A Polícia Federal passou a investigar formalmente, nesta quinta-feira (23/07/2026), em Brasília, o ministro afastado Marco Aurélio Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em uma frente relacionada à apuração sobre um suposto esquema de venda de decisões judiciais. Buzzi é o segundo integrante da Corte superior alcançado diretamente pela investigação, depois do ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro. O caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, e integra os desdobramentos da Operação Sisamnes, iniciada em novembro de 2024.
Marco Buzzi passa a ser investigado por suspeita de venda de decisões
A nova frente de investigação busca esclarecer referências a pessoas próximas de Marco Buzzi encontradas em conversas mantidas pelo lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, apontado pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como um dos principais articuladores do suposto esquema de compra de decisões e corrupção de servidores ligados ao STJ.
Segundo as informações divulgadas, as mensagens analisadas pela PF mencionam um familiar do magistrado em contatos mantidos por Andreson com advogados e empresários interessados em processos judiciais. A presença do nome de uma pessoa próxima ao ministro não representa, por si só, comprovação de irregularidade, mas levou os investigadores a aprofundarem a análise das relações pessoais, profissionais e financeiras identificadas nos aparelhos apreendidos.
Relatórios anteriores da Operação Sisamnes já haviam registrado diálogos envolvendo a advogada Catarina Buzzi, filha do ministro, o empresário Haroldo Augusto Filho e o advogado Roberto Zampieri, assassinado em Cuiabá em dezembro de 2023. A PF também localizou no celular de Andreson a reprodução de uma mensagem que mencionava uma suposta transferência de R$ 1,12 milhão para contas atribuídas à advogada, acompanhada de uma cobrança pela devolução do dinheiro.
Defesa nega vínculos com atividades de familiares
A defesa de Catarina Buzzi afirmou anteriormente que a advogada não realizou transações, serviços ou promessas envolvendo os personagens citados na investigação e que não recebeu os valores mencionados. Também declarou que ela não atuou em processos relacionados às empresas, aos empresários ou aos operadores investigados pela PF.
Em manifestação divulgada após a revelação do novo inquérito, a assessoria de Marco Buzzi sustentou que o ministro não mantém relação com as atividades profissionais de seus familiares e que se declara impedido de julgar processos nos quais parentes atuem. A nota acrescentou que o magistrado desconhecia os novos andamentos da investigação.
Até a divulgação das informações, não havia acusação formal apresentada contra Buzzi por participação no suposto esquema de venda de decisões. A abertura ou ampliação de um inquérito representa uma etapa destinada à coleta de provas, verificação de hipóteses e esclarecimento dos fatos, sem antecipar responsabilidade criminal.
Moura Ribeiro é o outro ministro do STJ investigado
A inclusão de Marco Buzzi tornou-se pública no mesmo dia em que foi revelada a autorização concedida por Cristiano Zanin para que a Polícia Federal investigasse formalmente o ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro. A decisão relativa a Moura Ribeiro foi assinada em 29/05/2026, mas permaneceu sob sigilo até ser noticiada nesta quinta-feira.
O procedimento busca esclarecer se decisões proferidas pelo magistrado mantêm relação com os interesses do lobista Andreson Gonçalves, da advogada Mirian Ribeiro Gonçalves, esposa dele, e de empresários ligados principalmente a disputas fundiárias e negócios do agronegócio em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Relatório de 22 páginas elaborado pela PF indicou a necessidade de aprofundar a análise de pelo menos dez processos que tramitaram no gabinete de Moura Ribeiro. Os investigadores avaliam se informações internas ou decisões foram antecipadas a pessoas vinculadas ao grupo investigado.
PF solicita análise de movimentações financeiras
Para esclarecer os fatos, a Polícia Federal sugeriu o levantamento de informações bancárias de empresas, familiares do ministro e servidores que trabalharam em seu gabinete. O objetivo é identificar possíveis fluxos financeiros, pagamentos de vantagens indevidas ou operações destinadas a ocultar a origem de recursos.
Entre os elementos sob apuração estão duas transferências realizadas pela empresa Florais Transportes, vinculada a Andreson Gonçalves, para um técnico judiciário que trabalhou no gabinete de Moura Ribeiro. Os pagamentos teriam ocorrido em dezembro de 2019 e dezembro de 2020. O servidor exerceu, entre janeiro e junho de 2019, a função de assistente de plenário, atividade informalmente conhecida no meio jurídico como “capinha”.
A PF ressaltou, entretanto, que os elementos reunidos até agora não permitem concluir que Moura Ribeiro ou servidores do gabinete tenham participado do suposto esquema. Segundo os investigadores, a ampliação das diligências é necessária justamente para confirmar ou descartar a hipótese de envolvimento do magistrado.
