O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, na terça-feira 29/09/2026, de uma caminhada seguida de ato político entre Ondina e o Farol da Barra, em Salvador, ao lado do governador e candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues (PT) e dos candidatos ao Senado Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT). Na reta final das Eleições Gerais de 2026, o grupo utilizou os discursos para defender a continuidade das administrações federal e estadual, pedir votos para as chapas majoritárias e para candidatos ao Congresso e associar sua trajetória política à expansão de políticas sociais, educação pública, infraestrutura e programas de inclusão. O primeiro turno será realizado no domingo, 04/10/2026, conforme calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O ato ocorreu após uma mudança de agenda. A programação havia sido inicialmente anunciada para Feira de Santana, mas a coordenação nacional da campanha transferiu a mobilização para Salvador. Rui Costa declarou que a alteração integrou a estratégia nacional de concentrar compromissos presidenciais em capitais nesta etapa final da campanha.
A manifestação também ganhou importância na disputa estadual porque Jerônimo Rodrigues decidiu participar da caminhada com Lula em vez do debate promovido pela TV Bahia entre candidatos ao Governo do Estado. O governador afirmou que já havia participado de outros debates e sabatinas e justificou a escolha pela presença do presidente e pela concentração das agendas nos últimos dias antes da votação. Seus adversários criticaram a ausência, transformando a decisão em mais um elemento da disputa eleitoral.
Lula pede votos para Jerônimo, Wagner, Rui e candidatos aliados ao Congresso
O eixo eleitoral mais explícito do discurso de Lula foi a defesa do chamado voto vinculado entre as candidaturas de seu grupo político. O presidente pediu apoio à reeleição de Jerônimo Rodrigues, às candidaturas de Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado e a postulantes à Câmara dos Deputados alinhados à sua coalizão. Reportagens sobre o ato registraram que Lula associou a eleição de senadores e deputados aliados à capacidade política do Executivo para aprovar matérias no Congresso.
Ao falar especificamente do Senado, Lula afirmou que precisava de Wagner e Rui para enfrentar o que classificou como “orçamento secreto”. A expressão foi usada no discurso político para sustentar o argumento de que a composição parlamentar será relevante para a relação entre Executivo e Legislativo no próximo mandato. A afirmação constitui posição eleitoral do candidato e não representa, por si, conclusão jurídica ou institucional sobre mecanismos atualmente utilizados para execução de emendas parlamentares.
A estratégia reproduziu uma das características centrais da campanha governista na Bahia em 2026: aproximar as disputas presidencial, estadual e para o Senado. Em agosto, a imprensa nacional já havia identificado como preocupação da campanha de Jerônimo a existência do chamado “voto LuNeto”, expressão empregada para designar eleitores que manifestavam intenção de votar em Lula para presidente e em ACM Neto (União Brasil) para governador. A campanha petista passou a enfatizar o voto combinado entre Lula e Jerônimo, enquanto a oposição sustentou que o eleitorado poderia separar suas escolhas entre as disputas nacional e estadual, qualificando ACM Neto como o anti-Lula da Bahia.
Rui Costa estabelece meta eleitoral e relembra período no Governo da Bahia
Em seu pronunciamento, Rui Costa apresentou o presidente como elemento de transformação política e administrativa para o Nordeste e para a Bahia. O ex-governador voltou a estabelecer como objetivo eleitoral uma vantagem de 5 milhões de votos para Lula no estado.
A marca, porém, deve ser compreendida como meta declarada de campanha, e não como projeção estatística ou resultado antecipado. Rui já vinha utilizando o número em compromissos anteriores e defendendo a mobilização de indecisos e a redução da abstenção como instrumentos para ampliar o desempenho eleitoral do presidente na Bahia.
Durante o ato no Farol da Barra, Rui também afirmou ter governado a Bahia durante administrações federais que considerava hostis ao estado. Sem nomeá-los naquele trecho do discurso, fazia referência aos períodos presidenciais de Michel Temer e Jair Bolsonaro, que coincidiram com parte de seus dois mandatos como governador, entre 2015 e 2022. A caracterização utilizada por Rui sobre essas administrações constitui avaliação política do candidato.
