A Polícia Federal (PF) concluiu nesta terça-feira (14/07/2026) o primeiro inquérito da Operação Sem Desconto, com o indiciamento de 48 pessoas investigadas por descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões administradas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O relatório concentra-se nas operações da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) e inclui o ex-presidente do INSS Alessandro Antônio Stefanutto, o presidente da entidade, Carlos Roberto Ferreira Lopes, e o empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. O documento foi entregue na sexta-feira (10/07) ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator das investigações.
A conclusão representa o encerramento da fase policial apenas deste núcleo da investigação, relacionado à Conafer. Outros inquéritos da Operação Sem Desconto permanecem em andamento para apurar a participação de diferentes associações, agentes públicos, operadores financeiros e empresas supostamente utilizadas na movimentação dos recursos.
O material deverá ser encaminhado pelo relator à Procuradoria-Geral da República (PGR), responsável por avaliar se os indícios e elementos de prova reunidos justificam a apresentação de denúncia criminal ao STF. O indiciamento formaliza a conclusão da PF sobre a existência de indícios de autoria e materialidade, mas não equivale a condenação, sendo assegurados aos investigados o contraditório e a ampla defesa.
Ex-presidente do INSS é indiciado por três crimes
Alessandro Stefanutto foi indiciado por suspeitas de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Segundo a PF, ele teria utilizado os cargos de procurador-chefe e, posteriormente, de presidente do INSS para assegurar a continuidade do acordo mantido entre a autarquia e a Conafer, apesar dos alertas internos sobre possíveis irregularidades.
A investigação sustenta que o ex-dirigente recebia pagamentos mensais de até R$ 250 mil em troca de omissão fiscalizatória e de decisões administrativas favoráveis à manutenção dos descontos. Os repasses teriam sido realizados principalmente entre junho de 2023 e setembro de 2024, além de um pagamento de R$ 250 mil registrado em outubro de 2022.
Parte dos valores teria transitado por empresas apontadas como de fachada, incluindo uma pizzaria utilizada, conforme o relatório policial, para dissimular a origem e o destino dos recursos. A defesa de Stefanutto informou que ainda não teve acesso integral ao relatório e, por isso, não apresentou manifestação específica sobre o indiciamento.
De acordo com a PF, Stefanutto teria funcionado como facilitador institucional do grupo dentro do INSS. A atuação atribuída ao ex-presidente envolveria a avaliação e a aprovação da continuidade dos convênios, mesmo depois de pareceres técnicos registrarem inconsistências nas listas de associados e suspeitas de falsificação das autorizações utilizadas para descontar valores dos benefícios.
O relatório também aponta que cadastros enviados pela Conafer foram processados sem a confirmação adequada da manifestação de vontade dos aposentados e pensionistas. Para os investigadores, o apoio de ocupantes de cargos estratégicos da autarquia teria sido indispensável à continuidade de uma operação de grande escala, submetida a milhares de reclamações administrativas e judiciais.
Stefanutto está preso preventivamente desde novembro de 2025, quando uma nova fase da Operação Sem Desconto alcançou integrantes da alta administração do INSS. Em depoimento prestado posteriormente, ele negou participação nas fraudes e atribuiu à Dataprev a responsabilidade pelo processamento sistêmico dos descontos. A empresa respondeu que não tinha competência para validar juridicamente as autorizações ou fiscalizar a atuação das associações.
Ex-procurador-geral e ex-diretor de Benefícios também são investigados
O ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva. A PF afirma que ele teria recebido pelo menos R$ 6,5 milhões entre 2022 e 2024, por intermédio de empresas controladas por operadores financeiros ligados ao grupo.
Segundo os investigadores, Virgílio teria atuado para dar sustentação jurídica à continuidade dos acordos de cooperação técnica e liberar procedimentos administrativos relacionados aos repasses. Nas mensagens e planilhas apreendidas, ele apareceria identificado por codinomes utilizados na contabilização dos pagamentos.
