Salvador, sábado (08/08/2026) — O ex-governador da Bahia e ex-ministro da Casa Civil Rui Costa (PT), escolhido em convenção partidária para disputar uma vaga no Senado Federal nas Eleições 2026, afirmou durante o lançamento da candidatura do deputado estadual Robinson Almeida (PT) à reeleição que a principal diferença entre os projetos políticos associados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao ex-presidente Jair Bolsonaro estaria, segundo sua avaliação, na prioridade concedida à população de menor renda. No pronunciamento realizado em Salvador, Rui associou os governos petistas à ampliação das políticas sociais e à expansão do ensino superior e profissional federal na Bahia, enquanto utilizou a gestão Bolsonaro como contraponto político.
O encontro ocorreu no bairro de Nazaré, em Salvador, e integrou a mobilização de Robinson Almeida para renovar o mandato na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). Segundo os organizadores, a plenária reuniu quase mil lideranças políticas, comunitárias e de movimentos sociais procedentes de aproximadamente 35 bairros da capital. Robinson havia sido escolhido pelo PT para disputar novamente uma cadeira na ALBA, enquanto Rui Costa integra a chapa majoritária governista definida na convenção estadual realizada em 1º de agosto.
A manifestação ocorreu em uma etapa decisiva do calendário eleitoral. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), partidos, federações e coligações têm até 15/08/2026, às 19h, para requerer os registros das candidaturas, e a propaganda eleitoral geral começa em 16/08/2026. O primeiro turno das eleições está marcado para 04/10/2026.
Rui Costa coloca políticas sociais no centro da comparação entre Lula e Bolsonaro
Ao estabelecer o contraste entre os dois campos políticos nacionais, Rui Costa afirmou que a distinção estaria no tratamento dispensado às camadas socialmente mais vulneráveis da população.
“A diferença de nós para eles está no olhar e no cuidado com quem mais precisa. É por isso que a elite brasileira odeia o Lula, porque ele disse e mostra que o pobre pode ser o que quiser, pode ser médico, engenheiro, que o pobre pode viver melhor.”
A declaração integra o discurso político-eleitoral utilizado pelo ex-governador para apresentar o projeto do PT como associado à inclusão social e à ampliação de oportunidades educacionais. No material que fundamenta esta reportagem, não foram apresentados dados específicos destinados a demonstrar uma relação direta entre nível de renda e rejeição política ao presidente Lula.
Rui aprofundou esse argumento ao mencionar a relação eleitoral entre renda e posicionamento político e voltou a fazer referência aos segmentos economicamente mais favorecidos.
“Não é à toa que quanto mais cresce a renda, mais ódio, quanto mais rico for, mais odeia o Lula.”
A afirmação deve ser compreendida como uma interpretação política apresentada pelo candidato durante um evento de campanha, e não como uma conclusão estatística decorrente de levantamento socioeconômico apresentado naquela ocasião.
Educação federal é utilizada como símbolo da atuação dos governos petistas
A expansão das instituições federais de ensino ocupou posição central no pronunciamento. Rui Costa sustentou que a ampliação das universidades e das escolas técnicas representa uma das diferenças entre o projeto político liderado por Lula e governos anteriores.
Ao tratar da história do ensino superior público no estado, o ex-governador mencionou a antiga Faculdade de Medicina da Bahia e afirmou que a Bahia permaneceu durante longo período com presença limitada de universidades federais.
“Aqui só tinha uma universidade federal, criada na época da colônia, foi a faculdade de medicina que fica lá no Pelourinho. Depois, de lá pra cá, algum presidente criou alguma universidade na Bahia? Eles não enxergavam a Bahia. O Lula criou cinco, hoje a Bahia tem seis universidades federais.”
A referência exige uma distinção histórica. A instituição criada em 18 de fevereiro de 1808, por determinação do príncipe regente Dom João, foi a Escola de Cirurgia da Bahia, considerada origem histórica da atual Faculdade de Medicina. A Universidade da Bahia foi formalmente constituída em 1946 e passou a denominar-se Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1950. Portanto, a universidade, como instituição integrada, não foi propriamente criada no período colonial, embora uma de suas unidades fundadoras remonte a 1808.
Interiorização avançou em governos diferentes
Também é necessário diferenciar a ampliação da presença universitária federal na Bahia da criação jurídica de cada instituição. A expansão ocorreu ao longo de diferentes governos federais, ainda que os governos comandados pelo PT tenham desempenhado papel relevante na interiorização do ensino superior.
A Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) foi instituída em 27/06/2002, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, com sede em Petrolina, Pernambuco, e atuação multicampi incluindo Juazeiro, na Bahia.
Já a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) foi criada pela Lei nº 11.151, de 29/07/2005, no primeiro governo Lula, a partir do desmembramento da UFBA, estabelecendo sede em Cruz das Almas e ampliando a presença do ensino superior federal no interior baiano.
Em 2010, ainda durante o segundo mandato de Lula, foi criada a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), com sede em Redenção, no Ceará. Posteriormente, a instituição passou a manter unidade acadêmica em São Francisco do Conde, na Região Metropolitana de Salvador.
Outra etapa da expansão ocorreu em 2013, durante o governo da presidente Dilma Rousseff. Naquele ano foram criadas a Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), sediada em Barreiras, e a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), com estrutura multicampi no sul e extremo sul do estado.
Dessa forma, a Bahia passou a contar com presença de seis universidades federais, considerando instituições sediadas no estado e universidades federais de caráter multicampi com unidades instaladas em território baiano. A cronologia mostra, entretanto, que não é historicamente preciso atribuir a criação de todas as cinco instituições posteriores à UFBA exclusivamente a Lula. A expansão atravessou os governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, embora parte substancial do processo de interiorização tenha ocorrido durante administrações petistas.
Institutos federais ampliam presença no interior da Bahia
Rui Costa também destacou a expansão da educação profissional e tecnológica. O ex-governador estudou na antiga Escola Técnica Federal da Bahia, instituição que posteriormente integrou a estrutura que deu origem ao atual Instituto Federal da Bahia (IFBA), e utilizou a própria trajetória educacional para defender a importância da interiorização da rede.
Durante o pronunciamento, afirmou que o número de unidades federais de educação profissional na Bahia havia aumentado para 37, com outras oito em construção.
Os dados institucionais mais recentes, contudo, indicam uma contagem ligeiramente diferente. O IFBA informa possuir 24 campi em pleno funcionamento, além de centros de referência, polo de inovação e reitoria. O Instituto Federal Baiano (IF Baiano) mantém outros 14 campi, o que corresponde a 38 unidades dessas duas instituições na Bahia segundo essa metodologia de contagem.
O Ministério da Educação informou, em março de 2026, que a implantação dos novos campi previstos para o estado deverá elevar a rede para 46 campi de institutos federais na Bahia. Portanto, o número de 37 unidades mencionado por Rui não coincide exatamente com a contagem institucional disponível em agosto de 2026, diferença que pode decorrer do estágio de implantação ou do critério utilizado para classificar unidades em funcionamento.
Novo PAC prevê oito novos campi no estado
A expansão atualmente em curso contempla oito novos campi na Bahia, distribuídos entre diferentes municípios. O processo envolve unidades previstas ou em implantação em Santo Estêvão, Ribeira do Pombal, Itabuna, Macaúbas, Poções, Salvador, Ruy Barbosa e Remanso.
As unidades não se encontram necessariamente no mesmo estágio administrativo ou físico. Em março de 2026, por exemplo, o MEC autorizou o início das obras do Campus Poções do IFBA, com investimento inicial de R$ 15 milhões em infraestrutura e outros R$ 10 milhões previstos posteriormente para mobiliário e equipamentos. Na ocasião, o ministério informou que os investimentos do Novo PAC destinados ao IFBA alcançavam R$ 110,7 milhões em diferentes intervenções.
Em julho de 2026, uma portaria do Ministério da Educação autorizou formalmente o funcionamento do Campus Itabuna do IFBA, demonstrando que as oito novas unidades avançam em ritmos distintos entre autorização, instalação provisória, obras e funcionamento acadêmico.
Robinson Almeida lança candidatura à reeleição
As declarações de Rui Costa ocorreram durante a plenária que marcou nova etapa da candidatura de Robinson Almeida à Assembleia Legislativa. O parlamentar foi eleito deputado estadual em 2018 e reeleito em 2022, quando recebeu 59.435 votos, e busca renovar o mandato nas eleições deste ano.
