A empresa Pilar Incorporação e Construção Imobiliária Ltda. arrematou, por R$ 138,487 milhões, a área do antigo Centro de Convenções da Bahia, em Jardim Armação, Salvador, após apresentar o único lance no leilão realizado na segunda-feira (20/07/2026). O resultado, atualizado nesta terça-feira (21/07/2026), transfere para uma sociedade constituída quatro meses antes do certame um dos terrenos públicos de maior valor imobiliário da capital baiana. A cadeia societária indireta inclui empresas ligadas ao ex-prefeito ACM Neto, ao ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Sidônio Palmeira, ao empresário João Gualberto e a outros investidores.
A Pilar foi a única participante a apresentar proposta no leilão promovido pelo Governo da Bahia. O lance, de R$ 138,487 milhões, correspondeu ao valor mínimo estabelecido para a nova tentativa de alienação do imóvel. O certame foi realizado em formato híbrido e abrangeu aproximadamente 116,7 mil metros quadrados, sem incluir a área classificada como de preservação permanente.
A compradora deverá pagar uma entrada de 5%, equivalente a cerca de R$ 6,92 milhões, e quitar o saldo restante em até dez parcelas mensais, conforme as condições do edital. Além do valor da aquisição, a arrematante deverá pagar a comissão do leiloeiro, fixada em 1,5% do lance, e cumprir as demais obrigações administrativas, ambientais e urbanísticas previstas no procedimento.
Os recursos decorrentes da alienação deverão ser destinados ao Fundo Financeiro da Previdência Social dos Servidores Públicos do Estado da Bahia — Funprev, mecanismo utilizado pelo Estado para o pagamento dos benefícios previdenciários vinculados ao regime financeiro. A destinação integra a política estadual de venda de imóveis públicos autorizada pela legislação aprovada em 2021.
Valor ficou abaixo do fixado no primeiro leilão
O preço obtido ficou aproximadamente R$ 2,8 milhões, ou cerca de 2%, abaixo do valor mínimo de R$ 141,3 milhões estabelecido na primeira tentativa de venda, realizada em março de 2026. Na ocasião, nenhuma empresa apresentou proposta e o leilão foi declarado deserto pela Secretaria da Administração do Estado da Bahia — Saeb.
No primeiro edital, o Governo da Bahia informou que o imóvel possuía área total aproximada de 187 mil metros quadrados. No novo procedimento, a área comercializada foi apresentada como tendo cerca de 116,7 mil metros quadrados, descontada a parcela ambientalmente protegida. A diferença entre as medições decorre, portanto, dos parâmetros territoriais utilizados em cada comunicação pública e da exclusão da área de preservação permanente no segundo certame.
A venda havia sido autorizada pela Lei estadual nº 14.386, de 9 de dezembro de 2021, originada de projeto encaminhado pelo Poder Executivo à Assembleia Legislativa da Bahia. A norma permitiu a alienação do antigo Centro de Convenções e de outros imóveis pertencentes ao patrimônio estadual.
Pilar foi constituída quatro meses antes da compra
A Pilar Incorporação e Construção Imobiliária foi aberta em 18 de março de 2026, oito dias antes de o primeiro leilão ser declarado deserto e pouco mais de quatro meses antes da arrematação definitiva. A empresa possui sede em Salvador, capital social declarado de R$ 100 mil e atividade principal relacionada à incorporação de empreendimentos imobiliários.
O registro da empresa também aparece no boletim de atos empresariais da Junta Comercial do Estado da Bahia — Juceb publicado em abril de 2026. Os dados cadastrais disponíveis indicam que a Enseada do Castelo Empreendimentos Imobiliários Ltda. figura como sócia direta da Pilar.
No quadro administrativo constam José Humberto Souza e Tiago Ferraz de Moraes Coelho. Eles aparecem como administradores da sociedade, e não como sócios diretos da Pilar, distinção relevante para a correta compreensão da estrutura empresarial.
Os registros cadastrais abertos confirmam a proximidade entre a data de abertura e o certame, o capital social, a atividade imobiliária e a identidade da sócia controladora, mas não permitem, isoladamente, examinar todas as cláusulas do contrato social ou os mecanismos financeiros empregados para a aquisição.