O ex-diretor de Benefícios André Paulo Félix Fidelis também figura entre os indiciados. A investigação atribui a ele o recebimento de aproximadamente R$ 3,4 milhões entre 2023 e 2024. Sua função, conforme a PF, teria sido impedir a interrupção dos descontos e garantir a continuidade do processamento dos valores destinados à Conafer, mesmo diante do aumento das reclamações e das inconsistências identificadas internamente.
Stefanutto, Virgílio e Fidelis estão presos preventivamente desde o final de 2025. As prisões foram autorizadas pelo STF a pedido da Polícia Federal e receberam parecer favorável da PGR, dentro das medidas destinadas a impedir destruição de provas, ocultação de patrimônio ou interferência nas investigações.
Presidente da Conafer é apontado como líder do núcleo investigado
O presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro em modalidade majorada e reiterada e corrupção ativa majorada. Ele é considerado foragido desde novembro de 2025.
A PF atribui a Lopes a liderança e a idealização do esquema relacionado à entidade. Segundo o relatório, ele controlava transferências financeiras, definia a distribuição dos recursos, orientava procedimentos fraudulentos e mantinha articulação com integrantes dos demais núcleos investigados.
Os investigadores sustentam que Lopes determinava a realização de visitas domiciliares a aposentados e pensionistas. Nessas abordagens, pessoas contratadas pela entidade supostamente apresentavam formulários como documentos de atualização cadastral, induzindo os beneficiários a assiná-los. As assinaturas seriam posteriormente utilizadas na produção de fichas de filiação associativa sem consentimento válido.
Em decisão de novembro de 2025, André Mendonça afirmou que os elementos apresentados pela PF colocavam o dirigente da Conafer no centro decisório da estrutura investigada. Na ocasião, o STF registrou que a entidade recebeu mais de R$ 708 milhões do INSS, dos quais aproximadamente R$ 640,9 milhões teriam sido transferidos para empresas de fachada e operadores financeiros vinculados ao grupo.
Lopes chegou a ser preso em flagrante por suspeita de falso testemunho depois de prestar depoimento à comissão parlamentar que investigava os descontos. Antes da decretação da prisão preventiva, ele havia negado publicamente que pretendesse fugir. A Conafer foi procurada por meio de sua assessoria de imprensa, mas não havia apresentado manifestação até a publicação das informações sobre o indiciamento.
Careca do INSS é indiciado por lavagem de dinheiro
O empresário e lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, foi indiciado por lavagem de dinheiro e participação em corrupção passiva. A PF o aponta como um dos operadores financeiros envolvidos na movimentação e distribuição dos recursos retirados dos benefícios previdenciários.
A defesa informou que ainda não poderia comentar especificamente o relatório por não ter obtido acesso integral aos autos. As investigações sobre Antunes, entretanto, não se encerram com o inquérito da Conafer, uma vez que o empresário é citado em diferentes frentes da Operação Sem Desconto.
Um procedimento separado apura se o empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria mantido sociedade oculta ou relação empresarial com Antunes. Essa frente não integra o relatório agora concluído e, até o momento, não resultou em indiciamento ou conclusão da Polícia Federal sobre Fábio Luís.
A separação dos procedimentos é relevante porque impede que suspeitas ainda submetidas à apuração sejam apresentadas como fatos comprovados. O primeiro relatório final limita-se às operações atribuídas à Conafer e aos investigados diretamente relacionados à estrutura financeira e administrativa examinada neste inquérito.
Conafer recebeu centenas de milhões de benefícios previdenciários
A PF decidiu concluir inicialmente o inquérito referente à Conafer porque parte expressiva dos investigados desse núcleo estava presa e porque a entidade figurava entre as maiores beneficiárias dos descontos associativos realizados pelo INSS.
