A expansão da rede municipal ao longo dos oito anos de ACM Neto não elimina um dado central registrado pela própria Prefeitura: durante grande parte de seus dois mandatos, a cobertura da Atenção Primária permaneceu limitada diante da população de Salvador. A série do e-Gestor utilizada pela Secretaria Municipal da Saúde mostra 35,60% de cobertura em 2014, 37% em 2015, 37,86% em 2016, 37,54% em 2017 e 37,88% em 2018. Somente nos dois últimos anos houve aceleração mais expressiva, para 42,08% em 2019 e 56,36% em 2020.
Os números revelam que, entre 2014 e 2018, a cobertura aumentou apenas 2,28 pontos percentuais, permanecendo praticamente estacionada em torno de 36% a 38%. A Estratégia Saúde da Família apresentou trajetória semelhante: passou de 24,88% para 27,80% no mesmo período. Isso significa que a ampliação mais intensa da capacidade registrada pelos indicadores ficou concentrada na parte final do segundo mandato.
O próprio Plano Municipal de Saúde 2018–2021, elaborado durante a administração ACM Neto, estabelecia metas de cobertura da Atenção Básica de 46% em 2018, 48,5% em 2019 e 51,2% em 2020. Os registros posteriores consolidados pela Secretaria indicam 37,88% em 2018 e 42,08% em 2019, percentuais inferiores às metas previstas para aqueles dois exercícios. Em 2020, entretanto, o indicador de 56,36% superou a meta de 51,2% estabelecida no planejamento.
Esse comportamento da série torna inadequado descrever a política municipal apenas pela comparação entre o primeiro e o último ano. O crescimento acumulado existiu, mas o intervalo intermediário mostra uma expansão lenta durante vários anos, seguida por avanço concentrado no final da administração. Para uma avaliação documental do período, essa trajetória é tão relevante quanto o percentual atingido em dezembro de 2020.
Estratégia Saúde da Família terminou 2020 alcançando 40,24% da população
A limitação fica ainda mais evidente quando observado exclusivamente o principal modelo de organização da Atenção Primária do SUS. Em dezembro de 2020, a Estratégia Saúde da Família alcançava 40,24% da população de Salvador, segundo a série reproduzida pela própria Secretaria Municipal da Saúde.
O número havia crescido em relação aos 23% registrados em 2013, mas mostra que, após oito anos, a capacidade estimada das equipes de Saúde da Família permanecia restrita a cerca de quatro em cada dez moradores.
Isso não significa que os demais habitantes estivessem completamente sem atendimento de saúde. A população também utiliza UBS tradicionais, serviços especializados, unidades de emergência, hospitais estaduais, rede contratualizada e outros equipamentos. A cobertura da Estratégia Saúde da Família mede especificamente a capacidade populacional atribuída às equipes desse modelo.
O dado, contudo, é relevante porque a Estratégia Saúde da Família constitui um dos principais mecanismos de territorialização da Atenção Primária, com acompanhamento continuado da população, atuação de agentes comunitários e vínculo das equipes com áreas determinadas.
Auditoria municipal identificou insuficiência de profissionais e problemas na assistência pré-natal
As fragilidades não aparecem apenas nos indicadores gerais de cobertura. Documento posterior da própria Secretaria Municipal da Saúde, ao analisar a assistência materno-infantil referente a 2018, registrou deficiências concretas identificadas por trabalhos de auditoria.
Segundo o Plano Municipal de Saúde, havia necessidade estimada de 189.390 consultas de pré-natal de risco habitual, mas foram registradas 54.963, equivalentes a 29% da necessidade calculada. Para consultas puerperais, foram contabilizados 6.274 procedimentos diante de uma necessidade estimada de 31.565, correspondente a 20%. Já as consultas de pré-natal do parceiro alcançaram 718 registros diante de 31.655 estimados.
No caso das ultrassonografias obstétricas, a produção contabilizada foi de 16.915 exames diante de uma necessidade de 36.300, equivalente a 46,5% conforme os parâmetros empregados pela auditoria municipal.
O mesmo documento afirma que a ausência ou insuficiência de profissionais e o processo de trabalho das equipes contribuíam para deficiências identificadas na assistência ao ciclo gravídico-puerperal. A análise registrou ainda falta de padronização das ações entre equipes e prontuários médicos considerados resumidos ou insuficientes para caracterizar adequadamente determinadas consultas de pré-natal.
Essas constatações são particularmente relevantes porque não resultam de críticas partidárias externas, mas de análise incorporada aos próprios documentos técnicos da Secretaria Municipal da Saúde.
Planejamento municipal reconhecia necessidade de ampliar a rede básica
O Plano Municipal de Saúde 2018–2021 estabeleceu entre as ações prioritárias a construção e reforma de unidades básicas, a ampliação e reorganização das equipes de Atenção Primária e o fortalecimento de programas específicos. O próprio planejamento evidencia que a expansão territorial e assistencial permanecia como uma necessidade concreta durante o segundo mandato.
A existência dessas metas não caracteriza, por si só, falha administrativa — planos municipais são elaborados justamente para indicar objetivos futuros. Quando colocadas ao lado dos percentuais efetivamente registrados, porém, elas ajudam a dimensionar os gargalos que ainda estavam presentes.
Em particular, a diferença entre as metas de cobertura de 46% em 2018 e 48,5% em 2019 e os resultados registrados posteriormente, de 37,88% e 42,08%, indica que o ritmo de ampliação ficou abaixo do previsto nesses dois anos. Em 2020, a situação se inverteu, com o indicador final acima da meta planejada.
Hospital Municipal ampliou a rede, mas não substituía a necessidade de Atenção Primária
A inauguração do primeiro Hospital Municipal de Salvador, em 2018, foi uma das principais ampliações da infraestrutura de saúde realizadas durante o período ACM Neto. O equipamento acrescentou capacidade hospitalar à rede própria do município e precisa integrar qualquer balanço factual dos oito anos de governo.
Hospital, entretanto, exerce função distinta da Atenção Primária. A ampliação de leitos hospitalares não substitui UBS, equipes de Saúde da Família, agentes comunitários, acompanhamento preventivo e cuidado territorializado.
Crescimento acelerou apenas nos dois anos finais
A cronologia dos indicadores ajuda a identificar uma característica objetiva do período.
Em 2014, a cobertura da APS estava em 35,60%. Quatro anos depois, em 2018, havia chegado a apenas 37,88%. A mudança ocorreu posteriormente: 42,08% em 2019 e 56,36% em 2020.
Portanto, dos 20,76 pontos percentuais que separam os indicadores registrados em 2014 e 2020, somente 2,28 pontos foram acrescentados até 2018. Os outros 18,48 pontos aparecem entre 2018 e dezembro de 2020.
A concentração temporal não invalida o resultado final, mas muda a compreensão sobre como ele foi alcançado. A trajetória documentada é de baixo crescimento durante vários anos e aceleração no encerramento da administração, e não de expansão contínua no mesmo ritmo ao longo dos dois mandatos.








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