O Banco Master pagou pelo menos R$ 19,7 milhões à AB Serviços de Corretagem Financeira, empresa ligada ao empresário Alfredo Pacheco Pereira Neto, que mantém desde 2021 sociedade com o ex-ministro da Cidadania e candidato ao Senado João Roma na Prata da Chapada, empreendimento agropecuário sediado em Iraquara, na Bahia. A relação financeira foi identificada em documentos fiscais analisados pela Folha de S.Paulo e encaminhados à CPI do Crime Organizado, enquanto reportagem publicada pelo Metrópoles nesta quinta-feira (13/08/2026) revelou a conexão societária entre Pacheco e João Roma. A AB Serviços sustenta que os contratos foram regulares e corresponderam a serviços efetivamente prestados; Pacheco e Roma afirmam que o ex-ministro não participou das negociações com a instituição financeira.
A ligação comprovada entre Roma e Pacheco ocorre em uma empresa distinta da corretora. Os dois são sócios da Prata da Chapada Comércio Ltda., constituída em novembro de 2021, quando Roma ainda ocupava o Ministério da Cidadania no governo Jair Bolsonaro. O ex-ministro declarou à Justiça Eleitoral participação de 50%, avaliada em R$ 100 mil, compatível com o capital social de R$ 200 mil registrado para a empresa.
A AB Serviços também teve em sua composição societária o advogado Bruno Martinez Carneiro Ribeiro Neves, atual superintendente do Ibama na Bahia. Martinez afirmou ter deixado a empresa em 2023, antes de se dedicar às atividades na autarquia ambiental. A presença de personagens com atuação política, empresarial e institucional amplia o interesse público sobre a cronologia e a natureza das relações, mas os elementos conhecidos até agora não demonstram participação de Roma nos contratos ou nos pagamentos feitos pelo Master à corretora.
AB Serviços recebeu R$ 19,7 milhões em pagamentos do Banco Master
O valor atribuído à relação comercial entre a AB Serviços e o Banco Master ganhou dimensão nacional em 10/08/2026, quando a Folha de S.Paulo publicou levantamento baseado em informações fiscais encaminhadas à CPI do Crime Organizado. Os registros apontaram R$ 19,7 milhões pagos à corretora em operações declaradas pelo banco à Receita Federal como despesas relacionadas à prestação de serviços.
A AB Serviços aparece dentro de um universo mais amplo analisado pela Folha. Dos 117 fornecedores e prestadores que receberam pelo menos R$ 5 milhões do Master, 35 empresas haviam sido criadas a partir de 2021. Juntas, essas companhias receberam aproximadamente R$ 870 milhões entre 2022 e 2025.
A AB Serviços foi constituída em 06/05/2021, em Salvador. Registros empresariais disponíveis atribuem à companhia atividades relacionadas a serviços auxiliares financeiros, consultoria empresarial e intermediação de negócios. O capital social cadastrado era de R$ 50 mil, valor significativamente inferior ao volume posteriormente recebido do Banco Master, circunstância que, embora não represente ilegalidade por si mesma, ajuda a explicar o interesse jornalístico sobre a expansão das relações comerciais da companhia.
Segundo a empresa, os recursos foram pagos pela execução de serviços de consultoria, assessoria e relacionamento comercial prestados ao grupo ligado ao Banco Master. A AB sustenta que houve documentação técnica das atividades, emissão dos documentos correspondentes, recolhimento de tributos e contratação entre agentes privados, sem participação de recursos públicos.
A informação fiscal disponível confirma a existência dos pagamentos, enquanto a empresa atribui os valores à prestação de serviços contratados regularmente. Até o momento, não foram divulgados elementos que apontem condenação, denúncia criminal ou decisão administrativa contra a AB Serviços especificamente em razão desses contratos.
O montante de R$ 19,7 milhões, entretanto, insere a empresa entre os recebedores relevantes do Banco Master no período analisado e torna importante compreender a dimensão comercial dos serviços que justificaram os pagamentos, sobretudo diante do conjunto de investigações e questionamentos que passaram a envolver a instituição financeira e empresas relacionadas a ela.
