“A Turma” de Daniel Vorcaro lamentou saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do Banco Master e mensagens expõem percepção de piora após troca no STF

Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) e tornadas públicas no âmbito das investigações sobre o Banco Master revelam que integrantes do grupo conhecido como “A Turma” demonstraram preocupação com a saída do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), da relatoria dos processos relacionados ao banco. Em conversa de 27/02/2026, um dos investigados afirmou que a situação estava “piorando muito rápido” após a mudança de relator.

O diálogo ocorreu 15 dias depois de Toffoli deixar a relatoria, em 12/02/2026, e poucos dias antes de Daniel Vorcaro voltar a ser preso, em 04/03. A manifestação não prova, por si só, que o grupo tivesse recebido favorecimento do ministro nem demonstra combinação com integrante do STF. Seu valor investigativo está em outro ponto: revela a percepção interna de pessoas apontadas pela PF como operadores dos interesses da família Vorcaro de que a retirada de Toffoli piorava concretamente o cenário.

O episódio acrescenta uma nova dimensão ao material já publicado pelo Jornal Grande Bahia (JGB) sobre Toffoli e o Caso Master. Desde fevereiro, o jornal documenta as questões referentes ao resort Tayayá, fundos ligados ao entorno de Vorcaro, contratos, deslocamentos e as circunstâncias que provocaram a substituição do ministro na relatoria. A novidade agora não está nas relações financeiras anteriormente reveladas, mas na forma como pessoas situadas no próprio núcleo investigado reagiram à mudança de comando no Supremo.

Bruno e Manolo discutiam deterioração dos negócios dos Vorcaro

A conversa destacada pela investigação ocorreu entre Bruno Correa Lopes e Manoel Mendes Rodrigues, conhecido como Manolo. Segundo a PF, Bruno atuava na compra de imóveis e na intermediação de negócios da família Vorcaro. Manolo também é investigado na Operação Compliance Zero e aparece em decisões anteriores relacionadas ao núcleo denominado “A Turma”.

Naquele 27 de fevereiro, Manolo encaminhou a Bruno uma reportagem sobre suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro e seu pai, Henrique Vorcaro. A partir daí, os dois passaram a discutir a deterioração patrimonial e judicial da família. As mensagens mostram preocupação com a velocidade dos acontecimentos e pressão para finalizar operações imobiliárias.

Bruno relatou, por exemplo, que imóveis estariam sendo negociados rapidamente e com descontos expressivos diante do receio de futuras restrições patrimoniais. Segundo ele, uma residência avaliada em aproximadamente R$ 40 milhões teria sido colocada à venda por cerca de R$ 20 milhões. Em outro momento, cobrou documentos de Manolo e ressaltou que “o tempo está correndo”. As declarações constituem relatos de um investigado em conversa privada e não equivalem, isoladamente, à comprovação dos valores ou das circunstâncias das transações mencionadas.

Saída de Toffoli aparece em meio à corrida por negócios

Foi nesse contexto que Bruno encaminhou uma notícia sobre o avanço das investigações do Banco Master e fez referência direta à mudança de relatoria no Supremo.

“Está piorando muito rápido agora que saiu do Toffoli.”

A mensagem foi registrada pela PF e integra o material encaminhado ao STF, cujo sigilo foi posteriormente retirado.

A frase é relevante porque demonstra como a alteração institucional ocorrida em Brasília era avaliada dentro de um núcleo que, segundo a Polícia Federal, prestava serviços ligados diretamente aos interesses dos Vorcaro.

Ela não permite concluir que Toffoli protegia o banco ou que o grupo possuía influência sobre o ministro.

Permite, contudo, estabelecer um fato documentalmente distinto: um operador ligado ao núcleo investigado acreditava que a saída de Toffoli representava uma piora para a situação enfrentada pela família Vorcaro.

