O quarto dia do Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (FLIFS) reuniu, na sexta-feira (28/08/2026), dois encontros de perfis distintos no Centro de Convenções: às 16h, o sociólogo, escritor e professor Jessé Souza participou de uma conversa sobre sua obra e questões da sociedade brasileira; às 20h, a cantora e compositora Agnes Nunes, nascida em Feira de Santana e radicada desde a infância na Paraíba, retornou à cidade depois de aproximadamente 24 anos para uma apresentação no Palco Márcia Porto. A jornada incluiu ainda teatro, cinema, cordel, atividades escolares, lançamentos de livros e apresentações musicais, dentro da primeira edição do festival realizada no novo equipamento cultural. Antes do início das atividades de sexta-feira, 26.354 pessoas já haviam passado pela FLIFS nos três primeiros dias.
Agnes Nunes transforma retorno à cidade natal em um dos momentos da FLIFS
O show de Agnes Nunes, marcado para as 20h, encerrou a programação musical principal da sexta-feira. Antes dela, Damares Teçá e Maria Struduth se apresentaram às 18h30. A programação oficial do quarto dia também reuniu apresentações de escolas, a mesa sobre o cinema de Olney São Paulo, espetáculos cênicos, recital de cordel e lançamentos literários.
O significado particular da participação de Agnes estava relacionado à própria trajetória da artista. Ela nasceu em Feira de Santana, mas mudou-se com a mãe para a Paraíba ainda bebê, aos nove meses de idade. Passou parte da infância no sertão paraibano e posteriormente viveu em Campina Grande. Em entrevista concedida durante a FLIFS, relacionou o retorno à cidade natal à memória familiar e à formação cultural que influencia sua produção musical.
“É uma felicidade imensa retornar a Feira de Santana e me sentir em casa […] a leitura sempre esteve presente na minha vida, e fui muito influenciada pela literatura nordestina na composição das minhas músicas”, afirmou Agnes.
Em outra entrevista, concedida ao Acorda Cidade após a apresentação, a cantora afirmou que o convite para voltar a Feira despertou ansiedade e destacou também o reencontro com integrantes de sua família paterna. Segundo Agnes, a recepção recebida na cidade reforçou a percepção de retorno às próprias origens.
Carreira de Agnes passou das redes sociais aos grandes festivais
A participação na FLIFS ocorreu em um momento de consolidação da trajetória profissional da cantora. Agnes ganhou projeção inicialmente com vídeos publicados em redes sociais e plataformas digitais e passou a desenvolver carreira autoral combinando referências de MPB, R&B, pop e outras vertentes da música brasileira.
Em 28/01/2022, lançou o primeiro álbum, “Menina Mulher”, com dez faixas. O trabalho abordou temas relacionados ao amadurecimento, identidade, autoestima e relações afetivas e teve produção de Neo Beats e Kassin.
O segundo álbum de estúdio, “O Amor e Suas Variáveis”, foi lançado em 30/05/2024, também com dez faixas. Em 21/03/2026, cinco meses antes do retorno a Feira de Santana, Agnes integrou a programação do Lollapalooza Brasil, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, onde se apresentou no Palco Budweiser. A sequência ajuda a dimensionar o caráter simbólico da apresentação na cidade onde nasceu: o retorno ocorreu após uma trajetória construída fora do município e já inserida em circuitos musicais nacionais de grande alcance.
Jessé Souza leva debate sobre desigualdade e estrutura social ao festival
A programação da tarde teve como outro ponto central a participação de Jessé Souza, às 16h, no Teatro Carlos Pitta, em conversa mediada por Clóvis Ramaiana, da UEFS. O encontro se inseriu no eixo de debates da FLIFS voltado à interpretação do Brasil contemporâneo.
Sociólogo, escritor e professor, Souza desenvolve produção acadêmica concentrada principalmente em desigualdade, estratificação social, formação das classes, relações de poder e interpretação da sociedade brasileira. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão A Ralé Brasileira e A Elite do Atraso. Também presidiu o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a partir de abril de 2015.
A presença do pesquisador ampliou a dimensão do festival para além da circulação de obras literárias. Durante sua participação, ele associou encontros culturais e literários à ampliação das possibilidades de formação crítica, especialmente entre crianças e jovens.
“Eventos como o FLIFS possibilitam que crianças e adolescentes que nunca tiveram contato com o cordel, a poesia e outras formas de literatura possam ter um encontro com a cultura e transformar seu pensamento crítico e social”, disse Jessé Souza.
Sua participação também estabeleceu uma conexão entre literatura e ciências sociais. A abordagem desenvolvida pelo autor procura interpretar desigualdades não apenas pela dimensão econômica, mas também pelas estruturas simbólicas, culturais e sociais que condicionam a formação das classes e as oportunidades disponíveis aos diferentes grupos da população. Em entrevista institucional publicada pelo Ipea quando presidia o órgão, Souza já sustentava que a desigualdade brasileira envolve elementos que ultrapassam renda e consumo.