Ministro afirma desconhecer investigação
Em nota encaminhada pela assessoria do STJ, Moura Ribeiro declarou desconhecer a existência de investigação instaurada sobre decisões que tenha proferido. O ministro informou que o servidor citado trabalhou como assistente de plenário entre 30/01/2019 e 16/06/2019 e foi posteriormente exonerado, a pedido do próprio magistrado, após uma atuação considerada irregular.
A manifestação destacou ainda a trajetória de mais de quatro décadas de Moura Ribeiro na magistratura e rejeitou qualquer associação do ministro com práticas criminosas. A defesa de Andreson Gonçalves e Mirian Ribeiro também tem negado irregularidades atribuídas ao casal.
O inquérito deverá determinar se as decisões examinadas decorreram exclusivamente da atividade jurisdicional regular ou se sofreram interferência de operadores externos, servidores ou intermediários interessados nos resultados dos processos.
Operação Sisamnes surgiu após assassinato de advogado em Cuiabá
A investigação que alcançou os dois ministros começou após o assassinato do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em 05/12/2023, em Cuiabá. O celular apreendido com a vítima continha diálogos que indicavam acesso indevido a informações judiciais, circulação antecipada de minutas e possível influência sobre resultados de processos.
A análise do aparelho revelou contatos entre advogados, lobistas, empresários, magistrados e servidores públicos. As mensagens levaram os investigadores a examinar suspeitas de venda de decisões em tribunais estaduais e no STJ, além de possíveis vazamentos de informações sobre operações policiais.
Em 26/11/2024, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Sisamnes. Foram cumpridos 23 mandados de busca e apreensão, um mandado de prisão preventiva e medidas de afastamento de funções públicas, monitoramento eletrônico e indisponibilidade de bens em Mato Grosso, Pernambuco e no Distrito Federal.
Esquema envolveria advogados, lobistas e servidores
De acordo com a PF, o grupo investigado solicitava pagamentos para beneficiar partes em processos judiciais. Também teria negociado informações sigilosas, incluindo dados sobre diligências e operações policiais ainda não deflagradas.
O nome da operação faz referência a Sisamnes, juiz da antiga Pérsia que, segundo a tradição histórica, teria recebido suborno para proferir uma decisão injusta. A denominação foi escolhida para representar a suspeita de corrupção judicial examinada no inquérito.
As diligências posteriores identificaram uma possível rede empresarial e financeira criada para ocultar pagamentos relacionados à compra de decisões. A estrutura teria utilizado dinheiro em espécie, contas de passagem, boletos sem justificativa econômica e operações de câmbio clandestino para afastar a ligação direta entre os pagadores e os agentes públicos corrompidos.
Novas fases identificaram lavagem de dinheiro e vazamentos
Em 13/05/2025, a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Sisamnes, com o cumprimento de 11 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo e no Distrito Federal. A operação também determinou o sequestro de aproximadamente R$ 20 milhões em bens e valores.
Segundo a corporação, a rede financeira investigada teria sido criada para dissimular a origem de supostas propinas destinadas à compra de decisões proferidas no STJ. As medidas alcançaram empresários e operadores financeiros suspeitos de intermediar ou ocultar os pagamentos.
Em fases posteriores, a apuração passou a examinar o vazamento sistemático de informações sigilosas de processos e investigações. Em junho de 2025, a PF cumpriu três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão em Palmas, no Tocantins, contra suspeitos de utilizar dados confidenciais para proteger aliados e frustrar operações policiais.
Relatório parcial afastou ministros em primeira etapa
Em março de 2026, um relatório parcial da Polícia Federal afirmou não ter localizado, naquele estágio, provas de que ministros do STJ soubessem da suposta negociação de decisões. A hipótese então considerada mais plausível era a de que determinados servidores elaboravam ou alteravam minutas e as submetiam à assinatura dos magistrados sem informar sobre a interferência criminosa.
Essa conclusão, contudo, tinha caráter parcial e não encerrava as demais frentes mantidas sob sigilo no STF. A identificação de novos elementos, conexões financeiras e referências a autoridades com prerrogativa de foro permitiu o avanço das investigações sobre Moura Ribeiro e Marco Buzzi.
Em 27/05/2026, a Procuradoria-Geral da República denunciou integrantes do núcleo investigado, incluindo o lobista Andreson Gonçalves e ex-servidores do STJ. As acusações abrangem, conforme a participação atribuída a cada denunciado, crimes de organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro, exploração de prestígio e violação de sigilo.
Caso de importunação sexual contra Buzzi tramita separadamente
A investigação sobre a venda de decisões não se confunde com o processo administrativo e o inquérito criminal nos quais Marco Buzzi responde a acusações de importunação e assédio sexual. Os procedimentos tratam de fatos distintos e são conduzidos de maneira independente.
