A análise publicada por Dana Stroul sobre a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã recoloca no centro do debate internacional o papel militar de Washington no Oriente Médio, após a Operação Epic Fury, iniciada em 28 de fevereiro de 2026. O artigo O Paradoxo do Poder no Oriente Médio: Como a guerra com o Irã transformará o papel militar dos Estados Unidos, publicado originalmente na Foreign Affairs e reproduzido pelo Washington Institute, sustenta que a campanha demonstrou ampla superioridade convencional norte-americana, mas também revelou limitações estratégicas, custos operacionais elevados, tensão com parceiros do Golfo e vulnerabilidades no mercado global de energia.
Superioridade militar não eliminou impasse estratégico
Dana Stroul, diretora de pesquisa do Washington Institute for Near East Policy e ex-autoridade civil do Pentágono para o Oriente Médio, argumenta que a guerra do Irã produziu um paradoxo: os EUA confirmaram capacidade militar extraordinária, mas não converteram integralmente essa vantagem em resultado político duradouro. Segundo o Washington Institute, a abordagem militar norte-americana registrou êxitos operacionais, mas expôs “sérias deficiências” e criou novos desafios para Washington na região.
A Operação Epic Fury foi descrita pelo Comando Central dos Estados Unidos — CENTCOM — como uma campanha para desmantelar a infraestrutura de segurança iraniana, com prioridade para alvos considerados ameaça iminente. A ofensiva envolveu meios de defesa antimísseis, ataques a estruturas de comando, instalações militares, sistemas de drones, bases navais e infraestrutura associada ao programa de mísseis do Irã.
O ponto central da avaliação de Stroul é que a destruição de capacidades militares, por si só, não equivale à realização de objetivos estratégicos amplos. A autora sustenta que Washington buscava metas políticas mais ambiciosas — como enfraquecer decisivamente o regime iraniano, reduzir sua influência regional e criar condições para novo acordo nuclear —, mas esses resultados permaneciam incertos após o cessar-fogo e a abertura de negociações.
Números da Operação Epic Fury revelam escala inédita
Os dados públicos sobre a campanha militar indicam uma ofensiva de grande escala. A Casa Branca informou que a Operação Epic Fury envolveu mais de 10.200 surtidas aéreas, mais de 13 mil alvos atingidos, mais de mil drones interceptados e mais de 700 ameaças de mísseis balísticos neutralizadas. O Departamento de Defesa também afirmou que, ao longo de 38 dias de combate, a força conjunta norte-americana atingiu mais de 13 mil alvos, incluindo cerca de 4 mil alvos dinâmicos.
Há, contudo, uma divergência numérica relevante na documentação pública. O resumo do Washington Institute atribuído ao artigo de Stroul menciona mais de 130 mil alvos atingidos, número superior ao balanço oficial divulgado pela Casa Branca e pelo Departamento de Defesa, que falam em mais de 13 mil alvos. Diante da discrepância, a leitura jornalística mais rigorosa exige tratar o dado como diferença entre fontes, sem apresentar o número mais elevado como fato consolidado.
Ainda segundo o Departamento de Defesa, autoridades norte-americanas afirmaram que cerca de 80% dos sistemas de defesa aérea iranianos foram destruídos, que mais de 450 instalações de armazenamento de mísseis balísticos e 800 estruturas ligadas a drones de ataque foram atingidas, e que redes de comando e controle foram severamente degradadas. Essas informações refletem a narrativa oficial de Washington sobre o resultado militar da operação, mas não encerram a discussão sobre seus efeitos políticos e diplomáticos.
Estreito de Ormuz ampliou dimensão econômica da guerra
A guerra também evidenciou que o Irã manteve instrumentos de pressão assimétrica. A interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, rota essencial para petróleo e gás natural, transformou o conflito em choque energético global. A Agência Internacional de Energia informou que os fluxos pelo estreito caíram de cerca de 20 milhões de barris por dia antes da guerra para média de 2,7 milhões de barris por dia entre março, abril e maio, com perdas acumuladas superiores a 1,3 bilhão de barris para produtores do Oriente Médio.
A importância estratégica de Ormuz decorre de sua função como principal rota de exportação de petróleo e gás de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Iraque, Bahrein e Irã. A AIE estima que cerca de 25% do comércio marítimo mundial de petróleo passou pelo estreito em 2025, além de volumes significativos de gás natural liquefeito, o que explica a rápida transmissão da crise militar para os mercados globais.
