Análise de Ian Johnson aborda crise de identidade da China, nacionalismo, Taiwan e disputa histórica em livro de Xu Guoqi

Neste domingo (26/07/2026), o debate sobre a identidade nacional da China ganhou relevância internacional a partir da repercussão do ensaio “Quem é a China? Crise de identidade autoinfligida por Pequim”, publicado em 23/06/2026 pela revista Foreign Affairs, no qual o jornalista e pesquisador Ian Johnson analisa o livro The Idea of China: A Contested History, do historiador Xu Guoqi, obra lançada em 2026 pela Harvard University Press que examina como a noção de China e de “ser chinês” foi construída, disputada e reformulada ao longo da história.

Resenha coloca identidade chinesa no centro do debate geopolítico

O artigo da Foreign Affairs apresenta a questão da identidade chinesa como um problema político, histórico e estratégico. O próprio subtítulo do ensaio — “Beijing’s Self-Inflicted Identity Crisis” — indica que a discussão não se limita à historiografia, mas alcança a forma como o Estado chinês contemporâneo interpreta o passado, define pertencimento nacional e projeta poder no cenário internacional.

Ian Johnson é um observador de longa trajetória sobre a China. Segundo o Council on Foreign Relations, ele assumiu em 2021 a posição de Stephen A. Schwarzman senior fellow for China studies e foi vencedor do Prêmio Pulitzer de Reportagem Internacional de 2001 por sua cobertura sobre a China para o The Wall Street Journal.

A análise parte de uma pergunta aparentemente simples, mas politicamente sensível: o que conta como China e quem conta como chinês? Essa formulação está no centro do livro de Xu Guoqi, que trata a identidade chinesa não como dado fixo, natural ou imutável, mas como construção histórica marcada por disputas internas, influência externa, memória política, fronteiras simbólicas e tensões entre Estado, sociedade e diáspora.

Livro de Xu Guoqi examina a China como construção histórica em disputa

Publicado em 2026 pela Harvard University Press, The Idea of China: A Contested History propõe uma leitura transnacional da formação da identidade chinesa. A obra sustenta que a ideia de China foi moldada por contatos, confrontos e intercâmbios com vizinhos asiáticos, potências ocidentais, comunidades chinesas fora do território continental, além de Hong Kong, Taiwan e diferentes grupos internos ao Estado chinês.

A apresentação editorial da obra afirma que a China se tornou uma potência capitalista por meio da globalização, mas passou a reforçar, sob sua liderança atual, uma agenda cultural nacionalista centrada na coesão interna, na supressão da dissidência e na valorização de uma identidade associada ao imaginário do “Reino do Meio” e à memória da resistência no século XX.

O livro também destaca que elementos considerados centrais da cultura chinesa, como o confucionismo, foram reinterpretados em outros contextos asiáticos e depois reintroduzidos na própria China por meio de traduções, apropriações e disputas intelectuais. Esse ponto desloca a visão de uma civilização isolada e autossuficiente para uma compreensão mais complexa, na qual tradição e identidade resultam de circulação histórica, não apenas de continuidade interna.

Taiwan, Hong Kong e diáspora aparecem como eixos sensíveis

A estrutura da obra indica a amplitude da abordagem. Entre os capítulos, aparecem temas como “quem são os chineses?”, “problemas constitucionais”, “o peso da história nacional”, “símbolos e fronteiras instáveis”, “grandes debates sobre a ideia de China”, “professores estrangeiros da China”, “esportes e a face da China” e “a ideia de China pela lente de Taiwan e Hong Kong”.

Essa organização revela que a controvérsia sobre a identidade chinesa ultrapassa o campo cultural. Taiwan e Hong Kong, em especial, ocupam posição decisiva porque expõem a tensão entre uma narrativa estatal de unidade nacional e realidades políticas, jurídicas e históricas distintas. No plano internacional, essa tensão impacta a diplomacia, a segurança regional e as relações entre China, Estados Unidos e aliados asiáticos.

A diáspora chinesa também amplia o problema. Comunidades chinesas fora da China continental participam da construção da memória, da circulação cultural e das disputas sobre pertencimento. Ao tratar a identidade como processo, Xu Guoqi sugere que “China” não se restringe à administração territorial do Estado, mas envolve uma rede histórica mais ampla, submetida a interpretações concorrentes.

Nacionalismo, memória histórica e poder estatal

O debate ganha maior peso porque o governo chinês tem enfatizado, nos últimos anos, a relação entre consciência histórica, confiança cultural e rejuvenescimento nacional. Em texto publicado pelo periódico teórico Qiushi, ligado ao Partido Comunista da China, Xi Jinping defendeu o aprofundamento do estudo da civilização chinesa de “mais de cinco milênios” como forma de elevar a consciência histórica e fortalecer a confiança cultural no Partido e na sociedade.

