STF autoriza PF a investigar “Dark Horse”; notas fiscais ampliam escrutínio sobre Flávio Bolsonaro e Banco Master

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta quinta-feira (23/07/2026) a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar o destino de recursos atribuídos ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, destinados ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão ocorre simultaneamente à divulgação de notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para duas empresas conectadas por vínculos societários e administrativos à estrutura financeira investigada no Caso Master, ampliando o escrutínio jurídico e político sobre a relação entre o parlamentar e o banqueiro.

O novo inquérito deverá apurar se os recursos enviados aos Estados Unidos foram efetivamente aplicados na produção cinematográfica ou se parte dos valores financiou despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive no país desde fevereiro de 2025, ou outras iniciativas conduzidas por aliados do ex-presidente junto ao governo norte-americano. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades e afirmam que os aportes foram direcionados a uma estrutura financeira específica do filme, submetida à legislação e à fiscalização dos Estados Unidos.

A abertura da investigação altera o estágio jurídico do caso. Até então, as informações sobre o financiamento circulavam principalmente em reportagens, documentos, mensagens e áudios atribuídos aos envolvidos. Com a decisão de Mendonça, a Polícia Federal passa a ter autorização formal para reconstruir o caminho do dinheiro, identificar beneficiários, analisar contratos, examinar remessas internacionais e verificar a finalidade efetiva dos repasses.

Mendonça autoriza investigação após parecer favorável da PGR

A autorização foi concedida depois de o procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestar-se favoravelmente à abertura do inquérito solicitado pela Polícia Federal. Segundo o parecer, havia elementos suficientes para a instauração de uma investigação formal destinada a esclarecer a origem, o destino e a utilização dos valores vinculados ao projeto cinematográfico.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, já havia declarado em junho que a instituição considerava necessária a abertura de uma apuração específica sobre os recursos enviados aos Estados Unidos sob a justificativa de financiar “Dark Horse”. Entre as diligências possíveis estão a análise de contratos, movimentações bancárias, registros de transferências internacionais, comunicações eletrônicas e documentos relacionados às empresas utilizadas na operação financeira.

Até a última atualização das reportagens sobre a decisão, Flávio Bolsonaro ainda não havia apresentado manifestação específica sobre a abertura do inquérito. Anteriormente, o senador afirmou que procurou investidores privados para viabilizar o filme sobre o pai e sustentou que não houve contrapartida política, desvio de finalidade ou utilização irregular dos valores negociados com Vorcaro.

PF investigará o destino de recursos enviados aos Estados Unidos

As suspeitas examinadas pela Polícia Federal envolvem transferências realizadas pela Entre Investimentos e Participações, empresa apontada como ligada a Daniel Vorcaro, para um fundo sediado no estado norte-americano do Texas. Segundo as informações apresentadas às autoridades, pessoas próximas a Eduardo Bolsonaro teriam participação na estrutura responsável por receber e administrar os recursos.

Uma das principais questões investigativas é determinar se o fundo funcionava exclusivamente como instrumento financeiro da produção de “Dark Horse” ou se custeou outras despesas. A PF também deverá verificar a participação de cada integrante do projeto na captação, movimentação, administração e destinação do dinheiro.

Flávio Bolsonaro afirmou anteriormente que os aportes foram encaminhados a um fundo específico da produção, dotado de estrutura jurídica própria nos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro declarou que não ocupou cargo de gestão ou emprego na instituição financeira e que teria apenas cedido direitos de imagem relacionados ao projeto. Ambos rejeitam a hipótese de que os recursos tenham financiado despesas pessoais ou atividades políticas.

Valores negociados poderiam alcançar R$ 134 milhões

O caso ganhou projeção nacional em maio de 2026, quando o site The Intercept Brasil divulgou mensagens, áudios, planilhas e documentos relacionados às negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Segundo o material publicado, o planejamento financeiro da produção poderia alcançar US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação do período.

Os documentos indicariam que cerca de US$ 10,6 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 61 milhões, teriam sido pagos ou encaminhados ao projeto entre janeiro e maio de 2025. Flávio reconheceu ter procurado Vorcaro para financiar o filme, mas sustentou que a relação tinha caráter privado e contratual.

A produtora responsável por “Dark Horse” declarou anteriormente que o projeto contava com mais de dez investidores e afirmou não ter recebido recursos diretamente de Vorcaro ou de empresas controladas por ele. A divergência entre os valores negociados, as transferências realizadas e os montantes reconhecidos pelos diferentes participantes tornou-se um dos principais pontos a serem esclarecidos pela investigação.

Fachin transferiu caso para André Mendonça

O pedido de investigação foi inicialmente apresentado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) no âmbito de um inquérito relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, relacionado à atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

O parlamentar solicitou que o STF investigasse uma possível conexão entre o financiamento do filme, a permanência de Eduardo no exterior, articulações contra autoridades brasileiras e campanhas por sanções internacionais. A petição também requereu o compartilhamento de informações bancárias, fiscais, telemáticas e documentos obtidos nas investigações sobre o Banco Master.

