Ebola na RD Congo chega a 100 dias com 5,2 mil casos e avanço para seis províncias

A epidemia de Ebola causada pelo vírus Bundibugyo na República Democrática do Congo (RD Congo) completou 100 dias nesta segunda-feira (24/08/2026), com mais de 5,2 mil casos confirmados e expansão para uma sexta província. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma média de aproximadamente 90 casos confirmados por dia foi registrada nos primeiros três meses de vigilância, ritmo superior ao observado em períodos equivalentes de surtos anteriores.

A província de Ituri permanece como epicentro da epidemia, concentrando cerca de 85% dos casos e 79% das mortes. A expansão geográfica e a continuidade da transmissão ocorrem em um cenário marcado por insegurança, deslocamento populacional, ataques a unidades de saúde, dificuldades de acesso e resistência de parte das comunidades às ações de resposta.

A OMS afirma que a velocidade de transmissão tem pressionado as estruturas de resposta e exige ampliação das ações de vigilância epidemiológica, rastreamento de contatos, diagnóstico, atendimento clínico e envolvimento comunitário. O diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, defende uma atuação coordenada entre autoridades nacionais, provinciais e locais, com apoio dos parceiros internacionais.

Mortes fora dos centros de tratamento preocupam autoridades

Um dos principais pontos de atenção está relacionado ao local onde ocorrem as mortes. De acordo com a OMS, aproximadamente 60% das 260 mortes semanais registradas nas últimas seis semanas ocorreram fora dos centros de tratamento de Ebola. O dado indica dificuldades na identificação precoce dos casos, no encaminhamento dos pacientes e no acesso aos serviços de saúde.

Entre os pacientes que chegam às unidades de tratamento, parte das mortes está associada à internação tardia, quando a doença já se encontra em estágio avançado. Nas comunidades, a ocorrência de mortes fora das estruturas de atendimento também dificulta a identificação de cadeias de transmissão e a adoção rápida de medidas de controle.

A resposta enfrenta ainda obstáculos relacionados à instabilidade e aos conflitos armados, ataques contra estruturas de saúde, deslocamento de populações, resistência comunitária e condições complexas de acesso às áreas atingidas. A OMS aponta que esses fatores dificultam o trabalho das equipes responsáveis por localizar contatos, identificar casos e encaminhar pacientes para atendimento.

Capacidade de diagnóstico e tratamento foi ampliada

Apesar da expansão da epidemia, a resposta apresentou aumento da capacidade operacional nos primeiros 100 dias. A estrutura laboratorial passou de um local de testagem para 19 laboratórios, com capacidade conjunta para processar mais de 3 mil amostras por dia.

A capacidade de tratamento também foi ampliada. Segundo a OMS, o número de leitos passou de menos de 10 para mais de 1,3 mil, enquanto mais de 900 unidades de saúde receberam apoio para prevenção e controle de infecções.

As ações de mobilização comunitária alcançaram mais de 2,5 milhões de pessoas. O acompanhamento de contatos de pacientes também avançou de 9% na primeira semana para 84% em 18 de agosto, segundo os dados divulgados pela organização.

Pesquisa busca ampliar opções contra o vírus Bundibugyo

A resposta à epidemia também envolve medidas científicas. A OMS informou que estão em andamento ensaios clínicos de possíveis tratamentos, avaliações de vacinas candidatas e a utilização do primeiro teste de diagnóstico molecular incluído em uma lista de emergência para a doença causada pelo vírus Bundibugyo.

O surto envolve o vírus Bundibugyo, uma espécie de Ebola para a qual, segundo a OMS, ainda não havia vacina licenciada ou tratamento específico no início da resposta. Em agosto, entretanto, a organização informou a liberação inicial de 70 mil doses da vacina Ervebo para a RD Congo: 20 mil destinadas a um ensaio clínico de fase 3 e 50 mil para trabalhadores da linha de frente e profissionais de saúde, conforme as recomendações vigentes.

A OMS também informou que a organização mobilizou mais de 260 especialistas e enviou mais de 330 toneladas de suprimentos médicos e operacionais para apoiar a resposta. O reforço da vigilância e da preparação também alcança países vizinhos, com compartilhamento de informações e planejamento conjunto para identificar e conter eventuais casos importados.

Vigilância nas fronteiras entra na próxima fase

Com a expansão para uma sexta província, a estratégia para os próximos meses prevê o fortalecimento da vigilância ao longo do Rio Congo e das fronteiras nacionais. A OMS também defende maior integração entre as autoridades dos países vizinhos para facilitar a identificação de casos e reduzir o risco de disseminação internacional.

A situação epidemiológica permanece concentrada em Ituri, mas o vírus já alcançou outras áreas. Em relatório de 14 de agosto, a OMS registrava 4.665 casos confirmados e 2.184 mortes na RD Congo até 12 de agosto, distribuídos por 54 zonas de saúde em seis províncias. O relatório também apontava uma taxa de letalidade de 46,8% entre os casos confirmados naquele momento.

A organização considera prioritário detectar os casos mais rapidamente, chegar às comunidades antes da evolução da doença e fortalecer as operações nas áreas com maior transmissão. A interrupção dos conflitos também é apontada como necessária para garantir o acesso seguro das equipes às populações afetadas e ampliar a capacidade de controle da cadeia de transmissão.

OMS aponta necessidade de ampliar resposta comunitária

Para Tedros Adhanom Ghebreyesus, o controle da epidemia depende da ampliação das ações diretamente nas comunidades afetadas, sob liderança das autoridades nacionais, provinciais e locais e com recursos suficientes para manter as operações.

A experiência dos primeiros 100 dias demonstra, segundo a OMS, que houve aumento da capacidade de diagnóstico, tratamento, prevenção de infecções e acompanhamento de contatos, mas também permanecem lacunas operacionais que favorecem a transmissão.

A próxima etapa da resposta deverá combinar vigilância epidemiológica, rastreamento de contatos, atendimento precoce, participação comunitária, segurança das equipes e cooperação internacional. A OMS considera os próximos meses decisivos para ampliar os avanços registrados e reduzir a transmissão da doença na RD Congo.

*Com informações da ONU News.


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