Buzzi está afastado cautelarmente do STJ desde 10/02/2026, por decisão unânime do plenário da Corte. Em abril, o tribunal instaurou um Processo Administrativo Disciplinar para apurar as denúncias formuladas por uma jovem de 18 anos e por uma ex-colaboradora que trabalhou no gabinete do ministro. A defesa nega as acusações.
O julgamento administrativo foi marcado para 06/08/2026, a partir das 9 horas, em sessão presencial e fechada do plenário do STJ. Paralelamente, tramita no STF um inquérito criminal relacionado às denúncias de natureza sexual, sob relatoria do ministro Nunes Marques.
Linha do tempo da Operação Sisamnes
- 05/12/2023 — Assassinato de Roberto Zampieri: o advogado é morto em frente ao próprio escritório, em Cuiabá. A apreensão e a análise de seu celular revelam mensagens sobre acesso indevido a decisões e possíveis negociações envolvendo processos judiciais.
- 26/11/2024 — Deflagração da Operação Sisamnes: a PF cumpre um mandado de prisão preventiva, 23 mandados de busca e medidas cautelares em Mato Grosso, Pernambuco e no Distrito Federal.
- 13/05/2025 — Quinta fase: investigadores cumprem 11 mandados de busca e apreensão e bloqueiam cerca de R$ 20 milhões ao aprofundar suspeitas de lavagem de dinheiro relacionada à compra de decisões no STJ.
- 29 e 30/05/2025 — Novas diligências: fases da operação alcançam suspeitas de corrupção judicial, lavagem de dinheiro, vazamento e comercialização de informações sigilosas.
- 27/06/2025 — Prisões no Tocantins: três pessoas são presas preventivamente sob suspeita de integrar uma estrutura de vazamento sistemático de dados de investigações conduzidas no STJ.
- Outubro e novembro de 2025 — Referências a familiares de ministros: relatórios e reportagens revelam mensagens envolvendo Catarina Buzzi, empresários e operadores investigados, além de uma menção a suposta transferência de R$ 1,12 milhão contestada pela defesa da advogada.
- 23/03/2026 — Relatório parcial da PF: a corporação afirma não ter encontrado, naquele estágio, provas de que ministros soubessem da produção ou comercialização irregular de minutas, concentrando suspeitas sobre servidores e intermediários.
- 27/05/2026 — Denúncia da PGR: o Ministério Público Federal acusa lobistas, advogados e ex-servidores por crimes relacionados ao suposto esquema de venda de decisões.
- 29/05/2026 — Autorização para investigar Moura Ribeiro: Cristiano Zanin autoriza diligências destinadas a examinar processos, relações e movimentações financeiras ligadas ao gabinete do ministro.
- 23/07/2026 — Investigação alcança dois ministros: tornam-se públicas as apurações que envolvem Moura Ribeiro e Marco Buzzi, os primeiros integrantes do STJ formalmente investigados nessa etapa do caso.
- 06/08/2026 — Julgamento administrativo de Buzzi: o plenário do STJ deverá examinar, em procedimento independente, as acusações de importunação e assédio sexual contra o ministro afastado.
A inclusão formal de ministros do STJ representa uma mudança relevante na Operação Sisamnes. Durante parte da investigação, a hipótese predominante era a de atuação isolada de servidores que produziam ou manipulavam minutas sem o conhecimento dos magistrados. O avanço sobre Moura Ribeiro e Marco Buzzi indica que a PF e a PGR consideraram necessário verificar também decisões, relações familiares e fluxos financeiros próximos às autoridades, embora ainda não existam elementos públicos suficientes para afirmar participação criminosa dos ministros.
O principal desafio institucional será conciliar o sigilo indispensável às diligências com a necessidade de transparência sobre suspeitas que atingem uma das mais altas instâncias do Poder Judiciário. A identificação de mensagens, pagamentos, vazamentos e contatos pessoais precisa ser examinada de maneira individualizada, evitando tanto conclusões antecipadas quanto o encerramento prematuro de linhas investigativas capazes de esclarecer possíveis mecanismos de influência dentro dos tribunais.
Os próximos passos dependerão das análises bancárias, fiscais e telemáticas, da avaliação dos processos judiciais mencionados e das manifestações das defesas. Caberá à Polícia Federal concluir as diligências, à PGR decidir sobre eventuais acusações e ao STF controlar a legalidade dos procedimentos envolvendo autoridades com foro. O resultado terá impacto direto sobre a credibilidade do STJ, a segurança jurídica das decisões examinadas e a capacidade institucional do Judiciário de investigar suspeitas surgidas em sua própria estrutura.







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