A Diretoria Colegiada da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) aprovou, nesta segunda-feira, 27/07/2026, em Recife, a liberação de R$ 120 milhões do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) para a Ferrovia Transnordestina. O valor corresponde à segunda parcela de um aporte de R$ 600 milhões autorizado no início de julho e eleva para R$ 479,7 milhões o montante já desembolsado nessa operação, destinada à continuidade das obras e à implantação do trecho entre Eliseu Martins, no Piauí, e o Porto do Pecém, no Ceará.
Segunda parcela mantém cronograma financeiro da ferrovia
A primeira liberação vinculada ao aporte de R$ 600 milhões alcançou R$ 359,7 milhões. Com a nova parcela, o financiamento já executado dentro dessa operação representa aproximadamente 80% do valor aprovado pela Sudene.
O aporte integra a programação de R$ 1 bilhão prevista pelo FDNE para a Transnordestina em 2026. Os desembolsos são realizados de acordo com o cronograma financeiro, a comprovação da aplicação das parcelas anteriores e a verificação do avanço físico, financeiro e contábil do empreendimento.
O Banco do Nordeste atua como agente operador do financiamento, enquanto a Sudene administra os recursos do FDNE e acompanha a execução do projeto. Em operações anteriores, a liberação de parcelas foi condicionada à apresentação de comprovações pela concessionária e à validação técnica e financeira pelo banco.
Segundo o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, a nova liberação atende aos requisitos técnicos previstos no contrato de financiamento e mantém a continuidade do cronograma de execução.
“A liberação cumpre os requisitos técnicos do financiamento, dando continuidade ao cronograma financeiro do empreendimento e à execução das obras.”
O diretor de Fundos e Investimentos da autarquia, Wandemberg Almeida, destacou o impacto da construção sobre o mercado de trabalho. Conforme o balanço apresentado nesta segunda-feira, o empreendimento mobiliza mais de três mil trabalhadores, considerando vagas diretas e indiretas.
Recursos serão aplicados no corredor entre Piauí e Ceará
Os R$ 120 milhões serão destinados ao eixo ferroviário que parte de Eliseu Martins, no cerrado piauiense, atravessa áreas de Pernambuco e do Ceará e segue em direção ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém.
Essa ligação constitui a frente mais avançada da Transnordestina e concentra os investimentos executados pela Transnordestina Logística S.A. (TLSA). A ferrovia foi projetada para integrar zonas produtoras do interior nordestino a uma estrutura portuária com acesso às rotas nacionais e internacionais de comércio.
O trecho já opera parcialmente no transporte experimental e assistido de cargas. Entre os produtos movimentados estão milho, sorgo, gesso agrícola e calcário, utilizados para testar a infraestrutura, os equipamentos ferroviários, os terminais e os procedimentos operacionais.
Em dezembro de 2025, a ferrovia realizou uma das primeiras operações experimentais de maior extensão, transportando milho entre o Terminal Intermodal do Piauí e o Ceará. Em janeiro de 2026, um novo teste movimentou 946,12 toneladas de sorgo, em percurso concluído em 16 horas e 34 minutos.
A operação parcial não significa que todo o corredor esteja concluído ou liberado para exploração comercial plena. Os testes integram o processo de comissionamento, necessário para verificar sistemas de sinalização, segurança, circulação, frenagem, carregamento, descarregamento e integração entre os diferentes segmentos da via.
FDNE prevê destinar R$ 7,4 bilhões até 2027
A Sudene participa do financiamento da Transnordestina por meio do FDNE, instrumento voltado a projetos estruturantes capazes de ampliar a capacidade produtiva e logística do Nordeste.
A previsão é que o Fundo destine R$ 7,4 bilhões à ferrovia até 2027. Segundo o balanço divulgado pela autarquia, R$ 6,6 bilhões já foram liberados, incluindo R$ 800 milhões provenientes do antigo Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor).
Além de administrar parte substancial do financiamento, a Sudene participa da governança da Transnordestina como acionista da concessionária responsável pela fase entre Eliseu Martins e Pecém.
O empreendimento possui orçamento global estimado em aproximadamente R$ 15 bilhões. A primeira fase, concentrada no corredor Piauí–Ceará, tem conclusão prevista para 2027, enquanto o cronograma mais amplo do projeto ferroviário se estende até 2029.
