Vereadora Aladilce afirma que apoio de ACM Neto a Caiado busca afastar chapa da imagem do bolsonarismo na Bahia

A vereadora de Salvador Aladilce Souza (PCdoB) afirmou, nesta segunda-feira (27/07/2026), que reportagens publicadas pelo Portal Terra expuseram uma estratégia da candidatura de ACM Neto (União Brasil) ao Governo da Bahia para reduzir a associação direta com o bolsonarismo no estado, mediante o apoio presidencial ao ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). Segundo a parlamentar, a tentativa de apresentar uma candidatura estadual desvinculada de Flávio Bolsonaro (PL) entra em contradição com a composição da chapa majoritária oposicionista, que reúne João Roma (PL) e Angelo Coronel (Republicanos), ambos apoiadores do candidato presidencial do PL, nas duas vagas destinadas ao Senado.

Aladilce aponta contradição entre discurso presidencial e composição da chapa

A crítica da vereadora tem como ponto de partida a divisão dos apoios presidenciais dentro da aliança liderada por ACM Neto. O ex-prefeito de Salvador declarou apoio a Ronaldo Caiado, enquanto João Roma, presidente estadual do PL e ex-ministro da Cidadania no Governo Jair Bolsonaro, e o senador Angelo Coronel manifestaram preferência por Flávio Bolsonaro na disputa pelo Palácio do Planalto.

Na avaliação de Aladilce, o apoio a Caiado não representa um rompimento político substancial com o campo conservador associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A parlamentar considera que existem convergências entre os dois grupos em temas políticos e institucionais, apesar de Caiado procurar construir nacionalmente uma candidatura alternativa à polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro.

“Na prática, Caiado funciona como uma espécie de bolsonarismo diluído em água com açúcar”, declarou Aladilce.

Chapa de ACM Neto reúne União Brasil, PP, Republicanos e PL

ACM Neto oficializou sua candidatura ao Governo da Bahia durante convenção realizada em Salvador, em 22/07/2026. O encontro homologou Zé Cocá (PP) como candidato a vice-governador e confirmou Angelo Coronel e João Roma como candidatos às duas vagas baianas no Senado Federal.

A composição reúne representantes de quatro partidos: União Brasil, PP, Republicanos e PL. Embora a chapa estadual esteja politicamente unificada em torno da candidatura de ACM Neto, seus integrantes não adotam uma posição comum para a eleição presidencial.

ACM Neto apoia Caiado. João Roma e Angelo Coronel defendem Flávio Bolsonaro. O ex-deputado federal José Carlos Aleluia, presidente do Novo na Bahia e aliado da candidatura oposicionista ao Governo do Estado, mantém apoio ao ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo). Essa fragmentação foi destacada pelo Terra como um dos elementos centrais da estratégia eleitoral da oposição baiana.

As candidaturas escolhidas nas convenções ainda dependem da apresentação e do deferimento dos pedidos de registro pela Justiça Eleitoral. O prazo para o protocolo das candidaturas termina em 15/08/2026, conforme o calendário aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Portal Terra descreve Caiado como “amuleto” eleitoral no Nordeste

Em reportagem publicada no domingo, 26/07/2026, o Portal Terra classificou o apoio a Caiado como uma espécie de “amuleto” eleitoral utilizado por candidatos da oposição em estados nordestinos onde Lula conserva forte influência política. A análise citou especificamente as candidaturas de ACM Neto, na Bahia, e Ciro Gomes, no Ceará.

De acordo com a reportagem, a presença de Caiado permitiria acomodar diferentes setores da direita, do centro e da centro-esquerda sem transformar automaticamente as disputas estaduais em confrontos diretos entre o lulismo e o bolsonarismo.

Na Bahia, a estratégia seria concentrar o debate em temas estaduais, como segurança pública, saúde, educação, infraestrutura e desempenho administrativo. Esse movimento, identificado como tentativa de “estadualizar” a eleição, reduziria o peso imediato da disputa presidencial sobre a escolha do governador.