Veículos que acompanharam o leilão apresentaram a operação como resultado de uma articulação entre o Grupo Enseada e o Grupo André Guimarães. No cadastro empresarial consultado, entretanto, a Enseada do Castelo aparece como a única sócia direta da Pilar. A diferença pode decorrer da existência de participações indiretas, acordos empresariais ou da utilização de uma denominação comercial para identificar o conjunto de investidores.
A constituição recente e o capital social de R$ 100 mil, muito inferior ao valor do imóvel, não constituem, por si, evidência de irregularidade. Sociedades de propósito específico são utilizadas com frequência em empreendimentos imobiliários para concentrar ativos, obrigações e financiamentos. A capacidade econômico-financeira da adquirente, contudo, deverá ser demonstrada por meio dos documentos de habilitação e das garantias exigidas no edital.
Sócia controladora reúne diferentes grupos empresariais
A Enseada do Castelo Empreendimentos Imobiliários Ltda., sócia direta da Pilar, foi constituída em 28 de agosto de 2023 e possui diferentes pessoas jurídicas em seu quadro societário. Entre elas estão a ANRE Participações e Empreendimentos Ltda., a Atual Participações Ltda., a SP Patrimonial Ltda., a Hanna Invest Imóveis Ltda., a Moraes Coelho Engenharia Ltda. e a PFC Participações Ltda.
José Humberto Souza e Tiago Ferraz de Moraes Coelho também figuram como administradores da Enseada do Castelo, reproduzindo na empresa controladora a gestão formal registrada na Pilar. A estrutura revela que a compradora funciona como o último nível de uma cadeia formada por sociedades de participações, incorporadoras e empresas patrimoniais.
As conexões com personalidades públicas e empresários conhecidos ocorrem por meio dessas sociedades intermediárias. Os dados disponíveis não indicam que ACM Neto, Sidônio Palmeira ou João Gualberto tenham apresentado pessoalmente o lance, assinado a proposta em nome da Pilar ou participado diretamente da sessão pública do leilão.
ANRE tem ACM Neto e Renata Magalhães no quadro societário
A ANRE Participações e Empreendimentos Ltda., uma das sócias da Enseada do Castelo, tem em seu quadro societário o ex-prefeito de Salvador Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto, ACM Neto, e sua irmã, Renata de Magalhães Correia, que também aparece como administradora da empresa.
A ANRE foi constituída em 5 de setembro de 2008, possui atividade vinculada a holdings de instituições não financeiras e registra capital social de aproximadamente R$ 1,637 milhão. Sua participação na Enseada estabelece a ligação societária indireta entre a compradora do antigo Centro de Convenções e a família Magalhães.
Essa conexão deve ser descrita com precisão: ACM Neto não aparece como sócio direto da Pilar, mas como integrante da ANRE, que participa da Enseada do Castelo, sócia direta da empresa vencedora do leilão.
Atual Participações é ligada a João Gualberto e José Humberto Souza
Outra integrante da estrutura é a Atual Participações Ltda., que possui entre seus sócios-administradores o empresário e ex-deputado federal João Gualberto Vasconcelos e José Humberto Souza. Amanda Vasconcelos Froes também aparece na administração da sociedade.
José Humberto Souza participa, portanto, de diferentes níveis da operação empresarial: integra a Atual Participações e administra tanto a Enseada do Castelo quanto a Pilar. Essa sobreposição demonstra sua posição operacional na estrutura responsável pela aquisição.
João Gualberto, por sua vez, não aparece como sócio direto da Pilar ou da Enseada do Castelo nos registros consultados. Sua ligação ocorre por intermédio da Atual Participações, uma das pessoas jurídicas que compõem o capital da controladora.
SP Patrimonial tem Sidônio Palmeira entre os sócios
A SP Patrimonial Ltda., igualmente integrante do quadro societário da Enseada do Castelo, tem entre seus sócios Sidônio Cardoso Palmeira e Sandra Maria Cardoso Palmeira. Constituída em 14 de janeiro de 2016, a empresa possui atividade relacionada ao setor imobiliário e capital social declarado de R$ 2 milhões.
Sidônio Palmeira ocupa, em julho de 2026, o cargo de ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Documentos e notícias oficiais da própria Secom confirmam sua permanência à frente da pasta.