Em junho de 2026, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, concluiu que os fatos apresentavam relação predominante com as investigações do Caso Master, já conduzidas por André Mendonça. O procedimento foi então redistribuído ao gabinete do ministro pelo critério de prevenção processual.

A Procuradoria-Geral da República manifestou-se pelo arquivamento da petição específica apresentada por Lindbergh, mas posteriormente considerou procedente a solicitação autônoma da Polícia Federal para instaurar o inquérito. Os dois pedidos possuíam origens e enquadramentos processuais distintos.

Notas fiscais revelam outra frente da relação empresarial

Paralelamente à investigação sobre “Dark Horse”, documentos fiscais divulgados em 22 de julho mostraram que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu três notas fiscais de R$ 500 mil para duas empresas relacionadas entre si.

Em 7 de abril de 2025, foram emitidas duas notas, no valor total de R$ 1 milhão, para a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A.. Os documentos descreviam a prestação de serviços jurídicos, mas foram cancelados no mesmo dia.

Dois dias depois, em 9 de abril de 2025, o escritório emitiu uma terceira nota de R$ 500 mil para a Contábil Correa Contabilidade e Auditoria, também identificada pelo nome fantasia BR Global. Essa nota registra serviços de assessoria jurídica e, diferentemente das anteriores, não apresenta registro de cancelamento.

Flávio confirma serviço para Contábil Correa

Flávio Bolsonaro reconheceu que seu escritório prestou serviços jurídicos à Contábil Correa. Segundo o senador, tratou-se de uma “relação completamente legal e privada”, sem ligação com Daniel Vorcaro ou com operações do Banco Master.

Em relação à Copenhagen, o parlamentar afirmou que chegou a negociar uma possível contratação, mas decidiu não aceitar o trabalho. De acordo com sua versão, as duas notas foram canceladas porque o contrato não foi efetivado e nenhum pagamento foi realizado.

A emissão seguida de cancelamento não comprova, isoladamente, que houve transferência financeira ou prática irregular. Permanecem, entretanto, questões documentais sobre o motivo pelo qual duas notas de elevado valor foram emitidas antes da conclusão da negociação profissional.

Empresário conecta Copenhagen e Contábil Correa

A ligação empresarial entre a Copenhagen e a Contábil Correa envolve o contador Rogério Lourenço Novo. Ele aparece como único sócio da empresa de contabilidade e assumiu a direção da Copenhagen em setembro de 2025, cinco meses depois da emissão das notas fiscais.

Rogério declarou que o escritório de Flávio Bolsonaro teria sido contratado para atender clientes da Contábil Correa, em um modelo definido por ele como “quarteirização” de serviços jurídicos. Questionado sobre quais clientes teriam sido beneficiados e quais trabalhos foram executados, afirmou possuir mais de 200 contratantes e não se recordar das informações naquele momento.

Segundo as reportagens, não foram apresentados publicamente os nomes dos clientes atendidos, os processos jurídicos relacionados, o período da prestação, os pareceres produzidos ou outros elementos capazes de detalhar o serviço de R$ 500 mil.

Copenhagen recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master

A Copenhagen foi constituída em novembro de 2024, com capital social inicial de R$ 40 e atividade declarada de consultoria em gestão empresarial. Entre 2024 e 2025, a companhia recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master, segundo dados fiscais obtidos no contexto das investigações da CPI do Crime Organizado e analisados pela imprensa.

Na época da emissão das notas fiscais para a Copenhagen, a empresa era administrada por Artur Martins de Figueiredo, vinculado à Trustee DTVM. A administradora de fundos é citada nas investigações da Polícia Federal por suspeitas relacionadas à movimentação e à ocultação de patrimônio de integrantes do grupo associado a Daniel Vorcaro.

A Trustee declarou que não possuía ingerência sobre os contratos comerciais da Copenhagen, sobre pagamentos definidos pela companhia ou sobre suas negociações com o Banco Master. Também negou ter participado de operações destinadas a ocultar patrimônio.

Há duas investigações distintas sobre “Dark Horse”

O inquérito autorizado por André Mendonça não deve ser confundido com outra investigação já aberta pela Polícia Federal, sob supervisão do ministro Flávio Dino, para apurar a destinação de emendas parlamentares enviadas a entidades relacionadas à empresária Karina Ferreira da Gama, responsável pela produtora do filme.

Essa segunda frente investiga se recursos públicos destinados formalmente a projetos sociais podem ter beneficiado direta ou indiretamente a produção cinematográfica. Entre os valores examinados estão R$ 2 milhões em emendas destinadas pelo deputado Mário Frias ao Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina. O parlamentar nega que as verbas tenham financiado o filme.

Portanto, as apurações possuem objetos diferentes. Mendonça supervisiona o inquérito sobre os recursos privados ligados a Vorcaro e a destinação das transferências internacionais. Dino acompanha a investigação sobre possíveis recursos públicos originados de emendas parlamentares.

Divulgação reacende preocupação dentro do PL

A revelação dos documentos fiscais reacendeu entre integrantes do Partido Liberal o receio de novos episódios envolvendo a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Desde a divulgação dos primeiros áudios, aliados manifestam preocupação com a possibilidade de surgirem mensagens, contratos, comprovantes e registros empresariais ainda desconhecidos.

