Operação Vectura Corrupta: Justiça decreta prisão do ex-vereador do União Brasil Milton Leite e apura suposto controle do PCC sobre 12 empresas de ônibus de SP

A Operação Vectura Corrupta, deflagrada na manhã desta quinta-feira (17/09/2026) pela Polícia Civil de São Paulo e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), colocou no centro das investigações o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil). A Justiça decretou sua prisão temporária por 30 dias em uma investigação que apura a suposta infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte coletivo paulistano. Segundo a apuração, 12 das 22 empresas que operam ônibus na capital seriam, em tese, controladas direta ou indiretamente pela organização criminosa. Leite não foi localizado no início das diligências, negou as acusações e informou que pretende se apresentar às autoridades.

Justiça autoriza prisão e buscas na Operação Vectura Corrupta

A ofensiva ocorre em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão e inclui 18 mandados de busca e apreensão. Houve divergência nas primeiras informações divulgadas sobre o número de prisões: reportagem do UOL, baseada na decisão judicial, informou 13 mandados de prisão, enquanto CNN, R7 e outros veículos noticiaram 16 ordens ou alvos de prisão. Até a manhã desta quinta-feira, essa diferença não havia sido publicamente esclarecida de forma definitiva pelas autoridades.

Além de Milton Leite, a operação alcançou Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da São Paulo Transporte (SPTrans), que foi preso. Segundo os investigadores, ele teria mantido encontros periódicos relacionados aos interesses de empresas de transporte investigadas. A apuração associa essas reuniões a José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, descrito pelas autoridades como personagem relevante na suposta intermediação entre integrantes da organização criminosa, empresários, advogados e agentes vinculados à esfera política. As imputações permanecem sujeitas ao contraditório e à análise judicial.

A investigação também examina a participação de advogados na chamada “Sintonia dos Gravatas”, expressão utilizada pelos investigadores para identificar um núcleo que, segundo a Polícia Civil, teria ultrapassado os limites do exercício profissional e atuado em benefício da organização criminosa. Documentos, comunicações e movimentações financeiras estão entre os elementos reunidos ao longo das diferentes etapas investigativas.

Investigação aponta suposto controle de 12 das 22 empresas de ônibus

Um dos dados de maior impacto apresentados pela investigação é a suspeita de que o PCC teria conseguido exercer controle direto ou indireto sobre 12 das 22 empresas integrantes do sistema de transporte coletivo da cidade de São Paulo. A informação consta da investigação que fundamentou a operação e significa que, segundo a hipótese investigativa, mais da metade das operadoras estaria exposta à influência de representantes ou pessoas interpostas vinculadas à facção.

Para o Ministério Público e a Polícia Civil, a estrutura investigada não se restringiria à lavagem de recursos provenientes do tráfico. As apurações alcançam suspeitas de utilização de empresas formalmente constituídas, contratos públicos, compra e venda de veículos, agentes políticos, intermediários e operadores financeiros para ampliar a capacidade econômica e institucional da organização criminosa. A existência desses vínculos, entretanto, constitui tese da investigação, e não uma conclusão judicial definitiva.

A Transwolff ocupa posição central nesse histórico. A empresa já havia sido investigada em procedimentos anteriores do Ministério Público por suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC e tornou-se objeto de intervenção da Prefeitura de São Paulo ainda em 9 de abril de 2024, juntamente com a UPBus. O Decreto Municipal nº 63.328/2024 estabeleceu formalmente a intervenção nas concessionárias e indicou os contratos e lotes atingidos.

Milton Leite é apontado na investigação e nega ser dono da Transwolff

Na decisão que autorizou as medidas da Vectura Corrupta, Milton Leite aparece, segundo reportagens que tiveram acesso ao documento, relacionado à operação de empresas de ônibus investigadas. Depoimentos prestados por policiais militares em procedimento na Justiça Militar também são utilizados pelos investigadores para sustentar a hipótese de que ele seria o “dono de fato” da Transwolff. Trata-se de uma alegação investigativa contestada pelo ex-parlamentar e ainda não estabelecida por condenação judicial.

Leite rejeitou as acusações. Ao UOL, afirmou: “Não sou dono de empresa de ônibus” e sustentou que sua interlocução com a SPTrans ocorreu a pedido do então prefeito Bruno Covas, durante uma greve do setor em 2019. À CNN, declarou que irá demonstrar sua inocência e afirmou: “Vou provar minha inocência em todas as acusações”.

O ex-vereador também negou ter fugido. Disse que estava no interior paulista cumprindo compromissos pessoais e relacionados às campanhas eleitorais dos filhos e afirmou que pretende se apresentar às autoridades. Nas primeiras horas da operação, parte da imprensa informou, com base em fontes policiais, que ele era considerado foragido por não ter sido encontrado no endereço onde seria cumprido o mandado; outra cobertura registrou que essa condição seria formalizada caso não ocorresse a apresentação. A divergência recomenda cautela na utilização do termo enquanto o cumprimento da ordem judicial não estiver consolidado.

Relação com a Transwolff já era investigada desde 2023

As suspeitas envolvendo Milton Leite e a Transwolff antecedem a operação desta quinta-feira. Em investigação conduzida pelo Gaeco, a Justiça autorizou, em 2023, a quebra dos sigilos fiscal e bancário do então presidente da Câmara Municipal. Documentos tornados conhecidos em 2024 registravam a avaliação dos promotores de que poderia existir um relacionamento relevante entre o político e dirigentes da concessionária. Leite negou envolvimento criminoso e sustentou que suas relações com empresários do setor eram institucionais.

Reportagens do UOL revelaram também negócios entre a Neumax, construtora ligada à família Leite, e empresas ou empresários relacionados à Transwolff. Em setembro de 2024, o veículo publicou a existência de um contrato que indicava pagamento mensal de R$ 812 mil pela utilização de imóvel da construtora, além de outros pagamentos. Leite contestou a interpretação do documento, afirmou que aquela versão do contrato não entrou em vigor e disse que os valores efetivamente recebidos eram inferiores.

Em novembro daquele ano, levantamento do mesmo veículo encontrou 71 negócios imobiliários, realizados entre 2015 e 2023, envolvendo a Neumax e uma holding vinculada a Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, então dirigente da Transwolff e investigado nas apurações sobre a empresa. Os negócios somariam R$ 8,37 milhões, segundo a documentação consultada pela reportagem. Na ocasião, Leite também negava sociedade com Pandora.  Operação Fim da Linha levou à intervenção de Transwolff e UPBus

O histórico institucional ganhou dimensão pública em 9 de abril de 2024, com a Operação Fim da Linha, voltada à investigação de suspeitas de utilização da Transwolff e da UPBus para lavagem de dinheiro atribuída ao PCC. A Prefeitura de São Paulo determinou naquele mesmo dia intervenção administrativa nas duas concessionárias, medida formalizada pelo Decreto 63.328.

A operação inicial resultou em prisões, apreensão de armas, munições, dinheiro, equipamentos eletrônicos e barras de ouro. O Ministério Público ofereceu denúncias por crimes como organização criminosa, lavagem de capitais, extorsão e apropriação indébita; parte das acusações foi posteriormente recebida pela Justiça. Esses processos atingem dirigentes e investigados específicos e não devem ser confundidos automaticamente com as acusações agora dirigidas a Milton Leite.

Em dezembro de 2025, após mais de um ano de intervenção, a Prefeitura decretou a caducidade dos contratos da Transwolff. A empresa operava 133 linhas e atendia aproximadamente 555 mil passageiros por dia. A partir de 1º de fevereiro de 2026, a Sancetur assumiu emergencialmente as linhas e cerca de 1.100 ônibus, segundo a administração municipal.

Operação Decurio ampliou investigação sobre infiltração política

A Vectura Corrupta também deriva da Operação Decurio, deflagrada pela Polícia Civil em 6 de agosto de 2024. Naquela ocasião, aproximadamente 400 policiais foram mobilizados em 15 cidades, com cumprimento de 20 mandados de prisão temporária e 60 de busca e apreensão. A Justiça determinou bloqueio superior a R$ 8 bilhões em contas e ativos relacionados aos investigados.

A partir dos equipamentos e documentos apreendidos, investigadores afirmaram ter identificado estruturas internas do PCC voltadas à comunicação entre integrantes presos e em liberdade, além de indícios de tentativa de infiltração em cargos públicos e nas eleições municipais de 2024, mediante lançamento, apoio ou financiamento de candidaturas.

Esses elementos deram origem a novos desdobramentos. Em 27 de abril de 2026, a Operação Contaminatio prendeu seis pessoas numa investigação sobre a tentativa de inserção de uma fintech em administrações municipais para gerenciar receitas, emissão de boletos e outros fluxos financeiros. A Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 513 milhões em bens e ativos, e a polícia atribuiu ao grupo investigado a intenção de obter acesso a estruturas públicas e ampliar mecanismos de lavagem de dinheiro.

Quem é Milton Leite

Milton Leite ingressou na Câmara Municipal de São Paulo em 1997 e exerceu sete mandatos consecutivos, encerrando a trajetória parlamentar ao fim de 2024. Nas eleições municipais de 2020, recebeu 132.716 votos. A Câmara registra que ele presidiu o Legislativo paulistano em seis oportunidades — em 2017, 2018 e de 2021 a 2024 — e chegou a exercer interinamente a Prefeitura por aproximadamente 100 dias ao longo de sua trajetória institucional.

Sua principal base política foi construída na Zona Sul de São Paulo, especialmente nas regiões de Piraporinha e Grajaú. Mesmo após deixar o mandato, permaneceu na atividade partidária. Informações divulgadas em 2026 registram sua atuação na direção do União Brasil em São Paulo e na Federação União Progressista, formada pelo União Brasil e pelo Progressistas.

O alcance da investigação sobre uma liderança que ocupou a presidência da maior Câmara Municipal do país confere dimensão institucional à Vectura Corrupta. Isso, porém, não substitui a necessidade de demonstração individual das condutas, do vínculo subjetivo com os crimes investigados e de eventual benefício obtido por cada alvo, aspectos que deverão ser submetidos ao Ministério Público, às defesas e ao Judiciário.

Lacunas que a investigação ainda precisa esclarecer

Entre as questões ainda abertas está a comprovação documental da alegação de que Milton Leite exerceria controle real sobre a Transwolff ou sobre outras empresas. Os documentos divulgados até agora indicam negócios, contatos e relações investigadas, mas a atribuição de propriedade oculta ou participação criminal dependerá da avaliação conjunta de provas financeiras, societárias, testemunhais e de comunicações obtidas legalmente.

Também permanece necessário identificar quais decisões concretas da SPTrans, de concessionárias ou de outros órgãos públicos teriam sido influenciadas pelos investigados. Documento consultado pelo Diário do Transporte registra que, no resumo das condutas atribuído a Levi dos Santos Oliveira, não estavam detalhados todos os locais, datas e resultados administrativos decorrentes das supostas reuniões investigadas.

Outro ponto de interesse público é determinar como o suposto controle de 12 empresas de transporte teria funcionado na prática: composição societária, utilização de terceiros, financiamento de aquisição de ônibus, participação em licitações, contratos, circulação de recursos e eventual atuação de agentes públicos. A extensão real dessa estrutura somente poderá ser determinada após a consolidação das provas e das manifestações das partes.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2023 — quebra de sigilos de Milton Leite: a Justiça autoriza acesso a informações fiscais e bancárias do então presidente da Câmara no âmbito das apurações relacionadas à Transwolff. A medida amplia a investigação sobre as relações entre o político e dirigentes da concessionária.
  • 09/04/2024 — Operação Fim da Linha: Ministério Público e forças de segurança deflagram investigação contra estruturas vinculadas à Transwolff e à UPBus. No mesmo dia, a Prefeitura de São Paulo decreta intervenção nas duas concessionárias.
  • 24/04/2024 — Justiça recebe parte das denúncias: investigados ligados às empresas tornam-se réus em ações envolvendo, entre outros delitos atribuídos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
  • 06/08/2024 — Operação Decurio: cerca de 400 policiais cumprem 20 mandados de prisão e 60 buscas em 15 cidades; a Justiça bloqueia mais de R$ 8 bilhões. As investigações passam a explorar suspeitas de infiltração do crime organizado em estruturas públicas e eleitorais.
  • 04/09/2024 — negócios imobiliários entram no debate público: reportagem revela documento envolvendo a Transwolff e a Neumax, construtora vinculada à família de Milton Leite. O então vereador contesta valores e a validade do contrato divulgado.
  • 13/11/2024 — levantamento identifica 71 operações imobiliárias: documentos cartoriais analisados pelo UOL mostram negociações entre a Neumax e holding ligada a Luiz Carlos Efigênio Pacheco, totalizando R$ 8,37 milhões. Leite nega sociedade com o empresário.
  • 23/12/2024 — Prefeitura inicia processo de caducidade: município anuncia procedimento para retirar definitivamente as concessões de Transwolff e UPBus após meses de intervenção.
  • 04 e 05/12/2025 — caducidade da Transwolff: Prefeitura determina o rompimento dos contratos e mantém a continuidade das linhas sob administração pública.
  • 01/02/2026 — substituição operacional: Sancetur assume emergencialmente 133 linhas e aproximadamente 1.100 ônibus que estavam sob responsabilidade da Transwolff, atendendo cerca de 555 mil passageiros diariamente.
  • 27/04/2026 — Operação Contaminatio: Polícia Civil prende seis investigados e apura tentativa de utilização de fintech em prefeituras; a Justiça bloqueia aproximadamente R$ 513 milhões. A ação deriva dos materiais obtidos na Decurio.
  • 17/09/2026 — Operação Vectura Corrupta: Polícia Civil e MPSP cumprem prisões e 18 buscas; Milton Leite recebe ordem de prisão temporária por 30 dias, Levi dos Santos Oliveira é preso e a investigação sustenta que 12 das 22 empresas do transporte coletivo paulistano estariam, em tese, sob controle direto ou indireto do PCC. Leite nega as acusações e anuncia que se apresentará às autoridades.

A Operação Vectura Corrupta amplia uma investigação que deixou de tratar apenas da eventual utilização de empresas privadas para lavagem de dinheiro e passou a examinar uma hipótese institucionalmente mais abrangente: a possível penetração do crime organizado em concessionárias de serviços públicos, estruturas administrativas e circuitos políticos. O dado referente a 12 das 22 operadoras de ônibus é particularmente relevante por envolver um serviço essencial, contratos públicos de grande escala e milhões de deslocamentos realizados pela população paulistana. Essa dimensão, contudo, constitui a tese apresentada pelos investigadores e terá de ser comprovada individualmente no processo.

No caso de Milton Leite, há uma distinção indispensável entre fatos documentados e imputações ainda sob apuração. São fatos conhecidos a existência de negócios entre empresas vinculadas à sua família e agentes econômicos ligados à Transwolff, a quebra judicial de seus sigilos e sua inclusão na atual investigação. Já as afirmações de que seria proprietário oculto da concessionária, operador de empresas sob influência do PCC ou participante consciente de uma estrutura criminosa dependem da demonstração de provas e permanecem contestadas pelo ex-parlamentar.

A sequência formada por Fim da Linha, Decurio, Contaminatio e Vectura Corrupta sugere que os órgãos de investigação estão examinando estruturas econômicas e institucionais interligadas, e não apenas delitos isolados. O acompanhamento jornalístico deverá concentrar-se nos documentos que fundamentaram as prisões, nos fluxos financeiros, nas estruturas societárias das empresas, nas decisões administrativas atribuídas a agentes públicos, nos contratos e procedimentos licitatórios e nas provas relativas ao suposto financiamento ou apoio a candidaturas. Também será necessário registrar integralmente as manifestações das defesas e as decisões judiciais que confirmem, modifiquem ou rejeitem as hipóteses investigativas.

O núcleo factual, até a manhã de 17/09/2026, é que existe uma decisão judicial que determinou a prisão temporária de Milton Leite dentro de uma investigação de grande alcance sobre o transporte público de São Paulo; o ex-vereador nega qualquer ligação criminosa e anunciou sua apresentação às autoridades. Os próximos passos caberão à Polícia Civil, ao MPSP, ao Tribunal de Justiça de São Paulo, às defesas dos investigados, à SPTrans e à Prefeitura, especialmente na identificação das responsabilidades individuais e na proteção dos contratos e serviços públicos contra eventual influência de organizações criminosas.


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