A liberação de recursos públicos e de fundos de desenvolvimento é essencial para assegurar a continuidade das obras, mas não representa, isoladamente, a conclusão dos trechos. A execução depende da realização de serviços de terraplenagem, construção de pontes e viadutos, instalação de dormentes e trilhos, implantação de sistemas de sinalização e conclusão dos acessos aos terminais.
Ferrovia terá 1.206 quilômetros e atravessará 53 municípios
A fase ferroviária entre Eliseu Martins e Pecém terá aproximadamente 1.206 quilômetros de extensão e atravessará 53 municípios do Piauí, de Pernambuco e do Ceará.
De acordo com os dados divulgados pela Sudene nesta segunda-feira, 727 quilômetros estão concluídos. Informações governamentais apresentadas em julho também indicam que a primeira fase alcançou cerca de 82% de execução, percentual que considera diferentes componentes de infraestrutura e segmentos em construção, concluídos ou em comissionamento.
Quando estiver plenamente operacional, a ferrovia poderá transportar mais de 30 milhões de toneladas de cargas por ano. A capacidade projetada inclui produtos agropecuários, minerais, industriais e insumos destinados ao mercado regional ou à exportação.
Entre as principais cargas potenciais estão grãos, farelo de soja, milho, sorgo, fertilizantes, combustíveis, cimento, calcário, gipsita, produtos siderúrgicos e contêineres.
O objetivo econômico é reduzir a dependência do transporte rodoviário de longa distância, diminuir os custos de movimentação da produção e ampliar a competitividade das cadeias produtivas localizadas no interior nordestino.
Esses resultados, entretanto, dependerão da conclusão da ferrovia, da implantação dos terminais, da integração com o Porto do Pecém, da disponibilidade de vagões e locomotivas e da celebração de contratos comerciais capazes de garantir volume regular de cargas.
Entrega de trechos elevou execução para cerca de 82%
Em 02/07/2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, no Ceará, da entrega dos lotes 4 e 5 da Transnordestina, localizados entre Acopiara, Piquet Carneiro e Quixeramobim.
Na mesma agenda, foram anunciados o início das obras do lote 6, entre Quixeramobim e Quixadá, e o novo aporte de R$ 600 milhões do FDNE, do qual fazem parte os R$ 120 milhões liberados nesta segunda-feira.
A conclusão dos lotes elevou o estágio da primeira fase para aproximadamente 82%. As obras restantes estão concentradas principalmente na aproximação da ferrovia ao litoral cearense e no acesso ao Complexo do Pecém.
O Governo Federal também anunciou a incorporação de vagões graneleiros, a implantação de um ramal de ligação com terminal portuário e a estruturação de instalações logísticas intermediárias, consideradas necessárias para a formação do corredor de exportação.
Trecho pernambucano até Suape avança em frente separada
O projeto original da Transnordestina previa uma malha de aproximadamente 1,7 mil quilômetros, conectando o cerrado piauiense tanto ao Porto do Pecém quanto ao Porto de Suape, em Pernambuco.
Após alterações contratuais e institucionais, a concessionária TLSA concentrou sua atuação no corredor entre Eliseu Martins e Pecém. O trecho entre Salgueiro e Suape passou a ser conduzido separadamente pelo poder público, sob coordenação do Ministério dos Transportes e da Infra S.A.
Em julho de 2026, a Sudene apresentou ao Tribunal de Contas da União (TCU) um estudo sobre a viabilidade socioeconômica da ligação ferroviária até Suape. O levantamento estimou Valor Social Presente Líquido de R$ 4,76 bilhões, Taxa de Retorno Econômico de 15,53% e potencial de movimentação entre 18 milhões e 24 milhões de toneladas por ano.
Em 22/07/2026, foi formalizado um contrato de R$ 312,8 milhões para a elaboração do projeto executivo e a execução da infraestrutura remanescente de um segmento de 73,32 quilômetros, localizado entre Custódia e Arcoverde, em Pernambuco.
O contrato, celebrado entre a Infra S.A. e o Consórcio ACA Transnordestina, possui vigência de 57 meses e abrange o lote SPS 04. A medida representa um avanço na retomada do corredor pernambucano, mas o trecho até Suape permanece sujeito a etapas adicionais de contratação, licenciamento, desapropriação, financiamento e execução.
Linha do tempo da Ferrovia Transnordestina
1997 — Concessão da antiga Malha Nordeste
A antiga Companhia Ferroviária do Nordeste obteve a concessão da Malha Nordeste em leilão realizado em 18/07/1997. A operação dos serviços ferroviários de cargas começou em janeiro de 1998.