O impacto político decorre principalmente do fato de Flávio ser apresentado pelo partido como pré-candidato à Presidência da República. A sequência de revelações obriga sua equipe a responder simultaneamente sobre o financiamento do filme, os contatos com Vorcaro, as remessas internacionais e as atividades profissionais de seu escritório de advocacia.

Aliados ouvidos pela imprensa avaliam que o principal risco não está apenas nos fatos já conhecidos, mas na eventual existência de novas informações capazes de contradizer versões anteriores. O senador sustenta que todas as relações foram privadas, documentadas e juridicamente regulares.

Documentos não comprovam origem bancária do pagamento

Os elementos divulgados estabelecem uma sequência empresarial verificável: o Banco Master transferiu recursos para a Copenhagen; Rogério Lourenço Novo tornou-se diretor da consultoria e já era sócio da Contábil Correa; e o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu documentos fiscais para as duas empresas.

Até o momento, entretanto, não foi apresentada prova pública de que os R$ 500 mil faturados pela Contábil Correa tenham se originado diretamente dos valores enviados pelo Banco Master à Copenhagen. A coincidência de administradores e relações societárias fundamenta a necessidade de apuração, mas não demonstra, por si só, circulação irregular de dinheiro.

Também não há informação pública de que a nota fiscal emitida para a Contábil Correa já tenha sido incluída formalmente no inquérito autorizado por André Mendonça. O objeto inicial da investigação está relacionado aos recursos destinados ao filme e às transferências realizadas aos Estados Unidos.

Linha do tempo do caso

Novembro de 2024

A Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. é constituída com capital social inicial de R$ 40 e atividade declarada de consultoria empresarial.

Entre 2024 e 2025

O Banco Master transfere R$ 57,9 milhões à Copenhagen. As datas individualizadas, os contratos e a descrição completa dos serviços correspondentes não foram integralmente divulgados.

Janeiro a maio de 2025

Documentos posteriormente divulgados indicam repasses de aproximadamente US$ 10,6 milhões, equivalentes a cerca de R$ 61 milhões, para a estrutura financeira relacionada a “Dark Horse”. O planejamento total poderia alcançar US$ 24 milhões.

7 de abril de 2025

O escritório de Flávio Bolsonaro emite duas notas fiscais de R$ 500 mil para a Copenhagen. Os dois documentos são cancelados.

9 de abril de 2025

O escritório emite uma nota de R$ 500 mil para a Contábil Correa, referente a assessoria jurídica. Não há registro público de cancelamento.

Setembro de 2025

Rogério Lourenço Novo, sócio da Contábil Correa, assume a direção da Copenhagen.

13 de maio de 2026

O Intercept Brasil divulga áudios, mensagens e documentos sobre as negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro.

25 de junho de 2026

O presidente do STF, Edson Fachin, determina que André Mendonça assuma a relatoria do pedido de investigação, devido à conexão dos fatos com as apurações sobre o Banco Master.

26 de junho de 2026

A Polícia Federal instaura uma investigação distinta para apurar eventual utilização de emendas parlamentares por entidades ligadas à produtora de “Dark Horse”, sob supervisão do ministro Flávio Dino.

30 de junho de 2026

André Mendonça solicita que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre a abertura do inquérito relacionado aos recursos de Vorcaro.

17 de julho de 2026

É divulgado que a Copenhagen recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025.

22 de julho de 2026

Reportagens revelam as três notas fiscais emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro. O senador confirma o serviço para a Contábil Correa e afirma que as notas da Copenhagen foram canceladas porque a contratação não avançou.

23 de julho de 2026

André Mendonça autoriza a Polícia Federal a instaurar o inquérito para apurar a origem, o percurso e a destinação dos recursos atribuídos a Daniel Vorcaro para o financiamento de “Dark Horse”.

A abertura formal do inquérito transforma suspeitas divulgadas pela imprensa em objeto de investigação policial supervisionada pelo STF. A apuração deverá distinguir o que constituiu financiamento cinematográfico privado, quais valores efetivamente chegaram à produção e se parte dos recursos foi utilizada para finalidades diferentes das previstas nos contratos.

As notas fiscais representam uma frente documental adicional, mas devem ser examinadas sem conclusões antecipadas. Duas foram canceladas e não demonstram pagamento; a terceira registra um serviço reconhecido pelo senador, mas ainda carece de detalhamento público sobre o trabalho executado. Também não existe, até o momento, prova pública de que o pagamento da Contábil Correa tenha sido financiado pelos recursos recebidos pela Copenhagen do Banco Master.

Os próximos passos dependerão das diligências da Polícia Federal, do rastreamento das remessas nacionais e internacionais, da análise de contratos e da identificação dos beneficiários finais. O caso permanece relevante por envolver um senador e pré-candidato à Presidência, um projeto audiovisual sobre um ex-presidente e empresas relacionadas a um conglomerado financeiro submetido a investigações por suspeitas de fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.


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