Alfredo Pacheco mantém sociedade com João Roma desde 2021
A conexão de maior repercussão política surgiu da identificação de Alfredo Pacheco Pereira Neto como sócio de João Roma em outro empreendimento. Os dois integram a Prata da Chapada Comércio Ltda., criada em 03/11/2021, no município de Iraquara, na Chapada Diamantina.
A companhia possui capital social de R$ 200 mil e atividades relacionadas ao comércio de produtos hortifrutigranjeiros e à produção agropecuária. Entre os objetos cadastrados aparece o cultivo de banana, compatível com a explicação apresentada pelos sócios sobre a finalidade rural do negócio.
Roma declarou à Justiça Eleitoral deter 50% das cotas, avaliadas em R$ 100 mil. A participação corresponde exatamente à metade do capital social registrado da Prata da Chapada.
A constituição da empresa ocorreu no período em que Roma comandava o Ministério da Cidadania. Ele ocupou a pasta no governo de Jair Bolsonaro e deixou posteriormente a administração federal para retomar sua atuação política na Bahia.
A coincidência temporal entre a criação da Prata da Chapada e a abertura da AB Serviços em 2021 tornou a relação societária objeto de interesse após a identificação dos pagamentos milionários efetuados pelo Master à corretora. Não há, contudo, elemento apresentado até agora que indique que a Prata da Chapada tenha contratado com a instituição financeira ou recebido parte dos R$ 19,7 milhões.
Pacheco afirma que suas relações empresariais são independentes. Segundo o empresário, sua sociedade com Roma se limita à Prata da Chapada, enquanto a atuação da AB Serviços no mercado financeiro pertence a outra esfera de negócios.
Ele também negou que Roma tenha intermediado a aproximação entre a corretora e o Banco Master, participado de negociações ou exercido influência sobre os contratos.
Roma apresentou a mesma linha de defesa. O ex-ministro declarou que sua atuação conjunta com Pacheco está restrita às atividades agropecuárias desenvolvidas em Iraquara e que não teve participação nos negócios da AB Serviços.
Após a repercussão do caso, Roma voltou a tratar do assunto nesta quinta-feira e afirmou: “Eu fui ministro e nenhum ato meu beneficiou a instituição financeira citada”. Segundo ele, a parceria com Pacheco envolve agricultura irrigada e pecuária e não possui relação com outras atividades econômicas mantidas pelo empresário.
A declaração assume importância porque a sociedade entre os dois teve início quando Roma ainda integrava o governo federal. Até agora, entretanto, não foi apresentado documento relacionando atos praticados pelo então ministro ao Banco Master ou à AB Serviços.
Histórico da AB Serviços envolve atual superintendente do Ibama na Bahia
O histórico empresarial da corretora acrescenta outra conexão institucional. Bruno Martinez Carneiro Ribeiro Neves, advogado e atual superintendente do Ibama na Bahia, também integrou a AB Serviços.
Registros empresariais relacionados à constituição da companhia apresentam Martinez e Alfredo Pacheco entre os integrantes do quadro societário inicial. Martinez confirmou ter participado da empresa, mas declarou que deixou a sociedade em 2023.
Naquele mesmo ano, passou a comandar a Superintendência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis na Bahia. Sua nomeação ocorreu em 17/11/2023, e a estrutura institucional atualizada do Ibama ainda o identifica como superintendente estadual, ocupante de cargo CCE 1.13.
A cronologia apresentada por Martinez separa sua atuação empresarial da função pública: segundo ele, o afastamento da AB ocorreu para que pudesse se dedicar ao trabalho na autarquia federal.
Não há informação indicando participação do Ibama nos contratos mantidos entre a AB Serviços e o Banco Master, utilização de recursos da autarquia ou atuação institucional de Martinez em benefício da corretora.
A presença dele no histórico societário, entretanto, acrescenta relevância à reconstrução da trajetória da empresa, especialmente porque parte dos pagamentos identificados pela Folha ocorreu entre 2022 e 2025, período que atravessa tanto a fase em que Martinez afirma ter integrado a companhia quanto sua posterior atuação no serviço público.
A definição precisa sobre quando sua retirada foi formalmente registrada e como se modificou o quadro societário da AB ao longo do período depende do histórico de alterações arquivado nos órgãos de registro empresarial. A declaração de Martinez fixa 2023 como o momento de sua saída.
