Quatro propostas de colaboração premiada relacionadas às fraudes investigadas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) permanecem, nesta quarta-feira (12/08/2026), há mais de quatro meses sem uma definição da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR). As negociações envolvem o ex-procurador-geral do instituto Virgílio Oliveira, o ex-diretor de Benefícios André Fidelis, o advogado Eric Douglas Fidelis e o empresário e lobista Maurício Camisotti. Enquanto os acordos continuam em discussão, a Operação Sem Desconto avança sobre novos núcleos políticos e financeiros do esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões.
Segundo informações publicadas pela coluna de Malu Gaspar, em O Globo, as propostas não foram formalmente rejeitadas, mas também não há indicação de que tenham sido concluídas e encaminhadas para homologação. Interlocutores da PF ouvidos pela publicação afirmaram que as tratativas continuam e que existe interesse no conteúdo apresentado pelos potenciais colaboradores.
O impasse ocorre enquanto a investigação amplia seu alcance. Em etapa deflagrada na semana anterior, a operação teve como alvos o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e o advogado Willer Tomaz. Paralelamente, a PF solicitou a abertura de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha.
Quatro negociações permanecem sem desfecho
As propostas estão em estágios distintos, mas possuem um elemento comum: os interessados já prestaram depoimentos, entregaram informações ou apresentaram anexos, sem que tenha sido divulgado um posicionamento conclusivo das autoridades responsáveis pela negociação.
Fontes da PF citadas pela reportagem afirmam que os casos permanecem na fase de discussão dos benefícios, das contrapartidas e das obrigações que poderiam integrar eventuais acordos. Os investigadores também sustentam que não existe prazo definido para a conclusão das tratativas.
O material disponível não apresenta manifestações formais da PGR sobre cada proposta, decisões judiciais relacionadas aos possíveis acordos ou documentos que permitam verificar o estágio processual individual das negociações. Também não informa se alguma delas já superou a fase preliminar de avaliação da utilidade e da consistência das informações.
Virgílio Oliveira entregou mais de 120 páginas de anexos
Preso em Curitiba, o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Oliveira assinou com a Polícia Federal um contrato de confidencialidade em janeiro de 2026. Em abril, passou uma semana prestando depoimentos a diferentes delegados envolvidos na investigação.
A proposta apresentada por ele reúne mais de 120 páginas de anexos e, segundo a publicação, prevê a devolução integral dos valores apontados como desviados. Apesar da quantidade de documentos e das oitivas já realizadas, a defesa ainda não recebeu uma resposta positiva ou negativa sobre a continuidade da negociação.
A Polícia Federal atribui ao ex-procurador papel central na liberação de descontos considerados ilegais sobre benefícios de mais de 6 milhões de aposentados. Os investigadores também sustentam que ele teria recebido R$ 7,5 milhões de Antonio Carlos Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Segundo a investigação, Virgílio aparecia em planilhas de prestação de contas do esquema com o codinome “Herói V”. As informações representam a versão investigativa da PF e não equivalem, por si, a uma responsabilização definitiva.
André e Eric Fidelis apresentaram depoimentos em março
O ex-diretor de Benefícios do INSS André Fidelis, que se encontra preso, e seu filho, o advogado Eric Douglas Fidelis, atualmente em prisão domiciliar, prestaram depoimentos e entregaram anexos em março de 2026.
Até a data mais recente informada, os dois não haviam recebido resposta dos investigadores. A PF trabalha com a hipótese de que André teria facilitado a execução das fraudes durante sua passagem pela diretoria de Benefícios.
Os investigadores suspeitam que pagamentos indevidos atribuídos ao “Careca do INSS” teriam sido encaminhados por intermédio do escritório de advocacia de Eric. O advogado teria atuado em processos contra o próprio instituto e mantido relações com algumas das entidades investigadas.
Nas planilhas apreendidas, André Fidelis seria identificado como “Herói A”. De acordo com informações publicadas pela colunista Bela Megale, Fidelis e Virgílio também foram indiciados em outra frente da investigação, relacionada à Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag).
