Neste domingo (16/08/2026), as Eleições Gerais de 2026 entraram oficialmente na fase de campanha, com a liberação da propaganda nas ruas e na internet, dos pedidos explícitos de voto e da realização de comícios, caminhadas, carreatas e outros atos públicos. A largada ocorre em um cenário nacional ainda concentrado no confronto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), enquanto candidatos de partidos que buscam romper a polarização tentam ampliar o conhecimento de seus nomes e conquistar espaço no debate público.
A disputa presidencial também começa a reorganizar as campanhas estaduais. Na Bahia, a influência dos palanques nacionais será um dos principais fatores da eleição entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT), candidato à reeleição, e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Enquanto Jerônimo procura associar sua candidatura à liderança de Lula no eleitorado baiano, ACM Neto busca nacionalizar menos a escolha estadual e ampliar sua presença territorial no interior.
As Eleições de 2026 mobilizarão 158.745.463 eleitores, crescimento de aproximadamente 2,3 milhões, ou 1,46%, em comparação com 2022. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Caso nenhum candidato à Presidência ou aos governos estaduais obtenha a maioria dos votos válidos, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral.
Presidenciáveis recorrem a lugares simbólicos para iniciar campanha
Os principais candidatos à Presidência escolheram locais relacionados às próprias trajetórias ou às bases eleitorais que pretendem consolidar. A definição das agendas iniciais revela como cada campanha procura apresentar sua identidade ao eleitorado.
Lula programou o primeiro comício oficial no Estádio Municipal 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. O espaço foi palco das greves dos metalúrgicos de 1979, movimento que projetou nacionalmente o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e contribuiu para a formação da base política que posteriormente fundaria o PT.
A escolha recupera a memória sindical e apresenta Lula como representante histórico dos trabalhadores. Também procura reforçar uma conexão com as origens do partido em um momento no qual o presidente disputa a reeleição sob os efeitos do desgaste natural de quem ocupa o governo e de uma rejeição eleitoral elevada.
Flávio Bolsonaro escolheu a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para abrir a campanha. A orla tornou-se um dos principais pontos de mobilização do bolsonarismo e recebeu grandes manifestações organizadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O ato procura mobilizar a base conservadora e consolidar Flávio como herdeiro eleitoral do pai.
O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) iniciou sua movimentação por municípios goianos situados no entorno do Distrito Federal. O roteiro inclui Águas Lindas de Goiás, Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso, Cidade Ocidental e Luziânia. A estratégia combina a valorização da base regional do candidato com a aproximação de um eleitorado diretamente influenciado pela atividade econômica e administrativa de Brasília.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) escolheu Montes Claros, no norte mineiro. Além da importância nacional de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, a região representa um território no qual a esquerda tradicionalmente apresenta desempenho competitivo. A campanha procura, portanto, avançar fora das áreas nas quais Zema e o Novo já possuem maior reconhecimento.
Renan Santos (Missão) marcou sua largada no Largo São Francisco, no centro de São Paulo, onde está situada a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Ligado ao Movimento Brasil Livre, o candidato busca associar sua campanha à mobilização política de jovens e ao discurso de renovação, embora enfrente o desafio de transformar projeção digital em capilaridade eleitoral nacional.
A utilização de lugares históricos não é apenas um recurso visual. Cada cenário procura condensar uma narrativa: Lula recorre à tradição sindical; Flávio Bolsonaro, à mobilização conservadora; Caiado, às suas raízes goianas; Zema, à interiorização de sua candidatura; e Renan Santos, à identidade política construída no ambiente universitário e nas redes sociais.
Pesquisas mostram Lula e Flávio à frente, mas rejeição limita os dois candidatos
A pesquisa Datafolha divulgada em 24 de julho de 2026 apontou Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, com 32%. Ronaldo Caiado apareceu com 4%; Romeu Zema e Renan Santos registraram 3% cada; e Augusto Cury (Avante), 2%.
No cenário de segundo turno, Lula alcançou 48%, diante de 43% de Flávio. O presidente também venceria Caiado por 47% a 40% e Zema por 48% a 40%. O levantamento ouviu 2.004 eleitores em 139 municípios, nos dias 22 e 23 de julho, e foi registrado no TSE sob o número BR-01166/2026.
A rejeição, entretanto, demonstra que a vantagem de ambos sobre os concorrentes convive com limites eleitorais. Segundo o Datafolha, 48% afirmaram que não votariam em Flávio Bolsonaro, enquanto 46% rejeitaram Lula. Os demais nomes apresentaram rejeição inferior a 14%, mas também enfrentaram menor conhecimento entre os eleitores.
A pesquisa Genial/Quaest, realizada entre 31 de julho e 3 de agosto, encontrou cenário semelhante. Lula apareceu com 39%, contra 30% de Flávio no primeiro turno. Caiado e Renan Santos obtiveram 4% cada, e Zema, 2%. Em eventual segundo turno, Lula venceria Flávio por 44% a 39%.
A Quaest entrevistou presencialmente 2.004 eleitores, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado sob o número BR-06591/2026.