Wagner enfatiza expansão da educação e necessidade de maioria parlamentar
O senador e candidato à reeleição Jaques Wagner centrou parte de sua fala na expansão da educação federal na Bahia e na importância política do Congresso. Segundo o discurso apresentado no ato, o estado teria passado de uma universidade federal para seis e de uma escola técnica federal para dezenas de unidades após os governos petistas.
A expansão da rede federal de ensino superior na Bahia é documentada pelo Ministério da Educação. Além da Universidade Federal da Bahia (UFBA), foram criadas ou consolidadas instituições como a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), entre outras estruturas federais presentes no estado. Documentos do MEC registram, por exemplo, a criação da UFOB e da UFSB no processo de interiorização do ensino superior federal.
Já a afirmação sobre 37 unidades federais de educação profissional e outras oito em implantação exige atenção ao critério utilizado para a contagem. Levantamento anterior do Jornal Grande Bahia, baseado em informações institucionais, identificou 24 campi do IFBA e 14 do IF Baiano, totalizando 38 unidades segundo essa metodologia, enquanto o Ministério da Educação projetava expansão da rede baiana para 46 campi. Em setembro de 2026, portaria do MEC autorizou, entre outras unidades nacionais, o funcionamento do campus do IFBA em Macaúbas. Assim, números mencionados em discursos podem variar de acordo com a inclusão de unidades implantadas, autorizadas ou ainda em construção.
Wagner também ressaltou que um presidente depende de apoio parlamentar para aprovar projetos, orçamento e mudanças legislativas. A argumentação serviu para vincular sua própria candidatura, a de Rui e as eleições proporcionais ao projeto presidencial defendido no palanque.
Jerônimo associa campanha a programas sociais e direito à educação
Jerônimo Rodrigues estruturou sua fala em torno de dois conceitos: gratidão pelas políticas implementadas em governos petistas e continuidade de oportunidades sociais para novas gerações.
O governador mencionou programas de habitação, acesso à energia, abastecimento de água e expansão universitária como exemplos de políticas que, segundo sua interpretação, ampliaram as possibilidades de ascensão social de famílias pobres, moradores da periferia e da zona rural.
Jerônimo também procurou desfazer publicamente a associação eleitoral entre Lula e ACM Neto. Ao declarar que “não existe Lula Neto”, apresentou uma mensagem diretamente vinculada à estratégia de estimular o voto combinado entre as candidaturas petistas à Presidência e ao Governo da Bahia. O chamado “LuNeto”, entretanto, havia sido registrado na campanha como comportamento ou manifestação política de parte do eleitorado, e não como aliança formal entre os candidatos.
Lula coloca educação e inclusão social no centro do discurso
No pronunciamento mais longo da noite, Lula iniciou com referências históricas e culturais à Bahia, citando personagens da Independência, escritores e artistas. Em seguida, deslocou o discurso para sua própria trajetória política e para políticas públicas implantadas durante seus governos.
O presidente apresentou a educação como instrumento central de redução das desigualdades. Citou ProUni, Fies, políticas de cotas, institutos federais, universidades e Pé-de-Meia e contrapôs investimento educacional ao custo do encarceramento. Os valores específicos mencionados no palanque para despesas anuais com presos e estudantes não foram acompanhados, no conteúdo disponível, da indicação de bases documentais, metodologia ou período de referência; por isso, devem ser tratados como números declarados por Lula e não como comparação estatística independente já validada nesta reportagem.
O mesmo cuidado se aplica à afirmação de que seu governo teria distribuído 213 milhões de livros didáticos para o ensino médio: o dado foi apresentado no discurso e exigiria conferência em bases detalhadas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação para estabelecer ano, modalidades de material e universo contabilizado.
Programas sociais e memória histórica entram na argumentação
Lula recuperou ainda programas e medidas associados a seus governos ou às administrações petistas, como SAMU, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, políticas de recursos hídricos e valorização real do salário mínimo.