O lançamento reuniu integrantes da base política do PT, representantes comunitários e movimentos sociais. A atividade ocorreu uma semana depois da convenção estadual que definiu a composição da chapa governista para as eleições baianas, incluindo Jerônimo Rodrigues na disputa pela reeleição ao Governo da Bahia e Rui Costa e Jaques Wagner nas duas vagas ao Senado.
Nesse ambiente, o pronunciamento de Rui procurou inserir a candidatura proporcional de Robinson em uma narrativa política mais ampla, vinculada à defesa das administrações estaduais do PT e do governo Lula. Educação, inclusão social e interiorização de serviços públicos aparecem, dessa forma, como elementos destinados a sustentar a continuidade do grupo governista no processo eleitoral baiano.
Linha do tempo: educação federal e disputa eleitoral
- 18/02/1808 — Dom João institui a Escola de Cirurgia da Bahia, origem histórica da atual Faculdade de Medicina da UFBA.
- 1946 — É formalmente constituída a Universidade da Bahia; em 1950, passa a denominar-se Universidade Federal da Bahia.
- 27/06/2002 — Governo Fernando Henrique Cardoso sanciona a lei de criação da Univasf, com atuação prevista também em Juazeiro, na Bahia.
- 29/07/2005 — No primeiro governo Lula, é criada a UFRB, sediada em Cruz das Almas.
- 20/07/2010 — Segundo governo Lula cria a Unilab, posteriormente instalada também em São Francisco do Conde.
- 05/06/2013 — Governo Dilma Rousseff cria a UFOB e a UFSB, ampliando a interiorização universitária na Bahia.
- 2024 — Governo Federal anuncia nova fase de expansão da Rede Federal, incluindo oito novos campi de institutos federais na Bahia.
- 19/03/2026 — MEC autoriza o início das obras do Campus Poções do IFBA e projeta 46 campi federais no estado após a expansão.
- 06/07/2026 — Portaria publicada no Diário Oficial da União autoriza o funcionamento do Campus Itabuna do IFBA.
- 01/08/2026 — Convenção da base governista confirma Rui Costa e Jaques Wagner para o Senado e Jerônimo Rodrigues para a disputa pela reeleição ao Governo da Bahia.
- 08/08/2026 — Rui participa do lançamento da candidatura de Robinson Almeida à reeleição e compara os projetos políticos associados a Lula e Bolsonaro.
- 15/08/2026 — Termina o prazo para o requerimento dos registros de candidaturas perante a Justiça Eleitoral.
- 16/08/2026 — Começa a propaganda eleitoral geral para as Eleições 2026.
- 04/10/2026 — Eleitores brasileiros participam do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.
O pronunciamento de Rui Costa demonstra que políticas sociais e expansão educacional deverão ocupar posição importante na estratégia eleitoral do PT na Bahia. Ao contrapor Lula e Bolsonaro, o candidato ao Senado procura transformar políticas públicas executadas ao longo das últimas duas décadas em elementos de diferenciação política. Esse enquadramento, entretanto, exige separação entre interpretação eleitoral e registro histórico: afirmações sobre comportamento das classes de renda são posições políticas do candidato, enquanto a trajetória das instituições federais pode ser aferida documentalmente.
Na educação, os registros oficiais comprovam uma expansão expressiva da presença federal no interior baiano, mas mostram uma cronologia mais complexa que a apresentada no discurso. A UFRB foi criada durante Lula; UFOB e UFSB surgiram durante Dilma Rousseff; a Unilab foi criada sob Lula e posteriormente expandiu sua atuação para a Bahia; e a Univasf foi instituída ainda no governo Fernando Henrique Cardoso. Da mesma forma, dados atuais indicam 38 campi entre IFBA e IF Baiano e uma projeção de 46 unidades após a implantação da atual expansão, enquanto Rui mencionou 37 existentes e oito em construção.
O episódio importa porque antecipa um dos eixos da disputa eleitoral de 2026 na Bahia: a tentativa do campo governista de associar sua continuidade a investimentos federais, políticas de inclusão e interiorização dos serviços públicos.








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