Banco Central reduz Selic a 14% no quarto corte consecutivo; inflação recua, mas projeções seguem acima da meta

O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu, nesta quarta-feira (05/08/2026), em Brasília, reduzir a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano, mediante corte de 0,25 ponto percentual aprovado por unanimidade. A quarta redução consecutiva dos juros básicos ocorre após o arrefecimento dos índices de inflação e os sinais de desaceleração da economia brasileira, mas mantém a política monetária em nível restritivo diante de expectativas inflacionárias ainda superiores à meta oficial.

Quarto corte seguido completa redução acumulada de 1 ponto percentual

A decisão confirmou a expectativa predominante entre economistas e instituições financeiras. Desde o início da flexibilização monetária, em março de 2026, o Banco Central promoveu quatro reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 15% para 14% ao ano.

A taxa havia permanecido em 15% ao ano durante aproximadamente nove meses, entre junho de 2025 e março de 2026. O patamar representava o maior nível dos juros básicos em quase duas décadas e resultava de um ciclo de elevações iniciado em setembro de 2024.

Com a nova redução, a Selic alcança o menor nível desde março de 2025, período em que estava em 13,25% antes de o Copom elevar os juros para 14,25%. Embora represente alívio gradual das condições financeiras, a taxa permanece elevada em termos nominais e reais, preservando o caráter contracionista da política monetária.

Inflação desacelera, mas permanece próxima do teto da meta

A continuidade do ciclo de cortes foi favorecida pela desaceleração dos principais indicadores de inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, considerado a inflação oficial do país, registrou alta de 0,16% em junho, abaixo dos 0,58% observados em maio.

No acumulado de 12 meses, o IPCA recuou de 4,72% para 4,64%, movimento influenciado principalmente pela queda de 0,24% no grupo Alimentação e bebidas. Apesar da desaceleração, o resultado permaneceu acima do limite superior da meta, estabelecido em 4,5%.

A prévia da inflação de julho reforçou a tendência de moderação. O IPCA-15 avançou apenas 0,06% no mês, acumulou 3,51% no ano e recuou para 4,52% em 12 meses, ficando 0,02 ponto percentual acima do teto da faixa de tolerância. O grupo Alimentação e bebidas apresentou queda de 0,66%, enquanto Habitação avançou 0,97%.

Regime de meta contínua exige acompanhamento mensal

A meta central de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para baixo ou para cima. Dessa forma, a faixa considerada compatível com o regime varia de 1,5% a 4,5%.

Desde janeiro de 2025, o Brasil adota o sistema de meta contínua. A avaliação passou a ser realizada mensalmente, considerando o IPCA acumulado em 12 meses, e não apenas o índice registrado ao final de cada ano.

A meta é formalmente considerada descumprida quando a inflação permanece fora do intervalo de tolerância durante seis meses consecutivos. Essa sistemática amplia a importância das tendências persistentes dos preços, reduzindo o peso de oscilações isoladas provocadas por fatores climáticos, energéticos ou cambiais.

Projeções de longo prazo limitam velocidade dos cortes

Embora os indicadores correntes tenham melhorado, as expectativas do mercado permanecem acima do objetivo perseguido pelo Banco Central. O Relatório Focus de 31 de julho reduziu a projeção do IPCA de 2026 para 5,03%, após sucessivas revisões negativas.

Para 2027, a estimativa permaneceu em 4,22%, enquanto a previsão para 2028 ficou em 3,8%. Os percentuais indicam uma convergência gradual, porém ainda distante da meta central de 3%, especialmente nos horizontes mais longos acompanhados pelo Copom.

O mesmo levantamento projetou a Selic em 13,75% no encerramento de 2026, indicando expectativa de pelo menos mais uma redução de 0,25 ponto percentual até dezembro. A mediana para 2027 ficou em 12%, enquanto a estimativa para 2028 permaneceu em 10,5%.

A política monetária atua com defasagem sobre a economia. Alterações na Selic levam vários meses para modificar de maneira mais ampla as condições de crédito, o consumo, os investimentos, o mercado de trabalho e, posteriormente, os índices de preços.

Por esse motivo, o horizonte relevante considerado na reunião de agosto alcança o primeiro trimestre de 2028. A autoridade monetária busca avaliar se a inflação projetada para esse período será compatível com a meta, evitando que cortes excessivamente rápidos reestimulem a demanda antes da consolidação do processo de desinflação.

Atividade econômica perde impulso após crescimento no primeiro trimestre

O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com os três meses anteriores. A Agropecuária avançou 2%, a Indústria cresceu 1% e os Serviços tiveram expansão de 0,5%.

Na comparação com o primeiro trimestre de 2025, o PIB aumentou 1,8%. Em valores correntes, a economia brasileira movimentou R$ 3,3 trilhões no período, enquanto a taxa de investimento correspondeu a 16,5% do PIB.

Indicadores divulgados posteriormente passaram a apontar moderação da atividade no segundo trimestre. A manutenção dos juros em níveis elevados encarece empréstimos, reduz a disponibilidade de financiamento e limita decisões de consumo e investimento, sobretudo em setores dependentes de crédito, como comércio, construção civil, indústria de bens duráveis e mercado imobiliário.