O presidente relacionou essa agenda à história brasileira e fez referência ao período de Getúlio Vargas, à legislação trabalhista e ao salário mínimo. Ao afirmar que a história republicana teria tido dois grandes momentos de inclusão social — o varguista e o iniciado com seus governos — Lula apresentou uma interpretação histórica e política, e não uma classificação consensual da historiografia.
A abordagem revela um dos eixos retóricos do pronunciamento: estabelecer continuidade entre conquistas sociais do século XX e programas de inclusão desenvolvidos durante os governos petistas, procurando apresentar as eleições de 2026 como disputa sobre a manutenção e expansão dessas políticas.
Dados econômicos citados por Lula
Na parte econômica, Lula declarou que o país atravessava um período de inflação reduzida, baixo desemprego e crescimento dos rendimentos. Os dados oficiais disponíveis confirmam um mercado de trabalho em níveis historicamente baixos de desocupação, mas recomenda-se precisão ao reproduzir superlativos utilizados em discursos eleitorais.
O painel do IBGE registrava taxa de desemprego de 5,4% no segundo trimestre de 2026. A série da PNAD Contínua, iniciada em 2012, havia alcançado 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025, então o menor resultado da série. Por essa razão, a expressão “menor desemprego da história”, quando utilizada politicamente, deve ser relacionada à série estatística específica e ao período de referência, e não tomada literalmente sem essa delimitação.
Na inflação, o IPCA acumulado em 12 meses até agosto de 2026 era de 4,22%, enquanto o índice mensal de agosto registrou deflação de 0,32%. Já o IPCA-15 de setembro apresentou alta de 0,70% no mês e acumulava 4,47% em 12 meses. Esses números permitem contextualizar a fala presidencial, mas não bastam, isoladamente, para sustentar qualquer afirmação genérica de “menor inflação dos últimos anos” sem delimitação temporal e comparação de séries.
Bets: discurso de Lula coincide com nova mudança regulatória
Outro trecho de forte repercussão foi a declaração de Lula sobre as bets. A frase apresentada no discurso indicava que o governo teria “acabado” com as apostas virtuais. Literalmente, porém, o setor vinha sendo regulado e fiscalizado pelo Governo Federal, com empresas autorizadas formalmente a operar no país. O Ministério da Fazenda mantinha uma relação oficial de operadores habilitados.
O quadro regulatório, contudo, sofreu mudança relevante poucos dias antes do comício. A página de legislação da Secretaria de Prêmios e Apostas registra a Medida Provisória nº 1.394, de 25/09/2026, que passou a prever proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no território nacional e criou um comitê interinstitucional de fiscalização contra a atividade ilegal.
Margem Equatorial e minerais críticos entram na agenda de desenvolvimento
Lula também abordou a exploração de petróleo na Margem Equatorial, que classificou politicamente como potencial “segundo pré-sal”, e vinculou recursos provenientes da exploração mineral e energética a investimentos em educação, ciência, tecnologia e saúde.
A fala foi combinada à defesa da industrialização nacional de minerais críticos e terras raras, argumentando que o Brasil deveria reduzir a exportação de matérias-primas sem agregação de valor. O tema já havia aparecido em pronunciamento do presidente em Salvador no mês anterior, quando Lula relacionou recursos minerais à estratégia de desenvolvimento tecnológico e industria
Janja reage a críticas e destaca políticas voltadas à saúde feminina
A primeira-dama Janja Silva também falou durante o ato após ser chamada ao microfone por Lula. Ela respondeu a críticas dirigidas ao presidente por declarações anteriores relacionadas a exames preventivos e saúde feminina.
A controvérsia surgiu depois de uma fala de Lula sobre a realização de exames ginecológicos e sua comparação com a resistência masculina a exames de próstata. Na terça-feira, o presidente afirmou que pretendia tratar das diferenças de comportamento preventivo entre homens e mulheres. Durante a manifestação em Salvador, Janja defendeu Lula e fez críticas pessoais ao deputado Nikolas Ferreira, utilizando expressão depreciativa.
Do ponto de vista jornalístico, as manifestações integram a disputa política e precisam ser apresentadas como declarações de seus autores, sem que ataques pessoais sejam convertidos em caracterizações factuais dos adversários.
Relação histórica de Lula com a Bahia entra no encerramento
Ao concluir, Lula recordou sua participação em campanhas eleitorais na Bahia desde 1989 e citou o ex-governador Waldir Pires. O presidente utilizou a memória de eleições anteriores para reforçar a relação política mantida com o eleitorado baiano ao longo de sua trajetória.
A Bahia efetivamente permanece estratégica para a campanha presidencial petista, tanto pelo tamanho do eleitorado quanto pelo desempenho histórico de Lula no estado. Esse peso explica a repetição de agendas presenciais no território baiano durante a campanha de 2026 e a tentativa simultânea de transferir apoio presidencial para as candidaturas estaduais.
Em 28/08/2026, Lula já havia participado de outro ato de campanha em Salvador, desta vez no bairro da Liberdade, acompanhado por Jerônimo, Rui e Wagner. A caminhada de 29/09 marcou, portanto, nova entrada direta do presidente na disputa baiana na etapa decisiva anterior ao primeiro turno.
Mobilização ocorre cinco dias antes da votação
O primeiro turno das Eleições Gerais está marcado para domingo, 04/10/2026. Serão escolhidos presidente e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Eventual segundo turno nas eleições presidencial e para governos estaduais ocorrerá em 25/10/2026.
A mobilização também condensou temas que deverão permanecer no centro do debate até a votação: programas sociais, desempenho econômico, educação, infraestrutura, composição do Congresso, relação entre União e governo estadual e confronto político entre candidaturas adversárias.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 1989 — Lula afirma ter realizado no Farol da Barra, ao lado de Waldir Pires, um dos primeiros atos de sua campanha presidencial na Bahia; a referência foi retomada no discurso de 2026 como elemento de memória política.
- 2015 a 2022 — Rui Costa governa a Bahia durante períodos que incluem os governos federais de Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. No ato de Salvador, utilizou esse retrospecto para comparar as relações políticas entre Estado e União.
- 2022 — Lula vence a eleição presidencial e Jerônimo Rodrigues é eleito governador da Bahia; o resultado passa a servir de referência política para a campanha de reeleição de ambos em 2026.
- 28/08/2026 — Lula realiza caminhada de campanha no bairro da Liberdade, em Salvador, acompanhado por Jerônimo Rodrigues, Rui Costa e Jaques Wagner.
- Setembro de 2026 — A campanha de Rui Costa intensifica a divulgação da meta de ampliar para 5 milhões de votos a vantagem de Lula na Bahia. O número é apresentado como objetivo político do grupo, e não como projeção oficial.
- 23/09/2026 — A presença de Lula em Feira de Santana para o dia 29 é anunciada dentro da programação da reta final da campanha.
- 25/09/2026 — O Governo Federal edita a MP nº 1.394/2026, introduzindo nova mudança no regime jurídico das apostas de quota fixa.
- 28/09/2026 — A campanha cancela a caminhada prevista em Feira de Santana e transfere o compromisso presidencial para Salvador. Rui Costa atribui a decisão à coordenação nacional da campanha.
- 29/09/2026 — Lula participa da caminhada entre Ondina e Barra, acompanhado por Jerônimo, Wagner, Rui, Janja e outras lideranças. Jerônimo deixa de participar do debate da TV Bahia e prioriza o ato presidencial.
- 29/09/2026 — No encerramento, Lula pede votos para Jerônimo, Wagner, Rui e candidatos aliados à Câmara, enquanto os demais oradores defendem continuidade administrativa, programas sociais e ampliação da representação do grupo no Congresso.
- 04/10/2026 — Será realizado o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, conforme calendário do TSE.











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