Levantamento da Controladoria-Geral da União (CGU) apontou que a confederação recebeu aproximadamente R$ 484 milhões em descontos aplicados entre 2019 e 2024. No mesmo período, foram identificados cerca de R$ 397,3 milhões em créditos classificados como atípicos, dos quais R$ 376,5 milhões tiveram origem no Fundo do Regime Geral de Previdência Social, responsável pelo financiamento das aposentadorias e pensões.
Os números divulgados nas diferentes fases da investigação refletem recortes contábeis distintos. O total de R$ 484 milhões corresponde aos descontos examinados pela CGU em determinado período, enquanto a cifra de R$ 708 milhões mencionada nas decisões judiciais abrange movimentações mais amplas atribuídas pela PF à relação entre o INSS, a Conafer e as empresas investigadas.
A investigação estima que o núcleo tenha alcançado mais de 600 mil beneficiários, utilizando cadastros, autorizações e fichas associativas cuja autenticidade passou a ser questionada. A escala da operação ajuda a explicar a quantidade de reclamações registradas por aposentados que afirmavam desconhecer as entidades responsáveis pelas cobranças.
No conjunto da Operação Sem Desconto, a PF e a CGU apuram descontos associativos que movimentaram aproximadamente R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. A suspeita é de que parte dos valores tenha sido retirada sem autorização válida dos beneficiários e posteriormente distribuída entre associações, intermediários, empresas e agentes públicos.
Planilhas teriam registrado pagamentos de propina
Entre os elementos considerados relevantes pela PF estão planilhas apreendidas durante as diligências. Os documentos apresentariam valores, datas, codinomes e beneficiários dos pagamentos atribuídos à Conafer.
A investigação comparou os registros internos com movimentações bancárias e afirmou ter encontrado correspondência entre os valores anotados e as transferências efetivamente realizadas. O cruzamento das informações foi utilizado para identificar os destinatários, operadores financeiros e empresas intermediárias.
Para a PF, a estrutura apresentava divisão hierárquica de tarefas. Um núcleo seria responsável pela obtenção e manipulação dos dados dos beneficiários; outro controlaria os descontos e repasses; um terceiro movimentaria e ocultaria os recursos; e agentes com influência no INSS garantiriam a continuidade administrativa dos acordos.
A tese policial será submetida à análise da PGR e, caso haja denúncia, ao controle judicial do STF. Caberá ao processo penal examinar a validade das provas, a participação individual de cada investigado e as manifestações apresentadas pelas respectivas defesas.
Próximas etapas da investigação
Após receber o relatório, André Mendonça deverá abrir vista à PGR. O órgão poderá solicitar diligências complementares, promover arquivamentos individuais ou apresentar denúncia contra todos ou parte dos indiciados.
Outros procedimentos da Operação Sem Desconto continuarão sob investigação. A Polícia Federal já informou que pretende concluir progressivamente os inquéritos relacionados às demais associações e aos diferentes operadores identificados durante as análises financeiras.
Também permanecerão em andamento as ações destinadas à recuperação do patrimônio. Até dezembro de 2025, decisões judiciais já haviam tornado indisponíveis aproximadamente R$ 4,5 bilhões em bens e valores de associações e investigados, segundo a Advocacia-Geral da União.
O ressarcimento administrativo aos aposentados não substitui a responsabilização criminal, civil e administrativa dos eventuais autores das fraudes. A recomposição dos valores exige a identificação dos beneficiários, a confirmação dos descontos contestados e a recuperação de ativos desviados ou ocultados.
Atualização editorial — 18/07/2026
Após a publicação desta reportagem, a defesa de Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), encaminhou ao Jornal Grande Bahia manifestação individual na qual contesta as conclusões atribuídas pela Polícia Federal sobre sua participação nos fatos investigados.
Em respeito ao direito de resposta, ao contraditório, à ampla defesa e ao princípio constitucional da presunção de inocência, o Jornal Grande Bahia publica, a seguir, a íntegra da manifestação apresentada pela defesa. As declarações contidas no texto são de responsabilidade de seus subscritores.