Essa percepção passa a ser objeto legítimo de interesse investigativo. Cabe à PF determinar por que o grupo via a permanência de Toffoli como cenário comparativamente melhor e se essa avaliação decorria apenas das decisões processuais conhecidas, de expectativas subjetivas dos investigados ou de informações e relações ainda não esclarecidas.

Toffoli havia deixado processo após revelações sobre Tayayá

A saída de Dias Toffoli da relatoria foi precedida por uma sequência de revelações sobre relações empresariais envolvendo o entorno do Banco Master e o resort Tayayá, no Paraná.

O JGB publicou em 15/02/2026 que extratos e mensagens examinados pela PF indicavam aproximadamente R$ 35 milhões em movimentações relacionadas a fundo utilizado para investimento no empreendimento, que teve participação da Maridt. A estrutura societária alcançava familiares do ministro, enquanto Toffoli negou ter recebido valores de Vorcaro ou mantido relação financeira com o banqueiro.

Reportagem posterior do JGB mostrou que o relatório policial também reunia referências a contratos envolvendo a advogada Roberta Rangel, ex-esposa de Toffoli, além de menção à disponibilização de aeronave ligada a Vorcaro. As pessoas citadas apresentaram explicações ou negaram irregularidades.

Em 12/02, após reunião no Supremo, Toffoli deixou a relatoria. O STF afirmou que não reconhecia formalmente impedimento ou suspeição do ministro e manteve válidos os atos processuais praticados até então. O caso foi redistribuído para André Mendonça.

A nova mensagem revelada agora não modifica juridicamente esse histórico. Ela acrescenta, porém, um elemento até então não conhecido: como a mudança de relator foi recebida por integrantes da estrutura operacional investigada pela PF.

“A Turma” já era investigada por intimidação e acesso a dados sigilosos

O JGB acompanha desde março a atuação atribuída pela PF a “A Turma”. Decisões judiciais e representações policiais descrevem o núcleo como uma estrutura que teria atuado na obtenção clandestina de informações, intimidação de adversários, acesso indevido a sistemas públicos e proteção de interesses associados ao grupo econômico de Daniel Vorcaro. As defesas dos investigados têm direito ao contraditório, e as imputações ainda dependem de julgamento definitivo.

Em maio, o ministro André Mendonça acolheu representação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal que apontava a existência de dois núcleos operacionais: “A Turma”, voltada a ações presenciais, informacionais e de intimidação, e “Os Meninos”, associado a ataques cibernéticos e atividades tecnológicas. A decisão resultou em prisões preventivas e outras medidas cautelares.

Segundo os novos documentos divulgados, “A Turma” seria formada por aproximadamente seis integrantes e receberia cerca de R$ 400 mil mensais, com recursos que, de acordo com a PF, saíam de empresas ligadas ao grupo empresarial de Vorcaro e chegavam aos integrantes por meio de estruturas intermediárias.

As mensagens também mostram que seus integrantes mantinham rotina organizada. Em dezembro de 2023, há referência inclusive a um período de férias de fim de ano, circunstância utilizada por um dos integrantes para pressionar por definições sobre trabalhos ainda pendentes.

Grupo acompanhava mudanças institucionais no STF

O aspecto central da nova revelação não é apenas a opinião desfavorável sobre a troca de relator.

As conversas mostram que integrantes de uma estrutura investigada por atuar na proteção dos interesses dos Vorcaro acompanhavam de perto acontecimentos no Supremo e avaliavam seus efeitos sobre a situação patrimonial e judicial da família.

Isso altera a relevância da frase sobre Toffoli.

Se viesse de um observador externo, seria apenas uma avaliação política ou jurídica. Proveniente de um personagem apontado como operador de negócios da família, pronunciada enquanto havia pressa para concluir transações patrimoniais, a manifestação ganha importância para a reconstrução da percepção e da estratégia do grupo.

Ainda assim, há uma fronteira que não pode ser ultrapassada sem evidência.