Essa leitura oficial valoriza continuidade, coesão e unidade civilizacional. Em discursos oficiais, a cultura chinesa aparece como fundamento da identidade nacional e como recurso político para sustentar a modernização, a estabilidade interna e a projeção internacional do país. A questão crítica, apontada pelo debate em torno do livro de Xu Guoqi, é que a história, quando convertida em narrativa única de Estado, pode perder sua função de exame crítico e tornar-se instrumento de legitimação política.

A obra, portanto, confronta uma tensão essencial: a China contemporânea se apresenta como potência moderna e globalizada, mas recorre crescentemente a símbolos históricos, tradições reconfiguradas e memória nacional para reforçar coesão interna. Essa combinação entre modernização econômica, centralização política e nacionalismo cultural constitui um dos principais dilemas interpretativos da China sob Xi Jinping.

Disputa sobre identidade tem efeito direto nas relações internacionais

A relevância do ensaio da Foreign Affairs está em deslocar o debate sobre a China de uma leitura exclusivamente econômica ou militar para uma dimensão mais profunda: a batalha pelo sentido da própria nação chinesa. O poder de Pequim não se expressa apenas em indicadores de crescimento, infraestrutura, tecnologia ou defesa, mas também na capacidade de definir oficialmente o passado, organizar a memória coletiva e estabelecer quem pertence ao projeto nacional.

A discussão não é apenas acadêmica. A forma como Pequim define China e chinesidade tem consequências sobre Taiwan, Hong Kong, comunidades da diáspora, política externa, narrativa de soberania e relação com os Estados Unidos. A identidade nacional, nesse contexto, funciona como linguagem de poder: define fronteiras, legitima reivindicações e orienta prioridades diplomáticas.

A apresentação editorial de The Idea of China afirma que a China é, fundamentalmente, constituída por uma história compartilhada. Essa conclusão busca abrir caminho para uma leitura menos rígida das rivalidades de grandes potências, especialmente em um momento no qual a disputa entre China e Estados Unidos influencia comércio, tecnologia, segurança e governança global.

Ao mesmo tempo, essa interpretação não elimina os conflitos concretos. Se a identidade chinesa é plural, histórica e disputada, a tentativa de reduzi-la a uma narrativa homogênea tende a intensificar tensões com sociedades que reivindicam trajetórias próprias, como Taiwan e Hong Kong, e com comunidades da diáspora que não se enquadram integralmente na gramática política de Pequim.

Perfil biográfico

Ian Johnson: jornalismo, memória histórica e religião na China contemporânea

Ian Johnson é jornalista, escritor, pesquisador e professor especializado em China, com trajetória marcada pela cobertura de temas sociais, religiosos, políticos e históricos. Nascido em 1962, em Montreal, no Canadá, formou-se em Jornalismo e Estudos Asiáticos pela Universidade da Flórida e obteve mestrado em Sinologia pela Freie Universität Berlin, na Alemanha. Sua relação com a China começou ainda nos anos 1980, quando estudou em Pequim entre 1984 e 1985 e, posteriormente, em Taipei, entre 1986 e 1988, experiência que consolidou seu domínio do idioma chinês e sua inserção intelectual no universo asiático.

Na trajetória profissional, Johnson atuou como correspondente na China para The Baltimore Sun, entre 1994 e 1996, e para The Wall Street Journal, entre 1997 e 2001, período em que cobriu macroeconomia, a entrada chinesa na Organização Mundial do Comércio e questões sociais. Em 2001, recebeu o Prêmio Pulitzer de Reportagem Internacional por sua cobertura sobre a repressão estatal ao movimento Falun Gong, trabalho que evidenciou a combinação de apuração de campo, atenção às vítimas e análise das implicações políticas da coerção estatal.

Sua trajetória acadêmica e intelectual articula jornalismo investigativo, sinologia, história social e sociologia da religião. Entre 2021 e 2024, foi pesquisador sênior de estudos chineses no Council on Foreign Relations, em Nova York, e atualmente desenvolve doutorado na Universidade de Leipzig sobre associações religiosas chinesas. Johnson também foi fellow do Wissenschaftskolleg zu Berlin no ano acadêmico 2024-2025, onde trabalhou sobre religião civil, organizações religiosas de base e os limites entre controle estatal, tradição espiritual e sociedade civil na China contemporânea.

As principais abordagens de Johnson concentram-se na disputa entre memória e esquecimento, no controle estatal da história, na resistência de intelectuais independentes, na religião como forma de reconstrução moral depois do maoísmo e na tensão entre autoritarismo político e vida social de base. Entre suas obras estão Wild Grass: Three Stories of Change in Modern China, sobre ativismo e sociedade civil; A Mosque in Munich, sobre islamismo e Guerra Fria na Europa; The Souls of China: The Return of Religion After Mao, sobre o renascimento religioso chinês; e Sparks: China’s Underground Historians and Their Battle for the Future, dedicada aos historiadores, cineastas e escritores que desafiam a narrativa oficial do Partido Comunista Chinês sobre o passado.

*A reportagem é baseada no artigo “Quem é a China? Crise de identidade autoinfligida por Pequim”, de autoria de Ian Johnson, publicado na revista Foreign Affairs, em 23de junho de 2025.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading