O professor Marinho Soares, pré-candidato a deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro — PSB —, criticou, nesta segunda-feira (27/07/2026), o apoio político de ACM Neto à candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, após o ex-governador de Goiás afirmar que, com ambos eleitos, o povo baiano se sentiria “alforriado”. A declaração de Caiado foi feita no domingo (26), em São Paulo, antes da convenção nacional do PSD, e provocou questionamentos sobre o emprego de uma expressão historicamente associada à escravidão em referência à população da Bahia, estado onde 79,7% dos habitantes se declararam pretos ou pardos no Censo Demográfico de 2022.
Professor Marinho associa expressão ao passado escravista
A manifestação de Marinho ocorreu depois de Caiado ser questionado por um jornalista baiano sobre a composição eleitoral formada em torno da candidatura de ACM Neto ao Governo da Bahia. Em resposta, o candidato presidencial declarou:
“Com Caiado e ACM eleitos, o povo baiano vai se sentir alforriado.”
A palavra “alforria” designa historicamente o ato pelo qual uma pessoa submetida à escravidão recebia a liberdade. O emprego do termo em referência aos baianos provocou repercussão porque a formação demográfica, histórica e cultural da Bahia está profundamente relacionada à presença da população negra e às consequências sociais do regime escravista brasileiro.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE — mostram que, dos aproximadamente 14,1 milhões de moradores da Bahia recenseados em 2022, cerca de 8,1 milhões se declararam pardos e outros 3,16 milhões, pretos. Somados, os dois grupos representam aproximadamente 11,27 milhões de pessoas, equivalentes a 79,7% da população estadual.
Na avaliação de Professor Marinho, a escolha da expressão não pode ser dissociada dessa realidade demográfica e histórica. O pré-candidato classificou a declaração como uma fala de conotação racista e criticou a associação entre Caiado e ACM Neto.
“Era só o que faltava: o candidato que fingiu ser negro agora se alia a outro que usa uma palavra de conotação racista.”
A classificação da declaração como racista constitui uma avaliação política de Marinho Soares. Até o fechamento desta reportagem, não havia decisão judicial ou manifestação de órgão institucional que atribuísse formalmente essa natureza à fala de Caiado.
Crítica alcança identidade racial e estratégia política de ACM Neto
Professor Marinho sustentou que ACM Neto modifica discursos, posicionamentos e alianças conforme as circunstâncias eleitorais. Ao relacionar essa crítica à identidade racial do candidato do União Brasil, o integrante do PSB retomou uma controvérsia surgida durante a eleição para o Governo da Bahia em 2022.
Naquele pleito, a ficha de candidatura de ACM Neto apareceu inicialmente com a classificação racial branca e foi posteriormente corrigida para parda. Na ocasião, a campanha informou que a primeira classificação havia resultado de um erro cometido pela equipe jurídica responsável pelo preenchimento dos dados eleitorais.
Uma verificação realizada pelo núcleo SBT News De Fato, com base no sistema DivulgaCandContas do Tribunal Superior Eleitoral — TSE —, concluiu que era falsa a informação de que ACM Neto havia alterado sua autodeclaração de branco para preto. A checagem mostrou que a correção foi feita para pardo e que o político já havia utilizado a mesma autodeclaração racial na eleição municipal de 2016.
Esse antecedente exige uma distinção factual. As expressões “fingiu ser negro”, “quis ser negro” ou “candidato que quer ser negro”, utilizadas por adversários, integram o campo da retórica política. Os registros eleitorais disponíveis indicam que ACM Neto se declarou pardo, categoria que, segundo os critérios estatísticos empregados pelo IBGE, compõe, juntamente com a categoria preta, o conjunto da população negra.
Ao concluir sua manifestação, Marinho utilizou novamente uma formulação irônica para questionar se ACM Neto cobraria uma retratação do aliado:
“Será que, como negão, ACM Neto vai exigir uma retratação de Caiado?”
Até o fechamento da reportagem, não foi localizada manifestação pública de ACM Neto em resposta às críticas de Professor Marinho nem eventual pedido de retratação dirigido a Ronaldo Caiado.
Apoio de ACM Neto a Caiado divide palanque presidencial
A controvérsia ocorre em meio à divisão dos apoios presidenciais dentro da aliança estadual liderada por ACM Neto. Em 18/07/2026, durante uma agenda política em Feira de Santana, o candidato do União Brasil declarou publicamente sua preferência por Ronaldo Caiado.
Na oportunidade, Neto afirmou manter com Caiado uma relação de amizade, confiança e construção política de longo prazo.
“Eu não tenho outro caminho que não reconhecer uma história de amizade, de parceria e de longa construção política com Ronaldo Caiado.”
Apesar dessa posição pessoal, ACM Neto reconheceu que integrantes de sua coligação apoiam outros candidatos à Presidência. O grupo estadual reúne União Brasil, PP, Republicanos e PL, partidos e lideranças que não adotaram uma candidatura presidencial única.
A convenção realizada em Salvador, em 22/07/2026, oficializou ACM Neto como candidato ao Governo da Bahia e Zé Cocá, do PP, como candidato a vice-governador. A chapa também confirmou João Roma, presidente estadual do PL, e Angelo Coronel, do Republicanos, como candidatos às duas vagas baianas no Senado. Ambos manifestaram apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro foi oficialmente lançado candidato à Presidência pelo Partido Liberal em 25/07/2026, um dia antes da declaração de Caiado sobre a “alforria” dos baianos. O senador apresentou sua candidatura como continuidade do projeto político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Marinho afirma que apoio a Caiado tenta reduzir associação com Flávio Bolsonaro
Professor Marinho argumentou que a escolha de Caiado como candidato presidencial de ACM Neto teria a função de reduzir a identificação direta da chapa estadual com a família Bolsonaro diante do eleitorado baiano.
“Como a família Bolsonaro não se cria na Bahia, ACM Neto diz que apoia Ronaldo Caiado para evitar que sua candidatura tenha de assumir abertamente a ligação com Flávio Bolsonaro.”
A afirmação representa a interpretação política do pré-candidato do PSB. O posicionamento público de ACM Neto permanece favorável a Caiado, enquanto dirigentes e candidatos ao Senado integrantes de sua própria aliança estadual trabalham pela candidatura de Flávio Bolsonaro.
Para Marinho, a declaração sobre a “alforria” teria prejudicado a tentativa de apresentar Caiado como uma alternativa eleitoral mais adequada ao cenário baiano.
“O tiro saiu pela culatra. A primeira coisa que Caiado fez foi jogar ACM Neto contra a esmagadora maioria dos baianos.”
A divergência presidencial dentro do mesmo palanque deverá permanecer como um dos temas da campanha estadual. Enquanto ACM Neto defenderá Caiado, João Roma, Angelo Coronel e setores do PL deverão atuar pela eleição de Flávio Bolsonaro, ainda que todos integrem a mesma composição para o Governo da Bahia e para o Senado.
Caiado tenta ocupar espaço fora da polarização
Ronaldo Caiado foi oficializado candidato à Presidência pelo PSD durante convenção realizada em São Paulo, em 26 de julho. O partido também confirmou o presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, como candidato a vice-presidente, formando uma chapa composta exclusivamente por integrantes do PSD.
A candidatura procura ocupar um espaço de centro-direita fora da polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, e Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, Caiado busca ampliar alianças regionais e aproveitar relações construídas durante sua trajetória política, entre elas a parceria com ACM Neto.
A expressão “alforriar” já havia sido utilizada pelo candidato no início de julho, quando afirmou que pretendia “alforriar” as favelas do Rio de Janeiro. A repetição do vocábulo indica que o termo integra sua retórica de campanha para representar uma ideia de libertação política ou administrativa, embora seu emprego em contextos ligados a populações majoritariamente negras produza interpretações e reações relacionadas à escravidão.
Linha do tempo da controvérsia
2016 — Autodeclaração eleitoral
ACM Neto registra-se como pardo na eleição municipal de Salvador, conforme dados posteriormente consultados no sistema DivulgaCandContas do TSE.
2022 — Correção da ficha de candidatura
Durante a campanha para o Governo da Bahia, a classificação racial de ACM Neto é corrigida de branca para parda. A campanha atribui o registro inicial a um erro da equipe jurídica. Checagens jornalísticas concluem que ele não se declarou preto.
30/03/2026 — Construção da candidatura de Caiado
O PSD apresenta Ronaldo Caiado como alternativa presidencial para a eleição de 2026, com a proposta de ocupar o espaço político de centro-direita.
18/07/2026 — ACM Neto declara apoio a Caiado
Durante entrevista em Feira de Santana, ACM Neto reafirma sua preferência pela candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, mas reconhece a existência de diferentes apoios dentro de sua aliança estadual.
22/07/2026 — Convenção estadual na Bahia
O União Brasil e seus aliados oficializam ACM Neto e Zé Cocá para o Governo da Bahia. João Roma e Angelo Coronel, apoiadores de Flávio Bolsonaro, são confirmados candidatos ao Senado.
25/07/2026 — Flávio Bolsonaro é lançado candidato
O PL oficializa a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que assume a condição de principal representante eleitoral do grupo político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
26/07/2026 — Caiado menciona “alforria” dos baianos
Durante entrevista em São Paulo, Caiado afirma que, com ele e ACM Neto eleitos, o povo da Bahia se sentiria “alforriado”.
27/07/2026 — Professor Marinho reage
O pré-candidato do PSB classifica a expressão como de conotação racista, relaciona o episódio à autodeclaração racial de ACM Neto e questiona a estratégia presidencial da oposição baiana.








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