Com a retomada parcial dos fluxos, os preços internacionais começaram a recuar. Em 24 de junho de 2026, a Reuters informou que o Brent caiu para o menor nível desde antes do início da guerra, após a saída de petroleiros retidos em Ormuz e a redução das preocupações de oferta. Ainda assim, a normalização seguia condicionada à segurança da navegação, à remoção de riscos remanescentes e à estabilidade do acordo entre EUA e Irã.
Parcerias no Golfo entram em nova fase
Na avaliação de Stroul, a guerra expôs uma divisão entre a capacidade militar dos EUA e a confiança política de seus aliados regionais. A autora afirma que Washington continua sendo a espinha dorsal da defesa coletiva no Oriente Médio, mas parceiros do Golfo passaram a questionar, em privado, se os EUA estão efetivamente alinhados às suas preocupações de segurança.
Esse movimento não significa ruptura automática com Washington. Significa, antes, uma tendência de diversificação estratégica. Países do Golfo, segundo a análise, tendem a buscar arranjos complementares de defesa, tecnologia, produção conjunta e autonomia operacional, sem abandonar completamente a relação com os EUA. A consequência provável é a transição de um modelo baseado no papel norte-americano como garantidor quase exclusivo da segurança regional para outro, no qual Washington atuaria como integrador de segurança.
Esse conceito pressupõe coordenação multinacional, coprodução industrial, compartilhamento tecnológico e participação mais ativa de aliados na defesa de rotas, bases e infraestruturas críticas. Para os EUA, o desafio é manter liderança sem carregar sozinhos o custo político, financeiro e militar de crises recorrentes no Oriente Médio.
Base industrial de defesa vira ponto sensível
Outro eixo da análise é o desgaste da base industrial de defesa norte-americana. Stroul afirma que a guerra consumiu recursos em ritmo elevado e reforçou a necessidade de adaptar processos de aquisição, produção de munições, desenvolvimento tecnológico e cooperação com parceiros confiáveis. Em sua síntese pública sobre o artigo, a autora escreveu que o conflito custou caro, consumiu material demais e produziu ganho estratégico limitado.
Essa conclusão dialoga com debates já em curso no Pentágono sobre estoques, prazos de reposição, capacidade de produção e uso intensivo de sistemas de interceptação. Guerras recentes, como a da Ucrânia e a própria crise no Oriente Médio, demonstraram que conflitos modernos exigem volume industrial, resiliência logística e capacidade de inovação em escala superior àquela prevista por modelos tradicionais de planejamento militar.
A implicação é direta: se os EUA desejam preservar capacidade de dissuasão em múltiplos teatros — Oriente Médio, Europa e Indo-Pacífico —, não bastará manter superioridade tecnológica. Será necessário recompor estoques, ampliar produção, reduzir gargalos e dividir responsabilidades com aliados que tenham capacidade real de contribuir.
Impactos para a ordem regional e para o Brasil
O conflito no Irã reforça a centralidade do Oriente Médio na economia global. Mesmo em um cenário de maior produção energética nas Américas e de diversificação de fontes, o Estreito de Ormuz permanece uma artéria crítica para petróleo, gás, fertilizantes e insumos industriais. A AIE apontou que, além da energia, a interrupção afetou commodities como ureia, amônia, fosfato, alumínio e enxofre, com potenciais reflexos sobre cadeias produtivas e segurança alimentar.
Para o Brasil, os efeitos indiretos se concentram em preços de combustíveis, fretes, fertilizantes, inflação importada e volatilidade cambial. Países exportadores de alimentos, como o Brasil, podem ser afetados tanto pelo encarecimento de insumos agrícolas quanto por oscilações na demanda global, especialmente se crises energéticas reduzirem o ritmo de crescimento de economias asiáticas e europeias.
No campo diplomático, a guerra reforça a importância de uma política externa prudente, com defesa do direito internacional, segurança energética, liberdade de navegação e solução negociada de controvérsias. A experiência mostra que vitórias militares rápidas podem se converter em impasses prolongados quando não são acompanhadas por arquitetura política, garantias verificáveis e mecanismos estáveis de desescalada.
