O governo brasileiro informou nesta segunda-feira (31/08/2026) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, orientou sua equipe comercial a trabalhar pela construção de um acordo com o Brasil após conversar por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A sinalização foi relatada pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, depois de reunião virtual com o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, da qual também participou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O encontro marcou a retomada formal das negociações sobre duas medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos, mas terminou sem redução das sobretaxas, definição de concessões ou acordo sobre setores específicos.
Segundo Elias Rosa, Greer informou durante a reunião que a orientação da Casa Branca é favorável à busca de uma solução negociada. “Greer afirmou que a recomendação do presidente Trump é para que nós trabalhemos para um acordo”, declarou o ministro. Na avaliação do integrante do Governo Lula, a mudança de ambiente político decorre diretamente do telefonema entre os dois presidentes, realizado em 21/08/2026.
A declaração não significa, porém, que Washington tenha decidido retirar ou reduzir as tarifas. Segundo o próprio ministro, o resultado imediato foi a recomposição da mesa de negociação. Brasil e Estados Unidos concordaram em promover reuniões técnicas nas próximas semanas e, posteriormente, um novo encontro ministerial para avaliar os avanços. O comunicado conjunto do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) prevê que as próximas conversas poderão ocorrer de forma virtual ou presencial.
Telefonema entre Lula e Trump reabriu canal interrompido pelas tarifas
O movimento diplomático começou a ganhar nova configuração em 21/08/2026, quando Lula telefonou para Trump. A conversa durou cerca de 1 hora e 20 minutos e, segundo o Palácio do Planalto, transcorreu em tom cordial. O presidente brasileiro defendeu a negociação como caminho para resolver o conflito comercial e sustentou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para as novas barreiras eram infundadas. Trump, por sua vez, propôs que representantes dos dois governos se reunissem rapidamente para discutir o problema.
Após o telefonema presidencial, Greer procurou Elias Rosa para organizar a retomada das tratativas. Em nota divulgada no mesmo dia, o MDIC afirmou que a conversa entre os chefes de Estado havia aberto “um novo canal de diálogo” e reforçado a perspectiva de uma solução negociada. A reunião foi posteriormente marcada para esta segunda-feira.
O contato direto ocorreu depois de semanas de deterioração do ambiente comercial. Em julho, os Estados Unidos concluíram investigações realizadas sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e transformaram as conclusões administrativas em novas sobretaxas sobre mercadorias brasileiras. O instrumento permite ao governo norte-americano adotar medidas contra práticas estrangeiras que considere injustificáveis, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
Tarifas podem alcançar 37,5% sobre parte das exportações brasileiras
A primeira medida foi formalizada pelo USTR em 15/07/2026 e estabeleceu uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Segundo o governo norte-americano, a investigação identificou problemas em áreas como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, políticas anticorrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro e combate ao desmatamento ilegal.
A sobretaxa de 25% passou a vigorar em 22/07/2026, com exceções definidas pelos Estados Unidos. No dia seguinte, 23/07/2026, Washington anunciou uma segunda medida baseada também na Seção 301, desta vez resultante de uma investigação contra 60 economias sobre mecanismos destinados a impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Para o Brasil e outras economias enquadradas na mesma categoria, a tarifa adicional definida foi de 12,5%.
Nos produtos atingidos simultaneamente pelas duas decisões, a tributação adicional pode alcançar 37,5%. Levantamento divulgado pelo MDIC aponta que 16,5% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, considerando como referência a pauta de 2024, estão nessa situação. Máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções aparecem entre os exemplos citados pelo ministério.
Novas medidas atingem 23,1% das vendas brasileiras aos EUA
A avaliação oficial brasileira indica que as duas novas decisões da Seção 301 alcançam, de alguma maneira, 23,1% das exportações do país para o mercado norte-americano. Desse total, 1,9% está sujeito somente à tarifa adicional de 25%, 4,7% apenas à alíquota de 12,5% e 16,5% às duas medidas simultaneamente, podendo enfrentar 37,5% de tributação adicional.