Relações empresariais se cruzam em período de expansão do Master
A AB Serviços foi criada justamente em 2021, ano que marcou também uma nova etapa na trajetória do antigo Banco Máxima, posteriormente consolidado sob a marca Banco Master. Nos anos seguintes, a instituição ampliou negócios, operações de crédito, investimentos e contratos com prestadores de serviços.
O levantamento da Folha sobre os pagamentos revelou que empresas constituídas recentemente receberam valores expressivos do banco entre 2022 e 2025. As 35 companhias abertas a partir de 2021 identificadas no levantamento concentraram aproximadamente R$ 870 milhões.
A presença da AB Serviços nesse grupo não significa, isoladamente, existência de irregularidade. O dado relevante está na combinação entre a idade da empresa, os R$ 19,7 milhões recebidos e a rede de relações empresariais formada ao redor de seus sócios.
A empresa sustenta que atuou de maneira regular e que os contratos possuíam justificativa econômica e técnica. A dimensão desses negócios, entretanto, ganha relevância diante do escrutínio mais amplo sobre o Banco Master, que passou a envolver autoridades financeiras, investigações policiais, órgãos de controle e comissões parlamentares.
Nesse cenário, o interesse público não decorre apenas de quem conhecia quem ou de vínculos pessoais entre empresários e políticos. A questão central está na reconstrução objetiva das relações contratuais e societárias que acompanharam a rápida expansão dos negócios do banco.
Roma também reconhece relação com Augusto Lima
Outro elemento citado pelo Metrópoles é a relação de João Roma com Augusto Lima, empresário que foi sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master.
Roma participou de uma festa de aniversário promovida por Lima em Salvador. O evento também contou com a presença de Davi Alcolumbre, posteriormente presidente do Senado.
Questionado sobre a relação, Roma afirmou que “nunca escondeu relações” com Augusto Lima.
A informação amplia o mapa de conexões pessoais envolvendo personagens ligados ao Master, mas não estabelece, por si mesma, qualquer participação do ex-ministro nas operações financeiras da instituição.
A presença em eventos sociais, relações pessoais ou proximidade política não equivalem a vínculo contratual. O elemento material existente permanece sendo a sociedade de Roma com Alfredo Pacheco na Prata da Chapada e, separadamente, os pagamentos feitos pelo Banco Master à AB Serviços.
A distinção é particularmente relevante em uma apuração que envolve diferentes empresas, contratos e pessoas. A proximidade entre personagens pode justificar investigação e transparência, mas eventual responsabilidade individual depende de atos concretos e comprováveis.
Pagamentos, sociedades e responsabilidades precisam ser distinguidos
O conjunto das informações disponíveis permite estabelecer uma sequência objetiva. A AB Serviços foi criada em maio de 2021 e estabeleceu relação comercial com o Banco Master. Os pagamentos identificados nos dados fiscais alcançaram R$ 19,7 milhões.
Meses depois, em novembro de 2021, Alfredo Pacheco e João Roma constituíram a Prata da Chapada, com capital social de R$ 200 mil. Roma declarou possuir metade da empresa.
No histórico da AB aparece também Bruno Martinez, que afirma ter se retirado em 2023 e atualmente dirige a Superintendência do Ibama na Bahia.
Essas relações formam uma rede empresarial que merece acompanhamento por envolver valores elevados e agentes públicos ou políticos. Ao mesmo tempo, os papéis de cada personagem são distintos.
Alfredo Pacheco está diretamente relacionado à AB Serviços e à Prata da Chapada. João Roma aparece como sócio de Pacheco no empreendimento agropecuário, mas não como integrante da corretora. Bruno Martinez integrou a AB e posteriormente assumiu função pública no Ibama.
Até o material tornado público, não há indicação de que Roma tenha recebido recursos dos contratos firmados pela AB, participado das negociações ou utilizado sua atuação ministerial para beneficiar a empresa ou o Banco Master.
Da mesma forma, não há informação de que o Ibama tenha mantido relação com os pagamentos ou contratos analisados.