O efeito contracionista dos juros poderá ser parcialmente compensado pelas medidas fiscais, pelos programas de crédito e pelas políticas de transferência de renda adotadas pelo Governo Federal. Essas iniciativas podem sustentar o consumo das famílias, mas também são consideradas pelo Banco Central na avaliação dos riscos de pressão sobre a demanda e os preços.

Corte não significa redução imediata dos juros bancários

A Selic serve como referência para as operações financeiras realizadas no país, para a remuneração de títulos públicos e para a formação das taxas cobradas em empréstimos, financiamentos e linhas de crédito.

A redução acumulada de 1 ponto percentual tende a diminuir gradualmente o custo de captação das instituições financeiras. Entretanto, a transmissão para o consumidor depende de fatores como inadimplência, risco de crédito, custos administrativos, tributação, prazos das operações e margens praticadas pelos bancos.

Por essa razão, financiamentos imobiliários, empréstimos pessoais, crédito empresarial, cheque especial e rotativo do cartão não necessariamente apresentam queda proporcional ou imediata após uma decisão do Copom. Os efeitos tendem a aparecer de maneira progressiva, especialmente quando o mercado identifica continuidade e estabilidade no ciclo de redução.

Para os investimentos financeiros, a queda da Selic reduz gradualmente a rentabilidade futura de aplicações pós-fixadas, como títulos públicos e produtos vinculados ao Certificado de Depósito Interbancário. Em sentido contrário, ativos de maior risco podem ganhar atratividade caso as expectativas de inflação e de equilíbrio fiscal melhorem.

Diferença entre juros brasileiros e americanos recua

No cenário internacional, o Federal Reserve manteve, em 29 de julho de 2026, a taxa básica dos Estados Unidos na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano. A decisão foi aprovada por nove votos a três.

Os três dirigentes dissidentes defenderam uma elevação de 0,25 ponto percentual, sob o argumento de que a inflação americana continua acima do objetivo de 2% e permanece sujeita a pressões provocadas pelos preços de energia e por choques de oferta.

Considerando o limite superior da faixa americana, a diferença nominal entre os juros do Brasil e dos Estados Unidos caiu para 10,25 pontos percentuais. O diferencial continua elevado, mas sua redução pode influenciar os fluxos internacionais de capital, o câmbio e a remuneração exigida pelos investidores para manter recursos no mercado brasileiro.

Petróleo recua, mas cenário externo permanece volátil

Outro fator acompanhado pelo Copom é o comportamento do petróleo. Na terça-feira (04/08/2026), o barril do Brent caiu mais de 5% e encerrou o dia em US$ 79,36, abaixo de US$ 80, diante das expectativas de avanço nas negociações envolvendo Estados Unidos, Irã e a circulação de embarcações pelo Estreito de Ormuz.

A redução das cotações internacionais do petróleo diminui, no curto prazo, o risco de pressões adicionais sobre combustíveis, transportes, energia e custos industriais. Entretanto, a possibilidade de novos confrontos ou interrupções nas rotas de exportação mantém elevada a volatilidade do mercado.

As incertezas geopolíticas também afetam o câmbio, os preços de commodities e as decisões de política monetária das principais economias. Para países emergentes, alterações abruptas nas taxas americanas ou no preço da energia podem provocar saída de capitais, desvalorização cambial e transmissão de custos para a inflação doméstica.

Copom terá nova reunião em setembro

A reunião de agosto foi a quinta das oito previstas no calendário de 2026. Os cinco encontros realizados até o momento ocorreram com quórum reduzido, em razão da ausência de dois integrantes na composição completa da diretoria do Banco Central.

O próximo encontro do Copom está marcado para 15 e 16 de setembro de 2026. A ata referente à decisão de agosto deverá detalhar a avaliação do colegiado sobre o balanço de riscos, as projeções de inflação e as condições necessárias para a continuidade do ciclo de cortes.

Depois de setembro, o comitê voltará a se reunir nos dias 3 e 4 de novembro e 8 e 9 de dezembro. As futuras decisões dependerão da evolução dos preços, da atividade econômica, do mercado de trabalho, das contas públicas, do câmbio, das commodities e da política monetária internacional.

Linha do tempo da Selic em 2026

A trajetória das decisões do Copom mostra que o Banco Central adotou uma redução lenta e uniforme, sem acelerar o ritmo mesmo diante da melhora recente dos índices de preços.

  • 28/01/2026 — 15% ao ano: taxa mantida pelo quinto encontro consecutivo;
  • 18/03/2026 — 14,75% ao ano: primeiro corte do atual ciclo, de 0,25 ponto;
  • 29/04/2026 — 14,50% ao ano: segundo corte consecutivo, também de 0,25 ponto;
  • 17/06/2026 — 14,25% ao ano: terceiro recuo seguido;
  • 05/08/2026 — 14% ao ano: quarto corte consecutivo, completando queda acumulada de 1 ponto percentual.

Três últimas variações dos juros

  1. 05/08/2026: de 14,25% para 14% ao ano — redução de 0,25 ponto percentual;
  2. 17/06/2026: de 14,50% para 14,25% ao ano — redução de 0,25 ponto percentual;
  3. 29/04/2026: de 14,75% para 14,50% ao ano — redução de 0,25 ponto percentual.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading