political Economy of International Monetary Power, Appeasing Bankers: Financial Caution on the Road to War, American Power After the Financial Crisis e An Unwritten Future: Realism and Uncertainty in World Politics. Também se destacam os volumes coeditados The Future of the Dollar, The Great Wall of Money, When the Movies Mattered e The Downfall of the American Order?. Em conjunto, sua produção ajuda a compreender temas centrais da política mundial contemporânea, como desdolarização, ascensão da China, crise da hegemonia dos Estados Unidos, instabilidade financeira e transformação da ordem internacional.
Entre os textos acadêmicos e ensaísticos de destaque estão “Gone but not Forgotten: Trump’s Long Shadow and the End of American Credibility”, publicado na Foreign Affairs em 2021; “Handle Him with Care: The Importance of Getting Thucydides Right”, publicado em Security Studies; “The Economic Sins of IR Theory and the Classical Realist Alternative”, publicado em World Politics; e “The Tragedy of Offensive Realism: Classical Realism and the Rise of China”, publicado no European Journal of International Relations.
Esses textos ajudam a compreender a coerência interna da trajetória de Kirshner. A crítica ao uso simplificador de Tucídides, a atenção aos limites do poder norte-americano e a defesa de uma abordagem realista mais prudente formam um eixo intelectual contínuo, presente tanto em seus livros quanto em seus artigos de intervenção pública.
Contribuição sobre a crise da ordem liberal internacional
Jonathan Kirshner deve ser compreendido como um intelectual situado entre a tradição clássica das Relações Internacionais e a economia política do poder. Sua obra contesta duas simplificações frequentes: a ideia de que a força militar basta para explicar a política mundial e a noção de que mercados financeiros operam fora da disputa política. Para ele, moeda, crédito, bancos, credibilidade, legitimidade e prudência estratégica são instrumentos centrais da ação estatal.
Sua contribuição é especialmente relevante para análises sobre declínio relativo dos Estados Unidos, crise da ordem liberal internacional, ascensão da China, poder monetário, financeirização da política externa e limites da coerção em grandes potências. Em um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica e disputas monetárias, Kirshner oferece uma leitura sóbria: poder sem prudência tende a produzir ganhos imediatos, mas também custos estratégicos acumulados.
*A reportagem é baseada no artigo “Os fortes fazem o que podem — e sofrem o que devem: O que Tucídides realmente pensava sobre o poder“, de autoria de Jonathan Kirshner, publicado na revista Foreign Affairs, em 3 de julho de 2025.







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