Cinema, teatro, livros e memória de Feira integram quarto dia
A programação de sexta-feira começou com atividades escolares às 9h. Às 10h, a mesa “Feira de Santana no cinema de Olney São Paulo” reuniu participantes para discutir a produção do cineasta feirense e sua relação com a memória audiovisual da cidade e da região. Às 10h30, ocorreu apresentação do Coral da Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI/UEFS).
Durante a tarde, o festival recebeu apresentações escolares, a mesa “Uma autora, dois autores: três mundos”, com Fabrício Oliveira, Rita Santana e Salgado Maranhão, e o espetáculo “Rominho e Marieta”. Às 17h, o espetáculo “Lucas da Feira” utilizou a linguagem teatral para abordar uma das personagens históricas mais conhecidas e controversas da trajetória de Feira de Santana.
O mesmo horário abrigou uma mesa de lançamentos de livros, seguida por nova sessão às 18h30. A programação previamente divulgada para toda a edição previa cerca de 95 lançamentos, além de oficinas, espetáculos, exposições, atividades infantis e espaços dedicados à cultura popular.
Na Praça do Cordel Dadinho e Caboquinho, a sexta-feira começou com recital reunindo autores de diferentes municípios baianos e de outros estados. A presença permanente do cordel no festival estabelece uma relação histórica entre formação de leitores, oralidade, produção popular e circulação editorial — dimensões que acompanham a própria FLIFS desde suas primeiras edições.
Primeira FLIFS no Centro de Convenções amplia estrutura
A 19ª edição representa uma mudança estrutural na história do evento. Pela primeira vez, a FLIFS foi transferida para o Centro de Convenções de Feira de Santana, no bairro São João. O festival ocorre de 25 a 30/08/2026, com o tema “Feira é o Mundo”, seis dias de programação e entrada gratuita. O site oficial registra mais de 31 expositores.
A mudança foi anunciada após o crescimento registrado na edição anterior. Em 2025, segundo a Fundação Pedro Calmon, aproximadamente 60 mil pessoas participaram do festival e 10 mil vales-livro foram distribuídos. Ao final daquela edição, uma carta com 1.242 assinaturas foi encaminhada à Fundação defendendo a transformação das feiras, festas e festivais literários em política pública permanente de Estado na Bahia.
Nos três primeiros dias da edição de 2026, o levantamento divulgado pelo Acorda Cidade registrou 26.354 visitantes: 6.459 na terça-feira (25), 7.345 na quarta (26) e 12.550 na quinta (27). A coordenadora da FLIFS, Cristiana Oliveira, afirmou que a adesão de escolas e do público estava superando as expectativas iniciais da organização.
O Centro de Convenções dispõe de aproximadamente 23 mil metros quadrados, segundo levantamento publicado durante a feira. Para esta edição, foram ocupados diferentes ambientes, incluindo espaços de exposição, Praça do Cordel, áreas de oficinas, alimentação, atividades infantis, Teatro Carlos Pitta e ambientes de apoio.
Festival nasceu de articulação iniciada em 2007 e teve primeira edição em 2008
A origem institucional da FLIFS remonta a 2007, quando educadores e instituições começaram a construir uma iniciativa voltada à democratização do acesso ao livro e à formação de leitores. A própria Prefeitura de Feira de Santana registra 2007 como o ano de criação do projeto.
A primeira edição efetivamente realizada ocorreu entre 30/05 e 01/06/2008, na Praça Monsenhor Renato Galvão, conhecida como Praça da Matriz. A programação daquele período já incluía palestras, oficinas, recitais, teatro, contação de histórias, lançamentos e literatura de cordel, características que permaneceriam associadas ao festival nas edições seguintes.
Uma década depois, em 11/05/2018, foi sancionada a Lei Estadual nº 13.934/2018, que declarou o Festival Literário e Cultural de Feira de Santana — então também denominado Feira do Livro — Patrimônio Cultural Imaterial do Estado da Bahia. A norma foi publicada no Diário Oficial estadual em 12/05/2018. Na 11ª edição, realizada naquele mesmo ano, o evento passou a utilizar a sigla FLIFS.
A construção histórica esclarece uma diferença temporal importante: o projeto começou a ser articulado em 2007, mas a sequência de edições que chega à 19ª FLIFS em 2026 tem como marco inaugural a feira realizada em 2008.
Formação de leitores permanece como eixo institucional
Apesar da ampliação da música, das artes cênicas e dos debates sociais, o livro continua sendo o elemento estruturante da FLIFS. Um dos mecanismos utilizados pelo festival é o vale-livro, destinado a estudantes e professores de redes públicas e a públicos vinculados a instituições educacionais parceiras.
Segundo a organização, a iniciativa permite que beneficiários escolham diretamente as obras que desejam adquirir, combinando incentivo à leitura, autonomia de escolha e circulação econômica entre editoras, livrarias, sebos e expositores. O programa envolve UEFS, redes públicas de ensino e instituições parceiras.