Outros 24,2% da pauta estão submetidos a tarifas específicas adotadas pelos Estados Unidos, em regra contra diferentes países, com fundamento na Seção 232, utilizada em medidas relacionadas a setores considerados estratégicos ou vinculados à segurança nacional norte-americana. Já 52,7% das exportações brasileiras permanecem fora dessas sobretaxas específicas ou setoriais e continuam sujeitas apenas às tarifas ordinárias dos Estados Unidos.
Entre os produtos brasileiros apontados pelo MDIC como não alcançados pelas novas sobretaxas estão café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, ferro fundido, parte relevante da celulose e diferentes produtos químicos. A situação efetiva, entretanto, depende da classificação tarifária de cada mercadoria e das exceções estabelecidas pelas autoridades norte-americanas.
Brasil contesta justificativas dos Estados Unidos
Na reunião desta segunda-feira, Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa reafirmaram a posição brasileira de que as medidas são discriminatórias e incompatíveis com as regras multilaterais de comércio. O comunicado conjunto do MRE e do MDIC registra que Brasília considera que as conclusões das investigações norte-americanas não correspondem às práticas efetivamente adotadas pelo país. Trata-se da posição oficial brasileira, contestada pelo USTR, que sustenta ter identificado práticas consideradas prejudiciais aos interesses comerciais norte-americanos.
O USTR afirma que realizou investigação durante aproximadamente um ano, promoveu audiências públicas, recebeu centenas de manifestações e manteve negociações com autoridades brasileiras antes de aplicar a tarifa de 25%. Entre as questões apontadas por Washington estão o ambiente de comércio digital, serviços eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil, acesso do etanol, medidas anticorrupção e desmatamento.
O Governo Lula rejeita essas conclusões. Documento do MDIC afirma que, desde julho de 2025, foram realizadas mais de 30 reuniões entre representantes dos dois países e sustenta, com referência a estatísticas norte-americanas, que os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos. Brasília utiliza o dado para contestar a tese de que a relação bilateral seria estruturalmente prejudicial à economia norte-americana.
Pix permanece fora das concessões admitidas pelo Brasil
Um dos temas mais sensíveis é o Pix, mencionado na investigação norte-americana dentro das questões relativas a serviços eletrônicos de pagamento. Elias Rosa declarou após a reunião que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos não será objeto de concessão capaz de comprometer seu funcionamento.
Segundo o ministro, o Brasil está disposto a discutir um acordo comercial amplo, mas não pretende colocar na mesa medidas que possam causar prejuízo aos interesses econômicos nacionais. O governo também voltou a apresentar argumentos sobre a política ambiental brasileira e a redução do desmatamento, outro elemento incluído pela administração Trump nas conclusões da investigação específica contra o país.
O posicionamento evidencia um dos principais obstáculos às negociações: parte das reivindicações norte-americanas ultrapassa alterações tarifárias convencionais e alcança políticas regulatórias, ambientais, digitais e institucionais. Para Brasília, algumas dessas matérias pertencem ao âmbito da soberania regulatória brasileira; para Washington, elas podem produzir efeitos sobre empresas e exportadores dos Estados Unidos.
Reaproximação ocorre após tentativa frustrada de acordo iniciada em maio
A atual retomada não constitui a primeira tentativa de entendimento comercial entre Lula e Trump em 2026. Em 07/05/2026, os dois presidentes se reuniram durante mais de três horas na Casa Branca, em Washington, e decidiram criar um grupo de trabalho bilateral dedicado às disputas comerciais e tarifárias.
A partir daquele encontro, equipes brasileiras e norte-americanas passaram a discutir os pontos incluídos na investigação da Seção 301. Em 14/07/2026, um dia antes da decisão final do USTR sobre a tarifa de 25%, o MDIC informou que havia sido realizada a quinta reunião de alto nível desde o encontro presidencial de maio. Na ocasião, Brasília reiterou que considerava injustificadas tanto a sobretaxa específica contra o Brasil quanto a medida relacionada ao trabalho forçado.