A Contag é apresentada no conteúdo como a maior entidade alcançada pelas investigações, com mais de 1 milhão de associados. O material, contudo, não detalha as condutas individualizadas atribuídas aos dois indiciados nessa frente nem apresenta o relatório final do inquérito.
Delação de Maurício Camisotti precisou ser refeita
A proposta de colaboração do empresário e lobista Maurício Camisotti chegou a ser apresentada à PGR como concluída em fevereiro de 2026. Posteriormente, foi retirada porque integrantes do Ministério Público Federal (MPF) não haviam participado da negociação.
A defesa preparou uma segunda proposta, agora com a participação dos procuradores. Até o momento, porém, não existe indicação pública de que a negociação tenha sido concluída ou de que o acordo tenha avançado para homologação.
A Polícia Federal aponta Camisotti como um dos principais operadores financeiros da estrutura investigada. Segundo a apuração, o empresário controlaria três entidades que teriam faturado mais de R$ 1 bilhão com os descontos questionados e teria recebido pelo menos R$ 43 milhões dessas organizações.
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registrou que Camisotti realizou 17 saques em dinheiro vivo, no valor acumulado de R$ 7,2 milhões, entre 2018 e 2025.
Para a PF, as movimentações representariam “condutas graves relacionadas à dilapidação patrimonial”. O empresário é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e participação em organização criminosa. O conteúdo fornecido não informa a existência de condenação ou de decisão judicial definitiva contra ele.
Anexos sigilosos citariam políticos, Lulinha e Marcola
O conteúdo integral dos anexos apresentados pelos potenciais colaboradores permanece sob sigilo. Conforme a apuração jornalística, os documentos abordariam o funcionamento das fraudes, os mecanismos utilizados para manter os descontos e possíveis relações com pessoas dotadas de foro por prerrogativa de função.
Os anexos também fariam referências a Lulinha e a uma pessoa identificada no material como Marcola, sem que tenham sido informados, neste último caso, nome completo, cargo, vínculo institucional ou conduta específica.
A simples presença de um nome em depoimentos ou documentos de colaboração não comprova participação em irregularidades. Sem acesso aos anexos, aos elementos de confirmação e às condutas individualizadas, não é possível determinar a natureza, a consistência ou a relevância jurídica dessas menções.
No caso de Lulinha, a PF pediu a abertura de três inquéritos no STF. A instauração de uma investigação representa uma medida destinada à apuração dos fatos e não permite antecipar responsabilidade criminal.
Da mesma forma, a etapa recente da Operação Sem Desconto que alcançou o senador Weverton Rocha e o advogado Willer Tomaz deve ser descrita dentro dos limites das medidas investigativas informadas. O conteúdo não apresenta denúncia recebida, julgamento ou condenação dos dois.
Acordos de cooperação viabilizaram os descontos questionados
O esquema investigado teria operado por meio de acordos de cooperação técnica (ACTs) celebrados entre o INSS, sindicatos e entidades autorizadas a descontar mensalidades diretamente dos benefícios previdenciários.
De acordo com a investigação, os valores foram retirados de aposentadorias e pensões sem a anuência dos beneficiários afetados. A ausência de autorização válida constitui o núcleo das irregularidades apuradas pela Operação Sem Desconto.
A estimativa apresentada no material indica que o esquema teria movimentado ou desviado R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. A investigação busca identificar como as entidades foram habilitadas, de que forma os descontos foram liberados, quais controles internos falharam e quem recebeu os recursos.
Entre os personagens considerados centrais pela PF, a coluna informa que apenas o “Careca do INSS” e o ex-presidente da autarquia Alessandro Stefanutto não procuraram negociar propostas de colaboração premiada.
Essa informação se limita à existência ou à ausência de tratativas conhecidas. A decisão de não propor um acordo não permite concluir inocência, responsabilidade ou estratégia processual específica.
Defesas temem utilização prévia das informações
Integrantes das defesas manifestaram, nos bastidores, preocupação com a possibilidade de os dados revelados durante os depoimentos serem utilizados em novas diligências antes da celebração dos acordos.
Na avaliação desses interlocutores, a exploração antecipada das informações poderia reduzir o valor investigativo das colaborações e afetar a negociação dos benefícios pretendidos. Essa é uma versão atribuída às defesas e não uma conclusão confirmada por documento ou decisão judicial apresentada no conteúdo.
