O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou, neste sábado (01/08/2026), em Salvador, um desafio político ao governador Jerônimo Rodrigues: organizar o campo governista para conquistar a Prefeitura da capital baiana no próximo ciclo eleitoral municipal. Durante a convenção estadual da Federação Brasil da Esperança, realizada no Parque de Exposições da Bahia, Lula prometeu participar do projeto e afirmou que o alinhamento entre os governos federal, estadual e municipal poderia ampliar investimentos em saneamento, habitação, infraestrutura e serviços públicos, especialmente nas áreas periféricas da cidade.
Diante de militantes, dirigentes partidários, prefeitos e candidatos, o presidente observou que o grupo liderado pelo PT governa a Bahia há quase duas décadas, mas nunca conseguiu eleger um prefeito em Salvador. Ao colocar a capital entre as próximas prioridades políticas da legenda, Lula atribuiu a Jerônimo a responsabilidade de articular uma candidatura progressista e declarou estar disposto a ajudá-lo nessa tarefa.
O ato confirmou a candidatura de Jerônimo Rodrigues à reeleição, tendo novamente Geraldo Júnior, do MDB, como candidato a vice-governador. A convenção também homologou Jaques Wagner e Rui Costa, ambos do PT, para as duas vagas da Bahia no Senado, além das candidaturas proporcionais à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa. Formalmente, o encontro reuniu a Federação Brasil da Esperança, constituída por PT, PCdoB e PV, e partidos aliados da chapa governista.
Lula transforma Salvador em objetivo estratégico do grupo governista
Ao abordar a administração da capital, Lula evitou mencionar diretamente o prefeito Bruno Reis, do União Brasil, mas fez uma crítica política à situação urbana de Salvador. O presidente afirmou que quem circula pela cidade percebe que ela está “meio abandonada” e acrescentou que a capital “precisa de vida”. As declarações foram apresentadas como justificativa para a construção de um projeto municipal alinhado aos governos estadual e federal.
Lula sustentou que a integração administrativa entre União, Estado e Município poderia favorecer a execução de políticas públicas e a atração de novos investimentos. Segundo o presidente, uma gestão municipal pertencente ao mesmo campo político facilitaria a cooperação em projetos estruturantes e permitiria transformar Salvador em uma cidade mais integrada, urbanizada e socialmente inclusiva.
O discurso conferiu dimensão institucional à disputa municipal. Embora a próxima eleição para prefeito ocorra apenas em 2028, o presidente indicou que a preparação do projeto deverá começar com antecedência, por meio da formação de uma base partidária, da escolha de um nome competitivo e da elaboração de um programa voltado aos problemas concretos enfrentados pelos moradores da capital.
Periferias, saneamento e habitação ocupam o centro do discurso
Ao detalhar as prioridades que, em sua avaliação, deveriam orientar uma futura candidatura aliada, Lula destacou os bairros populares e as periferias de Salvador. O presidente defendeu investimentos em saneamento básico, moradia, infraestrutura urbana e serviços públicos, associando a disputa eleitoral à necessidade de melhorar as condições de vida da população de menor renda.
Lula também estabeleceu uma contraposição entre obras de caráter estético e intervenções estruturais. Ao afirmar que não basta executar ações de embelezamento na orla ou pintar calçadas e meios-fios, o presidente defendeu que o planejamento municipal alcance comunidades marcadas por déficits históricos de urbanização, habitação e acesso a equipamentos públicos.
A formulação busca apresentar o eventual projeto petista para Salvador como uma agenda de redução das desigualdades territoriais. Entretanto, o discurso não foi acompanhado, durante a convenção, de indicadores específicos sobre saneamento, moradia, mobilidade ou serviços municipais que permitissem avaliar objetivamente a afirmação de que a cidade estaria abandonada.
Domínio estadual do PT contrasta com dificuldade eleitoral na capital
O desafio anunciado por Lula expõe uma das principais contradições eleitorais do PT na Bahia. A legenda comanda o Governo do Estado desde janeiro de 2007, quando Jaques Wagner assumiu o Palácio de Ondina, e manteve a sequência administrativa com Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. Apesar dessa continuidade, o partido nunca elegeu um prefeito de Salvador.
Em 2012, o então deputado federal ACM Neto, à época filiado ao Democratas, venceu o petista Nelson Pelegrino no segundo turno. Neto foi reeleito em 2016 com 73,99% dos votos válidos e consolidou um grupo político que permaneceu no comando municipal com a eleição de Bruno Reis em 2020.
Nas eleições municipais de 2024, Bruno Reis foi reeleito no primeiro turno com 1.045.690 votos, equivalentes a 78,67% dos votos válidos. O resultado demonstrou a força eleitoral da administração municipal e ampliou o desafio enfrentado pelo PT e por seus aliados para construir uma candidatura capaz de disputar a sucessão municipal em 2028.