Para Aladilce, entretanto, a tentativa de separar as duas dimensões eleitorais esbarra na própria estrutura da candidatura oposicionista. João Roma e Angelo Coronel não ocupam posições secundárias na coligação: integram a chapa majoritária, participam da organização territorial da campanha e disputarão os votos dos mesmos eleitores procurados por ACM Neto.

“Neto pode evitar pronunciar o nome de Flávio Bolsonaro e declarar apoio formal a Caiado, mas não consegue apagar a composição de sua própria chapa. O bolsonarismo não está do lado de fora de seu palanque. Está sentado nas duas vagas destinadas ao Senado”, afirmou Aladilce.

Oposição considera que pluralidade pode ampliar alcance eleitoral

A interpretação apresentada por Aladilce e por integrantes da base governista não é a única exposta nas reportagens do Terra. Um ex-ministro ligado à oposição, ouvido sem identificação pelo portal, avaliou que a presença de apoiadores de diferentes candidatos presidenciais pode ampliar o alcance eleitoral de ACM Neto.

Segundo essa leitura, o apoio a Caiado permitiria ao ex-prefeito manter uma identidade de centro-direita sem afastar eleitores de Lula que eventualmente pretendam votar em candidatos de grupos distintos nas disputas presidencial e estadual.

A avaliação oposicionista sustenta que a pluralidade do palanque não representaria necessariamente falta de unidade, mas uma estratégia para reunir setores conservadores, liberais e de centro em torno de um único candidato ao Governo da Bahia. Esse cálculo busca evitar que a candidatura estadual fique limitada exclusivamente ao eleitorado de Flávio Bolsonaro.

Em sentido contrário, interlocutores governistas consideram que a diversidade poderá produzir falta de clareza política. Em eventos no interior, candidatos da mesma chapa poderão pedir votos para presidenciáveis diferentes, submetendo a aliança a discursos potencialmente contraditórios.

Resultado de 2022 explica esforço para estadualizar a disputa

O desempenho eleitoral de Lula na Bahia constitui um dos principais antecedentes da estratégia. No segundo turno da eleição presidencial de 2022, o petista recebeu 6.097.815 votos, equivalentes a 72,12% dos votos válidos no estado. Jair Bolsonaro obteve 2.357.028 votos, ou 27,88%.

Na eleição estadual do mesmo ano, ACM Neto adotou postura de neutralidade no segundo turno presidencial, procurando manter a disputa pelo Governo da Bahia afastada da polarização nacional. A estratégia não impediu a transferência de apoio político de Lula para Jerônimo Rodrigues.

ACM Neto venceu o primeiro turno estadual com 40,88% dos votos válidos, mas foi derrotado na votação final. Jerônimo Rodrigues recebeu 4.480.464 votos, correspondentes a 52,79%, enquanto o candidato do União Brasil obteve 4.007.023 votos, ou 47,21%.

O precedente ajuda a explicar por que a nacionalização da eleição é considerada uma variável estratégica em 2026. Para a base governista, a associação entre Lula e Jerônimo poderá reproduzir parte da dinâmica observada quatro anos antes. Para a oposição, a prioridade é comparar os projetos estaduais e impedir que a decisão sobre o governo seja subordinada à escolha presidencial.

João Roma e Angelo Coronel reforçam vínculo com Flávio Bolsonaro

João Roma mantém uma relação política direta com o bolsonarismo. Ex-ministro de Jair Bolsonaro, ele preside o PL na Bahia e integra a organização partidária responsável pela campanha de Flávio Bolsonaro no estado.

Angelo Coronel, por sua vez, deixou o PSD após o rompimento com a base estadual liderada pelo PT e filiou-se ao Republicanos. Ao justificar sua mudança de posição, o senador declarou apoio a Flávio Bolsonaro e afirmou possuir afinidade política e pessoal com o parlamentar, construída durante a convivência no Senado.

A convenção nacional do PL realizada em São Paulo, em 25/07/2026, oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Em seu discurso, o senador declarou que pretende dar continuidade ao legado político do pai, reforçando a ligação direta de sua candidatura com o movimento estruturado em torno do ex-presidente.