A PF sustenta que as investigações continuam em andamento e que não existe prazo obrigatório para decidir sobre as propostas. As fontes policiais também afirmam que há interesse nas informações, embora as contrapartidas e os benefícios ainda estejam sendo discutidos.
O material não permite determinar quais elementos já eram conhecidos pelos investigadores, quais informações são efetivamente inéditas ou se os anexos possuem capacidade de produzir novas provas. Esses aspectos dependem da análise dos documentos, da realização de diligências e de eventual manifestação formal da PF, da PGR e das instâncias judiciais competentes.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2018 a 2025 — Relatório do Coaf identifica 17 saques em dinheiro vivo, no total de R$ 7,2 milhões, atribuídos a Maurício Camisotti; as movimentações passam a integrar as suspeitas examinadas pela PF.
- 2019 a 2024 — Período em que o esquema de descontos associativos não autorizados teria movimentado ou desviado R$ 6,3 bilhões, segundo os dados apresentados pela investigação.
- Novembro de 2025 — Vem a público a informação de que investigadores haviam identificado os saques em espécie realizados por Camisotti e de que uma tentativa anterior de colaboração do empresário não havia avançado.
- Janeiro de 2026 — Virgílio Oliveira assina contrato de confidencialidade com a Polícia Federal, iniciando formalmente as tratativas preliminares de colaboração.
- Fevereiro de 2026 — A proposta de Camisotti é apresentada à PGR como concluída, mas posteriormente retirada porque procuradores do MPF não haviam participado da negociação.
- Março de 2026 — André Fidelis e Eric Douglas Fidelis prestam depoimentos e apresentam anexos aos investigadores; os dois permanecem sem resposta conclusiva.
- Abril de 2026 — Virgílio Oliveira presta depoimentos durante uma semana a diferentes delegados e entrega uma proposta com mais de 120 páginas de anexos.
- Após fevereiro de 2026 — A defesa de Camisotti prepara uma segunda proposta de colaboração, com a inclusão de integrantes do MPF nas tratativas; não há informação sobre conclusão ou homologação.
- Semana anterior a 12/08/2026 — Nova etapa da Operação Sem Desconto tem como alvos o senador Weverton Rocha e o advogado Willer Tomaz, demonstrando a continuidade das diligências.
- Até 12/08/2026 — As quatro propostas permanecem sem definição final, enquanto a PF confirma, por meio de fontes ouvidas pela publicação, que as negociações continuam na fase de discussão dos benefícios e das contrapartidas.
A demora na definição das quatro propostas expõe um descompasso entre o avanço operacional da investigação e o ritmo das negociações de colaboração. A ausência de prazo, conforme argumentam investigadores, não significa necessariamente desinteresse, pois fontes da PF confirmam que as tratativas continuam. Entretanto, a falta de atos formais conhecidos impede avaliar se o tempo transcorrido decorre da complexidade dos anexos, da insuficiência dos elementos apresentados, da divergência sobre benefícios ou de problemas de coordenação entre PF, PGR e MPF.
O caráter sigiloso das informações exige cautela adicional. Menções a políticos, autoridades, familiares de agentes públicos ou pessoas com foro não podem ser convertidas em acusações sem a apresentação das condutas, dos documentos correspondentes e dos elementos de confirmação. O acompanhamento jornalístico deverá distinguir o conteúdo declarado pelos potenciais colaboradores das provas obtidas de forma independente e das conclusões formalizadas pelas autoridades.
O caso possui relevância pública porque envolve descontos incidentes sobre benefícios previdenciários, uma estimativa de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024 e milhões de aposentados potencialmente atingidos. Caberá à PF e à PGR decidir sobre a continuidade das negociações, às instâncias judiciais competentes examinar eventuais acordos e medidas cautelares, e ao INSS esclarecer as falhas relacionadas aos ACTs. Os próximos passos dependerão da apresentação de decisões formais, da confirmação independente dos anexos, dos resultados dos inquéritos no STF e das conclusões das frentes relacionadas à Contag e aos núcleos políticos e financeiros investigados.








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