Paradoxo do poder exige revisão estratégica e vigilância sobre o pós-guerra
A principal conclusão jornalística é que a guerra do Irã não pode ser lida apenas pelo inventário de alvos destruídos, embarcações afundadas ou sistemas interceptados. Esses dados são relevantes, mas não respondem à questão decisiva: se a operação produziu uma ordem regional mais estável, um acordo nuclear verificável, liberdade permanente de navegação em Ormuz e maior confiança entre EUA e aliados do Golfo.
O paradoxo apontado por Stroul reside justamente nessa tensão. A potência militar norte-americana permanece incomparável em capacidade de projeção, mas a política externa dos EUA enfrenta limites quando objetivos amplos não são acompanhados de coalizão sólida, estratégia diplomática consistente e sustentação industrial de longo prazo. A força venceu etapas da campanha; a política ainda precisa demonstrar se venceu a guerra.
Os próximos desdobramentos dependerão da implementação do acordo com o Irã, da reabertura plena do Estreito de Ormuz, da retomada de inspeções e negociações nucleares, da recomposição dos estoques militares dos EUA e da reação dos países do Golfo. Para o jornalismo, o ponto de acompanhamento é claro: verificar se a Operação Epic Fury será lembrada como demonstração de força eficaz ou como advertência sobre os limites da superioridade militar quando dissociada de resultado estratégico duradouro.
Perfil Biográfico
Dana Stroul: especialista em segurança dos EUA no Oriente Médio e formulação estratégica para crises regionais
Dana Stroul é uma analista norte-americana de política externa e segurança internacional, reconhecida por sua atuação em temas ligados ao Oriente Médio, à política dos Estados Unidos para a região, à segurança de Israel, ao Irã, à Síria, aos Estados do Golfo e à competição entre grandes potências. Atualmente, ocupa os cargos de diretora de Pesquisa e Shelly and Michael Kassen Senior Fellow no Washington Institute for Near East Policy, funções assumidas em fevereiro de 2024, após ter atuado entre 2021 e 2023 como subsecretária adjunta de Defesa para o Oriente Médio no Pentágono, posto considerado o principal cargo civil norte-americano dedicado à região.
Sua trajetória acadêmica combina formação em política internacional, estudos regionais e religião. Stroul possui Master of Science in Foreign Service pela Georgetown University e Bachelor of Arts pela University of Virginia, com estudos em Middle East Studies e Religious Studies. Antes de chegar aos cargos de maior projeção, trabalhou na Embaixada dos EUA no Cairo, no U.S. Institute of Peace em temas de relações civis-militares no Iraque, no National Democratic Institute em assuntos do Golfo e no escritório de política para o Oriente Médio do secretário de Defesa, onde acompanhou temas como relações EUA-Egito, retirada militar do Iraque e políticas norte-americanas após a Primavera Árabe.
No plano analítico, suas principais abordagens combinam realismo estratégico, dissuasão militar, arquitetura regional de segurança, contenção da influência iraniana, integração de defesa aérea e marítima, reconstrução institucional e coordenação entre poder militar e objetivos políticos. Sua produção está associada a temas como política dos EUA, segurança militar, relações árabe-israelenses, democracia e reforma, competição entre grandes potências, Síria, Golfo, Irã e Israel. Como integrante e depois dirigente de centros de pesquisa, Stroul consolidou perfil de especialista em política aplicada, isto é, voltada não apenas à interpretação dos conflitos, mas à formulação de recomendações para governos, Congresso e instituições de defesa.
Entre suas pesquisas e publicações mais relevantes estão análises sobre a guerra do Irã, a política norte-americana para o Líbano, a relação entre EUA e Israel, a reconstrução da ordem regional do Oriente Médio e os limites da pressão militar contra Teerã. Em 2019, ela foi copresidente, ao lado de Michael Singh, do Syria Study Group, grupo bipartidário que produziu relatório sobre a política dos EUA para a guerra na Síria. Mais recentemente, publicou textos como “The Middle East Power Paradox: How the Iran War Will Transform America’s Military Role”, “The Narrow Path to a New Middle East”, “In Iran Negotiations, the White House’s Military Options Are Dwindling” e “America and Israel’s War to Remake the Middle East”, nos quais examina a tensão entre superioridade militar, diplomacia, alianças regionais e resultados estratégicos duradouros.
*A reportagem é baseada no artigo “O Paradoxo do Poder no Oriente Médio: Como a guerra com o Irã transformará o papel militar dos Estados Unidos“, de autoria de Jonathan Kirshner, publicado na revista Foreign Affairs, em 16 de junho de 2025.







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