Apesar das rodadas diplomáticas, Washington formalizou a tarifa no dia seguinte. O resultado demonstrou que a primeira fase do grupo de trabalho não conseguiu impedir a aplicação das barreiras. É justamente esse histórico que diferencia a sinalização política atual de um acordo consumado: o diálogo voltou, mas qualquer resultado dependerá da transformação da orientação presidencial em compromissos técnicos e decisões administrativas concretas.
Relação comercial perdeu dinamismo antes da nova rodada
Os dados do MDIC mostram que as exportações brasileiras para os Estados Unidos alcançaram US$ 40,4 bilhões em 2024, recorde naquele momento, mas recuaram para US$ 37,7 bilhões em 2025. Segundo o ministério, a trajetória de perda de dinamismo prosseguiu ao longo de 2026, em contexto marcado pela ampliação das barreiras tarifárias.
A questão tarifária possui, portanto, repercussões além da relação diplomática entre Brasília e Washington. A incidência adicional pode alterar preços no mercado norte-americano, pressionar margens dos exportadores, provocar renegociação de contratos, reduzir competitividade de determinados produtos brasileiros e estimular empresas a buscar destinos alternativos. A intensidade desses efeitos dependerá do setor, do produto, das exceções e da capacidade de importadores e exportadores de redistribuírem os custos.
Na Bahia, o problema possui dimensão regional concreta. Levantamento publicado pelo Jornal Grande Bahia (JGB) mostrou que cadeias como papel e celulose, borracha e produtos plásticos e produtos químicos concentram parcela relevante das vendas baianas potencialmente afetadas. Feira de Santana apresenta exposição específica devido ao peso dos pneumáticos em sua pauta exportadora e à participação do mercado norte-americano nas vendas externas municipais.
Próximas reuniões serão decisivas para medir alcance da orientação de Trump
O comunicado oficial divulgado após o encontro desta segunda-feira estabelece como próximo passo a realização de reuniões técnicas nas próximas semanas. Depois dessa etapa, ministros dos dois governos deverão voltar a se reunir para avaliar os resultados e decidir como prosseguir. As conversas poderão ocorrer virtualmente ou presencialmente.
Elias Rosa afirmou que a negociação será conduzida em bases diferentes das discussões anteriores e que o objetivo brasileiro é construir um entendimento capaz de reduzir ou afastar as tarifas consideradas injustificadas por Brasília. O ministro também indicou a possibilidade de um encontro presencial posteriormente, mas a nota conjunta não fixa data para a reunião ministerial.
Até 31/08/2026, portanto, permanecem em vigor as medidas tarifárias norte-americanas. Não há anúncio formal de redução das alíquotas de 25%, 12,5% ou 37,5%, nem documento bilateral estabelecendo quais produtos poderiam ser beneficiados, quais concessões seriam discutidas ou qual seria o prazo para conclusão de eventual acordo.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 15/07/2025 — O USTR inicia investigação específica sobre práticas brasileiras sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, envolvendo comércio digital, pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, anticorrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. A investigação passa a constituir a base da futura tarifa contra produtos brasileiros.
- 03/09/2025 — O USTR e o Comitê da Seção 301 realizam audiência pública relacionada à investigação sobre o Brasil. O procedimento integra a fase administrativa anterior à decisão sobre eventuais medidas comerciais.
- 15 e 16/04/2026 — Autoridades dos Estados Unidos e do Brasil realizam consultas formais vinculadas à investigação norte-americana.
- 07/05/2026 — Lula e Donald Trump se reúnem na Casa Branca, em Washington, durante mais de três horas e estabelecem um grupo de trabalho para buscar uma solução negociada para as controvérsias comerciais.