Assim como no caso de ACM Neto, o ministro não aparece como sócio direto da Pilar. Sua vinculação ocorre por meio da SP Patrimonial, que integra a Enseada do Castelo, controladora da sociedade que apresentou o lance vencedor.
Compradora terá 16 meses para desmontar estrutura
O edital estabelece prazo máximo de 16 meses para o desmonte das estruturas remanescentes e a limpeza completa do terreno. As condições divulgadas preveem até oito meses para a desmontagem e outros oito meses para a retirada de resíduos e recuperação da área.
A obrigação decorre do estado físico do antigo equipamento público, parcialmente comprometido desde o colapso estrutural ocorrido em setembro de 2016. Apesar de o Governo da Bahia ter anunciado naquele ano que o complexo seria desmontado, partes da edificação permaneceram no local durante quase uma década.
As publicações e documentos consultados não informam qual empreendimento será implantado pela Pilar após a conclusão da compra e do desmonte. Qualquer projeto futuro dependerá da legislação de uso do solo, das autorizações municipais, do licenciamento ambiental e das limitações impostas pela área de preservação permanente excluída da alienação.
A destinação do terreno já provocou questionamentos de moradores e representantes políticos quanto à proteção ambiental, à mobilidade urbana, à densidade construtiva e à transparência sobre o projeto imobiliário. Em março de 2026, antes do primeiro leilão, o assunto foi discutido na Câmara Municipal de Salvador, com cobranças de esclarecimentos sobre a delimitação da área protegida e os possíveis impactos da ocupação.
Linha do tempo do antigo Centro de Convenções da Bahia
- 1979 — O Centro de Convenções da Bahia é inaugurado em Salvador e passa a concentrar congressos, feiras, encontros empresariais e eventos culturais de grande porte.
- 22/09/2014 — É publicada decisão do Tribunal de Contas do Estado da Bahia determinando providências urgentes para corrigir problemas estruturais e deficiências de manutenção identificados no complexo.
- 20/05/2015 — O equipamento é interditado pela administração municipal devido a problemas de manutenção, segurança, prevenção de incêndios e ausência de condições adequadas para funcionamento.
- 23/09/2016 — Parte da estrutura do Centro de Convenções desaba. Não havia eventos no local em razão da interdição anterior. O episódio confirma a gravidade da deterioração física do imóvel.
- 27/09/2016 — O Governo da Bahia anuncia a decisão de desmontar o complexo, após análises técnicas apontarem comprometimento das principais estruturas.
- 07/12/2021 — A Assembleia Legislativa da Bahia aprova o projeto que autoriza o Poder Executivo a alienar o terreno e outros imóveis estaduais.
- 09/12/2021 — A autorização é sancionada por meio da Lei estadual nº 14.386/2021, publicada no Diário Oficial do Estado em 10 de dezembro.
- 04/03/2026 — O Governo da Bahia publica o primeiro edital de leilão, com valor mínimo de R$ 141,3 milhões, possibilidade de pagamento parcelado e entrada de 5%.
- 18/03/2026 — É constituída a Pilar Incorporação e Construção Imobiliária Ltda., com capital social de R$ 100 mil e a Enseada do Castelo como sócia.
- 26/03/2026 — O primeiro leilão é declarado deserto, porque nenhuma empresa apresenta lance.
- 09/07/2026 — É divulgado o novo edital de alienação, com valor mínimo reduzido para aproximadamente R$ 138,4 milhões e área de cerca de 116,7 mil metros quadrados, excluída a área de preservação permanente.
- 20/07/2026 — A Pilar apresenta o único lance e arremata o imóvel por R$ 138,487 milhões.
A venda reúne três elementos que justificam acompanhamento público permanente: a alienação de um patrimônio estadual de elevado valor, a apresentação de apenas um lance e a aquisição por uma empresa criada quatro meses antes do resultado. Nenhum desses fatores demonstra irregularidade isoladamente, mas o conjunto reforça a necessidade de transparência sobre a habilitação da compradora, a origem dos recursos, as garantias financeiras, o cumprimento do parcelamento e a formalização da transferência. A presença indireta de empresas ligadas a ACM Neto, Sidônio Palmeira e João Gualberto constitui informação societária de interesse público, especialmente porque envolve um antigo equipamento estatal e personagens com atuação política ou institucional.







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