2006 — Estruturação da Transnordestina Logística
Em agosto de 2006, a Agência Nacional de Transportes Terrestres autorizou a incorporação da Transnordestina S.A. pela Companhia Ferroviária do Nordeste, que passou a adotar a denominação Transnordestina Logística S.A.. O início do empreendimento ferroviário também remonta a esse período.
2013 — Divisão das concessões ferroviárias
A ANTT autorizou a separação da concessão em duas malhas. A operação da rede ferroviária existente ficou com a Ferrovia Transnordestina Logística, enquanto a construção e a futura operação da nova malha permaneceram sob responsabilidade da TLSA.
2014 — Contrato da chamada Malha II
Em 22/01/2014, a ANTT e a TLSA assinaram o contrato de concessão da Malha II, abrangendo os trechos entre Missão Velha, Salgueiro, Trindade, Eliseu Martins, Suape e Pecém.
2019 — Retomada das obras entre Ceará e Piauí
As obras foram retomadas nos trechos entre Ceará e Piauí, após negociações envolvendo a concessionária e novos investimentos privados.
2023 — Retomada dos investimentos federais
O Governo Federal retomou os investimentos e incluiu a Transnordestina entre os projetos prioritários do Novo Programa de Aceleração do Crescimento, o Novo PAC.
Dezembro de 2025 — Primeira operação experimental de longa distância
A ferrovia realizou o transporte experimental de milho entre o Piauí e o Ceará, iniciando a etapa de testes operacionais em segmentos concluídos.
Janeiro de 2026 — FDNE libera R$ 106,2 milhões
A Sudene autorizou uma parcela de R$ 106,2 milhões, vinculada à programação contratual de financiamento da ferrovia.
Março de 2026 — Novo aporte de R$ 152,4 milhões
A Diretoria Colegiada da Sudene aprovou mais R$ 152,4 milhões para as obras, elevando o financiamento acumulado do FDNE e do antigo Finor.
Maio de 2026 — Liberação complementar de R$ 41,2 milhões
A Transnordestina recebeu mais R$ 41,2 milhões, parcela complementar da programação financeira anterior.
2 de julho de 2026 — Entrega de lotes e anúncio de R$ 600 milhões
O Governo Federal entregou os lotes 4 e 5, autorizou nova frente de obras e anunciou um aporte adicional de R$ 600 milhões do FDNE.
22 de julho de 2026 — Contrato para o trecho Custódia–Arcoverde
A Infra S.A. formalizou contrato de R$ 312,8 milhões para projeto executivo e obras em 73,32 quilômetros do corredor pernambucano em direção a Suape.
27 de julho de 2026 — Sudene libera R$ 120 milhões
A segunda parcela do aporte de R$ 600 milhões elevou para R$ 479,7 milhões o total desembolsado dentro da nova operação de financiamento.
Retomada do fluxo financeiro
A nova liberação consolida a retomada do fluxo financeiro da Transnordestina, empreendimento marcado historicamente por alterações contratuais, paralisações, revisões de orçamento e sucessivos cronogramas. O avanço físico e o início das operações experimentais representam resultados verificáveis, mas a eficiência econômica da ferrovia somente poderá ser medida após a conclusão dos acessos portuários, a entrada em operação comercial e a formação de uma demanda contínua de cargas.
A distinção entre o corredor Eliseu Martins–Pecém, executado pela TLSA, e o trecho Salgueiro–Suape, atualmente conduzido pelo poder público, é fundamental para compreender o estágio do projeto. Embora componham a concepção original da Transnordestina, as duas ligações possuem contratos, fontes de financiamento e cronogramas diferentes. O acompanhamento público deverá observar o cumprimento das metas físicas, a correspondência entre desembolsos e obras executadas, o controle dos custos e a integração efetiva dos terminais ferroviários aos portos.
O desembolso de R$ 120 milhões, portanto, assegura continuidade financeira a uma etapa estratégica, mas não encerra os desafios do empreendimento. Sudene, Banco do Nordeste, Ministério dos Transportes, Infra S.A., ANTT, TCU, TLSA, governos estaduais e setores produtivos terão papel direto nas próximas fases. Permanecem sob atenção a conclusão do corredor até Pecém, a retomada integral da ligação com Suape, a operação comercial da ferrovia e a comprovação de que o investimento público produzirá redução de custos logísticos, maior competitividade e desenvolvimento econômico regional.








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