- 01/06/2026 — O USTR conclui que determinadas políticas e práticas brasileiras são, segundo a legislação norte-americana, passíveis de ação sob a Seção 301 e propõe medidas comerciais.
- 14/07/2026 — Brasil e Estados Unidos realizam a quinta reunião de alto nível desde o encontro presidencial de maio. O Governo Lula volta a contestar as tarifas propostas.
- 15/07/2026 — O USTR anuncia tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros após concluir a investigação específica contra o país.
- 22/07/2026 — A tarifa adicional de 25% entra em vigor para os produtos alcançados pela medida, observadas as exceções definidas pelos Estados Unidos.
- 23/07/2026 — O governo Trump anuncia medidas contra 60 economias no âmbito da investigação relacionada a importações produzidas com trabalho forçado. Para o grupo em que o Brasil foi incluído, a tarifa definida é de 12,5%.
- 24/07/2026 — O MDIC publica levantamento mostrando que 16,5% das exportações brasileiras aos EUA podem ficar sujeitas simultaneamente às duas medidas, alcançando sobretaxa acumulada de 37,5%, enquanto 23,1% da pauta é atingida pelas duas novas decisões em diferentes graus.
- 21/08/2026 — Lula telefona para Trump. A conversa dura aproximadamente 1 hora e 20 minutos; o brasileiro defende a retomada da negociação e Trump propõe que representantes dos dois países se reúnam rapidamente. Após o telefonema, Jamieson Greer procura Márcio Elias Rosa para organizar o novo encontro.
- 31/08/2026 — Mauro Vieira, Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer participam de reunião virtual. O Brasil reafirma sua contestação às tarifas, e Elias Rosa relata que Trump orientou a equipe norte-americana a trabalhar por um acordo. Não há redução de tarifas ou definição de concessões; as partes acertam novas reuniões técnicas e ministeriais.
A orientação atribuída a Donald Trump altera o ambiente político das negociações, mas ainda não modifica sua realidade econômica. A diferença entre os dois planos é essencial: há, de um lado, uma sinalização presidencial favorável ao entendimento; de outro, atos administrativos norte-americanos já em vigor que estabelecem tarifas adicionais capazes de alcançar 37,5% sobre parcela das mercadorias brasileiras. Somente decisões formais do governo dos Estados Unidos poderão modificar esse quadro.
A reabertura da negociação também evidencia a limitação da rodada iniciada em maio. Mesmo depois da criação de um grupo bilateral, de sucessivas reuniões de alto nível e de contatos técnicos, Washington aplicou as tarifas em julho. Por isso, o principal indicador de avanço agora não será a cordialidade das declarações, mas a capacidade das equipes de converter a orientação dos presidentes em mudanças de alíquotas, ampliação de exceções ou construção de compromissos que preservem áreas consideradas estratégicas pelo Brasil.
Outro ponto de atenção está na natureza das controvérsias. O conflito não se restringe ao nível das tarifas de importação. Ele envolve Pix, comércio digital, etanol, propriedade intelectual, políticas anticorrupção, desmatamento e trabalho forçado, temas sobre os quais Brasil e Estados Unidos apresentam avaliações substantivamente diferentes. O acompanhamento jornalístico deverá distinguir eventuais concessões comerciais de alterações regulatórias e institucionais que possam produzir efeitos mais amplos sobre políticas públicas brasileiras.
Em 31/08/2026, o fato verificável é que Brasil e Estados Unidos retomaram formalmente as negociações e que o governo brasileiro atribui a Trump uma orientação direta para buscar um acordo, mas as sobretaxas continuam vigentes e nenhum entendimento foi fechado. Os próximos passos dependem principalmente do MDIC, do MRE, do USTR e, em última instância, das decisões políticas de Lula e Donald Trump. Para empresas, trabalhadores e cadeias exportadoras afetadas, a relevância pública da negociação será medida pela eventual redução das barreiras e pelo impacto concreto sobre comércio, produção, investimentos e empregos.








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