Não há, nesse diálogo, prova de que Dias Toffoli mantivesse contato com Bruno, Manolo ou outros integrantes de “A Turma”; não há demonstração de que o ministro tenha transmitido informação sigilosa ao grupo; e a frase não comprova favorecimento judicial.

O que existe é a manifestação inequívoca de que pelo menos um dos investigados considerou a saída de Toffoli uma deterioração do cenário.

PF precisa esclarecer a origem dessa percepção

A partir dessa evidência, uma pergunta passa a ter especial importância: por que a retirada de Toffoli da relatoria era considerada prejudicial aos interesses do grupo?

Há explicações possíveis que não envolvem ilícitos. Um investigado pode considerar determinado relator mais previsível, interpretar decisões públicas como favoráveis ou simplesmente recear os critérios adotados pelo magistrado que assume o caso.

Também é obrigação da investigação verificar hipóteses mais sensíveis, sobretudo diante das outras relações já documentadas no Caso Master.

Para distinguir uma avaliação subjetiva de algo de maior gravidade, será necessário cruzar a mensagem de 27/02 com comunicações anteriores, agendas, decisões judiciais, movimentações patrimoniais, contatos de intermediários e dados obtidos nos aparelhos apreendidos.

É precisamente esse cruzamento — e não uma frase isolada — que poderá determinar o significado jurídico do episódio.

Cronologia torna mensagem especialmente relevante

A sequência temporal concentra os fatos em menos de um mês.

Em 11/02/2026, a Polícia Federal apresentou ao presidente do STF material com referências a Toffoli.

No dia 12/02, o ministro deixou a relatoria do Banco Master.

Em 27/02, Bruno Correa Lopes e Manolo discutiram a piora da situação, a corrida para realização de negócios e a retirada de Toffoli.

Em 04/03, Daniel Vorcaro foi novamente preso.

Nos meses seguintes, as investigações sobre “A Turma” se aprofundaram e resultaram em prisões e medidas cautelares. Em maio, decisões do STF passaram a descrever o núcleo como estrutura suspeita de intimidação, coerção e obtenção indevida de informações de Estado.

Vista nessa cronologia, a conversa de fevereiro deixa de ser simples comentário sobre o noticiário e se torna uma peça para compreender como pessoas apontadas pela PF como próximas da operação dos Vorcaro percebiam a mudança institucional ocorrida no Supremo.

Nova revelação não substitui necessidade de prova

O episódio deve ser interpretado com cautela.

A investigação pode demonstrar que os integrantes de “A Turma” apenas possuíam expectativa subjetiva de decisões mais favoráveis enquanto Toffoli permanecesse na relatoria. Pode também identificar fatos adicionais capazes de explicar por que a mudança provocou preocupação tão imediata.

Até que essa questão seja esclarecida, a mensagem não autoriza concluir que o ministro favoreceu Vorcaro ou manteve qualquer relação com os operadores citados.

Ao mesmo tempo, ignorá-la seria jornalisticamente inadequado.

Quando uma estrutura investigada pela Polícia Federal por obter informações sigilosas, intimidar pessoas e proteger interesses empresariais registra internamente que a substituição do relator de seu principal caso no Supremo representa piora de cenário, essa percepção constitui um fato de interesse público.

A responsabilidade das autoridades agora é explicar o que havia por trás dessa avaliação.

Para o STF, a questão toca diretamente a credibilidade de suas decisões. Para a Polícia Federal, impõe a necessidade de identificar a origem das informações e expectativas que circulavam entre os investigados. Para a sociedade, reforça a necessidade de que eventuais relações entre agentes privados e integrantes do sistema de Justiça sejam submetidas a critérios objetivos, transparência e contraditório.

O novo documento não conclui a investigação sobre Dias Toffoli.

Mas acrescenta uma pergunta que o Caso Banco Master não permite mais ignorar: por que operadores vinculados aos interesses dos Vorcaro consideraram tão ruim perder Toffoli na relatoria? 

 


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading