Contrato de R$ 131,2 milhões, cobranças, cartões e proposta com aeronaves ampliam escrutínio sobre relação do Banco Master com família de Alexandre de Moraes

Na terça-feira (01/09/2026), documentos extraídos do celular de Daniel Vorcaro revelaram novos detalhes da relação comercial entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Metadados apontam que uma versão do contrato de aproximadamente R$ 131,2 milhões foi editada em um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”; a banca confirmou que consultou o magistrado antes da contratação, sustentou que a consulta se restringiu à verificação de impedimentos jurídicos e afirmou que não havia previsão de atuação do escritório perante o STF.

Metadados identificaram perfil vinculado ao ministro

A primeira minuta teria sido encaminhada por Viviane a Vorcaro em 11/01/2024. Após alterações no documento, registros técnicos indicam uma nova modificação às 23h04 de 15/01/2024, atribuída a um usuário do Office 365 identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

Em nota, o escritório explicou que seu setor de compliance solicitou ao ministro, “na condição de marido da sócia diretora”, informações sobre eventual impedimento relacionado a processos sob sua relatoria ou a julgamentos que envolvessem o potencial cliente. A banca afirmou que não encontrou obstáculo legal, que Moraes jamais julgou causa do Banco Master e que os serviços contratados foram efetivamente prestados.

O acesso e a análise do documento, portanto, foram admitidos pela própria banca. O alcance jurídico das alterações registradas nos metadados, porém, depende da identificação do conteúdo efetivamente modificado e de eventual relação dessas modificações com interesses submetidos ao exercício da função jurisdicional do ministro.

Mensagens registram preocupação com atraso de pagamento

O material divulgado também contém mensagens de março de 2024 nas quais Vorcaro demonstrou preocupação com atraso em um pagamento ao escritório. Em conversa atribuída ao banqueiro, ele escreveu: “Pqp, não pagaram Barci de Moraes” e classificou o problema como capaz de provocar dificuldades. Segundo a reportagem, o pagamento discutido era de aproximadamente R$ 3,4 milhões.

As mensagens também atribuem ao ex-ministro Fábio Faria uma cobrança para que o pagamento fosse regularizado. Em outra anotação, Vorcaro teria orientado que a obrigação fosse quitada “sem nota, do jeito que for”. Essa frase demonstra a orientação atribuída ao banqueiro naquele diálogo, mas os registros públicos apresentados até o momento não permitem concluir, apenas com base na mensagem, que o pagamento efetivamente tenha ocorrido sem documentação fiscal.

Reportagem anterior do Jornal Grande Bahia registrou que o escritório recebeu cerca de R$ 80.223.654,94 durante aproximadamente 22 meses de relação contratual com o Master, até a liquidação da instituição.

Cartões de crédito para filhos do casal

Outro conjunto de mensagens indica que, em outubro de 2025, funcionários ligados ao escritório solicitaram ao Master cartões para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro e de Viviane, com limite mencionado de R$ 300 mil para cada um.

Uma executiva do banco consultou Vorcaro sobre a emissão, e o banqueiro respondeu afirmativamente, segundo os registros divulgados. Os filhos do ministro não haviam apresentado manifestação pública nas reportagens consultadas até o fechamento.

A concessão de cartões de alta renda não configura, isoladamente, irregularidade. Para determinar sua relevância jurídica, seria necessário conhecer critérios de concessão de crédito, garantias, histórico financeiro dos titulares, taxas aplicadas e eventual tratamento diferenciado.

Segundo contrato previa R$ 40 milhões em cotas de aeronaves

A PF encontrou ainda documentos relativos a uma proposta de segundo contrato, estimada em R$ 50 milhões, que previa o pagamento de R$ 40 milhões mediante transferência de cotas de um jatinho e de um helicóptero.

O escritório Barci de Moraes contestou que esse segundo acordo tenha sido formalizado. Segundo a banca, somente o contrato original foi assinado; a proposta envolvendo aeronaves não teria sido aceita e “nada foi assinado”. A versão da banca é, portanto, elemento indispensável para separar uma negociação ou minuta de um negócio jurídico efetivamente concluído.

Registros anteriores também indicaram que Moraes e Viviane utilizaram aeronaves operadas pela Prime Aviation em 2025. O escritório confirmou a contratação de serviços de táxi aéreo e informou que os valores foram compensados com honorários contratuais, negando vínculo pessoal com Vorcaro ou com seu cunhado, Fabiano Zettel.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 11/01/2024: primeira minuta do contrato é enviada a Vorcaro, segundo os registros divulgados.
  • 15/01/2024: metadados apontam edição do arquivo por perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
  • Março de 2024: mensagens mostram Vorcaro cobrando a regularização de pagamento ao escritório.
  • 2025: registros indicam utilização de aeronaves operadas por empresa ligada ao grupo empresarial de Vorcaro; o escritório afirma que os serviços foram contratados e compensados com honorários.
  • Outubro de 2025: mensagens registram autorização para cartões com limite de R$ 300 mil para dois filhos do casal.
  • Novembro de 2025: a liquidação do Master encerra a relação contratual, segundo a banca.
  • 01/09/2026: metadados e novos diálogos são divulgados; escritório confirma consulta ao ministro e nega assinatura do segundo contrato.

Contratar um escritório de advocacia ligado a familiar de autoridade pública não constitui, por si só, crime ou ilícito. O ponto de interesse público está na dimensão financeira da relação, no acesso do ministro à minuta contratual, na concomitância entre relações pessoais e comerciais e na necessidade de verificar se qualquer dessas circunstâncias produziu interferência na atividade jurisdicional ou administrativa.

A nota do escritório fornece um contraditório objetivo: Moraes teria sido consultado para verificar impedimentos, não para prestar serviço jurídico ao Master, e não teria julgado processos do banco. Essa explicação deverá ser confrontada com metadados, versões sucessivas do contrato, processos existentes à época e conteúdo integral dos serviços efetivamente prestados.

As mensagens sobre pagamentos, cartões e aeronaves também precisam ser analisadas sem saltos conclusivos. Cobranças de Vorcaro e propostas contratuais demonstram relações e intenções, mas é indispensável distinguir o que foi negociado, o que foi formalizado, o que foi efetivamente pago e quais operações seguiram critérios usuais de mercado.

O esclarecimento completo exige documentação bancária e fiscal, contratos, pareceres de compliance, notas de prestação de serviços e registros das comunicações. Somente essa cadeia documental permitirá estabelecer se se tratou de relação privada regular, de conflito de interesses ou de condutas com repercussão disciplinar ou penal.


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