Jerônimo Rodrigues é colocado no centro da articulação
Ao dirigir o desafio diretamente a Jerônimo, Lula conferiu ao governador uma função que ultrapassa a disputa estadual de 2026. Além de buscar a própria reeleição, o chefe do Executivo baiano passa a ser publicamente responsabilizado pela organização política, partidária e programática de um projeto para Salvador.
Durante a convenção, Jerônimo reforçou a aliança com o presidente e afirmou que Bahia e Brasil continuariam “de mãos dadas” na ampliação das políticas públicas. O governador também ressaltou o apoio recebido de Lula, Jaques Wagner, Rui Costa, Geraldo Júnior, Otto Alencar e das lideranças municipais que integram a coalizão governista.
Lula, por sua vez, elogiou a sensibilidade social do governador e associou sua liderança à atenção dispensada às pessoas mais necessitadas. O pronunciamento buscou fortalecer a imagem de Jerônimo como principal articulador estadual do campo governista e como elo entre o projeto nacional do PT, a campanha estadual e a futura disputa municipal.
Convenção integra estratégia para as Eleições 2026
Embora Lula tenha introduzido a eleição municipal de 2028 no horizonte político do grupo, a prioridade imediata da convenção foi a organização da chapa governista para as Eleições 2026. A coalizão pretende reeleger o presidente, manter Jerônimo no Governo da Bahia, eleger Jaques Wagner e Rui Costa para o Senado e ampliar suas bancadas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa.
O encontro também reforçou a tentativa de vincular as candidaturas estaduais à liderança nacional de Lula. A presença do presidente no Parque de Exposições foi utilizada como demonstração do peso estratégico da Bahia na eleição presidencial e como instrumento de mobilização da militância e das bases municipais.
Jerônimo, Geraldo Júnior, Wagner e Rui deverão percorrer o estado em agendas conjuntas durante a campanha. Paralelamente, a construção de uma alternativa para Salvador dependerá da definição de lideranças locais, da recomposição de alianças e da capacidade de formular um projeto que dialogue com um eleitorado que, nas últimas quatro eleições municipais, concedeu vitórias expressivas ao grupo adversário.
Declaração abre nova frente de confronto político em Salvador
A fala de Lula tende a ampliar o confronto entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Salvador. Antes da convenção, Bruno Reis já havia minimizado a influência do presidente na disputa estadual e afirmado que o PT repetia a estratégia de recorrer a uma liderança nacional para fortalecer seus candidatos na Bahia. Segundo o prefeito, a escolha do governador deveria ser decidida pelos eleitores baianos com base nas candidaturas estaduais.
Até a conclusão desta reportagem, não havia sido localizada manifestação pública de Bruno Reis especificamente sobre a afirmação de Lula de que Salvador estaria abandonada. A ausência de resposta imediata não impede que a declaração se transforme em tema recorrente do debate político, especialmente porque o prefeito integra o grupo de ACM Neto, principal adversário de Jerônimo na eleição estadual.
O embate deverá envolver comparações entre investimentos municipais e estaduais em mobilidade, saúde, educação, segurança, saneamento, habitação e infraestrutura. Para que o debate atenda ao interesse público, as avaliações políticas precisarão ser confrontadas com dados verificáveis, metas administrativas, execução orçamentária e resultados concretos obtidos em cada área.
Linha do tempo da disputa política entre o PT baiano e o grupo que governa Salvador
2006 — Jaques Wagner vence a eleição para governador e encerra a sequência do grupo liderado por Antônio Carlos Magalhães no comando estadual.
Janeiro de 2007 — O PT assume o Governo da Bahia e inicia o ciclo administrativo posteriormente mantido por Rui Costa e Jerônimo Rodrigues.
2012 — ACM Neto derrota Nelson Pelegrino, do PT, no segundo turno e é eleito prefeito de Salvador.
2016 — ACM Neto conquista a reeleição no primeiro turno, com 73,99% dos votos válidos; Bruno Reis é eleito vice-prefeito.
2020 — Bruno Reis é eleito prefeito de Salvador e sucede ACM Neto no comando da administração municipal.
2022 — Jerônimo Rodrigues derrota ACM Neto no segundo turno e é eleito governador da Bahia.
2024 — Bruno Reis é reeleito prefeito no primeiro turno, com 78,67% dos votos válidos.
31/07/2026 — O PT Bahia realiza sua convenção interna e delibera sobre as candidaturas de seus filiados às eleições gerais.
01/08/2026 — A Federação Brasil da Esperança oficializa a chapa de Jerônimo Rodrigues, Geraldo Júnior, Jaques Wagner e Rui Costa. Durante o encontro, Lula desafia o governador a organizar o projeto para conquistar a Prefeitura de Salvador.
2028 — O próximo pleito municipal regular deverá definir o sucessor de Bruno Reis e testar a capacidade do grupo liderado pelo PT de converter seu domínio estadual em vitória eleitoral na capital.








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