Nesse contexto, a crítica de Aladilce se concentra menos no apoio pessoal declarado por ACM Neto e mais na estrutura partidária que sustenta sua candidatura. A vereadora argumenta que a presença do PL e de dois apoiadores de Flávio Bolsonaro nas vagas ao Senado impede uma dissociação completa entre a chapa estadual e o bolsonarismo.

Linha do tempo da formação do palanque oposicionista

  • 30/10/2022: Jerônimo Rodrigues derrota ACM Neto no segundo turno da eleição para o Governo da Bahia; Lula obtém 72,12% dos votos válidos no estado na disputa presidencial.
  • Final de 2025: Angelo Coronel rompe politicamente com a base estadual liderada pelo PT após perder espaço na composição governista para o Senado.
  • Março de 2026: ACM Neto apresenta politicamente, em Feira de Santana, a chapa formada por Zé Cocá, Angelo Coronel e João Roma.
  • 30/03/2026: Ronaldo Caiado é apresentado pelo PSD como pré-candidato à Presidência e defende uma candidatura alternativa à polarização nacional.
  • Abril de 2026: Angelo Coronel confirma filiação ao Republicanos e declara apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
  • 22/07/2026: Convenção em Salvador homologa ACM Neto para governador, Zé Cocá para vice e João Roma e Angelo Coronel para o Senado.
  • 23/07/2026: O Terra publica reportagem sobre a divisão do palanque entre apoiadores de Caiado, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema.
  • 25/07/2026: O PL oficializa Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República.
  • 26/07/2026: O PSD oficializa Ronaldo Caiado como candidato a presidente e Gilberto Kassab como vice.
  • 26/07/2026: O Terra descreve Caiado como instrumento eleitoral para candidaturas oposicionistas tentarem reduzir o desgaste do bolsonarismo em estados de forte presença lulista.
  • 26 e 27/07/2026: A declaração de Aladilce Souza sobre a estratégia de ACM Neto passa a circular em veículos da imprensa baiana.
  • 05/08/2026: Termina o prazo para realização das convenções partidárias.
  • 15/08/2026: Encerra-se o prazo para apresentação dos pedidos de registro de candidatura.
  • 16/08/2026: Começa a propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet.
  • 04/10/2026: Será realizado o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.

A composição partidária da chapa de ACM Neto é um fato verificável: o candidato do União Brasil apoia Ronaldo Caiado, enquanto os dois postulantes ao Senado defendem Flávio Bolsonaro. A conclusão de que essa estrutura foi montada especificamente para “esconder” ou disfarçar um palanque bolsonarista, entretanto, constitui uma interpretação política apresentada por Aladilce Souza e por integrantes da base governista. A oposição sustenta leitura distinta, segundo a qual a multiplicidade de apoios presidenciais amplia o alcance da candidatura e preserva a autonomia da eleição estadual.

O principal desafio político da aliança será transformar essa diversidade em uma mensagem eleitoral coerente. A estratégia pode permitir que ACM Neto dialogue com eleitores de diferentes campos, mas também poderá produzir divergências públicas quando os integrantes da chapa passarem a pedir votos para candidatos presidenciais concorrentes. O comportamento das lideranças municipais, o material de campanha, a participação de presidenciáveis nos atos estaduais e o tempo destinado a cada candidatura mostrarão se haverá convivência organizada ou fragmentação do palanque.

O episódio importa porque a relação entre as disputas estadual e presidencial foi decisiva na eleição baiana de 2022 e volta a ocupar o centro da campanha de 2026. ACM Neto, João Roma, Angelo Coronel e Zé Cocá terão de administrar a divisão entre Caiado e Flávio Bolsonaro, enquanto Jerônimo Rodrigues e seus aliados procurarão associar a chapa oposicionista ao bolsonarismo. A Justiça Eleitoral ainda deverá analisar os registros das candidaturas, e a campanha iniciada formalmente em 16 de agosto revelará os efeitos concretos dessa composição sobre o eleitorado baiano.


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