Essa dimensão educacional explica a presença cotidiana de escolas na programação, com apresentações, visitação orientada e atividades formativas. O modelo coloca estudantes não apenas como público consumidor de programação cultural, mas também como participantes de produções literárias, musicais, teatrais e artísticas.
FLIFS chega ao último dia com encerramento e show de Armandinho
Após o quarto dia protagonizado por Agnes Nunes, Jessé Souza e outras atrações, a FLIFS prosseguiu no sábado (29) com novas conversas literárias, apresentações, cordel, atividades infantis e programação cultural.
Neste domingo (30/08/2026), último dia da 19ª edição, estão previstas atividades ao longo da manhã e da tarde. O encerramento institucional está programado para as 16h15, na Praça do Cordel, seguido, às 17h, pelo show de Armandinho, no Palco Márcia Porto.
O resultado definitivo de público da edição de 2026 somente poderá ser estabelecido após o encerramento e a consolidação dos dados da organização. Até o quarto dia, portanto, a comparação com as aproximadamente 60 mil pessoas registradas em 2025 permanece dependente do balanço final do festival.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2007 — Criação e articulação inicial: educadores e instituições começam a estruturar em Feira de Santana uma iniciativa permanente voltada ao livro, à leitura e à cultura.
- 30/05 a 01/06/2008 — Primeira edição: a Feira do Livro de Feira de Santana é realizada na Praça Monsenhor Renato Galvão, com literatura, teatro, oficinas, cordel e atividades culturais.
- 11/05/2018 — Reconhecimento estadual: a Lei nº 13.934/2018 declara o Festival Literário e Cultural de Feira de Santana Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia.
- 2018 — Adoção da sigla FLIFS: a 11ª edição inaugura uma nova identidade pública para o evento.
- 28/01/2022 — “Menina Mulher”: Agnes Nunes lança seu primeiro álbum de estúdio.
- 30/05/2024 — Segundo álbum: Agnes lança “O Amor e Suas Variáveis”, com dez faixas.
- 23 a 28/09/2025 — 18ª FLIFS: o festival recebe aproximadamente 60 mil pessoas e distribui 10 mil vales-livro.
- 21/03/2026 — Agnes no Lollapalooza: a cantora participa do festival em São Paulo, no Palco Budweiser.
- 08/07/2026 — Lançamento da 19ª edição: a programação é apresentada oficialmente, já com a mudança para o Centro de Convenções.
- 25/08/2026 — Abertura da FLIFS 2026: começa a primeira edição realizada no Centro de Convenções de Feira de Santana.
- 25 a 27/08/2026 — Primeiros três dias: levantamento registra 26.354 visitantes.
- 28/08/2026 — Quarto dia: Jessé Souza participa de conversa às 16h; o espetáculo “Lucas da Feira” ocorre às 17h; e Agnes Nunes sobe ao palco às 20h após cerca de 24 anos distante da cidade natal.
- 30/08/2026 — Encerramento: a 19ª edição chega ao último dia, com encerramento institucional previsto para as 16h15 e show de Armandinho às 17h.
O quarto dia da FLIFS evidenciou uma característica construída gradualmente pelo festival: sua expansão de uma feira essencialmente dedicada ao livro para um evento cultural multidisciplinar. A coexistência, em poucas horas, de discussão sociológica, cinema, memória local, cordel, produção editorial, teatro, apresentações escolares e música revela uma concepção ampla de formação de leitores, na qual a leitura é relacionada a outras formas de expressão e interpretação da sociedade.
A transferência para o Centro de Convenções representa, por sua vez, uma decisão com consequências institucionais mensuráveis. O crescimento de público observado em 2025 havia criado pressão por infraestrutura, circulação, acessibilidade e multiplicação de atividades simultâneas. Os 26.354 visitantes dos três primeiros dias de 2026 indicam adesão relevante ao novo formato, mas qualquer conclusão sobre crescimento efetivo deverá aguardar o balanço consolidado após o encerramento.
Há também uma dimensão de política pública. O reconhecimento da FLIFS pela Lei nº 13.934/2018, a participação de universidades e redes de ensino, a distribuição de vales-livro e a reivindicação formulada em 2025 por 1.242 signatários mostram que a continuidade dos festivais literários ultrapassa a organização de eventos isolados e alcança discussões sobre financiamento, formação de leitores e institucionalização de políticas do livro e da leitura.
O encontro de Agnes Nunes com sua cidade natal e a participação de Jessé Souza condensaram, no quarto dia, duas dimensões complementares da FLIFS: identidade cultural e reflexão social. O encerramento da edição transfere agora a atenção para os resultados objetivos do evento — público final, alcance dos programas de incentivo à leitura, circulação editorial e avaliação do novo espaço. Caberá à UEFS, ao Sesc, aos parceiros públicos e educacionais e às demais instituições envolvidas consolidar esses dados e definir os próximos passos de um festival que, desde sua origem, combina cultura, educação e formação de leitores.









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