Apesar das diferenças numéricas, os dois estudos apontam a mesma estrutura básica: Lula e Flávio ocupam posições destacadas, enquanto os demais candidatos disputam reconhecimento, exposição pública e uma eventual parcela do eleitorado que rejeita simultaneamente os dois líderes.
Cobertura nacional concentra atenção nos candidatos mais competitivos
A centralidade das pesquisas também influencia a cobertura jornalística. Em seu canal oficial, O Globo promoveu um debate com especialistas em pesquisas eleitorais para examinar os cenários da corrida presidencial e discutir quem poderá ocupar o Palácio do Planalto a partir de 2027.
O g1 e a GloboNews também organizaram uma rodada de entrevistas com os cinco candidatos mais bem posicionados no Datafolha: Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos. O critério foi informado publicamente pela emissora e correspondeu à classificação registrada pelo levantamento de julho. A cobertura especial foi anunciada pelo Jornal Nacional.
A exposição concentrada nos nomes mais competitivos segue uma lógica jornalística relacionada à relevância eleitoral. Ao mesmo tempo, evidencia um dos dilemas das campanhas multipartidárias: candidatos menos conhecidos necessitam de cobertura para crescer, mas frequentemente recebem menos espaço justamente porque ainda apresentam percentuais reduzidos.
A partir do início oficial da campanha, entrevistas, debates, sabatinas e a cobertura cotidiana dos programas de governo terão papel decisivo para diferenciar os candidatos. A comparação entre propostas para economia, segurança pública, educação, saúde, política externa, equilíbrio fiscal e funcionamento das instituições será necessária para que a eleição não se reduza à disputa de personalidades ou ao confronto entre grupos políticos já consolidados.
Bahia reúne força eleitoral de Lula e disputa estadual equilibrada
A Bahia apresenta um quadro particular. Lula possui ampla vantagem sobre Flávio Bolsonaro no estado, mas a candidatura de Jerônimo Rodrigues não reproduz automaticamente o mesmo desempenho na eleição para governador.
Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 11 de agosto apontou Lula com 56% das intenções de voto entre os eleitores baianos, diante de 23% de Flávio Bolsonaro. Renan Santos registrou 5%; Ronaldo Caiado, 3%; Romeu Zema e Augusto Cury, 1% cada.
No mesmo ciclo de pesquisas, ACM Neto apareceu com 44% na disputa pelo Governo da Bahia, e Jerônimo Rodrigues, com 42%. Como a margem de erro informada é de dois pontos percentuais, o resultado configura empate técnico. Em eventual segundo turno, ACM Neto marcou 45%, e Jerônimo, 44%.
A pesquisa ouviu 1.600 eleitores, entre 6 e 10 de agosto, por meio de abordagens telefônicas e digitais. O nível de confiança informado é de 95%. O levantamento estadual foi registrado sob o número BA-00277/2026, enquanto o módulo presidencial recebeu o protocolo BR-05205/2026.
Os números revelam uma diferença importante entre a eleição nacional e a estadual. Lula supera Flávio Bolsonaro por 33 pontos percentuais na Bahia, mas Jerônimo e ACM Neto estão separados por apenas dois pontos no principal cenário para governador. A distância demonstra que o eleitor baiano pode combinar escolhas de campos políticos distintos ao votar para presidente e governador.
O levantamento do Paraná Pesquisas, divulgado em 3 de agosto, apresentou resultado diferente. Naquela sondagem, ACM Neto alcançou 48,9%, e Jerônimo, 38,7%, diferença nominal de 10,2 pontos. Foram entrevistados presencialmente 1.400 eleitores em 60 municípios, entre 31 de julho e 2 de agosto. A margem de erro foi estimada em 2,7 pontos percentuais, e o registro recebeu o número BA-03043/2026.
As diferenças entre os institutos não devem ser interpretadas isoladamente como prova de alteração abrupta do eleitorado. Os levantamentos utilizaram metodologias, períodos de campo, questionários e formas de coleta distintas. Pesquisas eleitorais retratam as respostas obtidas dentro de determinada amostra e não constituem antecipação do resultado das urnas.
Jerônimo aproxima campanha de Lula, e ACM Neto investe no interior
As agendas inaugurais dos dois principais concorrentes ao Governo da Bahia traduzem estratégias diferentes.
Jerônimo Rodrigues programou participação no ato de Lula em São Bernardo do Campo antes de retornar à Bahia para o primeiro comício estadual em Irecê. A presença no lançamento presidencial reforça o esforço de vincular sua candidatura ao desempenho eleitoral de Lula no estado e de apresentar a continuidade administrativa entre os governos estadual e federal como um dos eixos da campanha.
O governador também conta em sua chapa com as candidaturas de Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado. A composição reúne três nomes do PT que ocuparam o Governo da Bahia desde 2007 e procura consolidar a identidade política do grupo que administra o estado há quase duas décadas.
ACM Neto adotou uma largada territorial no interior. A agenda prevê encontro com lideranças em Carinhanha, comício em Correntina e participação em atividade política em Coribe. O roteiro concentra-se no oeste e no sudoeste baianos, regiões nas quais a articulação com prefeitos, ex-prefeitos, parlamentares e lideranças municipais terá importância para a expansão da campanha.
