O senador Jaques Wagner (PT-BA) afirmou, nesta quinta-feira (17/09/2026), que parte da rejeição ao Partido dos Trabalhadores (PT) pode ser explicada pela reação de setores da sociedade às políticas de inclusão econômica e social implementadas durante governos petistas. Em entrevista ao Política Ao Vivo, Wagner endossou uma interpretação apresentada pelo cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador e diretor da Quaest, sobre ressentimento social, mobilidade econômica e polarização política no Brasil.
Ao desenvolver o argumento, Wagner afirmou que períodos de expansão do consumo e da renda entre os segmentos de menor poder aquisitivo contribuíram, em sua avaliação, para o funcionamento da economia.
“Os melhores momentos da economia e da sociedade brasileira foram quando a gente implementou uma economia de mercado. As pessoas com dinheiro no bolso, indo comprar na feira, no comércio, na loja de roupa e na loja de material de construção”, declarou o senador.
A referência a Felipe Nunes está relacionada a um trecho de entrevista exibida pelo programa Conversa com Bial em 18/11/2025, que voltou a circular nas redes sociais em setembro de 2026. Na ocasião, o cientista político apresentou resultados do estudo Brasil no Espelho sobre valores e percepções dos brasileiros. O levantamento analisava, entre outros pontos, como diferentes grupos percebiam a própria mobilidade social e a ascensão econômica de outros segmentos. O episódio está registrado pela Globo como uma apresentação dos resultados da pesquisa conduzida por Nunes.
Felipe Nunes relacionou ressentimento social à polarização
No trecho que ganhou repercussão, Felipe Nunes explicou que entrevistados negros, mulheres, pessoas de menor renda e moradores do Nordeste declaravam, com maior frequência, ter melhorado de vida nas duas décadas anteriores. Segundo o pesquisador, entre brancos de maior renda das regiões Sul e Sudeste havia maior incidência da percepção de que sua situação não havia melhorado no mesmo período. A pesquisa tratava de percepções declaradas pelos entrevistados, e não de uma mensuração direta da evolução patrimonial ou da renda de cada grupo.
Nunes chamou atenção ainda para uma segunda pergunta do estudo, relacionada à percepção sobre se os grupos que ascenderam socialmente “mereciam” essa melhora. A partir das respostas, o cientista político associou a percepção de perda relativa e o julgamento sobre a ascensão de outros segmentos à formação de ressentimento social, polarização e preconceito. A formulação que circulou posteriormente nas redes sociais — segundo a qual o “ódio ao PT” teria resultado dos acertos dos governos Lula e Dilma — constitui uma síntese política dessa interpretação e não corresponde, literalmente, à formulação metodológica apresentada pelo pesquisador no estudo.
Wagner aproximou essa interpretação de sua própria análise sobre o comportamento político brasileiro. Para o senador, políticas que ampliaram renda, consumo e acesso a programas públicos encontraram resistência de setores que tradicionalmente se posicionam contra mudanças nas relações econômicas e trabalhistas. O parlamentar utilizou o atual debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 como exemplo dessa disputa.
Wagner usa escala 6×1 para sustentar argumento sobre direitos trabalhistas
Segundo Jaques Wagner, as críticas à proposta de redução da jornada reproduzem, em sua avaliação, argumentos econômicos utilizados em outros períodos para contestar a ampliação de direitos sociais e trabalhistas. “Todos que são contra dizem: ‘vai acabar a economia’. Não vai acabar a economia, vai aumentar a produtividade. Se a empresa lhe trata bem e lhe dá uma condição favorável, você trabalha com gosto e aumenta a produtividade”, afirmou.
A declaração de Wagner sobre os efeitos da redução da jornada representa a avaliação política do senador. Os impactos econômicos da mudança são objeto de divergência no Congresso, onde defensores mencionam possíveis efeitos sobre qualidade de vida e produtividade, enquanto opositores apontam custos adicionais, inflação e dificuldades de adaptação para empresas. A PEC 221/2019, que trata do tema, foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em 02/09/2026 e, até a atualização mais recente do sistema legislativo, encontra-se pronta para deliberação do Plenário, aguardando inclusão na Ordem do Dia.
O texto aprovado pela CCJ reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, estabelece dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial, e prevê implantação gradual. No Plenário, por se tratar de alteração constitucional, a matéria deverá ser submetida a dois turnos de votação e necessita de pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores em cada turno.
Abolição e Era Vargas são citadas por Wagner em comparação histórica
Ao sustentar sua interpretação, Wagner recorreu a episódios da história brasileira. O senador citou a abolição da escravidão e a criação de direitos trabalhistas durante a Era Vargas para argumentar que mudanças que ampliaram direitos foram acompanhadas, em diferentes momentos, por previsões de efeitos negativos sobre a economia.
“Na época da abolição da escravidão, os privilegiados diziam o quê? Se acabar com a escravidão, a economia brasileira vai arrebentar. Depois veio Getúlio, que criou o salário mínimo e a carteira de trabalho assinada, e o discurso foi o mesmo”, declarou. A comparação histórica foi empregada pelo senador como argumento político para interpretar as resistências atuais à redução da jornada.
Na avaliação apresentada por Wagner, essa resistência se reproduziria atualmente diante de políticas associadas aos governos do PT. Entre as iniciativas mencionadas pelo senador estão a valorização do salário mínimo, o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Ao citar esses programas, o parlamentar procurou relacionar a trajetória dos governos petistas à ampliação de renda, consumo e acesso a políticas públicas para segmentos de menor renda.
Wagner vincula argumento à defesa da reeleição de Lula
A declaração também foi inserida por Wagner no contexto da disputa presidencial de 2026. O senador manifestou apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmou que a avaliação do eleitor deveria considerar o significado político e as ações dos governos liderados pelo petista.
“O eleitor não precisa gostar do Lula, tem que gostar do que ele representa para o Brasil. Ele fez e faz muito pelo país e pela Bahia”, declarou Wagner. A afirmação integra o posicionamento eleitoral do senador e ocorre em um período em que o próprio parlamentar disputa a renovação de seu mandato pelo estado da Bahia. Reportagem anterior do Jornal Grande Bahia (JGB) registrou que a propaganda eleitoral de Wagner utiliza sua trajetória política e sua relação histórica com Lula como componentes da campanha ao Senado.
O conjunto das declarações coloca no centro do debate três questões distintas: a interpretação sobre as origens sociais do antipetismo, a discussão econômica e trabalhista sobre a redução da jornada e o fim da escala 6×1 e a utilização das políticas sociais dos governos petistas como argumento na campanha eleitoral de 2026. No caso da análise de Felipe Nunes, os dados apresentados se referem a percepções sociais obtidas em pesquisa; no caso das conclusões de Wagner, tratam-se de interpretações políticas formuladas pelo senador a partir desses resultados.









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