A apuração passa, portanto, a depender principalmente da evolução das investigações sobre o Banco Master, do acesso ao histórico societário completo das empresas e dos documentos comerciais capazes de reconstruir a natureza e a execução das operações financeiras.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 06/05/2021 — Criação da AB Serviços: a AB Serviços de Corretagem Financeira é aberta em Salvador, com atuação relacionada ao setor financeiro, consultoria empresarial e intermediação de negócios.
- 2021 — Início da relação comercial com o Banco Master: a corretora passa a prestar serviços ao grupo ligado à instituição financeira, segundo informações publicadas posteriormente.
- 03/11/2021 — Constituição da Prata da Chapada: João Roma e Alfredo Pacheco passam a integrar a empresa sediada em Iraquara, com capital social de R$ 200 mil e atividades agropecuárias.
- 2021 — Roma ocupa o Ministério da Cidadania: a sociedade com Pacheco é constituída enquanto o político ainda integra o governo Jair Bolsonaro.
- 2022 a 2025 — Pagamentos do Banco Master: levantamento fiscal posteriormente analisado pela Folha identifica cerca de R$ 870 milhões pagos a 35 empresas criadas a partir de 2021, incluindo R$ 19,7 milhões destinados à AB Serviços.
- 2023 — Bruno Martinez afirma ter deixado a AB Serviços: o advogado declara ter se afastado da empresa antes de se dedicar às atividades no Ibama.
- 17/11/2023 — Nomeação para o Ibama: Bruno Martinez assume a Superintendência do órgão ambiental federal na Bahia.
- 10/08/2026 — Folha publica levantamento sobre fornecedores do Master: documentos fiscais encaminhados à CPI do Crime Organizado revelam os R$ 19,7 milhões pagos à AB Serviços.
- 10/08/2026 — Roma é questionado sobre Augusto Lima: o candidato reconhece sua relação com o empresário e afirma que nunca escondeu essa proximidade.
- 13/08/2026 — Metrópoles revela conexão societária: reportagem identifica Alfredo Pacheco, ligado à AB Serviços, como sócio de João Roma na Prata da Chapada.
- 13/08/2026 — João Roma reage à repercussão: o candidato declara que nenhum ato praticado por ele quando ministro beneficiou o Banco Master e reafirma que seus negócios com Pacheco estão restritos ao setor agropecuário.
A dimensão pública do caso decorre da convergência entre pagamentos milionários, relações societárias e agentes com participação política ou institucional. Há um dado financeiro objetivo — os R$ 19,7 milhões destinados pelo Master à AB Serviços — e um vínculo empresarial igualmente objetivo entre Alfredo Pacheco e João Roma. Esses elementos justificam escrutínio, mas não permitem tratar a sociedade agropecuária como extensão automática dos negócios da corretora.
A cronologia também possui relevância. A AB Serviços e a Prata da Chapada foram constituídas em 2021, enquanto Roma ainda exercia o Ministério da Cidadania. Bruno Martinez, por sua vez, integrou a corretora antes de assumir a Superintendência do Ibama na Bahia. A coincidência de períodos torna necessária uma reconstrução precisa das atividades de cada personagem, mas não substitui a exigência de atos concretos para atribuição de responsabilidade.
O aspecto decisivo para o aprofundamento da investigação está na natureza dos contratos e pagamentos realizados pelo Banco Master. A AB afirma que prestou serviços regulares de consultoria, assessoria e relacionamento comercial. O acompanhamento jornalístico deverá observar se investigações oficiais, documentos empresariais ou novos registros financeiros confirmam a extensão dessas atividades, revelam outros beneficiários ou modificam o quadro atualmente conhecido.
Até o momento, o núcleo factual permanece delimitado: a AB Serviços recebeu R$ 19,7 milhões do Banco Master; Alfredo Pacheco, ligado à corretora, é sócio de João Roma na Prata da Chapada; Bruno Martinez integrou a AB antes de assumir cargo no Ibama; e Roma nega qualquer participação nas negociações ou pagamentos da instituição financeira. A relevância pública dos próximos desdobramentos dependerá principalmente das apurações envolvendo o Master, da documentação societária e contratual e de eventuais decisões das autoridades competentes.








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