Direito de resposta | Manifestação da defesa de Carlos Roberto Ferreira Lopes
A defesa de Carlos Roberto Ferreira Lopes esclarece que as referências a liderança, idealização, comando, controle de fluxos financeiros, benefício econômico e orientação de práticas ilícitas reproduzem conclusões atribuídas pela reportagem ao relatório policial e são integralmente contestadas.
O indiciamento constitui ato da fase investigativa e não equivale, por si só, a denúncia recebida, declaração judicial de culpa ou condenação. As conclusões policiais estão sujeitas à avaliação independente da Procuradoria-Geral da República e ao controle jurisdicional do Supremo Tribunal Federal.
A defesa requer exame individualizado de cada conduta e operação, com análise de sua origem, causa, documentação, destinatário, vínculo funcional e eventual benefício pessoal. Sustenta, ainda, que inferências investigativas não devem ser apresentadas como fatos definitivamente estabelecidos.
As medidas defensivas e os documentos pertinentes serão submetidos às instâncias competentes, observados o devido processo legal, a ampla defesa e as restrições de acesso aplicáveis. Esta manifestação não busca restringir a cobertura jornalística, mas assegurar que a posição individual do citado acompanhe a narrativa acusatória publicada.
Linha do tempo da Operação Sem Desconto
2019 a 2024 — Crescimento dos descontos associativos: entidades conveniadas ao INSS movimentam aproximadamente R$ 6,3 bilhões mediante cobranças incidentes sobre aposentadorias e pensões. Auditorias posteriores identificam associações sem estrutura compatível com a quantidade de beneficiários cadastrados.
2024 — Alertas técnicos e auditorias: órgãos de controle aprofundam o exame de fichas de filiação, autorizações de desconto e bases cadastrais. Surgem indícios de assinaturas falsificadas, ausência de consentimento e dificuldades para localizar beneficiários que supostamente teriam aderido às entidades.
23 de abril de 2025 — Deflagração da Operação Sem Desconto: PF e CGU cumprem mandados de prisão e busca e afastam servidores do INSS. Alessandro Stefanutto deixa o comando da autarquia após a operação.
Maio de 2025 — Bloqueio judicial de bens: a Advocacia-Geral da União pede a indisponibilidade de R$ 2,56 bilhões pertencentes a associações e pessoas investigadas, com o objetivo de preservar recursos para o ressarcimento dos aposentados.
Setembro e outubro de 2025 — CPMI ouve dirigentes: Carlos Roberto Ferreira Lopes presta depoimento à comissão parlamentar, nega irregularidades e acaba preso em flagrante por suspeita de falso testemunho. Parlamentares passam a defender sua prisão preventiva.
13 de novembro de 2025 — Prisões de ex-dirigentes do INSS: nova fase da operação prende Alessandro Stefanutto, Virgílio Oliveira Filho e André Fidelis. A PF apresenta suspeitas de pagamento de propina, lavagem de dinheiro e proteção administrativa aos acordos da Conafer.
Dezembro de 2025 — Ampliação das medidas cautelares: o STF autoriza a prisão de outros investigados e impõe monitoramento eletrônico a pessoas relacionadas a diferentes núcleos da operação.
17 de março de 2026 — Nova fase no Distrito Federal e Ceará: o Supremo autoriza novas prisões, buscas e medidas cautelares para aprofundar a investigação sobre operadores e agentes com possível influência política.
10 de julho de 2026 — Entrega do relatório: a PF apresenta ao ministro André Mendonça o relatório final do primeiro inquérito, dedicado às operações da Conafer.
14 de julho de 2026 — Divulgação dos 48 indiciamentos: tornam-se públicos os indiciamentos de ex-dirigentes do INSS, dirigentes da Conafer, operadores financeiros e empresários relacionados ao núcleo investigado.








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