O candidato do União Brasil forma chapa com Zé Cocá (PP) como vice e com Angelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL) como candidatos ao Senado. A presença de Roma oferece uma conexão com o eleitorado bolsonarista, enquanto Coronel amplia a interlocução com setores anteriormente ligados à base governista.
A estratégia da oposição combina interiorização, ampliação partidária e tentativa de apresentar a eleição estadual como avaliação direta do governo Jerônimo. O grupo governista, por sua vez, deverá associar a campanha às obras estaduais, aos investimentos federais e à força de Lula no Nordeste.
A disputa também será influenciada pela distribuição do horário eleitoral. Projeção publicada pelo Jornal Grande Bahia indicou 4 minutos e 57 segundos para ACM Neto, 3 minutos e 30 segundos para Jerônimo e 32 segundos para Ronaldo Mansur por bloco. Os números são preliminares e dependem da consolidação dos registros e do plano de mídia da Justiça Eleitoral. Leia a análise do tempo de televisão no JGB.
Propaganda nas ruas e na internet passa a seguir regras específicas
Desde 16 de agosto, candidatos podem pedir votos explicitamente, promover propaganda na internet e impulsionar conteúdos eleitorais. A circulação paga ou impulsionada será permitida até 1º de outubro, desde que respeite as exigências de identificação, contratação e prestação de contas.
As transmissões ao vivo realizadas por candidatos para promoção pessoal ou divulgação de atos relacionados ao exercício do mandato passam a ser consideradas atos públicos de campanha, mesmo quando não houver referência explícita à eleição.
A partir da mesma data, ficam proibidas as enquetes relacionadas ao processo eleitoral. Pesquisas científicas continuam permitidas, mas precisam ser registradas antecipadamente na Justiça Eleitoral e apresentar informações sobre contratante, metodologia, recursos utilizados, plano amostral, margem de erro e período de realização.
Alto-falantes e amplificadores poderão funcionar entre 8h e 22h, observadas as distâncias mínimas de hospitais, escolas, igrejas, tribunais, sedes dos Poderes e estabelecimentos militares. Comícios com sonorização fixa serão permitidos entre 8h e 24h, até 1º de outubro. Caminhadas, carreatas e distribuição de material gráfico poderão ocorrer até as 22h de 3 de outubro.
O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começará em 28 de agosto e seguirá até 1º de outubro. Antes disso, a Justiça Eleitoral elaborará os planos de mídia responsáveis pela distribuição dos programas e das inserções entre partidos, federações e coligações. Consulte as regras no TSE.
A propaganda produzida com inteligência artificial deverá informar, de forma explícita e acessível, que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e identificar a tecnologia utilizada. O emprego de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas permanece proibido, inclusive quando houver autorização da pessoa cuja imagem ou voz foi reproduzida.
Cenários
A largada das Eleições 2026 confirma que o confronto entre Lula e o campo político representado pela família Bolsonaro continuará organizando parte substancial do debate nacional. Os dois principais candidatos concentram intenções de voto, recursos políticos, bases mobilizadas e elevada exposição pública, mas também apresentam os maiores índices de rejeição.
Esse quadro oferece espaço teórico para uma candidatura alternativa, porém Caiado, Zema e Renan Santos iniciam a campanha com percentuais reduzidos e níveis significativos de desconhecimento. O desafio desses concorrentes não consiste apenas em formular uma plataforma distinta, mas em convencer o eleitorado de que possuem viabilidade para chegar ao segundo turno.
Na Bahia, o cenário é mais complexo. A vantagem expressiva de Lula não assegura transferência automática de votos para Jerônimo. O eleitorado distingue a avaliação do Governo Federal da percepção sobre a administração estadual e considera fatores locais, como segurança pública, infraestrutura, saúde, educação, alianças municipais e identidade regional.
Jerônimo precisa transformar a popularidade de Lula em apoio estadual sem perder a condição de protagonista de sua própria campanha. ACM Neto, por sua vez, necessita preservar o voto oposicionista e ampliar alianças sem permitir que sua chapa seja reduzida, pelo adversário, a uma extensão estadual do bolsonarismo.
A concentração da cobertura nos candidatos mais bem posicionados é compreensível sob o critério da relevância, mas produz efeitos sobre a própria competição: visibilidade gera conhecimento, e conhecimento pode gerar intenção de voto. Cabe aos veículos informar claramente seus critérios, acompanhar todas as candidaturas formalmente registradas e oferecer espaço proporcional à relevância dos fatos e das propostas.
Também será indispensável impedir que o combate à desinformação se converta em restrição indevida ao debate legítimo. A fiscalização deve alcançar fraudes, falsificações digitais, conteúdos manipulados e abusos econômicos, preservando simultaneamente a crítica política, a liberdade editorial, o contraditório e o direito do eleitor de conhecer posições divergentes.
Os pedidos apresentados até 15 de agosto ainda dependem da análise da Justiça Eleitoral. O registro protocolado não equivale automaticamente ao deferimento definitivo, e eventuais impugnações, substituições ou decisões judiciais poderão modificar aspectos das chapas e da propaganda ao longo da campanha.








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